3 Konsumprisutviklingen i Norge
3.2 Anslag på konsumprisutviklingen i 2020
Brook prefere utilizar a palavra experiência ao invés de exercícios, já que segundo ele, sua meta não é a técnica, mas o sabor da técnica. Os exercícios servem para vislumbrar uma possibilidade e através deles é possível "[...]saborear algo de diverso."122 (Brook apud Banu, 1994, p.165). No que tange aos exercícios pretendo analisar um exercício relatado pelo próprio Brook no livro de Banu123 e um exercício experimentado por mim durante uma oficina com Yoshi Oida, durante o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte (FIT-BH), em 2004. Os exercícios servem a uma melhor compreensão dos princípios de trabalho e procedimentos utilizados por Brook no que se refere à ação vocal.
Brook escolhe como ponto de partida um canto de guerra, desmembra o canto de guerra e distribui, entre os atores, uma palavra crucial isolada: flor, canto, morte, mundo. Os atores então devem pronunciar a palavra depois de tê-la deixado agir sobre cada um deles, de forma a permitir que a palavra estabeleça conexões interiores. Brook busca liberar na palavra algo que está latente, em sua sonoridade e nas imagens que ela suscita. A emissão da palavra deve buscar transformar em vibração sonora essa conexão interior. "De início devemos reencontrar o frescor da imagem original."124(Brook apud Banu, 1994, p.168) A palavra estabelece, desta forma, um duplo ligame: ao mesmo tempo em que ativa, é imantada pelas conexões interiores do ator. A palavra, instrumento do trabalho do ator e da linguagem teatral, opera também como veículo para acesso aos processos interiores: o trabalho sobre
122
No original: "[...] assoporare qualcosa di diverso."
123
Banu, Georges. Peter Brook. Da Timone de Atene a La Tempesta. Firenze: La Casa Usher, 1994.
124
si.
O segundo passo seria juntar a essa palavra, a esse substantivo, um adjetivo que passa a operar como um atributo dessa palavra inicial. Depois, pouco a pouco, se começa a concatenar as frases com o objetivo de encontrar uma fluidez. Essa fluidez conduz a uma sonoridade inerente à frase cuja abordagem o ator "[...] deve seguir o movimento das imagens sem impor-lhes um colorido emocional e evitando ainda um tipo de musicalidade unificante que tira a possibilidade de compreender cada uma das palavras. Se você se deixar levar pela música não há nenhuma possibilidade para a palavra. Trabalhem sobre os detalhes."125 (Brook apud Banu, 1994, p.168)
A matéria sonora resultante desse exercício deve servir à ação vocal dirigida ao parceiro de cena e ao público. A palavra enunciada em cena só se torna experiência se existe uma ponte entre as conexões interiores que a palavra suscita e o público.
O exercício trabalhado por Yoshi Oida se baseava em princípios e procedimentos semelhantes ao do exercício relatado por Brook. Tratava-se de um texto em grego arcaico: um fragmento de “Prometeu Acorrentado” de Ésquilo que fora modificado pelo poeta Ted Hughes
ELELEU ELELEU
UPO M’AU SFAKELOS KAI FREENOPLEEGEIS
MANIAI THALPOUS’ OISTROU D’ARDIS KHRIEI M’APUROS
KRADIA DE FOBOO FRENA LAKTIZEI TROKHODINEITAI D’OMMATH ‘ELIGDEEN
EXOO DE DROMOU FEROMAI LUSSEES PNEUMATI MARGOO GLOOSSEES AKRATEES
THOLEROI DE LOGOI PAIOUSS ‘EIKEE STUGNEES PROS KUMASSIN ATEES
O exercício se limitava ao primeiro verso do texto, eleleu eleleu, que os alunos deveriam repetir em voz baixa tratando de descobrir o possível significado do verso,
125
No original: "[...] deve seguire il movimento delle immagini senza minimamente colorirle emozionalmente e tuttavia evitando quella musica unificante che toglie la possibilità de capire ciascuna parola. Se ci si lascia trasportare dalla musica non si dà più alcuna opportunità alla parola. Utilizzate il particolare."
a partir das associações, imagens e sensações que sua pronúncia (e sonoridade) suscitava. Oida pedia aos alunos da oficina que ficassem 'vazios' e buscassem capturar a ressonância das palavras em si, também falava que deveriam, de alguma forma, se aproximar do verso grego quase como se perguntassem à sonoridade a que ele (o texto em grego) fazia referência. A busca através da sonoridade não implicava introspecção, deveria ser realizada sobre si, mas em relação aos movimentos do corpo, ao espaço e aos outros alunos-atores.
O resultado foi bastante rico. Não obstante o significado exato não tenha sido descoberto, quase todas as impressões tinham relação com o significado daquelas palavras. Alguns falavam em 'pesar' ou 'penar', outros descreviam uma sensação (ou impressão) de que o desenho melódico do verso, quando emitido, fazia um pequeno círculo e retornava ao emissor. 'Eleleu eleleu'126, segundo Oida, normalmente é traduzido por 'ai de mim'.
Oida relatou, durante essa oficina de três dias, que Brook desenvolveu esse exercício para redescobrir o significado 'forte', 'vital' das palavras da tragédia, de forma a se aproximar desse universo esquecido. Para tanto, o primeiro passo consistia em esvaziar as palavras de todo seu conteúdo (ideológico e histórico) e reencontrá-la através da sonoridade.
A aproximação de Brook com o universo grego visava, principalmente, criar um impacto na subjetividade do atuante e do público: um acesso às camadas mais profundas da subjetividade onde as distinções entre o eu e o outro, entre o individual e o mítico não são tão definidas. Desta forma, a ação vocal era um instrumento tanto para a descoberta dos significados latentes na sonoridade da palavra quanto para a investigação dos processos interiores: o acesso a outro sujeito que fala. A
126
Segundo o dicionário eletrônico: Lideell, Henry George & Scott, Robert. A Greek English
Lexicon. Eleleu, ou a forma dupla Eleleu Eleleu (ἐλελεῦ ἐλελεῦ) aparece tanto no Prometeu de
Esquilo quanto na obra de Plutarco. Em Prometeu, a expressão é uma interjeição de dor cujo significado se aproxima de 'um grito de dor' (no original: a cry of Pain). Na tradução comentada da
Harvard College Library, a expressão também é considerada uma interjeição tal como Aleluia. "This,
like the Allelujah, is gennerally the shout of joy; here of pain." (Longman, Baldwin and Whittaker, 1831, p.106). As demais informações sobre essas consultas foram colocadas nas referências bibliográficas.
experiência artística com o grego antigo era, ao mesmo tempo, laboratório para a cena e trabalho sobre si.
A eterna questão é: somos bons instrumentos? Para isso temos que saber: qual a finalidade do instrumento?
O objetivo é sermos instrumentos que transmitam verdades que de outro modo permaneceriam ocultas. São verdades que podem surgir de fontes profundamente íntimas ou muito distante de nós. [...] Em cada caso, a vida que estamos buscando significa ruptura com uma série de hábitos. Um hábito de falar; talvez um hábito criado por toda uma linguagem. (Brook apud Oida,1999[1992], p.63)
Os hábitos representam uma resistência, uma força de inercia, que impede o acesso aos processos interiores e a manifestação da vida. A ação vocal se apresenta como uma possibilidade de ampliação tanto dos recursos vocais (reprimidos pelo uso limitado da voz no cotidiano) quanto da percepção de si (determinada por um modo de vida em que, habitualmente, corpo e mente encontram-se apartados). O trabalho de Stanislavski, Grotowski e Brook opera nessa dupla perspectiva.
Os procedimentos utilizados por esses diretores revelam, através da direção/condução dos exercícios, os princípios relativos à voz e a eficácia da ação vocal no trabalho do ator e no trabalho sobre si. A ação vocal se afirma na transmissão do subtexto (Stanislavski); em relação às associações (Grotowski); como meio de captura de significados latentes na sonoridade (Brook). A relação entre a sonoridade e o sentido das palavras é uma ferramenta de leitura para se compreender os objetivos da ação vocal. A especificidade dessa relação, em cada um desses diretores, evidencia as aproximações e escolhas no trato com a emissão vocal como um todo (voz + palavra). A forma como essas duas instâncias se articulam é o tema do próximo tópico.