2.4 A NALYTICAL FRAMEWORK OF THE STUDY
2.4.2 Individual and collective actions as the starting point
Apontar a existência da SAP é algo difícil, no entanto, em quase três décadas, os parâmetros estão sendo estabelecidos gradualmente (Weigel & Donovan, 2006). Gardner (1998; 1999; 2001b; 2003) identificou um conjunto de oito sintomas
comumente demonstrados pelas crianças em casos de SAP, a saber: (1) uma campanha de difamação contra o pai alienado; (2) racionalizações fracas, absurdas ou frívolas para os comportamentos depreciativos apresentados pela criança; (3) a ausência de ambivalência, onde a criança descreve um dos pais por meio de uma visão negativa e o alienador o oposto; (4) pensador independente, tenta-se expressar que a rejeição por parte do filho é um comportamento inato dele, devendo ser respeitado; (5) apoio constante da criança ao alienador; (6) ausência de culpa; (7) presença constante do uso de frases emprestadas, geralmente associadas à difamação do pai alienado; e (8) extensão da rejeição para amigos e familiares do pai alienado. Esses critérios podem ser observados na Tabela 3.
Tabela 3. Critérios diagnósticos da Síndrome de Alienação Parental segundo Gardner Sintoma (Gardner, 1999; 2001b;
2003)
Exemplo
1. Campanha de difamação Seu pai não gosta de você.
2. Justificativas fúteis Não gosto mais do meu pai porque ele não gosta de desenho, por isso não quero mais vê-lo.
3. Ausência de ambivalência Odeio meu pai, não gosto de ser filho dele. 4. Fenômeno pensador
independente
Meu pai é uma pessoa ruim, eu percebi isso sozinho, ninguém me falou.
5. Apoio incondicional ao alienador
Minha mãe está sempre certa, por isso sempre vou defendê-la.
6. Ausência de culpa Não gosto do meu pai, e pronto, não me sinto culpado por isso.
7. Situações fingidas Seu pai abusou de você. 8. Generalização a outros
membros da família do pai alienado
Não gosto de ninguém da família do meu pai.
Nota. Os exemplos foram desenvolvidos para facilitar o entendimento dos oito critérios de Gardner. Dessa forma, entende-se que os mesmos exemplos podem ser aplicados a ambos os progenitores.
Associado a esses critérios, tem-se ainda uma série de fatores externos, como a separação dos pais, o tipo de relação que o genitor guardião tem com seu filho, (por exemplo, tornar essa criança uma confidente, contando estórias ou histórias tristes sobre a relação com o outro progenitor, assim como a distância do pai alienado), a constituição de uma nova família por parte deste progenitor, a ausência do genitor alienado nas atividades importantes para a criança no dia a dia (Féres-Carneiro, 2012). Outro fator relevante é o fato de os filhos, geralmente, permanecerem com a mãe, e ao pai cabe apenas o papel de visitante, muito embora o melhor para a criança é o convívio com ambos os pais.
Kelly e Johnston (2001) apontam que, para se chegar a um diagnóstico eficaz da AP, deve-se considerar uma estrutura de sistemas e questões relacionadas que podem influenciar a criança durante e após a separação. Dentre estas características tem-se: uma história de conflito conjugal intenso, separação humilhante para um dos genitores (em alguns casos traição), conflitos constantes no divórcio litigioso, idade da criança, assim como sua capacidade cognitiva e temperamento, fatores pessoais da personalidade dos pais, as crenças e comportamentos dos pais, e vulnerabilidades do próprio filho dentro da dinâmica familiar. Esses fatores de fundo assumem um papel interveniente na resposta da criança, assim como pode ser verificado na Figura 1.
Figura 1. Fatores que podem influenciar a resposta da criança frente às práticas alienadoras, adaptado de Kelly e Johnston (2001).
A partir da Figura 1 é possível verificar um emaranhado de fatores que podem estar associados ao desenvolvimento das práticas parentais de alienação. É possível verificar ainda, que todas essas práticas estão interligadas, auxiliando a modelar os comportamentos da criança em relação ao genitor que sofre com o processo de alienação.
Segundo Kelly e Johnston (2001), esse processo de separação gera uma ferida narcísica que provoca um sentimento de raiva do ex-cônjuge, fazendo com que este indivíduo se sinta abandonado, principalmente se for associado a uma separação humilhante. Para Kelly e Johnston, alguns dos fatores que podem desencadear isso são a
troca de parceiros, a opção por seguir uma vida gay, muito embora não necessariamente essas práticas surjam de fatores como estes.
Outro fator que possui destaque neste ciclo de alienação constante são as brigas constantes entre o casal. A criança passa a ser o centro de uma pirâmide familiar, com uma tendência a se aliar a um dos pais de maneira mais forte, passando a replicar sentimentos e frases do outro genitor, geralmente a mãe, da qual fica mais próxima a criança (Kelly & Johnston, 2001). Este fator, geralmente, está ligado a um processo de separação litigioso, permeado por brigas, agressões verbais e físicas, como também pode estar associado a falsas acusações de abuso.
Interligado a estes fatores tem-se a constituição de novos parceiros como fator potencializador do processo de alienação, já que não só o outro progenitor, mas a criança pode também se sentir traída, trocada por esta nova figura que antes não existia em seu convívio familiar. Neste ponto, crenças e práticas religiosas também podem influenciar, uma vez que uma condenação congregacional do pai que está procurando o divórcio passa a ser vista como um ato imoral e impróprio, e aquele passa a ser visto como alguém que dispersa a religião.
Ainda segundo Kelly e Johnston (2001), os comportamentos dos pais alienadores estão extremamente relacionados às crenças associadas ao ex-cônjuge, podendo ser realizados de forma involuntária e inconsciente. Contudo, estas crenças podem funcionar como potencializador do ônus ocasionado na relação da criança com o outro genitor. Portanto, isso pode ser uma consequência dos próprios problemas psicológicos dos pais alienadores, que consideram o ex-cônjuge uma pessoa irrelevante para o filho, assim como uma influência negativa sobre a criança. Isso funciona como potencializador para a criança desenvolver crenças como, a de que o pai alienado nunca a amou ou se importou de verdade com ela.
Igual destaque nesse processo de alienação têm as respostas atribuídas pelas crianças aos comportamentos de cada um dos pais, que, em geral, são influenciadas por sua vulnerabilidade psicológica, cognitiva e de desenvolvimento (Kelly & Johnston, 2001). Assim, uma vez que estas crianças não alcançaram o estágio de desenvolvimento em que as avaliações morais e julgamentos são operatórios, configuram-se como um alvo de fácil manipulação. Além disso, crianças muito dependentes do alienador passam a ser mais vulneráveis ao processo de alienação (Silva, 2011).
Assim, este conjunto de ações realizadas por um pai alienador faz com que a criança absorva a ideia de que o pai alienado não é digno de sua atenção. Há que se ressaltar ainda que o próprio descontentamento do pai rejeitado em relação aos comportamentos do filho pode reforçar o processo de alienação (Kelly & Johnston, 2001). Neste sentido, a percepção e as crenças estabelecidas pelas crianças sobre o pai rejeitado proporcionam às crianças alienadas expressar ódio ou antipatia ao pai rejeitado.
Isto posto, evidencia-se que o diagnóstico da SAP é algo bastante complexo, exigente e difícil, requerendo uma avaliação ampla. Para tanto, é preciso compreender os fatores e influências que levam à rejeição brusca dos filhos. Baker, Burkhard e Albertson (2012) consideram que um processo de avaliação útil para o diagnóstico da SAP deve ter em conta os seguintes pontos: (1) existem evidências de uma possível relação positiva entre a criança e o progenitor, agora rejeitado, no período compreendido antes do divórcio?; (2) falta uma conclusão bem fundamentada de abuso ou de comportamentos negligentes do progenitor agora rejeitado?; (3) existe evidência de que o progenitor agora favorecido faz uso de muitas das 17 estratégias de alienação parental primárias identificadas por Baker e Fine (2008)?; (4) há presença de características comportamentais ou relatos, ideias e sentimentos característicos de
alienação na criança? Caso se obtenha respostas favoráveis a todas essas perguntas, acredita-se que a alienação possa estar presente na dinâmica familiar.