4. TEKNOLOGISK UTVIKLING
4.2 Bioenergi til flytende og gassbasert biodrivstoff
Os Matos foram indicados por uma amiga que, como a pesquisadora, também é psicóloga. Ela indicou seu avô, seu tio e seu primo. Eles moram no interior de São Paulo e nosso encontro aconteceu no local de trabalho do tio. Ficamos em um espaço reservado, semelhante a uma cozinha residencial, que favoreceu um clima de intimidade.
Além dos participantes da entrevista, outros membros da família se configuraram de modo importante para nossas reflexões. Deste modo, os incluímos brevemente na apresentação a seguir.
7.1.2 Quem São Eles? Um Pouco Sobre Cada Um
O bisavô – aqui chamado de Pedro – foi um homem dedicado ao trabalho, que se manteve distante da rotina familiar. Sua saúde foi considerada por Ade (seu filho) como “não boa”, relatando que seu pai sofreu cerca de três “AVC”, o último culminou com sua morte aos 46 anos. Sua esposa, Joaninha, faleceu bem mais tarde, com aproximadamente 78 anos – “morreu dormindo”. O casal teve oito filhos. Conversando com a pesquisadora, após a gravação da entrevista, o grupo relata que os sete irmãos do avô estão vivos e “felizmente, todos tem ‘boa saúde’”.
O sogro do pai (Marinho) – aqui chamado de Lobão (pertencente à mesma geração do avô Ade) – uma pessoa querida para família, convivia com um problema do fígado
47 Na apresentação dos diálogos utilizamos as seguintes correspondências: Ade (A), Marinho (P), João (F),
Simone (Pesq.), Coro – Fala em conjunto, [x] – trecho que não dá pra entender, XXX – Trechos omitidos e [explicação] – trecho explicativo introduzido pela pesquisadora. Sendo: A=avô, P=pai, F=filho, Pesq.= pesquisadora.
associado a diabetes, “dependente alcoólico”; não seguia orientações de pessoas próximas nem de especialistas. Morreu aos 59 anos de idade.
[Marinho elogiava o modo como o pai se cuida e trouxe o exemplo do sogro como contraponto:]
Marinho (P) – Já meu sogro, não. Meu sogro a gente passou assim... 10 anos da minha vida falando pra ele ir no
médico. Levava ele no médico. Ligava pra um amigo que era médico e falava com o cara antes: “Oh, meu sogro vai aí; você põe ele, enquadra ele. Ele não faz o que tô falando”. E ele não fez nada do que falamos pra ele. Morreu! Ele era um puta de cara legal também que acabou que... a gente queria que ele ficasse bom pra ficar com a gente, né? Acabou que ele foi um pouco egoísta, ele só pensou nele, né? Acabou, deixou a gente aqui com saudades!
(transcrição, linha, 236)
O avô Ade, casado há 47 anos, mora com sua esposa, com quem teve dois filhos,
Marinho e uma garotinha perdida em um aborto espontâneo. Atualmente, está aposentado. Foi mecânico de manutenção, formado em um curso técnico. Está com 78 anos e vastos cabelos brancos, mas sua face tranquila e pouco marcada por suas vivências, associada a um corpo elegante e ainda ágil e forte, não expõem, aos olhos de quem o observa, essa passagem de tempo. No trecho a seguir, podemos encontrar alguns dos elementos que marcam seu modo de ser.
[Marinho elogiava seu pai, dizia que seu exemplo é uma lição de vida e Ade continuou:]
Ade (A) – E eu sou uma pessoa que gosto de ouvir muito. Eu sou uma pessoa que eu divido as coisas, as boas e as ruins. Eu não fico... o cara... Tentando convencer eu de uma coisa... Eu tenho que analisar bem pra ver se eu sou convencido com aquilo lá, porque papo seu... pode rodar... Pra me convencer não é fácil. Eu me convenço, mas tem que ser umas coisas que tá batendo, porque eu sou bastante analista das coisas. Eu fico analisando pra depois ver se eu faço... Mas, eu não vou muito na dos outros não.
(transcrição, linha 390)
Ele considera que tem uma “saúde muito boa”, destaca que seu coração, sua pressão arterial e sua cabeça estão “joia”, mesmo tendo passado por um infarto, há alguns anos, e sofrendo com suas “cartilagens gastas”. Sua pressão arterial (“12x7”) é motivo de orgulho. Ele tem consciência de que a força e o vigor que apresenta em sua idade não são muito comuns.
Marinho (P) – Saúde, né?! Coração, cabeça [sinal de positivo].
Ade (A) – A minha saúde é boa... Meu problema, só... mais... é problema nas cartilagens. Principalmente no
joelho que... não colabora!
Marinho (P) – É com o tempo, né? Com o tempo... desgaste natural.
Ade (A) – Desgaste natural. Mas, saúde é boa... Muito boa!
Marinho (P) – É assim... por cirurgia abdominal que é... Da cabeça o pai nunca teve, né? Teve uma cirurgia na
perna, mas que quebrou a perna... (transcrição, linhas 137-141)
O pai Marinho está com 47 anos. Mora com os dois filhos e a esposa. Autônomo, trabalha no setor de informática e prestação de serviços. Tem formação técnica. É um homem alto, com alguns quilos a mais do que gostaria e que o fazem recordar do garoto esguio e atlético que foi um dia. Comunicativo, Marinho tem um modo entusiasmante e caloroso de se expressar. Sua fala e sua gesticulação lembram um “italiano, tipicamente abrasileirado”. Em meio a risos e sorrisos ele procurou delinear-se com a seriedade de um homem esforçado, que aprecia o ambiente familiar e procura pensar, agir e se responsabilizar diante de suas vivências. Um bom modo de começar a conhecer Marinho pode ser pela maneira como ele percebe sua perspectiva de vida ao longo do tempo e no contexto familiar. Podemos ter uma ideia disso no trecho a seguir:
[A pesquisadora pergunta: “Tem mais alguma coisa que vocês gostariam de dividir aqui com a gente?” Marinho responde:]
Marinho (P) – É muito legal ter essas três gerações, sabe? É muito legal! E não são todas as pessoas que têm
isso. Então, a pessoa, hoje, que não consegue resolver o passado, que essa pessoa pense no futuro, se posicionando pra que ela possa ter um filho, ter um neto, um bisneto... Então... passado a gente não consegue resolver... Eu, graças a Deus, tenho um bom passado e sei que vou ter um bom futuro.
(transcrição, linha 395).
Para Marinho, sua “saúde é boa”. Ele tem uma hérnia de hiato. Faz controle medicamentoso da pressão arterial e dos níveis de glicose. Atualmente, convive com o desejo de retomar as práticas esportivas e perder peso.
Simone (Pesq.) – E vocês, como é a saúde?
Marinho (P) – Minha saúde é boa também. Só que eu sou assim um atleta, né?
Ade (A) – É bom desligar o fogo para o pão de queijo... [O avô estava preocupado com os pães de queijo que
Marinho gentilmente preparava para nós.]
Marinho (P) – Não, eu deixei baixinho, só... Pra... A última vez que fui ao médico, há uns quatro, cinco meses, teve uma alteração de pressão e uma alteração de açúcar, mas é pouca coisa, né? E, aí, teve a recomendação de tomar esses remédios, mas é mais pra regular. E agora... minha pressão hoje é normal [...]
(transcrição, linhas 142-145)
O filho – aqui chamado de João – mora com os pais, mas planeja mudar para outra cidade após o ingresso em uma universidade. Tal como o pai e o avô, cursou o ensino técnico- profissionalizante. Está estudando e contribui nos trabalhos coordenados pelo pai. No momento, não está namorando, ou, como ele mesmo diria, “tá na pista”. João acaba de completar 18 anos, tem o corpo magro, um rosto ainda com espinhas e o olhar tranquilo. Ele se apresenta de um jeito leve, espontâneo e seguro. Durante a entrevista circularam diferentes
informações sobre a família e que João desconhecia. Ele se entusiasmou com elas, como neste trecho: “É, hoje eu descobri que eu tenho uma possível tia, mas ela morreu. Oh, que legal! Não legal... Porque ela morreu [risos], mas legal porque eu descobri isso... [mais risos]” (transcrição, linha 401).
Ele considera sua “saúde normal”. Relata frequentes dores de garganta e o convívio com um processo ligado à sensibilidade a corantes alimentícios que o leva a episódios em que passa muito mal. Em função disso procura andar com um antialérgico na carteira. O jovem aproveita as noções de saúde que circulam em sua família, sobretudo as que ele considera que são boas. Mas também agrega aspectos diferenciados. É muito interessante perceber o grupo produzindo sentidos para o cuidado com a saúde.
[Marinho falava sobre cuidado e destacava a importância das pessoas se amarem, quando João advertiu:]
João (F) – Se amar até um limite também, não é?
Marinho (P) e João (F) – [sons sobrepostos, que confirmam a ideia sobre limites.]
João (F) – Dependendo, a pessoa é doente.
Marinho (P) – Ter consciência, ter equilíbrio.
Ade (A) – Eu acho que tudo que é demais é droga!
João (F) – É isso aí!
(transcrição, linhas 381- 386)
De modo geral, as vivências da morte de Pedro, o bisavô, e Lobão (avô materno de João) ecoam até mesmo na geração do jovem. Isso fica evidente na fala de Marinho (transcrição, linha 206): “[...] ele [João] é um bom ouvinte... um bom paciente... Ele ouve... Não fala nada, mas é... A gente nota que ele toma providências, sabe? Então, é importante isso. É bem paciente...”. O comportamento descrito é o avesso ao do sogro. Essas experiências certamente influenciaram o processo de percepção da noção de cuidados com a saúde dos membros da família e os modos que eles estão encontrando para lidar com a temática convergem com os discursos que levam à responsabilização individual e aos aspectos distorcidos da saúde promocional, que a tornam prescritiva. O que nos leva à importância de problematizar o entendimento desses homens a respeito da noção de saúde.