• No results found

Basic Content Presenter Design

4 The FLUIDE-D Language

4.3 Basic Content Presenter Design

A história de vida do sr. Raimundo representa a vida de muitos Raimundos e Raimundas, excluídos(as) da escola, do mercado de trabalho formal, dos sonhos, enfim, da cidadania.

“Nada o distingue, nada o singulariza: Nem seu nome, nem seus pais, nem passado, nem o corpo, nem o lugar onde vive, nem a vida, nem a morte o individualizam. Sua identidade transcende sua individualidade”. (CIAMPA,1987, p. 24).

O sujeito desta pesquisa, a quem chamo de Raimundo, nasceu na cidade de Brumados, Bahia. É o único homem de uma prole de mais quatro irmãs. Seu pai, bem mais velho que sua mãe, faleceu quando ele tinha seis anos. Após perder o marido, sua mãe mudou com os filhos(as) para a roça, para trabalhar na lavoura de algodão. Raimundo, com 6 (seis) anos, ajudava a mãe na roça. Quando tinha 7 (sete) para 8 (oito) anos, sua mãe resolveu migrar para São Paulo com o namorado, deixando os filhos (as) com a avó. Nesse período, ele foi trabalhar na lavoura de arroz, espantando passarinhos com gritos e pedras; em troca, ganhava comida, roupa e moradia.

“Então eu ficava cuidando para os passarinhos não comer o arroiz” (...) Nois pegava o boneco vestia, parece boneco de Olinda, e colocava no

meio da plantação (...) Ficava o dia inteiro gritando com os passarinhos e jogava pedras para eles avoarem. A colheita que era dura. Tinha que cortar o arroz e não aguentava carregar muito, eu pegava aos poucos (...).

“Um tempo Severino que vivido como quotidiano estruturado na luta pela sobrevivência. O quotidiano o produz e ele o reproduz Severino: esta sua sina”! (CIAMPA, 1987, p. 25).

Nas palavras de Ciampa, Raimundo, assim como Severino, defende a sua sobrevivência, marcado pela rotina do trabalho cotidiano. Raimundo não produz, não cria o seu trabalho. Ele é a expressão viva do espantalho, espanta os passarinhos, num movimento repetitivo e empobrecido, que leva ao achatamento da condição humana, minando seu poder criativo e transformador.

Nesta condição de espantalho vivo não havia tempo e nem lugar para a escola.

Ele desconhecia o que era escola até a chegada de uma professora.

“Não tinha escola, não tinha nada, era só roça”.

“(...) o risco da banalização da vida humana, que pode ser provocado pela rotina, pelo trato cotidiano de situações de segregação, de injustiça.” (MARTINELLI, MUCHAIL e ON 1998, p. 110).

Raimundo está inserido em uma realidade na qual essa é a única opção, para garantir a sobrevivência, é o trabalho na roça. A sua condição é semelhante à do escravo, obrigado a trabalhar, ininterruptamente, sem remuneração. Essa condição de semiescravidão banaliza a vida, impedindo

que o sujeito se aproprie da maior riqueza humana, que é a capacidade de expressar todo o seu poder criador e transformador por meio do trabalho.

A professora chegou, na roça, para dar aula no pé da árvore e trouxe um livro para cada criança. O nome do livro era Pelé e a Bola. Mas, como ela morava muito longe, a 30 km da cidade, desistiu no primeiro dia. Só restou o livro, que marcou a memória de Raimundo. O livro que guarda em suas páginas as letras, que formam as palavras, que formam as frases que exprimem um sonho de menino de aprender a ler e escrever, então “Só fica o que significa”. (PLACCO e SOUSA, 2006, p. 38). O livro significou, naquele momento, a possibilidade de apropriação da leitura e escrita.

Raimundo foi crescendo sem escola, e se transformando em pré- adolescente com mais força e capaz de tirar leite da vaca e ser o vaqueiro da fazenda. “(...) aí eu já guentava tirar leite, tem que ter força pra tirar, eu

tenho até olho-de-peixe daquela época (...)” Com toda a sua força de quase

homem, assumindo responsabilidade de um adulto, não tinha um salário; continuava trabalhando em troca de casa, comida e roupa. O pouco dinheiro que conseguiu juntar era vendendo cachaça, que pegava fiado na cidade, para os colegas na roça.

“Os sonhos impossíveis, as fantasias sentimentais não atingem todos os jovens com a mesma intensidade, podendo ser contidos conforme as exigências de sua vida cotidiana. Uma das causas frequentes é o início da atividade profissional precoce, que põe o jovem em contato imediato com a realidade social e pode oferecer-lhe o sabor da sua independência, mas também colocá-lo diante de responsabilidades para as quais pode ainda não estar preparado”. (MAHONEY e ALMEIDA , 2012, p. 63).

A criança que carregava arroz, aos poucos, porque não aguentava o peso, agora, na adolescência, assume a responsabilidade de um vaqueiro, pois se sente dotado de força para tirar o leite da vaca e cuidar do gado. Embora tenha mudado de função e adquirido mais autonomia no trabalho, ainda permanece em uma situação aviltante, ou seja, sem remuneração. Ele muda de função, consegue mais autonomia no trabalho, mas não muda o seu lugar no mundo, pois não tem ainda autonomia suficiente sobre sua própria vida.

Na concepção Walloniana, alguns adolescentes são obrigados a trabalhar para suprir as carências materiais, suas ou da família. Essa necessidade, muitas vezes, impossibilita o jovem de viver intensamente suas fantasias, sonhos e sentimentos. No caso de Raimundo, a necessidade de trabalhar chegou na infância e se intensificou na adolescência, com mais responsabilidades, e o que é mais humilhante, sem pagamento em dinheiro. Não lhe foi concedido um espaço acolhedor, nem na infância e muito menos na adolescência, que lhe possibilitasse: jogar bola, rodar pião, ser embalado por cantigas de ninar, ouvir e contar histórias, conhecer letras, formar palavras, escrever frases, histórias, escolher roupas, calçados, sonhar e fantasiar.

A exclusão e a mesmice do cotidiano marcaram a sua trajetória até os 18 (dezoito) anos, mas não cristalizaram o seu potencial para a labuta. Atingindo a maioridade, conheceu uma moça (de São Paulo) que estava passeando na cidade de Brumado. Ela percebeu o seu talento para o trabalho e o incentivou a migrar para a capital paulista, em busca de uma melhor ocupação.

“Uma moça que me falou, você pode ir pra São Paulo que você vai se dar bem, vai ganhar dinheiro”.

Nesse momento ela reconheceu o valor da sua força de trabalho e lhe sugeriu trilhar um novo caminho, que o libertaria da condição de espantalho. Espantado com essa proposta, olhou para si e percebeu o quanto estava estagnado. Ao mesmo tempo em que reconheceu a sua estagnação, foi tomado por uma profunda irritação, que o despertou para a mudança. Podemos perceber esse movimento na sua própria fala:

“Eu me invoquei, fiquei nervoso porque eu ajudava a ganhar dinheiro e eu não ganhava, fui lá e falei: vou embora, foi coisa do momento, coisa rápida, não quero viver mais na fazenda porque não ganhava nada, era uma escravidão, aí eles me deram o dinheiro da passagem”.

Ao perceber que “doava” a sua força de trabalho para enriquecer o outro, e em contrapartida estava “contribuindo” com o seu empobrecimento material e humano, foi tomado por um estado de tensão e se rebelou contra o “patrão”, e exigiu que o mesmo pagasse a sua passagem para São Paulo.

“O homem se constrói e se recria quando se opõe para romper com o domínio do outro, na tentativa de busca de si mesmo”. ( MAHONEY e ALMEIDA, 2010, p. 98).

O olhar do outro (mulher) refletiu no olhar de Raimundo, permitindo que ele enxergasse e reconhecesse o seu potencial para romper com o domínio do

outro, tomar as rédeas da sua vida e continuar escrevendo a sua história, mas agora sendo ele o protagonista. Segundo Almeida e Mahoney (2005):

“Emoções são sistemas de atitudes, reveladas pelo tônus. Atitude é a expressão da combinação entre tônus (nível de tensão muscular) e intenção, cada atitude é associada a uma ou mais situações”. (MAHONEY e ALMEIDA, 2005, p. 20).

Raimundo deixa a sua terra trazendo a marca, no seu polegar, do olho- de-peixe, que representa o trabalho repetitivo e desumano. Ele chega na antiga rodoviária da Estação da Luz, na cidade de São Paulo. Mesmo sem saber ler e escrever trabalhou em várias funções, constituiu família e, atualmente, é feirante e frequenta o curso de alfabetização em uma escola da periferia da capital.