O desenvolvimento e a difusão da tecnologia no e-commerce não serão tão lentos quanto foram na indústria e comércio tradicional por meio de sistemas integrados de gestão (ERP) na década de 1990. Estes modelaram processos físicos e suas decorrências de controle e gerenciamento.
A base material controlada pelos sistemas de gestão integral do comércio eletrônico é menor e a intensificação tecnológica é maior do que no comércio tradicional, tornando-o mais próximo dos sistemas financeiros, cuja capacidade de mudança dispensa comentários. Disso deriva uma vantagem competitiva das grandes lojas virtuais, pois elas rapidamente conseguem “pôr em funcionamento” as inovações tecnológicas, visto que sua ligação com o mercado é predominantemente digital.
Outra característica importante do comércio eletrônico é que sua plataforma tecnológica está sendo desenvolvida pelas empresas monopolistas do ramo e não por empresas de software, como foi o caso dos grandes ERPs. Ademais, a plataforma tecnológica também está sendo utilizada como produto (marketplace), inovando e reagindo rapidamente às inovações da concorrência.
O alto nível de sistematização de processos e de automação das atividades, associados à rapidez da instalação, aceleram o ritmo de trabalho e aprofundam o fosso a separar as empresas monopolistas do comércio eletrônico das demais lojas que o compõem, fenômeno que está na base exploração destas por aquelas.
O canal de vendas virtual é forçado a intensificar a utilização da tecnologia no sentido da redução do capital circulante, no controle integral do processo de atendimento e na redução dos custos salariais devido às melhorias de desempenho de seus próprios fatores competitivos: ocupação do espaço de armazenagem, movimentação de mercadorias e acuracidade do estoque em seus depósitos; entrega em domicílio; fracionamento da
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separação; aumento da variedade da oferta; atendimento pós-venda integral sem contato direto com o consumidor e redução do prazo de entrega.
No entanto, a inevitável e acelerada incorporação de tecnologia no comércio tem contradições. Como condição de existência, o varejo eletrônico é compelido a reduzir o capital mercantil, ao mesmo tempo em que, globalmente, reduz a proporção do lucro mercantil em relação ao lucro produtivo. Além disso, a intensificação tecnológica eleva o capital orgânico do comércio eletrônico e, como conhecimento codificado e não tangível, ele tende a se tornar mercadoria, permitindo sua utilização pelo próprio capital produtivo – o comércio eletrônico se descaracteriza, deixando de ser exclusivamente varejista.
Concluindo, este segmento tende à oligopolização bem mais acentuada e rápida do que o varejo tradicional, com a particularidade de não recorrer, necessariamente, à concentração de capital ao usar uma nova modalidade de centralização baseada na tecnologia a explorar o capital de terceiros, tema que será mais amplamente desenvolvido nesta Dissertação.
5.4.1. Ganho monopolista do comercio sobre os fornecedores
Admitindo: o capital investido para realizar determina mercadorias gire n vezes num ano, seja CK como o capital constante dispendido a cada ciclo e CC o capital circulante anual dispendido e MV a massa de mais valia gerada a cada ciclo. Assim, num ano, a taxa de lucro seria MV.n / (CK.n + CC). Multiplicando numerador e denominador por n≠0, a expressão anterior ficará MV/(CK + CC/n), logo, quanto maior for a rotação do capital, maior será a taxa de lucro anual. No geral, a proporcionalidade da taxa de lucro em relação ao capital adiantado entre as esferas produtivas e de circulação se encarregará da distribuição do lucro entre as esferas.
Sabe-se que os investimentos em propaganda institucional aceleram a realização das mercadorias e aumentam o capital fixo69. Por outro lado, a força da marca (investimentos passados em propaganda) é fator positivo na aceleração da rotação de estoque reduzindo o capital circulante. A redução do capital circulante agregado compensa o aumento do capital fixo, conferindo vantagens às lojas com marcas consolidadas no mercado. Este fenômeno se aplica com maior clareza nas promoções específicas. Dessa forma, o poder de mercado presente na negociação indústria-comércio individuais distorce a regra geral de proporcionalidade entre lucros adiantados e capitais envolvidos. Assim, empresas
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organizadas em oligopólio tiram vantagens das empresas organizadas em mercados concorrenciais.
5.4.2. Categorias de preço elevado e a concentração de mercado
As mercadorias de preço elevado restringem a distribuição. Quanto maior o preço de produção, maior será o capital mercantil necessário à realização, constituindo-se um fator contributivo à concentração na esfera da circulação em geral, pois para a distribuição de bens de alto valor unitário em grande volume é preciso ter crédito, garantias a serem oferecidas ao fornecedor, condição que elimina os pequenos distribuidores. O grande comércio eletrônico reduz este poder pela sua capacidade de iniciativas comerciais mais efetivas no sentido de aumentar da rotação de estoque. Há exceções, produtos de tecnologia avançada e de consumo massivo, nos quais a indústria reage com sobre preço de monopólio e, pelo prestígio da marca, com a possibilidade da venda direta. (DI GIORGI, 2013a. Online).
5.4.3. Contra tendência à oligopolização: marketplace e venda direta pela indústria Pela eficiência na realização de bens e serviços por meio da articulação entre oferta e demanda, as plataformas digitais de venda estendem seus serviços no sentido de aumentar a rotação do capital de terceiros sem envolvimento algum com a mercadoria. Pela receita auferida graças à intensificação tecnológica e uso da ociosidade mercadológica, este afastamento da venda de mercadoria própria aumenta a massa e a taxa de lucro do grande varejo eletrônico. Outro fenômeno nesta direção é a venda direta da indústria ao consumidor a partir da mesma plataforma tecnológica associada a serviços logísticos e de atendimento ao cliente.
Este ponto é da maior importância, a redução do capital comercial com a intensificação tecnológica, portanto, reduzindo sua participação no lucro global. Ao utilizar seu capital fixo na venda de mercadoria de terceiros, no limite, reduzindo e tendendo a zerar o capital circulante, o grande varejo do comércio eletrônico transforma-se em empresa de tecnologia de informação e comunicação, suportando pequenos e médios varejistas e parte da indústria. Da atividade mestre de comprar para vender, as grandes lojas passam a serem prestadoras de serviço sem a intermediação da mercadoria.
Trata-se de uma tendência específica de oligopolização do mercado, concentrando serviços com descentralização do capital circulante, este, dispersos entre varejistas participantes do marketplace e produtores com vendas diretas.
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Neste sentido, Gorz assinala:
“Não se trata mais de simplesmente reduzir o tempo de circulação do capital tão radicalmente quanto possível, eliminando estoques e todo pessoal estável, à exceção de um núcleo determinado. Trata-se agora de impor uma nova divisão do trabalho, não somente entre prestadores de trabalho, mas entre empresas e capitais. O capital material é abandonado aos “parceiros” contratados pela firma-mãe, que por sua vez assume o papel de suserano: ela os força, pela revisão permanente dos termos de seu contrato, a intensificar continuamente a exploração de sua mão de obra. “
(GORZ, idem, p. 39).