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4. Undersøkelsesopplegg og datainnsamling

4.5 a Undersøkelsesdesignet

Nos últimos anos, a Geração Rasca, que já referenciámos atrás e que foi rotulada em 1994 por Vicente Jorge Silva, voltou a ser alvo da atenção mediática e, consequentemente, pública, desta vez como integrante da Geração à Rasca, que começou a ganhar nova forma a 12 de Março de 201164. Quem é esta Geração à Rasca? “Aos 20, aos 30, nalguns casos aos 40, apesar de serem a geração mais qualificada que o país já conheceu, como é reconhecido pelos políticos da esquerda e da direita, uma grande parte ainda não tem estabilidade de emprego ou um salário capaz de lhes garantir o mínimo para a vida adulta: sair de casa dos pais, arrendar um apartamento, constituir família”65. Um dos organizadores do protesto de 12 de Março (2011), João Labrincha,

identificou em entrevista ao DN66 a importância da manifestação ter sido apartidária e a capacidade de disseminação da internet para que o movimento tivesse sucesso. Referiu-

61 Revista Porto Sempre, n.º 29 de julho de 2011, notícia (Limpar a cidade dos graffiti), p. 24. e

Público, 9 de fevereiro de 2012, notícia (Aperta-se o cerco aos graffiti e à publicidade).

62 Como veremos nos capítulos 6-7, esta é uma imagem transmitidas pelos entrevistados, muito

em especial os que fazem graffiti: “No Porto é difícil. Mas existem paredes que na verdade não são

legalizadas, mas que tínhamos consentimento dos proprietários, mas tivemos problemas com a polícia por não termos uma declaração. E por estarmos a destruir… precisávamos na realidade de uma autorização da câmara para mudar a fachada… aí deixamos de pintar… é nas fábricas desativadas.”

(Brown, E1).

63 Público, 11 de agosto de 2011, notícia (Grafito de Lisboa eleito pelo Guardian um dos dez

melhores exemplares de arte urbana).

64 O movimento apelidado de M12M – Movimento 12 de Março, conhecido como Protesto da

Geração à Rasca, surgiu da iniciativa de quatro amigos, Alexandre de Sousa Carvalho, António Frazão, João Labrincha e Paula Gil.

65 DN, 12 de março de 2011 (Uma geração a pedir trabalho digno para sonhar com o futuro,

reportagem enquadrada no foco da crise económica e social), pp. 20-21.

66 DN, 15 de agosto de 2011 (“Endurecer luta, sim, mas sempre de modo pacífico”, entrevista no

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-se à importância da cobertura dos media tradicionais, mais relevante até ao dia 12, mas depois disso praticamente inexistente, como lamentou.

Um dos movimentos mais destacados foi o das acampadas, que começaram por se popularizar em Espanha e, como o nome indica, são ações nas quais os participantes optam por ficar a dormir e até a viver durante alguns dias no local onde realizaram/terminaram as manifestações (por exemplo, na Porta do Sol, em Madrid). Às acampadas associaram-se também assembleias populares, inegável forma de ação do Movimento dos Indignados, que se iniciou em Espanha (movimento 15-M). De recordar, como já dissemos, que a primeira manifestação deste movimento cidadão teve lugar em Portugal a 12 de Março de 2011 e acabou por influenciar o movimento que se espalhou por toda a Espanha e que começou com uma manifestação juvenil a 30 desse mesmo mês. Estes movimentos de cidadãos alastraram-se a cerca de 100 países a 15 de outubro de 2011, num movimento global que ficou conhecido como 15-O e que se caracterizou por manifestações pacíficas. A este movimento juntou-se o Occupy Wall

Street, que tinha começado a dar os primeiros passos a 17 de setembro de 2011, sobretudo difundido pelas redes sociais e pelo Twitter. Não podemos, contudo, esquecer que esta descida da política às ruas se iniciou com a Primavera Árabe, por muito que o que esteve em causa neste movimento inicial tenha sido diferente do que ocupou a indignação das nações ocidentais.

As manifestações estiveram na agenda dos media sobretudo em março (nos meses seguintes houve eleições, acampadas e uma nova manifestação a 15 de outubro de 2011), chegando mesmo a ser alvo de diversos artigos de opinião. Iremos aqui indicar alguns que, de certa forma, constituem pontos de partida importantes para o debate que se vai gerar em torno da análise de dados. Daremos, por este meio, conta do ambiente mediático em que se falou de juventude, das manifestações cívicas e da crise, sobretudo a partir de inícios de 2011. Socorremo-nos de artigos que foram saindo na imprensa, em títulos de referência como DN, Público, Expresso ou Visão, que nos permitem traçar um retrato do ambiente vivido. Note-se que não há a intenção de fazer uma análise de conteúdo ou de tudo o que saiu nos media noticiosos, mas apenas de olhar para alguns dos artigos de opinião que foram marcando a atualidade e que se referiram a temas identificados pelos entrevistados. A opinião é um género que sinaliza a atualidade e os acontecimentos mais mediáticos. Os títulos que encontramos nestes

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artigos de opinião seriam eles mesmos excelentes elementos de análise de conteúdo, mas não é essa a intenção.

José Diogo Quintela, humorista e argumentista integrado no grupo Gato Fedorento – conhecido inclusive pelo humor político –, e também ele pertencente à faixa etária da Geração Rasca, refere-se numa crónica a esta questão das gerações e de como a situação dos que estão à rasca é antiga: “…alguns comentadores mais cínicos […] afirmam que o que esta geração pretende é ter os mesmos direitos adquiridos pela geração anterior. É falso. Esta geração sabe mais do que isso. Nomeadamente, sabe que não existem direitos nenhuns adquiridos.”67

Miguel Carvalho, cronista da Visão e também ele da mesma geração de Diogo Quintela, dedicou alguma atenção a estes movimentos sociais, embora sem se reconhecer como um deles. Numa das crónicas referia-se às duas canções que marcaram esta fase, a dos Deolinda, “Que Parva que eu Sou”, e a dos Homens de Luta, “E o Povo, pá?”. Miguel Carvalho menciona ainda a necessidade de olhar para os protestos e para os jovens que os compõem de forma plural: “Os dilemas são vários. Desde logo, parece- -me um erro olhar a geração dos ‘recibos verdes’ como uma massa uniforme. Não é. Juntam-se ali várias posturas, reivindicações e propostas.”68 Na mesma crónica, e

relativamente a uma necessidade de diálogo intergeracional, acrescenta ainda: “Posso estar enganado – afinal tenho 40 anos e vou a caminho do cinismo – mas parece-me que as causas da geração precária só serão verdadeiramente consequentes – e, se calhar, irreversíveis – se as outras gerações forem convencidas de que estas lutas também lhe dizem respeito.”

O discurso dos dois comentaristas está impregnado do sentido intergeracional dos novos movimentos e da necessidade de serem pensados desta forma para adquirirem capacidade social.

Também referindo-se à canção dos Deolinda, Miguel Esteves Cardoso alerta para as fragilidades individuais e as possibilidades reivindicativas coletivas do movimento no coletivo: “Se a geração parva se organizasse, este país deixaria de funcionar”. E concretiza a ideia da seguinte forma: “Se cada elemento dessa geração

67 Público, 20 de março de 2011, artigo de opinião (A geração à rasca para saber porque é que

está à rasca).

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deixasse o vício de pensar individualmente (e ser, por conseguinte, individualmente explorado) e passasse a pensar coletivamente, como o setor etário mais importante, decisivo, valioso e útil de Portugal, seríamos nós (mais velhos ou mais novos) – os que tiramos partido e abusamos da geração parva – que seríamos obrigados a reconhecer e a agradecer a generosidade que nos demonstraram.”69

Fazendo parte de uma geração que nos anos 60 se insurgiu contra a ditadura, Fernando Rosas, historiador, dirigente do Bloco de Esquerda e fundador da Esquerda Democrática Estudantil (1969), refere que a juventude deste tempo tem características diferentes da do dele e é mais pacífica, porque não viveu sob a pressão da ditadura, e entende que encara Salazar como encara o Marquês de Pombal: “Está lá longe.”70 Mas

considera que “a despolitização da juventude é uma estratégia do poder instituído. Sobre isso, não haja a mais pequena dúvida. Sobre isso, não duvido, é preciso travar uma luta pela politização”.

Já Gustavo Cardoso (investigador do ISCTE que tem desenvolvido estudos na área da comunicação e da participação na internet, alguns já identificados neste capítulo) no Público colocou a tónica na relativização dos poderes tradicionais, pois considera que os governos devem ouvir as propostas dos indignados. “Os indignados na rua têm propostas concretas sobre muitas questões e se os líderes e as atuais instituições da democracia querem inverter o seu rumo de declínio devem aceitar isso e começar a pensar o mundo de modo diferente.”71

Pacheco Pereira, historiador, politólogo e comentador político, centrou-se mais em questões políticas: “O movimento dos ‘indignados’ é apenas uma parte dos movimentos sociais de protesto que têm vindo a sair à rua nestes tempos de crise, e é claramente distinto dos protestos que sindicatos e partidos como o PCP têm vindo a promover”.72

A propósito das acampadas, o jornalista José Vitor Malheiro escrevia: “O cuidado (excessivo) em não se aproximarem das propostas deste ou daquele partido torna por vezes as críticas difusas e as propostas vagas, mas uma coisa é evidente: estes

69 Público, 11 de março de 2011, artigo de opinião (A geração parva).

70 DN, 9 de agosto de 2011, (O que aconteceu no Norte de África tende a passar para a Europa

do Sul, entrevista no âmbito de ciclo de entrevistas em agosto), pp. 28-29

71 Público, 8 de novembro de 2011, artigo de opinião (Das ruas aos votos).

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jovens não se sentem representados pelos políticos (“No! No! No-nos-representan!”). Nem no seu país nem na Europa. Nem se sentem tratados com isenção pelo sistema eleitoral.”73

As acampadas ligam-se ainda a uma ideia de rejuvenescimento e nova robustez da democracia. O sociólogo Boaventura Sousa Santos destacou esse mesmo aspeto: “Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público – a rua e a praça – onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias.”74

Olhando mais para a juventude portuguesa na sua pluralidade, o sociólogo Machado Pais, criador do Observatório Permanente da Juventude, ao P3, uma publicação afeta ao Público e também ela destinada aos mais jovens, refere: “Os jovens de hoje confrontam-se com o desafio de se adaptarem a circunstâncias de vida mutáveis – o que pressupõe uma capacidade de ajuste, um domínio da arte da pirueta, um saber caçar oportunidades, uma mão cheia de perícias para ultrapassar a contradição entre a calculabilidade e a qualidade do fortuito.”75

Um dos artigos de opinião mais contestados foi o de Isabel Stilwell no Destak76. O parágrafo de abertura já indicava que as hostilidades seriam grandes: “Acho parvo o refrão da música dos Deolinda que diz ‘Eu fico a pensar, que mundo tão parvo, onde para ser escravo é preciso estudar’. Porque se estudaram e são escravos, são parvos de facto. Parvos porque gastaram o dinheiro dos pais e o dos nossos impostos a estudar para não aprender nada”. Os 2100 comentários que se prolongaram até dezembro de 2011 indicam a indignação que causou.

Daniel Sampaio, psiquiatra e escritor que tem estudado as crianças e os jovens nos contextos familiar e escolar, refere-se às implicações do habitus de participar: “A família não é uma democracia em que cada pessoa vale um voto, mas um espaço de crescimento emocional onde cada um tem o direito de falar ou ficar calado, e todos têm

73 Público, 24 de maio de 2011, artigo de opinião (“Me gustas democracia, pero estás como

ausente”). José Malheiro diz: “A frase que dá título a esta crónica, com um cheirinho a Neruda, está

escrita num cartão encostado à estátua de D. Pedro IV, no Rossio, em Lisboa”.

74 Visão, 2 de junho de 2011, artigo de opinião (A pensar nas eleições). 75 P3, 21 de setembro de 2011, artigo de opinião (A arte da pirueta).

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o dever de pensar no cuidar e bem-estar do outro.”77 Acrescenta: “Ser é participar”,

mesmo que não se ganhe.

Estas diferentes formas de participação constituem apenas exemplos, como já indicámos no início do capítulo, do que se passou de mais mediático nos últimos anos.

De que modo diferentes formas de participação são implicadas nos discursos dos jovens? Quais as polarizações entre a intenção de participar e a participação efetiva e as nuances entre participação convencional e não convencional? Ser estudante facilita o ser participante na sociedade?

Síntese e questões

Olhando para as três grandes linhas que aqui expusemos, e mesmo sabendo que são apenas uma parte das formas de participação e de contextos de reforço, julgamos ser possível identificar uma cultura em que a participação é espoletada por determinados “cabides” ou assuntos (designadamente escolares), mas ainda está pouco afirmada como

uma forma de estar na vida sociopolítica.

Vimos que a participação, quer pela ação dos jovens, quer pela promoção externa, foi fortemente delimitada pelos contextos escolares. São poucas as exceções, diríamos que as mais destacadas são as intervenções em prol da autodeterminação do povo maubere e a criação de graffiti. O que nos levanta desde logo uma questão: Estará a participação juvenil mediatizada excessivamente centrada, marcada, pelos contextos escolares? Como poderemos configurar os outros contextos sociais?

Além disso, num espaço mediatizado onde existe uma forte diversidade de meios (entre os quais o jornalismo é apenas um entre vários), a linha temporal indica que a feitura da opinião pública ainda passa muito pelos meios tradicionais, que continuam a estabelecer prioridades públicas.

117 Para averiguar

De que forma o papel da escola é entendido pelos alunos?

Qual o papel dos promotores de participação (escola, sociedade, media)?

Qual a relevância dos processos de literacia?

Como é percecionado o papel dos media tradicionais e dos novos media?

Estas gerações juvenis nem sempre identificadas de forma positiva (ex.: rasca) têm reflexo nos discursos dos entrevistados, na forma como eles percecionam o modo como a sociedade olha para os jovens?

119 Orientações Metodológicas