3.4 Data Collection
3.4.2 Interview Techniques
O modelo ecológico de DORT´s proposto por Sauter e Swanson (1996), que é um paralelo ao modelo de estresse transacional de Lazarus (1991), coloca que a organização do trabalho tem impacto na tensão psicológica percebida pelos colaboradores, e assim não descarta nem fatores físicos, nem psicológicos como responsáveis por problemas de saúde de ordem física, mas sim afirma que o meio ambiente pode elevar a tensão, e esta tensão contribuir fatalmente para a DORT.
60 Embora se acredite que o modelo de Sauter e Swanson (1996) esteja correto, o modelo biopsicossocial (MELIN; LUNDBERG, 1997) melhor se adapta ao estudo aqui realizado, pois afirma que estressores psicossociais levam certamente ao aparecimento de distúrbios osteomusculares, que são as respostas fisiológicas que o corpo dá, devido à tensão muscular.
O modelo biopsicossocial, quanto à origem da dor, tenta explicá-la colocando o estresse ocupacional em função de entradas somáticas (estímulos agressivos), processos psicológicos (crenças, humor, etc.), e contingências ambientais (normas culturais, expectativas, etc.), tendo como resultado um efeito, que dependendo da habilidade do organismo de se estabilizar, pode causar danos à saúde ou causar uma aprendizagem, possibilitando ao indivíduo uma capacidade de se adaptar e enfrentar outras situações adversas (ARAÚJO et al., 2013). O problema está na primeira situação, no qual o organismo não se adapta e as dores têm origem.
Larsman et al. (2013) verificou em uma amostra de 200 secretários de saúde que o estresse percebido causa tensão muscular, que são as causas das dores nesses profissionais, principalmente aquelas na região do pescoço e ombro. Nimbarte et al. (2012) encontrou resultados semelhantes, e afirmou que níveis de estresse elevado causam aumento na atividade muscular, principalmente do ombro e pescoço, afetando a carga muscular percebida, com maior dano quando o esforço físico é precedido de exigências mentais elevadas.
Assim existe uma relação direta entre estresse, tensão e aparecimento de dores, algo que se reflete no aparecimento de queixas musculoesqueléticas (IJZELENBERG et al., β004; SAASTAMOINEN et al., β009; EATOUGH et al., β01β; YU et al., β01γ), além de dores de cabeça (ABBE et al., β011).
Para Courvoisier et al. (2011) a tensão (que nasce do estresse) tem relação com o aparecimento de dores nas costas. A alta tensão proporcionada pelo estresse contribui também para o aparecimento de dores na parte superior do trapézio (SHAHIDI et al., 2013). Já Harris- Adamson et al. (2013) verificou que tensão tem relação com o aparecimento de síndrome do Túnel de Carpo. Punnett et al. (2004) encontrou relação entre tensão e dores nos membros superiores em trabalhadores de uma indústria automobilística.
Esse aumento da tensão se deve a ação dos hormônios. O estresse crônico estudado por Bellingrath et al. (2013) causa um regulamento anti-inflamatório muito menos eficaz por glicocorticoides, devido à falta de equilíbrio no esforço-recompensa. Um estudo semelhante realizado por Bathman et al. (2013) onde este avaliou o cortisol salivar e da imunoglobina resultante de estresse pelo desequilíbrio esforço-recompensa, verificou-se um elevado risco de doenças.
61 Lundberg et al. (1989) em seu estudo verificou a presença de catecolamina (hormônios ligados a situações de estresse psicológico) na presença de trabalhos que exijam pressão de tempo e pressão por demanda. Assim, quando a adrenalina está alta e o cortisol baixo, encontra-se um cenário de desequilíbrio nos hormônios do estresse, tornando a realização da tarefa para o corpo algo desestimulante (ARAÚJO et al., 2013), que pode estar relacionado a problemas fisiológicos e psicológicos. O efeito dos homônimos do estresse pode ser mais bem compreendido na figura 8.
Figura 8 - Influência dos hormônios do estresse sobre órgãos, músculos e células do corpo
Fonte: Albrecht (1988)
Quando o cortisol e adrenalina crescem juntos e chegam aos músculos, o colaborador, durante a execução das suas funções laborais, experimenta uma situação na qual o esforço percebido se intensifica e com ele o nível de estresse relatado (Karasek, β008) algo que explica o impacto dos hormônios sobre o organismo.
6β Davis e Heany (β000) buscam explicações para o aparecimento de dores por fatores psicossociais, e concluíram que:
Os fatores psicossociais se relacionam ao aparecimento de dor lombar que é justificado pelo aumento de carga sobre a coluna vertebral;
Os fatores psicossociais causam várias reações químicas no corpo durante a excussão das tarefas e acumulo de metabólitos que resultam em dores;
Os fatores psicossociais como o estresse aumentam à sensibilidade a dor e propensão a lesões.
Em outras palavras, não só os fatores biomecânicos colaboram para o aparecimento de dores, mas também as reações químicas (e seus metabólitos) originárias dos fatores psicossociais, que contribuem parar o aparecimento e aumento de sensibilidade a dores no corpo humano, causadas ou agravadas pela realização das atividades laborais.
2.6 Pontos de discordância dos autores na relação fatores psicossociais e DORT´s
Embora que muitos estudos mostrem a existência de uma relação entre condições de trabalho psicossociais ruins e o aparecimento de DORT´s, uma corrente contrária de autores em alguns estudos, não encontraram resultados semelhantes a da literatura geral. Exemplo disso foi o estudo de Bugajska et al. (β01γ) que verificou que insegurança no emprego e apoio social não têm relação com o aparecimento de LER no trabalho.
Jensen et al. (β01γ) não encontrou indícios suficientes para relacionar fatores psicossociais e dores nas costas e nas extremidades superiores. Ferguson et al. (β01β) avaliando vários fatores psicossociais, entre entregadores e instaladores de móveis observou que tais fatores não têm influência significativa para o aparecimento de dores na lombar. Na mesma linha de análise, Steffens et al. (β014) consultou a opinião de 10γ médicos, e através de estatística descritiva e de distribuição de frequência verificou que os fatores psicossociais não foram aprovados como fatores de risco para o aparecimento de dores na lombar.
Segundo os resultados da regressão log-binomial realizada por Miranda et al. (β008) elevado estresse no trabalho (elevadas demandas e baixo controle sobre o trabalho), não tem associação com o surgimento de dores na região do lombar, entre trabalhadores da indústria florestal finlandesa.
6γ elevadas demandas sensoriais, latitude de decisão/autonomia/ baixo controle sobre o trabalho, baixo apoio social não tem relação com o aparecimento de dores na região do pescoço, cotovelo e lombar, entre trabalhadores que usam com frequência o computador. Na Bélgica, Clays et al. (β007) constatou que o estresse não causa dores na lombar nos homens e mulheres. Descatha et al. (β004), na França, com uma amostra formada por indivíduos da população geral francesa, verificou que elevadas demandas de trabalho não têm relação com dores nos membros superiores.
Os estudos realizados por Bongers et al. (199γ) e Burdorf e Sorock (1997) não encontraram relação forte entre a insatisfação no trabalho e o aparecimento de sintomas de dores na lombar. Já Hartvigsen et al. (β004) não encontraram relação forte entre estresse e dores ao realizar uma revisão crítica em 46 artigos, publicados entre os anos de 197γ e 199β (embora que muitos desses estudos tenham problemas metodológicos). Beeck e Hermans (β000) analisando os resultados de outros autores sobre controle do trabalho verificaram que não existem indícios suficientes para afirmar que a autonomia leva ao aparecimento de dores.
Hill et al. (β004) analisando uma amostra de 786 da população geral do Reino Unido, observou, através de um modelo de regressão logística que, a insatisfação no trabalho (fator psicossocial) não tem associação/relação com o aparecimento de dores na região do pescoço (cervical). Nos EUA Werner et al.(β005a) analisando uma amostra formada por trabalhadores de escritório e da indústria, observou que insatisfação no trabalho não tem relação com dores no cotovelo. Sadeghian et al. (β01γ), ainda no Iran, observou essa relação e verificou que a insatisfação no trabalho não está associada a dores no pescoço e ombro. Nos Estados Unidos Smith et al. (β009) em uma amostra de 4β4 trabalhadores (sem especificar os locais de trabalho) não observou relação entre dores no ombro e baixo controle sobre o trabalho realizado por tais trabalhadores.
Os resultados de Kim et al. (β010), analisando uma amostra de cuidadores que trabalham em domicílio, mostram que os fatores psicossociais tiveram pouca influência sobre o aparecimento de dores, sendo as demandas físicas mais importantes para o aparecimento de dores musculoesqueléticas. Luime et al. (β004), analisando uma amostra formada por muito profissionais de várias áreas, tais como, enfermeiros, cuidadores de idosos, governantas, fisioterapeutas, profissionais de manutenção, concluiu que baixo controle sobre o trabalho, elevadas demandas de trabalho, baixo apoio social não tem relação com o aparecimento de dores na região do ombro e pescoço.
Hoogendoorn et al. (β000) encontrou resultados insuficientes para afirmar que elevado ritmo de trabalho, elevadas exigências qualitativas para o trabalho e baixo controle sobre o
64 trabalho, são fatores psicossociais que causam dores nas costas. Nielsen et al. (β01γ) não encontrou relação suficiente para afirmar que trabalhadores dinamarqueses de diferentes funções se afastavam dos seus trabalhos por um longo período de tempo devido ao fator psicossocial desequilíbrio esforço-recompensa.
Choobineh et al. (β011) observou que, entre trabalhadores de escritório, que fatores psicossociais, tais como, a baixa latitude de decisão, elevadas exigências psicológicas, elevadas exigências do trabalho físico, incluindo o esforço físico e carga física isométrica, elevados perigos ocupacionais, e o baixo apoio social não tem relação significativa com o aparecimento de dores.
Sadeghian et al. (β01γ) analisando trabalhadores de escritório e enfermeiros observou que o impacto dos fatores psicossociais é relativamente baixo no aparecimento de dores no pescoço/ombro. Já Kääriä et al. (β011) verificou que os fatores psicossociais não foram associados ao aparecimento de dores na região do pescoço e lombar, entre funcionários públicos.
Bot et al. (β007) analisando uma amostra de γ4β pacientes observou, através de regressão de Cox, que os fatores insegurança quanto à manutenção do emprego, baixo controle sobre o trabalho, elevadas demandas de trabalho físico, baixo apoio social, e estresse no trabalho, não tem relação com o aparecimento de dores na região do pescoço e dos membros superiores.
Neupane et al. (β01γa) analisando em dois momentos amostras diferentes (β005 com amostra de 1β01 e β009 com amostra de 7γ4) não encontrou associação entre o aparecimento de múltiplas dores no corpo com fatores psicossociais diversos. Vandergrift et al. (β01β) não encontrou indícios suficientes para se afirmar que ausência de controle sobre o trabalho, elevadas demandas psicológicas e tensão no trabalho tem relação de forma independente com os aparecimento de lombalgias, de modo que apenas os fatores que envolvem ergonomia física foram considerados como causadores de lombalgias de forma independente.
2.7 Fatores individuais e sua importância na construção do modelo
O efeito dos fatores psicossociais sobre o surgimento de problemas de ordem musculoesquelética depende também de fatores individuais (INTERNATIONAL LABOUR ORGANISATION, 1986) dado que tais variáveis desempenham algum peso sobre o estresse percebido pelos trabalhadores. Embora os estudos dentro desse tema destaquem mais fortemente os fatores psicossociais, não só estes têm influência sobre o aparecimento de dores.
65 As diferenças individuais sempre devem ser levantadas, pois facilitam o entendimento das características da amostra, além de ser fonte de indícios relacionados ao estilo de vida dos indivíduos que a formam. Estudos como o de Yu et al. (β01γ) observam variáveis relacionados ao estilo de vida, tais como o uso de bebidas alcoólicas e de cigarro, como componentes importantes para explicar o aparecimento das dores.
Widanarko et al. (β011) observou que homens e mulheres percebem as dores de modo diferente, sendo diferente a prevalência de dor entre gêneros. Para Wijnhoven et al. (β006) a prevalência de dores musculoesqueléticas ocorre muito mais em mulheres que em homens devido a:
Diferenças biológicas, como força, músculos, hormônios são facilmente perceptíveis entre homens e mulheres;
Mulheres relatam dor mais facilmente que homens, diferentemente dos homens que tendem a esconder dores;
Atividades domésticas e cuidados das crianças são fontes de risco que comumente mulheres são mais expostas que homens;
As condições de trabalho para homens e mulheres não são iguais, sendo as condições de trabalho mais precária para mulheres, recebendo salários mais baixos e ocupando posições inferiores na hierarquia das empresas.
Através dos fatores individuais pode-se também limitar o estudo que se está realizando, pois características individuais dos trabalhadores mudam fortemente entre países, ocupações e gêneros. Niedhammer et al. (β01γ), por exemplo, limitou seu estudo a γ1 países europeus, generalizando seus resultados para as diferentes ocupações presentes nessa amostra. Já Cardoso et al. (β009) limitou seu estudo a professores da rede municipal da Bahia, generalizando seus resultados para tais profissionais, de tal região do Brasil.
2.8 Considerações finais do capítulo
O presente capítulo apresentou e discutiu os principais conceitos sobre ergonomia e suas contribuições para o desenvolvimento sustentável de uma empresa; DORTs e seus efeitos na saúde; e fatores psicossociais e seus efeitos na saúde do ponto de vista fisiológico, psicológico e comportamental nos colaboradores. Esses conceitos nascem da pesquisa exaustiva em bases de dados como o Web of Science e Periódicos CAPES. O procedimento de busca se encontra no próximo capítulo.
66 Assim, pode-se compreender que existem estudos que relacionam os fatores psicossociais ao aparecimento de problemas de saúde (HAUKE et al., β011; WIDANARKO et al., β01β; YU et al., β01γ; CHRISTENSEN; KNARDAHL, β014) e que melhorias na saúde dos colaboradores ocorrem quando são melhoradas as condições psicossociais (LAING et al., β005; LAING et al., β007; HAUKKA et al., β010; CHOOBINEH et al., β011; FERRAND et al. β01β; SCHMIDT et al. β014).
Por causa das condições inadequadas de realização do trabalho, gastos com DORTs estão elevados nos países de todo mundo (COOVERT; THOMPSON, β00γ; WOOLF; PFLEGER, β00γ; EU-OSHA, β010; HSE, β01β; USBLS, β01β; MORAES; BASTOS, β01γ) causando desequilíbrio nos pilares sociais e econômicos da sustentabilidade dos empreendimentos (ZINK et al., β008; THATCHER β01γ) fazendo com que a ergonomia ganhe importância além do posto de trabalho, passando esta a influenciar também nas estratégias desses empreendimentos (DUL; NEUMANN, β009).
Assim, os estudos mostram que as empresas necessitam de uma mudança no foco das suas intervenções ergonômicas, de modo que, não se observe apenas as questões biomecânicas e físicas dos colaboradores, mas também suas necessidades de cunho psicossocial, pois só assim de fato intervenções ergonômicas vão reduzir o número de DORTs e minimizar seus efeitos.
Com base no exposto, observou-se que os modelos apresentados na literatura avaliam fatores psicossociais diferentes, no entanto tais fatores são igualmente importantes, sendo necessários uni-los em um único modelo, de modo a verificar o real impacto desses fatores no aparecimento de DORT. Assim, selecionaram-se os fatores psicossociais avaliados pelo JCQ, ERI, além de outros fatores que não foram contemplados por tais questionários.
Para avaliação dos sintomas de DORT, o questionário nórdico se mostrou um ferramenta que traz respostas rápidas e efetivas para responder as questões relacionadas as dores nas diferentes regiões do corpo humano.
Quanto aos procedimentos matemáticos para se avaliar a relação dos fatores psicossociais e a ocorrência de DORT, concluiu-se que os modelos de regressão logísticas ordinal, por meio de estimadores do risco, são os mais apropriados para quantificar a influência de tais fatores nos sintomas de dor.
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