http://www.youtube.com/watch?v=5Vx_4wmVtRk&feature=related
Usando seu celular, um aluno gravou as cenas que acabaram em um Boletim de Ocorrência Policial, na avaliação de desempenho e da (in)capacidade do professor para exercer suas funções e, finalmente, no noticiário da TV.
A notícia veiculada pelo jornal foi postada no Youtube em 17 de abril de 2011 por alguém que se identificou como “pauloalx” e já atingiu a marca de 309.178 acessos e 763 comentários, sendo que a maior parte deles manifesta repúdio à atitude do professor.
A filmagem registra o momento em que o professor segura a aluna de onze anos pelo braço, levando-a, à força, para sua carteira. O único som que se ouve é o dos gritos da aluna. Impossível saber se a “platéia” (os demais alunos) estava realmente inerte e com a disposição de, simplesmente, assistir ao espetáculo ou se a filmagem está a tal ponto deficiente e prejudicada que esses registros foram excluídos naturalmente.
O professor, sem dizer nenhuma palavra, empurra e puxa a garota, segura-a pelo braço em uma atitude denotativa de muito estresse.
A qualidade técnica do vídeo é muito baixa. Som difuso e imagem com pouca clareza. No entanto, a tensão, a medição de forças e o desrespeito mútuo impressos na relação professor/aluno ficam evidenciados.
Assim como em muitas outras filmagens realizadas por alunos com seus celulares nas escolas, postadas no Youtube e assistidas por milhares de internautas, também aqui pode-se constatar a banalização da violência a que recorrem professores e alunos como sendo a melhor, se não a única, forma de solucionar conflitos, crença divulgada e reforçada pelos meios de comunicação.
Até mesmo os desenhos animados produzidos para crianças mostram um herói violento e armado, dotado de inúmeras capacidades e de força corporal, de raios paralisantes, espadas, armas de fogo e diversas artimanhas.
[...] para vencer o mal que ameaça a sociedade, a televisão fabrica seus herois destemidos e fortes, sempre dispostos a demonstrar que o uso da agressão é imprescindível ao propósito de vencer o inimigo, representado, é claro, como “do mal”. (BARBOSA, 2002, p. 115)
“Em certas circunstâncias a antibarbárie requer a barbárie” é o que diz Adorno (1995, p. 165). Youcenar, seguindo o mesmo raciocínio, vê na guerra um meio de se atingir a paz. (2003, p. 89)
Quem pode garantir que estas cenas extremadas de maus relacionamentos, lutas físicas e psicológicas que têm sido recorrentes e consideradas naturais no ambiente escolar, como na sociedade, não possam ser o elemento detonador de uma reação capaz de alterar essa triste realidade, uma vez que quando amplamente divulgadas impactam fortemente as pessoas que as assistem?
Entretanto, para que situações como a ocorrida nessa escola estadual de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, em uma classe de 5º ano, não se configurem tão somente como um ato de violência gratuito é necessário que os envolvidos, direta ou indiretamente nos episódios, submetam-se a uma crítica lúcida, assim como também avaliem criticamente o incidente, as ações dos atores sociais e o que se esconde por trás dessas manifestações egoistas.
Nesse vídeo, o que se vê é uma tensão gerada pelo binômio adaptação e reação. O professor, voltando à sala de aula após longo tempo de afastamento, talvez tente adaptar os alunos a uma realidade já não mais existente, enquanto a aluna reage a essa imposição. Há tentativa de impor uma adaptação e reação de ambos os lados. Um estranhamento, um diálogo que não se concretiza devido à concorrência entre duas linguagens, dois pensamentos distanciados no tempo.
Cada um dos lados vê no outro o agressor, o inimigo a ser combatido. Na filmagem, a aluna alega ter se levantado apenas para jogar, no lixo, uma goma de mascar. Como não há registro dos momentos que precederam a discussão, não ficam devidamente esclarecidas as causas que deram início à disputa.
É inimaginável uma formação que contemple conceitos como cidadania, respeito, autonomia e democracia em um ambiente permeado e penetrado de tensões e lutas abertas. Talvez, em um rompante de otimismo, possamos ver nessa ampla divulgação das condições
lamentáveis em que se encontra a educação no país um caminho para a busca de alternativas solucionadoras.
A mãe da aluna registrou queixa contra o professor que, a partir desses acontecimentos, será avaliado psicologicamente, correndo o risco de ser afastado de suas funções e em prejuízo de toda a sua carreira. Tudo graças às mudanças dos tempos e à tensão que permeia o processo de adaptação e reação.
No presente caso faz-se necessária uma reflexão acerca de até que ponto o professor estaria se utilizando de sua prerrogativa de educador (formador) para simplesmente impor uma norma, uma regra, na espectativa de criar seres adaptados, heteronômicos, incapazes de qualquer reação.
Adorno, em “A Filosofia e os Professores” afirma que:
Eles (os professores) não devem sufocar suas reações afetivas, para acabar revelando-as em forma racionalizada, mas deveriam conceder essas reações afetivas a si próprios e aos outros, desarmando desta forma os alunos. Provavelmente um professor que diz: “sim, eu sou injusto, eu sou uma pessoa como vocês, a quem algo agrada e algo desagrada”, será mais convincente do que um outro apoiado ideologicamente na justiça, mas que acaba inevitavelmente cometendo injustiças reprimidas. (1995, p. 113)
Esta é uma afirmativa que pressupõe maturidade e humanidade, compreensão de que o outro é falho, é tão humano como ele mesmo e que tem o direito de cometer erros.
Não é o que ocorre na presente situação. O professor, com certeza, extrapolou os limites de uma ação equilibrada, exteriorizando uma emoção limítrofe. Ele expôs sua fúria, seu inconformismo diante do que considerou uma transgressão e partiu para uma atitude descontrolada de agressão física, tentando fazer com que a aluna se ajustasse a seus parâmetros do “bom aluno”, conforme seu conceito atemporal de formação.
Os quase 800 comentários dividiram-se em manifestações de defesa e condenação do professor. Os alunos que se posicionaram em defesa da aluna o fizeram em termos grosseiros e que denotam o desgaste da imagem do docente:
- Ta explicado, ele dava aula em 1970, naquele tempo os alunos apanhavam até de virar pro lado.
- kkk, se um professor tentasse me pegar assim pelo braço eu dava uma baiana cabulosa nele kkk.
- Simples vai lá e arrebenta a cara dele na paulada 'véio forgado’.
- Bom, muito simples... só voltar no dia seguinte e dar umas belas facadas nesse véio desgraçado.
- Na minha época respeitávamos os professores... eles eram severos... hj... deram liberdade pra mulekada agora aguenta...
Assistindo ao vídeo e lendo os comentários podemos perceber o alto grau de desgaste da imagem do professor, dos descaminhos da escola e da ação que a mídia exerce sobre a semiformação dos indivíduos.
O que pode se ver como um aspecto positivo dessas filmagens postadas no
Youtube é a transparência que elas conferem a uma realidade que, sem essa divulgação,
estaria condenada a permanecer confinada às paredes das salas de aula, o que impossibilitaria uma possível reflexão, uma análise crítica que se constituí no único caminho para os ajustes tão necessários.