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TRABALHO E VIVER URBANO

A cidade, como espaço de atuação para múltiplos, diversos e distintos sujeitos sociais, integra e faz com que interajam neste mesmo espaço todas essas pluralidades. Esse processo, na cidade de Campo Grande, mostrou-se conflituoso na maior parte dos casos e abarcou sujeitos pertencentes a todas as esferas sociais.

Analisando-se os conflitos vê-se que a cidade não era um local homogêneo, fruto da ação de apenas alguns sujeitos ou de determinados grupos políticos outrora pensados como hegemônicos em todos os sentidos, mesmo que alguns documentos mostrem somente essa versão da história, relegando certas pessoas comuns ao âmbito da não- existência.573

Uma urbe deve ser pensada como um espaço de trabalho e de viver humanos, como um local de produção da cultura e reprodução de modos econômicos e sociais, de indefinidas pessoas, plurais em seus projetos e realizações.574 Também deve ser perscrutada como um campo em que determinadas hegemonias se sobrepõem a outras formas de cultura. Portanto, a cidade sempre precisa ser pensada, sobretudo pelos historiadores, como um espaço de tensões e conflitos entre pessoas e grupos que se querem fazer hegemônicos ou almejam continuar neste posto, utilizando, para isso, diversos instrumentos de luta, nem sempre belicosos.575

A relação cotidiana, quase sempre conflituosa, de setores mais abastados ou moralmente “superiores” a outros constitui ponto de grande relevo nesta empreitada e fornece subsídios importantes para se compreender como certas culturas e/ou valores, em particular os modos de vida de prostitutas, de leiteiros ambulantes e de menores abandonados, foram criminalizados, ou não, por alguns grupos da elite campo-grandense nas décadas de 1960-70.

573 Uma reflexão bem oportuna está em PESAVENTO, Sandra Jatahy. Uma outra cidade: o mundo dos excluídos no

final do século XIX. São Paulo: Nacional, 2001, p. 22. Segundo a autora, a elite que controla “a sociedade normatiza e auto-sanciona os valores que regem a vida dos cidadãos e exclui, rejeita, ignora, maltrata ou destrói aqueles que não aceita ou que se enquadram dentro das regras estabelecidas.”

574 Não se deve pensar trabalho e viver urbano como duas atividades estanques, mas sim como culturas que, em

conjunto, constituem-se. Nesse sentido, o subtítulo deste capítulo é apenas didático, pois na realidade essa divisão não ocorre na concretude histórica.

575 HOBSBAWM, Eric J. Rebeldes primitivos: estudos sobre formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e

XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1970, p. 7-23 e 35-53. Nessa obra o autor mostrou como o povo se opôs a pressão da classe dominante sem se utilizar de armas. No caso em estudo, era uma ação sutil e silenciosa dos operários contra a exploração capitalista empreendida pelo patronato e pela sociedade em geral contra as pessoas comuns. Especificamente sobre o roubo, Hobsbawm afirmou que ele deve ser analisado como parte integrante da cultura de resistência de determinadas classes pobres, sendo então um recurso necessário para que estas pessoas não pereçam na miséria absoluta. Para a realidade brasileira, consultar os escritos de DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e

poder em São Paulo no século XIX. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e cultura: história, cidade e trabalho. Bauru: EDUSC, 2002, PINTO, Maria Inez Machado Borges. Cotidiano e sobrevivência: a vida do trabalhador pobre na cidade de São Paulo, 1890-1914. São Paulo: EDUSP, 1994, p. 187 e

SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza (1890-1915). 2. ed. São Paulo: Annablume/FAPESP, 2003.

196 O estudo destes grupos de sujeitos e, mais do que isso, a presença destas pessoas na cidade, indica a existência de vários territórios e de inúmeras territorializações e reterritorializações em Campo Grande, entretanto, indica também as ações e os projetos empreendidos por parte da elite local na tarefa de ordenar e, não menos, eliminar parte da cultura e dos valores destes sujeitos que também viviam na Cidade Morena.

4.1

Saneamento moral

Existem condutas próprias e aceitáveis? Há modos de viver que agridem a sociedade? Como é possível saber o que deve e o que não deve ser feito no cotidiano de uma cidade? E quais sujeitos têm o poder de impor o certo e o errado para o restante da população? E quem deve impor estes limites entre o aceitável e o condenável?

As brigas, esfaqueamentos, furtos, roubos, tiroteios, desentendimentos verbais, mendicância e prostituição estavam no centro das preocupações do CE e precisavam ser banidas do centro da cidade de Campo Grande, pois eram vistas como condutas impróprias para o ambiente civilizado. Esta última, a prostituição, mereceu destaque em matérias publicadas pelo CE entre as décadas de 1960 e 1970.576

Analisando textos do período vê-se que as áreas de prostituição foram, aos poucos, afastadas do centro comercial da urbe. Práticas imorais, como urinar nas vias públicas, dirigir gracejos às moças de família, embebedar-se noite adentro, conduzir veículos em alta velocidade e de forma irresponsável, fazer algazarras nas sessões de filmes, além de discutir e agredir pessoas mais velhas, também foram combatidas via imprensa.

Boa parte dos textos veiculados originava-se de abaixo-assinados que os moradores “de bem” endereçavam às autoridades policiais da época ou diretamente ao CE. Outra parte era fruto das necessidades do Jornal em transformar a cidade num outro espaço: entenda-se mais moderno e em consonância com o mundo civilizado. Objetivava-se ordenar a cidade, tirando-a da situação de desordem na qual a elite dizia que ela estava.

Essa questão, contudo, não é recente na história brasileira. No século XVIII, quando as cidades mineiras passaram pelo início do processo de urbanização, o espaço da cidade se tornou um local que atraiu “todo tipo de aventureiro” e os órgãos públicos constituídos manifestaram-se muito preocupados “com a desordem que lhe vai nas entranhas: os costumes frouxos, uma religiosidade de fachada, uniões não consagradas pela Igreja, desrespeito às autoridades, corrupção, prevaricação, usurpação da coisa pública etc.577

576

Sobre essas questões, ver as seguintes matérias: A cidade e o policiamento. CE, Campo Grande, p. 2, 31 maio 1961, A cidade quer silêncio noturno! CE, Campo Grande, p. 5, 27 dez. 1961, A polícia não tem praças para patrulhar a cidade. CE, Campo Grande, p. 1, 28 jun. 1967, Molhadores” de rua. CE, Campo Grande, p. 5, 17 fev. 1962, Palavrões indecorosos no Cine Alhambra. CE, Campo Grande, p. 7, 26 set. 1967 e Psicodélicos em ação: Rua Maracaju virou inferno. CE, Campo Grande, p. 1, 28 out. 1969.

577

PECHMAN, Robert Moses. Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002, p. 71.

197

Em Campo Grande problemas deste tipo passaram a ser cada vez mais comuns somente a partir da década de 1960, tempo em que a cidade presenciou uma intensificação da urbanização e houve também uma concentração populacional no espaço citadino, em particular pela vinda de pessoas de outras localidades, muitos dos quais eram, sem dúvida, “tipos aventureiros” e outros tantos sujeitos vieram somente em busca de trabalho e de uma vida economicamente mais sólida para os seus integrantes. Contudo, o CE registrou e publicizou em suas páginas bem mais as ações dos “tipos aventureiros” do que do povo comum trabalhador que territorializava a urbe. As “mulheres da vida” são um bom exemplo.

Nas décadas de 1940-50, as mulheres que usavam o corpo como instrumento de trabalho eram chamadas pelos periódicos Jornal do Commercio, Jornal O Matogrossense e Jornal Correio do Estado, que circulavam na cidade de Campo Grande, pela seguinte denominação: “decaídas”. Em décadas seguintes, nas de 1960 e de 70, essas mulheres passaram a ser pensadas na imprensa periódica da urbe como mariposas (alusão à borboleta que só sai a noite), rameiras, camélias, vadias ou mulheres de vida fácil.

O termo prostituta, embora utilizado em certos momentos, quase não é citado nos periódicos durante o período que compreende as décadas de 1940 a 70. Os ambientes em que elas trabalhavam recebiam o nome de lupanares, casas suspeitas ou rendez-vous.578 Posteriormente passaram a ser bordel, casa de zona, casas de prostituição, casa da luz vermelha ou dancing.579

578 A origem do termo lupanar provém da palavra latina lupa. Lupanar quer dizer “covil de lobas”, termo que

designava os prostíbulos na Roma Antiga. Os romanos certamente deram às prostitutas o apelido de lupa por causa do apetite particularmente exacerbado da fêmea do lobo. Em Roma, o termo oficial para designar prostituta é meretrix, “a ganhadora”, conforme escreveu SALLES, Catherine. Nos submundos da Antigüidade. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 171-173. Paul Veyne assegurou também que desde a Antigüidade “os bebês abandonados só tiveram saúde graças a uma mulher batizada como Lupa (a loba) pelos pastores, aos quais ela se prostituía. Esse apelido, segundo os antigos, unia o odor à capacidade do animal no sentido da obscenidade proverbial das prostitutas. Quer seja fantasiosa ou não essa explicação para o nome de Loba, a prostituta ficou sendo a “loba” espreitando a presa de seu antro, o “lupanar”. VEYNE, Paul. Sexo e poder em Roma. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 195. O significado contemporâneo leva a entender o lupanar como uma casa ou zona de meretrício, prostíbulo ou puteiro. Rendez-vous, por sua vez, tem origem na língua francesa e traduz-se por “encontro”, em princípio sem o cunho amoroso ou sexual. No contexto histórico das fontes analisadas neste trabalho, rendez-vous designa, no entanto, local de encontro de duas pessoas em determinado lugar, como um hotel ou uma hospedaria onde se alugavam quartos a hora para encontros amorosos ou para a prática de sexo. Há também uma especificação do termo, sugerindo que rendez-vous é o bordel que existe fora da zona de meretrício. Vale destacar que a grafia do termo variou conforme cada periódico.

579

Agradeço imensamente as valiosas informações que me foram prestadas pela historiadora Maria Madalena Dib Mereb Greco, minha colega de graduação no curso de História da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) entre os anos de 2000 a 2003, em especial pelo cotejamento de dados entre os periódicos antes mencionados, pelas leituras atentas de partes deste texto e da tese e, não menos, pelas conversas sempre produtivas. Exceto os exemplares do impresso Correio do Estado, todos os demais estão no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. Ver em especial as seguintes matérias: Trottoir das mariposas no centro da cidade. A Luta Matogrossense, Campo Grande, p. 1, 13 jan. 1972 e Mundana encabeçava bando de pivetes. A Luta Matogrossense, Campo Grande, p. 1, 12 fev. 1972.

198

A presença de pessoas comuns, como das chamadas mulheres de vida fácil, se tornou muito visível por meio da análise de fontes como abaixo-assinados e queixas, geralmente feitas ou remetidas às autoridades policiais do período e até mesmo ao CE.580 Vejamos alguns exemplos desta prática. No dia 23 de abril de 1963 foi entregue ao senhor Benedito Couto, que era major e delegado regional do Bairro Amambaí, de Campo Grande, um abaixo-assinado que continha, conforme noticiou ao CE, “centenas de assinaturas”.581

Imagem 44. Mapa da região do Bairro Amambaí.582

Essa população compunha-se sobretudo de proprietários de casas comerciais e de pessoas residentes na Rua Coronel Ponce e proximidades destas. Esses sujeitos foram até as autoridades policiais do Bairro Amambaí para “apelar” ao delegado regional Benedito Couto no sentido de ver se este podia “por termo aos escândalos e outras infrações a ordem pública levadas a efeito pelas casas de prostituição sediadas naquela rua e suas travessas, verdadeiros acidentes da sociedade campo-grandense.”583

Os moradores “de bem” alegaram que o fato não era novo e que a polícia já sabia desta situação e dos problemas dela decorrentes, pois estes mesmos moradores já tinham, meses antes, se dirigido ao delegado Couto, no entanto, o major limitou-se a não mais fornecer com tanta freqüência autorizações para que os empresários realizassem bailes nos seus estabelecimento comerciais.

580

Em pesquisa nos arquivos de delegacias da cidade de Campo Grande, não encontrei os referidos abaixo- assinados e nem as queixas.

581

Proprietários e moradores do Amambaí contra cenas degradantes da Rua Cel. Ponce. CE, Campo Grande, p. 4, 27 abr. 1963.

582

GOOGLE MAPS. Disponível em: <http://maps.google.com.br/maps?hl=pt-BR&tab=wl>. Acesso em: 24 jan. 2011.

583

Proprietários e moradores do Amambaí contra cenas degradantes da Rua Cel. Ponce. CE, Campo Grande, p. 4, 27 abr. 1963. Região do Bairro Amambaí Centro da cidade Estação Ferroviária da RFFSA Estação Rodoviária

199

Um destes comércios, e que chamava muita atenção pelo fato de ser “uma daquelas casas”, ficava no número 347 da Rua Cel. Ponce, e por lá havia “muitas vezes por semana” os tais bailes. Mas o baile, em si, não era o único problema à sociedade “de bem”. Os integrantes deste tipo de festa, não raramente, extrapolavam os limites moralmente aceitáveis para aquele mundo, chegando-se até a realizar cenas de nudez e de embriagamento em pleno espaço público.

Via-se com muita freqüência, segundo consta no abaixo-assinado, “mulheres seminuas, embriagadas, promovendo desordens na via pública”. Diante desse problema que não findava aos moradores resolveram então recorrer novamente ao delegado Couto, que era a “autoridade policial máxima no sul do Estado para que vossa intervenção possa moralizar aquela zona, tornando-a em condições de ali residirmos com nossas famílias.”584 E o CE emitiu a seguinte afirmação sobre o fato: “Acreditamos que a autoridade policial já tenha tomado as providências cabíveis para moralizar a Rua Cel. Ponce, no Amambaí.585

Essa matéria mostra a insatisfação social de um grupo da elite diante da presença de pessoas “sem moral” coabitando os mesmos espaços que ela. A prostituição e as prostitutas, embora textualmente não tenham sido mencionadas na matéria jornalística e nem no abaixo-assinados, foram retratadas como “verdadeiros acidentes da sociedade campo-grandense” e, portanto, pode-se depreender que, como “acidentes”, precisavam ser tratados e corrigidos para que não produzissem outros acidentes sociais.

Em 1967, a questão permaneceu ainda como problema que devia, o mais rapidamente possível, ser resolvido, mas não de forma temporária, e sim de modo perene. Parte da não solução do problema se devia a existência de autoridades policiais que estavam envolvidas com as casas de prostituição. Alguns policiais eram donos e sócios destes lugares. No entendimento do CE, isso era “falta de compostura e decoro”, uma vez que deviam combater este tipo de prática e não obter lucros por meio dessa forma de comércio e trabalho.

O caso foi denunciado inclusive no plenário da Câmara de Vereadores de Campo Grande. Alguns munícipes e políticos acusaram parte dos integrantes da polícia local de serem eles mesmos os proprietários da maioria das casas de tolerância e dos prostíbulos existentes nas áreas oeste e sul da cidade. Em específico, apontou-se que um oficial do Exército, que estava à disposição do governo estadual, à época exercido pelo governador Pedro Pedrossian, e que além desse cargo exercia também as funções de secretário de Segurança e de Comandante Geral da Polícia Militar do Estado no ano de 1967, era um dos principais donos deste tipo de estabelecimento.

584 Proprietários e moradores do Amambaí contra cenas degradantes da Rua Cel. Ponce. CE, Campo Grande, p.

4, 27 abr. 1963.

585

200 Para o CE, essa forma de ação por parte de autoridades policiais era, naquele momento, inaceitável, uma vez que o Brasil passou a viver, após 1964, “uma revolução” que combatia “sem tréguas” a corrupção. A Revolução de 64 também restabeleceu “o perdido decoro na vida pública e particular da Nação”, portanto, também não era admissível “que certos sargentos da Milícia estadual, quiçá por falta de orientação dos chefes e superiores hierárquicos,” exercessem determinadas funções. Na condição de autoridades policiais, esses sujeitos deviam defender a legislação nacional. Entretanto, infringiam estas mesmas leis.

Esses policiais aliavam “aos deveres de milicianos a função de donos de bordéis e casas de tolerâncias numa falta de compostura e decoro” que não podem ser tolerados pela sociedade local. Ao terem denunciado publicamente o fato, os vereadores, que segundo o CE eram os “representantes do povo”, colocaram o “dedo na chaga” da prostituição. Essa atividade era extremamente visada e quase que monopolizada pelas autoridades policiais por ser “um meio de ganhar dinheiro fácil.”

Na cidade havia estabelecimentos deste tipo nas “imediações do quarteirão onde se instala o famoso Ponto Azul.” Lá, segundo publicou o CE, “funcionam nada menos que quatro “chinfrins” de propriedade de sargentos músicos da Milícia.” Já a área sul da urbe possuía casas de tolerância “nas imediações do Cemitério Santo Antônio, onde o pau quebra semanalmente.” Esse estabelecimento, por sua vez, era “uma boate do sargento fulano”, cujo nome não foi mencionado pelo periódico.

Imagem 45. Mapa da região do Cemitério Santo Antônio.586

586 GOOGLE MAPS. Disponível em: <http://maps.google.com.br/maps?hl=pt-BR&tab=wl>. Acesso em: 24 jan. 2011. O

Cemitério Santo Antônio, embora já existisse nesse local desde a década de 1910, só recebeu essa denominação em 1962. Naquela época, era o mais tradicional campo santo da cidade. SOUZA, Fabio William. Fronteiras póstumas: a morte e as distinções sociais no Cemitério Santo Antônio. 2011. 141 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Dourados, 2011, p. 127.

Cemitério Santo Antônio Centro da cidade