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Aggregated Content Presenter Design

4 The FLUIDE-D Language

4.4 Aggregated Content Presenter Design

Ao chegar à escola, Raimundo encontrou um ambiente pouco acolhedor. A carteira escolar uma atrás da outra, pouco confortável para acomodar o aluno adulto (a Escola Municipal de Ensino Fundamental foi pensada para

acolher crianças e adolescentes em fase regular de aprendizagem), o caderno, o lápis e uma lousa imensa cheia de conteúdo para ser copiado.

Raimundo se vê diante da vida escolar, algo que, talvez, também tivesse de alguma forma evitado, justamente para não ter que se deparar com o seu “não saber”.

Raimundo estava habituado a domar animais, roçar, embalar comida, entregar marmita, trabalhar em firma, e atualmente trabalha na ponta da feira vendendo frutas, legumes e temperos. Adentrando o espaço escolar e principalmente a sua sala de aula, deparou-se com o mundo das palavras, não aquelas que ele ouve e fala no cotidiano do trabalho, da família e do lazer, mas palavras que ocupavam a lousa e que não apresentavam nenhum sentindo e significado, pois não contemplavam o seu conhecimento prévio. O universo escolar não contemplou o educando, desde o mobiliário, os conteúdos, o ritmo de aprendizagem dos seus colegas, parece que tudo estava “incompatível” com sua história. Ele relata os momentos iniciais da sua primeira experiência escolar:

“O primeiro dia foi muito nervoso, no segundo um pouco tenso e o terceiro já me relaxei mais”.

“Mas na sala dela os outros já sabiam mais do que eu. Eu não tava acompanhando, os outros tinham mais tempo de escola que eu, aí eu comecei a faltar”.

O nervosismo, a tensão e a dificuldade em acompanhar os colegas foram os primeiros sentimentos relatados. Ele sentiu certo estranhamento com

o ambiente escolar. Sua primeira atitude foi começar a faltar, o que, provavelmente, o levaria à evasão; sentia-se afetado por uma sensação de não pertencimento ao grupo.

A situação descrita foi alterada quando a professora inicial entrou em contato com ele e o convidou a frequentar a sala de reforço com outra professora. É importante deixar claro que a sala de reforço não é um lugar de inclusão, mas um espaço destinado ao aluno que, por algum motivo, apresentou dificuldades para acompanhar o grupo classe. Esse novo espaço é marcado pelo acolhimento, pelo diálogo, por atividades elaboradas mediante situações discutidas em sala de aula, pela presença de uma minibiblioteca para uso dos alunos, por materiais alternativos, como o alfabeto móvel, massa de modelar, contação de histórias, poesia, músicas e filmes. Recursos que deveriam existir em qualquer sala de alfabetização, principalmente, e, se existem, deveriam ser mais bem utilizados com o aluno. Esses recursos são facilitadores que visam atender às dificuldades específicas do aluno, propiciando uma aprendizagem significativa. A aprendizagem significativa só tem possibilidade de ocorrer na relação professor-aluno, assim como os possíveis recursos materiais só ganham sentido quando inseridos e utilizados corretamente, tendo o professor como mediador. Sendo assim, a sala se diferencia da anterior, como relata o próprio aluno:

“O ensinado dela é diferente do seu, aqui na sala de reforço você deu aquele tempero, o que você fez, fez nós crescer, foi diferente pra nós. Lá a gente copia, copia, copia, não adianta, tem que saber o que tá copiando, se não, não dá. Você pega mais legal, o jeito seu pra trabalhar ajuda a gente. A ensinação, o trabalho seu é mais esforçado”.

Resgatando o filme Tempos Modernos (CHAPLIN), podemos fazer um paralelo com o ato de copiar o conteúdo da lousa e o ato de apertar parafusos na fábrica. Ambos são movimentos repetitivos e frenéticos que, paulatinamente, vão cindindo o homem do seu poder criador e transformador, levando-o à alienação. Esse estado de alienação afeta profundamente o sujeito, causando a impossibilidade de se reconhecer e ser reconhecido na produção da sua obra. O indivíduo perde a consciência do ato que está realizando, não se apropriando do seu saber, que é histórico e socialmente construído, é um fazer mecânico, que causa um abismo entre o existir no mundo e com o mundo.

Na percepção de Raimundo, na sala de reforço existia uma “ensinação” e um “tempero” diferente. Mas de fato o que é uma “ensinação” e um “tempero” diferente?

Penso que, na sala de reforço, entrar em contato com a “ensinação” do alfabeto, tendo como recurso mobilizador a contação de história, foi um convite para o grupo, por meio da letra, vasculhar sua memória e partilhar as suas experiências, trazendo para o presente sensações, lembranças, desejos e emoções. É importante deixar claro que o contato com o alfabeto foi realizado por meio de atividades com o alfabeto móvel (alfabeto móvel são letras plásticas, passíveis de ser manuseadas).

Agora a letra não está oca, estática e perdida no tempo e no espaço. Mas manuseadas pelo calor das mãos humanas ganham corpo, vida e

significado, que representam o pensamento e o sentimento do aluno no presente.

Acredito que o “tempero” diferente está atribuído à maneira como as atividades foram desenvolvidas em sala, como relata abaixo:

“Na sala de reforço eu me senti bem porque eu achei que eu ia me apertar mais um pouco e ia ser melhor. As cruzadinhas, caça-palavra, lê as frutas, as palavras, as histórias que você conta, os versos era legal porque a gente não sabia o que era verso”.

Raimundo deixa claro que as atividades propostas na sala de reforço foram realizadas com prazer. Acredito que essas atividades contemplaram a realidade do seu trabalho (pois não podemos nos esquecer que ele vende frutas) e da sua vida pessoal. Ele se sentiu “representado” nas atividades.

“Caso a aprendizagem da leitura se vincule a processos prazerosos, relacionada com a vida real e imaginária do aluno, o esforço exigido na sua aprendizagem terá algum sentido, já que levará ao sujeito um canal inesgotável de informação, conhecimento, divertimento, crescimento, etc.”. (BRENMAN, 2012, p. 68).

Raimundo pensou inicialmente que na sala de reforço teria que realizar um esforço intenso para aprender a ler e escrever. O conteúdo programático iria ser depositado em seu corpo inerte e ele teria que se ajustar como um parafuso ao novo conhecimento vindo de fora. Mas veio a surpresa, quando se deparou com a lousa vazia, mas com o ambiente da sala de aula preenchido por uma conversa acolhedora, entre educador e educando sobre a origem do nome de cada um (nada é mais significativo do que o próprio nome). “Daí que o papel do educador seja fundamentalmente dialogar com o analfabeto.” (...)

(FREIRE, 1967, p. 110). Nesse diálogo acolhedor, muitas informações, pertinentes à vida do educando, foram registradas e utilizadas na preparação de atividades (caça-palavras de nomes, cruzadinha, construção do próprio nome com alfabeto móvel, etc.) que foram realizadas nos primeiros dias de aula.

Diante dessa nova proposta de aprendizagem, observei que o aluno foi se esforçando, mas aprendendo com gosto, saboreando cada união de letras, cada sílaba e cada palavra formada. Raimundo provou, com seus sentidos, o tempero usado na sua aprendizagem.

Todas essas atividades relatadas por Raimundo lhe trouxeram sentimentos de tonalidades agradáveis, apesar de reconhecer a situação que o levaria a se esforçar mais.

Dentre as atividades que relatou, desenvolvidas na sala de reforço, refere-se particularmente à contação de história da lenda da Iara:

“A história que me marcou foi da índia. Às vezes a história cola a gente, é uma lembrança que a gente tem pra sempre, é igual a uma tatuagem. Tem algum passado que entra no meio daquela história, aí lembrei da Eva, a primeira namorada lá no interior, eu tinha 14 anos. Um amor que a gente teve, gostei um bocado, você vê que a gente não esquece”.

“pertencer a novos grupos nos faz evocar lembranças significativas para este presente e sob a luz explicativa que convém à ação atual”. (BOSI, 1987, p. 335).

Ao ouvir a lenda da Iara, emergiram lembranças da sua adolescência, do seu primeiro amor, houve uma identificação com a narrativa. Esse momento reflexivo foi compartilhado e confrontado com outras histórias de amor vivenciadas pelo grupo, confrontadas com o momento presente:

“Contar e recontar tudo” “significa partilhar a lembrança das experiências do cotidiano e a sabedoria adquirida ao longo da vida”. (PATRINI, 2005, p. 106).

Por alguns momentos, passado e presente se entrelaçaram com a história. Nesse clima narrativo, as experiências e os sentimentos são partilhados sob um novo olhar, que foi se transformando por outras experiências amorosas, vividas ao longo do tempo.

“A memória pode ser enfocada tanto como função quanto como recurso para o ato de aprender. Em qualquer uma destas abordagens, podemos afirmar que sem ela não se aprende”. (PLACCO E SOUSA, 2006. p. 28).

A memória sendo um reservatório inesgotável das experiências vividas pelo ser humano é um recurso, imprescindível, na aprendizagem de jovens e adultos analfabetos. O caminho escolhido para acessar a memória desta população foi a contação de história e a partir dela abriu-se um espaço para o diálogo. Essa escolha não foi ingênua, ler ou contar história, além de evocar as lembranças, possibilita suscitar o imaginário, responder perguntas, encontrar e criar novas ideias, estimular o intelecto, descobrir o mundo imenso dos conflitos, das dificuldades, dos impasses e das soluções. É ouvindo histórias que se pode sentir e reconhecer emoções, como raiva, tristeza, irritação, pavor,

alegria, medo, angústia, insegurança, viver profundamente tudo o que as narrativas provocam de uma forma significativa e verdadeira. Com a escuta e o olhar do presente é possível ou não ressignificar os sentimentos do passado desencadeados pela narrativa.

“A força da história é tamanha que narrador e ouvinte caminham juntos na trilha do enredo e ocorre uma vibração recíproca de sensibilidade, a ponto de diluir-se o ambiente real ante a magia da palavra que comove e enleva. A ação se desenvolve e nós participamos dela, ficando magicamente envolvidos com os personagens, mas sem perceber o senso crítico que é estimulado pelos enredos”. (COELHO, 1991, p. 11).

Essa magia e ludicidade despertada pela narrativa e pelo diálogo é espaço fértil para garimpar a palavra geradora ou os temas geradores visando promover com significância e sentido o processo de ensino e aprendizagem.

Ou seja, acredito que é no brincar com a leitura, com as letras e com as palavras que a criança e o adulto têm maior possibilidade de abrir as portas da imaginação para a apropriação da leitura e escrita, com maior criatividade, afetividade e propriedade. Para Winnicot:

“É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação”. (WINNICOT, 1975, p. 79).

É na ludicidade da palavra que a leitura transmite todo o conhecimento produzido pela humanidade e é no brincar que o indivíduo vai se apropriando dessa produção e produzindo outras tantas novas. A escuta literária nos permite conhecer o homem do passado e do presente, saber como viviam, e como vivem agora, como se relacionavam e como se relacionam hoje e como resolviam os seus problemas e como resolvem hoje, é um convite para que o

indivíduo possa se como(ver) com a sua experiência e com a do outro, aprendendo e ensinando. É um espaço potencial onde podemos explorar o melhor e o pior da nossa condição humana, expressar a nossa individualidade e viver temporariamente, na nossa casa imaginária, outros tipos de papéis. Nesse jogo de escuta, o educando vai entrar em contato com a norma culta, possibilitando a elaboração e a construção da leitura e da escrita.

“Jogos com os sons das palavras, jogos com o sentido delas, ou com o modelo de mundo que cada poema ou narrativa inevitavelmente criam, ampliam nossas possibilidades de relação, tanto com a linguagem, quanto com o mundo”. (CADERMATORI, 2010, p. 32).

O aspecto lúdico da história reflete a ludicidade inerente ao ser humano.

A “ensinação” do ler e escrever, por se configurar em um caminho árido, deve ser sentida a partir do mundo da vida. E a vida nada mais é do que um entrelaçamento de histórias, sejam elas individuais, universais e regionais. Quanto mais a “ensinação” contemplar esse patrimônio, mais significativa, prazerosa e mais legítima será a apropriação da leitura e escrita pelo educando.