3 The FLUIDE-A Language
3.6 Aggregated Work Supporter
III
A Novidade da Juventude na Sagrada Escritura, no Magistério e na ação evangelizadora da Igreja
3.1 – Deus confia nos jovens para seu Projeto de Salvação da Humanidade
A Igreja é convidada a sempre se renovar pela novidade do Evangelho. Investir na evangelização da juventude é reconhecê-la em importância e no seu potencial transformador. É também ressaltar os seus valores, visualizar suas dificuldades e, sobretudo, acreditar em suas capacidades de bondade e superação de dificuldades.
Na medida em que a Igreja acolhe o protagonismo e a força dos jovens se torna coerente com o próprio Deus que, na História de Salvação, sempre acreditou na capacidade de renovação dos homens, no rejuvenescimento de suas idéias, na capacidade de retorno ao seu Projeto, mesmo quando estes foram infiéis à Aliança estabelecida, pelo Amor.
O Novo sonhado pelos jovens em relação a tantas questões da sociedade e sua busca de felicidade é coerente com a busca de Deus pelos homens. O adjetivo “Novo” é presente na Sagrada Escritura de diversos modos, especialmente, na ação de um Deus que “faz novas todas as coisas”. 147 O envio da 2ª Pessoa da Santíssima Trindade à humanidade estabelece Nova Aliança com a humanidade.
A Nova Criação é a meta da esperança criadora e redentora de Deus, contendo um elemento escatológico e salvífico para os homens. Passando de Velho Homem, que sofreu deformação pelo pecado, para Nova Criatura em Jesus Cristo,148 pela força renovadora do Espírito Santo,149 a humanidade é convidada a acreditar na promessa de Deus,150 como realização de seu chamado para uma vida plena de Amor.
147 Is 65,17-25; Ap 21,5. 148 Cf. Ef 2,15; Cl 3,9s. 149 Cf. Ef 4,23s. 150 Cf. 2Cor 1,22
Para isto, a abertura à “novidade de Deus” requer por parte da humanidade uma atenção especial aos “sinais dos tempos”, numa atitude de observância ao seu Projeto de Amor, à conversão e revisão de vida, numa vida de seguimento, discipulado a Jesus Cristo, Revelação plena do Pai.
Na Sagrada Escritura, os jovens foram muitas vezes considerados herdeiros, guerreiros, heróis e trabalhadores. Davam continuidade ao nome da família, conservavam a terra e as tradições culturais.
Em várias passagens, a Bíblia utiliza personagens jovens para designar o chamado de Deus em situações concretas, com as fragilidades humanas demonstradas na demora e nas dificuldades na resposta para a Missão. Muitos são os exemplos que podemos destacar em ações protagonizadas por pessoas jovens.
A história de José, o irmão mais novo de uma família numerosa, vendido por seus irmãos por ciúmes e inveja e, pela ação de Deus, resgatado e educado na elite do faraó, mostra o discernimento para interpretar a vontade de Deus para a nação e a inteligência administrativa que salvará o seu país e sua própria família da fome. 151
O jovem Samuel tem sua vocação narrada na Bíblia dando início aos chamados a outros profetas. Foi ajudado em seu discernimento por um adulto e colocou-se à disposição do Senhor. Samuel anunciou a realização de Deus e o que faria ainda na história de seu povo. 152
Davi é o jovem confiado por Deus para derrotar o poder opressor, simbolizado em na figura de Golias. Com inteligência, vontade e postura de escuta à vontade do Senhor, ele representa o povo fraco e oprimido na construção de um reinado marcado pelo crescimento e felicidade de sua nação. 153
O segundo livro dos Macabeus mostra como o jovem desobedece às ordens do rei para ser fiel às leis de Deus. Trata-se de um dos eventos mais representativos de toda a
151 Cf. Gn 41,1-57. 152 Cf. 1Sm 3,1-21; 4,1. 153 Cf. 1Sm 16-17.
Sagrada Escritura, mostrando que o tempo de perseguições se torna ocasião para educar para o testemunho, capaz de sacrificar a própria vida. 154
A jovem Rebeca tem sua história narrada do livro do Gênesis. A Bíblia a retrata como uma jovem muito bela. Com 15 anos de idade, recebe o convite de Isaac para se casar e aceita firmemente, deixando seus pais, terra, casa, irmãos para ir a terras estranhas. Como Abraão, respondeu sem reservas ao chamado de Deus, tornando-se uma das primeiras mães do novo povo. 155
Outra jovem destacada na Bíblia é Ester, “moça bela e atraente” 156 apresentada ao rei Assuero. Ester é a jovem, órfã e pobre, que se torna rainha para salvar seu povo, ameaçado de extermínio e odiado, porque suas leis eram diferentes das leis de todos os outros povos. 157 É uma judia, exilada no coração do império. Representa a fraqueza dos povos oprimidos. O rei se encanta com sua beleza e se casa com ela. Oferece até a metade de seu reino. Mas ela não procurava honra e poder. Pela influência de Ester junto ao rei, o povo de Deus é salvo da morte. 158 Os judeus instituíram uma festa chamada “Purim”, a fim de celebrar a salvação que vem de Deus por meio dos pobres e fracos. 159
Daniel é o jovem que intervém, corajosamente, em favor de Susana, pessoa inocente e justa. Nesta e em outras atitudes, demonstra o empenho dos profetas em favor dos fracos e indefesos.160
A história do jovem Tobias revela a fidelidade à vontade de Deus e a Providência Divina na vida cotidiana, no amor aos pais, à oração, no exercício do jejum e da esmola, na integridade do matrimônio e na reverência aos mortos.161
Salomão é o jovem rei que pede a Deus a sabedoria capaz do discernimento e da realização da justiça. Quer aprender a ouvir para resolver questões no tribunal e aplicar um exercício contínuo de justiça, em seu governo. 162
154 Cf. 2Mc 7,1-42. 155 Cf. Gn 24,16. 156 Est 2,7. 157 Cf. Est 3,8 158 Cf. Est 8-9.
159 Cf. ARNS, Cardeal Paulo Evaristo & outros. Mulheres da Bíblia. pp. 70-74. 160 Cf. Dn 13,45-61.
O profeta Ezequiel revela que a fidelidade de Deus à aliança é mais forte do que a infidelidade do seu povo. O perdão de Deus faz suscitar o amor de juventude. 163
O livro de Jó representa uma tensão entre o ensino oficial da elite e a incipiente consciência rebelde dos sofredores. Deus permite que Jó caia na miséria, com todos os sofrimentos possíveis e imagináveis. 164 A causa de seu sofrimento não é o pecado. Chega a maldizer o dia em que nasceu165 e representa a geração nova, consciente de se rebelar contra as injustiças dos quem promoviam uma falsa visão e imagem de Deus. No coração, ele é fiel ao seu coração e não a tradição a que fora ensinado. Experimenta Deus de perto e descobre que Ele é maior do que as doutrinas ensinadas pelos líderes religiosos de seu tempo. “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti, mas agora meus olhos Te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza”.166 No final do texto, o próprio Deus se mostra irritado com a imagem que os homens e os amigos de Jó faziam dele e aprova o relato da experiência de Jó com Ele. Faz os leitores refletirem sobre qual a imagem de Deus que a Igreja comunicou ao povo ao longo dos séculos e que agora pode ser questionada pelo Jó dos dias atuais.
Maria de Nazaré é a jovem que tem um papel fundamental na História da Salvação, apresentando-se com obediência, coragem e liderança. Aceita a proposta de Deus para ser a Mãe de seu Filho, sem consultar seu noivo José.167 Atravessa as montanhas de Judá para encontrar-se com Isabel e proclama o “Magnificat”, o maior cântico profético-libertador de todo o Novo Testamento.168
O Concílio Vaticano II transmite o ensinamento tradicional a respeito da Mãe de Jesus:
Redimida de modo eminente, em previsão dos méritos de seu Filho, está unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel. É dotada com a missão sublime de ser a Mãe do Filho de Deus, e por isso, filha predileta do Pai e do sacrário do Espírito Santo. 169
162 Cf. 1Rs 3,4-28. 163 Cf. Ez 16,1-63. 164 Cf. Jo 1,1-2,10 165 Cf. Jo 3,1-3 166 Jó 42,6. 167 Cf. Lc 1,26-38. 168 Cf. Lc 1,39-55.
Maria vai a Belém com José, onde nasce seu Filho. Enfrenta a perseguição de Herodes, que massacra os inocentes. 170 É mãe dedicada, fiel, acompanha Jesus em sua Missão e assume, em plenitude, o seguimento a Ele, continuando com os apóstolos depois do evento de Pentecostes e em outros momentos. E na pessoa desta jovem que a humanidade pode ver sua vocação e sem destino levados em bom termo: a criação atingiu sua meta.171
Maria é cheia de graça e Mãe de Deus. De concepção livre do pecado, é chamada pela Igreja de “Imaculada Conceição”. Como Mãe de Jesus, o Filho de Deus encarnado, realiza plenamente a vocação humana à santidade, penetrando no mais íntimo da vida da Trindade Santa. É proclamada “bem-aventurada” por causa de sua fé na salvação prometida, participando da missão mediadora do Messias de Deus. É “bendita entre as mulheres”, pois está unida com todos os seres humanos que necessitam da salvação, como Mãe da Igreja, os membros do Corpo de Cristo.
Em Caná da Galiléia, profere um ato de fé no Filho, e Ele viu que seu Pai agiu pela intercessão da mãe. Nesta narrativa, é figura central ao lado de Jesus. As águas do ritual da purificação dos judeus são transformadas no vinho da Nova Aliança. Com isso, São João ensina que, no início do ministério de Jesus, temos o começo de uma nova revelação divina.
Na cruz, Jesus faz um outro gesto simbólico, mostrando a unidade da Igreja: Maria torna-se mãe do fiel discípulo amado, simbolizando a maternidade da Igreja, que deve dar à luz muitos filhos, à imagem de Jesus.172 Maria é, portanto, o principal modelo de seguimento de Jesus Cristo. Nela encontramos as características do discipulado: a escuta amorosa e atenta, a adesão à vontade do Pai, a atitude profética, a fidelidade a ponto de acompanhar seu filho até a cruz e continuar sua missão evangelizadora. 173
Maria é proclamada pela Igreja “Mãe da Juventude”, assume com radicalidade sua Missão. É exemplo de amizade e de sensibilidade social e pessoal quando visita sua prima Isabel. Quando no episódio chamado “Bodas de Caná” nota e aponta a falta do vinho, 174 está
170 Cf. Mt 2,13-15.
171 A Igreja proclamou muitos santos jovens. São modelos às comunidades como verdadeira opção pelo Reino. 172 Cf. Jo 19,25-27.
173 Cf. CNBB. Evangelização da juventude.... p. 43. 174 Cf. Jo 2,1-11.
dizendo para todos que a alegria da festa, que é a vida plena, na verdade é o encontro e seguimento de Jesus Cristo, verdadeiro caminho de felicidade para a humanidade.
Os jovens peregrinam continuamente aos seus santuários espalhados pelo mundo, mostrando-lhe seu carinho e afeto, reconhecendo-a em seu próprio nome em meio às múltiplas invocações. A juventude se identifica com Juan Diego que, com ela, se encontra e dialoga nas colinas de Tepeyac, proclamada depois: “Virgem de Guadalupe”. Torna-se para os jovens a presença de mãe que os escuta, com proximidade e os sustenta nos momentos de dificuldades. “Mãe dos pobres”, anima e conforta a caminhada de seu povo em busca de sua libertação.
No Brasil, é representada pela negra de Aparecida, identificada com os sofredores e excluídos. Escravizados por um sistema de exclusão que não oferece o caminho da vida plena sonhada por Jesus, a Virgem de Aparecida está presente no cotidiano de milhões de brasileiros adultos e jovens, como presença amorosa de Mãe e Intercessora junto a Deus.
3.2 - Jesus de Nazaré: a novidade de Deus no contexto judaico-romano
Através da encarnação de seu próprio Filho, Deus se revela de forma radical. Assumindo a humanidade, Jesus é o “Homem Novo”, perfeito, do jeito que Deus sonhou. 175 “É o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem.” 176 A carta de Paulo aos Filipenses aponta seu não-apego à condição divina. “Esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo, tornando-se homem entre os homens”.177 Nasce pobre, vive com os pobres, compartilha suas angústias e esperanças. 178 Realiza uma opção fundamental pelos pobres e marginalizados, assumindo um projeto de libertação dos mesmos e, como consequência, enfrenta os conflitos com aqueles que promoviam a exclusão social e religiosa.
Ao falar do Pai, Jesus fala o que ouviu e experimentou com Ele. Por isso, é fiel transmissor da vontade do Pai, fidelidade que o levará ao extremo de deixar-se crucificar por
175 Cf. Jo 1,1-14.
176 JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia in América. São Paulo: Paulinas, 1999. p. 67. 177 Fl 2,6-11.
fidelidade ao Pai e amor pela humanidade. Apresenta-se sempre em comunhão com Ele, que o enviou. 179
Jesus de Nazaré denuncia as injustiças existentes na sociedade de sua época e promove a vida plena. Como jovem, age em favor de seu povo, com coragem, idealismo e energias juvenis. Torna-se “luz” num mundo concreto, especialmente na Galiléia, dominada pelo Império Romano e pelos “bons judeus” praticantes da Lei e que estudavam as minúcias para seu cumprimento. Diferente da orientação da religião predominante, Ele vai ao encontro da população simples, explorada e a ela proclama a predileção do Pai.180 Assume suas dores e causas, colocando-se como refúgio e “caminho, verdade e vida”.181
Jesus se encontra com vários jovens: com a jovem mãe, que pedia insistentemente a cura de sua filhinha, excluída pela sociedade da época.182 Demonstra a compaixão revelada em Deus, na parábola dos dois filhos,183 acreditando na possibilidade de regeneração e de perdão ao filho mais novo, que pede a herança de seu pai, antes mesmo de sua morte.184 Convida os jovens a um novo caminho e a viverem seu projeto de desapego de bens materiais para uma real felicidade.185 Para Jesus, os jovens podem se redefinir para o bem ou para o mal a partir de seu desejo de ir ao encontro do próximo.
Como um bom pastor, Jesus se apresenta como aquele a quem seu Pai confiou o cuidado das ovelhas, que simbolizam o Povo de Deus, apresentando-se como mediador, guardador, capaz até de dar a vida por elas, mantendo um relacionamento pessoal com elas, o que os mercenários não fazem. Promove suas vidas, “em abundância”, defendendo-as dos perigos e ameaças da morte. 186
Jesus é acompanhado por pessoas simples, sem muita instrução 187. Entre elas havia homens e mulheres, pais e mães de família 188. Alguns eram pescadores; 189 outros, artesãos e 179 Cf. Jo 8,14-16. 180 Cf. Mt 11,25-29 181 Jo 14,6 182 Cf. Mc 7,24-30. 183 Cf. Mt 21,28-32. 184 Cf. Lc 15,11-24. 185 Cf. Lc 18,18-23. 186 Cf. Jo 10,9-10. 187 Cf. At 4,13; Jo 7,15. 188 Cf. Lc 8,2-3; Mc 15,40s. 189 Cf. Mc 1,16,19.
agricultores. Mateus era publicano 190; Simão era zelota191; outros faziam parte do grupo dos revoltosos, que carregavam armas e tinham atitudes violentas 192. Outros, ainda, eram pessoas curadas por Jesus, de enfermidades e doenças. 193
No grupo mais próximo a Jesus também havia algumas pessoas ricas: Joana, Nicodemos, José de Arimatéia, Zaqueu e outros. 194 Eram pessoas que sentiram a necessidade de romper com o sistema gerador de exclusão social e aderir aos valores vividos e ensinados por Jesus: gratuidade, fraternidade, justiça, paz, inclusão, comunidade, etc. Todos eles tiveram de fazer a mudança de vida, a conversão que Jesus pedia. 195
Numa sociedade em que os rituais eram centrais, onde não se podia comer sem lavar
as mãos,196 onde os leprosos eram excluídos por serem considerados
impuros e os doentes mentais, considerados possuídos por demônios, Jesus diz: “a sujeira não está no que entra no coração, mas no que sai dele” 197 e, assim, cura os leprosos, mandando que estes se apresentem aos sacerdotes, retornando à vida normal. 198
Num tempo em que as mulheres eram excluídas da vida social, tratadas como inferiores,199 consideradas impuras durante o tempo das menstruações e no qual o parto exigia um sacrifício no Templo para sua purificação200 e não eram dignas de serem consideradas testemunhas nos tribunais, Jesus se faz acompanhar por um grupo de mulheres, atribuindo-lhes um papel social201 e, mais ainda, as faz primeiras testemunhas de sua Ressurreição. 202
Numa sociedade em que as crianças não tinham relevância na sociedade,203 Jesus diz ser necessário “tornar-se criança para entrar no Reino de Deus.”204 Onde muitas pessoas eram 190 Cf. Mt 9,9. 191 Cf. Mc 3,18. 192 Cf. Mt 26,51; Lc 9,54; 22,49-51. 193 Cf. Lc 8,2. 194 Cf. Lc 8,3; Jo 3,1-2; Jo 19,38; Lc 19,5-10. 195 Cf. Mc 1,15. 196 Cf. Mt 15, 2. 197 Mt 15, 11. 198 Cf. Lc 17, 14. 199 Cf. Mt 14, 21. 200 Cf. Lc 2, 22. 201 Cf. Lc 8, 1-3. 202 Cf. Mc 16, 1-8. 203 Cf. Mt 15, 38.
desprezadas por causa de suas profissões, afastadas da vida social e chamadas pelos outros de “pecadoras”, Jesus de Nazaré escolhe um cobrador de impostos para ser apóstolo (Mateus). Senta-se também com publicanos e pecadores. 205
Num contexto que discriminava os samaritanos por serem considerados estrangeiros e impuros,206 Jesus é recebido pelos samaritanos, conversa com uma de suas mulheres207, e os cita “como exemplo de amor verdadeiro”, em várias parábolas.208
Onde havia o legalismo, sobretudo na observação à “Lei do Sábado”, onde não se podia fazer nada nem andar mais de 30 passos, Jesus afirmava que o Homem é o centro de tudo. Cura uma pessoa no dia de sábado, 209 apóia seus discípulos que colheram espigas de trigo num sábado, por causa da fome, e afirma: “a lei do sábado é feita para o homem e não o homem para a lei do sábado”. 210
Para os grupos da sociedade judaica, fariseus e escribas, o pecado consistia em desrespeitar os preceitos que visavam proteger das impurezas exteriores, 211 Jesus afirma: “pecado é o que se faz contra o próximo”212 e que o pecado do mundo é um conjunto de forças do mal que enfrenta: a mentira organizada, a cegueira das pessoas, o ódio generalizado, a vontade de dominação.
Numa mentalidade que reforçava a idéia de que o templo era o lugar em que Deus residia e o culto era o momento para se purificar de todas as impurezas que tinham contraído e que eram necessários sacrifícios para restabelecer a aliança com Deus, Jesus vai ao encontro das pessoas, dizendo que o culto celebrado no Templo de Jerusalém deveria acabar.213 Prevê a destruição do Templo,214 expulsa os vendedores de animais que iam servir para os
204 Mc 10, 13-16. 205 Cf. Mt 9, 10. 206 Cf. Lc 8, 52. 207 Cf. Jo 4, 7. 208 Cf. Lc 10, 33. 209 Cf. Mc 3, 4. 210 Mc 2, 23-29. 211 Cf. Mt 23, 28. 212 Mt 15, 19. 213 Cf. Jo 4, 23. 214 Cf. Mt 24, 1-2.
sacrifícios215 e anuncia sua própria vida como sacrifício, apresentando-se como o pão da vida216 e entregando-se à morte, perdoando e anunciando esperança.
A jovialidade do projeto de Jesus Cristo consistia na apresentação da novidade da alternativa ao sistema de sociedade vivido na época. O Reino de Deus era o grande anúncio de Jesus. A partir de sua própria experiência de comunhão com o Pai, Jesus propõe um jeito totalmente novo de ver, pensar, agir e de organizar as relações entre as pessoas. Quando diz: “o Reino já está no meio de nós” 217 apresenta-se a si mesmo como dom do Pai. Por parte da humanidade, existe a necessidade do acolhimento e do esforço do homem e da mulher para o Reino de Deus crescer 218, o que exige conversão dos corações e mudança nas estruturas injustas. Por seu jeito de ser e de viver, Jesus revela e inaugura o Reino que só terá sua plena realização no futuro de Deus. 219
Jesus de Nazaré indica as atitudes a serem vividas hoje diante da realidade em que a juventude vive. Contemplando o modo como Jesus é modelo de amor, percebemos sua vivência na intimidade da Trindade. Sua liberdade diante de tudo e de todos, seu foco na libertação integral do homem e da sociedade, que não permitia o desvio de seu caminho, 220 sua união com o Pai e fidelidade à sua vontade, numa atitude de autenticidade e coerência, 221 sua misericórdia, acolhimento e capacidade de perdoar, 222 sua firmeza e capacidade no enfrentamento de conflitos, 223 sua ternura e esperança, 224 a capacidade de amar até entregar sua própria vida, 225 seu senso democrático e de diálogo 226 e sua capacidade de transformar o que é “velho” em “novo” 227 traduzem a novidade de sua proposta: o novo mandamento de amor tão exigente, porque ele mesmo o praticou primeiro e porque primeiro derramou o Espírito Santo, que é amor e nos recorda seu exemplo.228
215 Cf. Jo 2, 14. 216 Cf. Jo 6, 35. 217 Lc 16, 20. 218 Cf. Mt 13, 21-33. 219 Cf. Mt 25, 31-46. 220 Cf. Jo 8,361-36. 221 Cf. Lc 4, 22-24; Mt 10, 38-39. 222 Cf. Jo 8, 3-11; Mt 18, 21. 223 Cf. Jo 12,24-26; Lc 21,12s. 224 Cf. Jo 11,32-38; Mc 10,13-16. 225 Cf. Mt 20,28; Jo 10,15-17. 226 Cf. Lc 9,49-50. 227 Cf. Mt 7,28-29; Lc 10,24.
228 Cf. HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: retiro espiritual do Papa e da Cúria Romana.
Finalmente, a Morte e a Ressurreição de Jesus são, para a humanidade, esperança e certeza de que o Reino de Deus vencerá a injustiça e de que a vida, e não a morte, tem a última palavra. A ressurreição de Jesus indica que ele continua fazendo história e que a cruz é caminho para a vitória definitiva. Do encontro com o Ressuscitado no sacramento da Eucaristia, na Sagrada Escritura, na oração, na vivência comunitária e na História, acende-se a