3 The Protocol Stack
3.1 The 3a Layer
No Brasil, também vivemos mudanças de programas, elaboração de novas
propostasdeensino,sobretudofazendo-seabandonaroDesenhoGeométrico
erelegarparaumsegundoplanooestudodaGeometria.AGeometriaPlana
e Espacial foi, ao longo das décadas, sofrendo cortes de vários tópicos no
ensinofundamentalemédio.ODesenhoGeométricofoisendoabolidodas
grades curriculares da grande maioria das escolas, principalmente nas
escolaspúblicas(ZUIN,2001,p.58).
No Brasil, segundo Zuin (2001), as primeiras notícias que se têm do ensino da
Geometriadatamdoanode1772,comacriaçãodasaulasrégias,pelaReformaPombalina,
queincluíamoensinodedisciplinascomoaÁlgebra,aGeometriaeaAritmética,etinham
porobjetivopreencheralacunaobservadanaeducaçãoapósaexpulsãodosjesuítas,queaté
entãoseencarregavamdoensinonoPaís(ZUIN,2001).
Embora essa seja a primeira referência sobre o ensino da Geometria no País, a
autoradestacaquepoucoacrescentouparaqueoseuensinoseefetivasseporduasrazões:não
haviaprofissionaispreparadosparaoseuensinoenãohavia,nopaís,materialdidáticoque
orientasse o trabalho com seus conteúdos. Somente no ano de 1810 constitui-se como
disciplina obrigatória, com a criação da Academia Real Militar da Corte voltada para a
formaçãotécnicaemilitarde“[...]oficiaistopógrafos,geógrafosedasarmasdeengenharia,
infantaria e cavalaria para o exército do rei [...]” (ZUIN, 2001, p. 65). Nesse contexto, a
Geometriapassouaintegrarocurrículoescolareseuensinotinhacomopúblico-alvoosfilhos
de pequenos comerciantes, de funcionários da corte e de militares, uma vez que a elite
direcionavaseusfilhosparaocursodeDireito.
ConformeexplicaZuin(2001,p.66),somenteapósaindependênciadoBrasilé
possível observar a valorização do ensino da Geometria, em virtude do seu caráter
preparatório para o ingresso no ensino superior e destinava-se ao desenvolvimento das
capacidades intelectuais daqueles que pertenciam à elite. Tal situação se confirma com a
estruturaçãocurriculardoColégioImperialD.PedroII(inauguradoem1837),quemantinha
o Desenho Linear (construção de figuras geométricas) e o Desenho Figurado (baseado em
cópias)nasuagradecurricular,eeraconsideradocomomodeloaserseguidopelosdemais
colégios.
No século XIX, com o progressivo desenvolvimento econômico, a abolição da
escravatura,oaumentodeumapopulaçãourbana,oiníciodoprocessodeindustrializaçãoea
pressão de uma burguesia ativa para a criação do Curso de Engenharia Civil, a Geometria
assume um lugar de destaque. “O Desenho Geométrico começa a se firmar como um
conhecimentoescolar[...]”(ZUIN,2001,p.68),comomeiodeasseguraraformaçãotécnico-
profissionalnecessária àcontinuidadedoprogresso econômicoeindustrialquecomeçavaa
ser delineado. Nesse período, segundo aponta Souza (2000), destaca-se a influência das
mudanças promovidas na educação por Rui Barbosa (1849-1923), que ampliou a
escolarizaçãodapopulaçãocomaaberturadematrículasparaosescravosposicionou-seem
defesadeumensinopúblicogratuito,imprimiudestaqueaoensinodoDesenhoGeométricoe
daGeometriajánasescolasdeprimeirasletras,comaprimeiraindicaçãodanecessidadeda
elaboraçãodeumsistemanacionaldeeducação,quesóseefetivounasprimeirasdécadasdo
séculoXX,comareformadeFranciscoCampos,em1931.
ComareformadeFranciscoCamposem1931,oeducadorEuclidesRoxo,então
diretor do colégio D. Pedro II e membro do Conselho Nacional de Ensino, propõe a
unificação do ensino da Álgebra, da Aritmética e da Geometria, dando origem a uma nova
disciplina denominada “Matemática”, que, conforme explica Kobashigawa (2006, p. 27),
culminoucomaaplicaçãodetalmodeloemtodooterritórionacional,pormeiodaelaboração
edistribuiçãodemateriaiselivrosdidáticosdesuaautoria.
No tocante ao ensino da Geometria, no modelo proposto por Euclides Roxo,
Meneses(2007)observa,pormeiodeanálisesrealizadassobreoslivrosdidáticosutilizados
na época, que para os anos iniciais defendia-se um ensino propedêutico e de caráter
experimental,enquantoparaosanosfinaisoenfoqueeravoltadoparaoseucaráterdedutivo.
Entretanto, pondera o autor que, embora a reforma liderada por Euclides Roxo tivesse por
objetivo proporcionar um ensino mais integrado entre os diferentes ramos da Matemática,
essesconteúdosaindaeramtrabalhadosseparadamentepelosprofessores.
Noanode1942,nareformaconhecidaporReformaGustavoCapanema,destaca-
se a apresentação de um novo programa para a Matemática, que valorizava, entre outras
coisas, o Desenho, conforme a recomendação explícita sobre uso de instrumentos como a
régua,ocompassoeolápisrígido,jána1.ªsériedocursoginasial,demodoafazercomos
alunoscompreendessem desdecedo aimportância“[...]daprecisãoedo rigornostraçados
[...]”(ZUIN,2001,p.79).Aautoraapontaaindaque, em1946,deacordocomaLeiOrgânica
do Ensino Primário (1946), o Desenho passa a ser incluído “no curso primário elementar,
complementareprimáriosupletivo,emtodooterritórionacional,constituindo-secomouma
dassetedisciplinasválidaseobrigatóriasnasquatrosériesdoensinoginasial,emrespostaà
necessidadedeformaçãodenovostécnicoseengenheirosparaomercadodetrabalho(ZUIN,
2001, p. 82). No entanto, em relação à Geometria, praticamente não houve mudanças em
relaçãoàproposiçãodeumensinopropedêuticodecaráterintuitivoeexperimentalnasduas
séries iniciais do curso ginasial, então denominada “Geometria Intuitiva” e uma proposta
dedutiva“GeometriaDedutiva”,paraasduassériesfinaisdoginasial(ZUIN,2001,p.78).
AoanalisarareformaFranciscoCampos(1931)eareformaGustavoCapanema
(1942),Pires(2008,p.15)destacaagrandeinfluênciadequestõespolíticaseideológicasna
organizaçãocurricular,noBrasil,hajavistaque,“senaprimeiraaconcepçãodecurrículofoi
ampliada para além da mera listagem de conteúdos a serem ensinados, incluindo uma
discussão de orientações didáticas, na reforma seguinte, de 1942, essas inovações não se
mantiveram”.
Na segunda metade do século XX, conforme explica Pires (2008), novas e
profundas alterações foram observadas na estruturação curricular, entre os anos de 1965 e
1980, com Movimento da Matemática Moderna, cujo objetivo era aproximar o ensino da
ciência,tornandoaMatemáticaútilaodesenvolvimentodaciência,datécnicaedaeconomia
moderna.SegundoTripoli(2007,p.26),dentretodasasreformaseducacionaisocorridasno
Brasil a que teve maior ênfase foi a chamada “Movimento da Matemática Moderna”, que,
embora não tivesse sido implementada por um decreto ou legislação específica, obteve o
apoiogovernamentalnecessárioparaquesetornasseconhecidaemtodooterritórionacional.
Segundo Zuin(2001),esseperíodofoi consideradoumdivisordeáguas entre a
valorizaçãoatribuídaaosconteúdosdaGeometriaedoDesenhoGeométricoatéentãoeseu
posterior abandono, sobretudo nas escolas públicas. Esclarece Kobashigawa (2006, p. 29)
que, com a chegada das ideias do Movimento da Matemática Moderna, houve “um ataque
contra a Geometria e contra os recursos de intuição: foi dito aos professores que seria
lastimávelqueelesestudassemostriângulosequeaÁlgebraLinearsubstituiriatodaavelha
geometria”,quesegundoPires(2008)acabouporimpactarnegativamentetodososníveisde
escolarização.
NasetapasdeensinocorrespondentesàEducaçãoInfantileàssériesiniciaisdo
Ensino Fundamental, “[...] a intenção de unificar a linguagem e de possibilitar ao aluno a
construçãodesuasnoçõesmatemáticasolevava,narealidade,adescrever,numalinguagem
matemáticamaisoumenosconfusa,situaçõespseudoconcretasebastantemágicas”(PIRES,
2008, p. 14-15), enquanto nos anos finais do Ensino Fundamental predominava a ideia de
“[...] um ensino formalizado ao extremo, decepado de todo suporte intuitivo, apresentado a
partir de situações artificiais e, além de tudo, bastante seletivo”. O resultado, conforme
explicaKobashigawa(2006,p.29),foiqueoMovimentodaMatemáticaModerna,ao“[...]
definiraMatemáticacomolinguagem,acabouorientandoseuensinoparaaaprendizagemde
palavrastransformando-oemdiscussãosobrepalavras[...]”,caracterizando-semaispelo“[...]
excesso de simbolismo, por austeras abstrações, do que por uma pedagogia ativa e aberta,
comosepretendia[...]”.
A desvalorização que se observava sobre os conteúdos da Geometria e do
DesenhofoiintensificadaquandodapromulgaçãodaLeideDiretrizeseBasesdaEducação
Brasileira(Lei4.024/1961),quereduziuelimitouonúmerodematériasaseremtrabalhadas
no Ensino Fundamental, resultando no desenvolvimento de um trabalho superficial com os
conteúdos tanto da Geometria quanto do Desenho, além de exacerbar ainda mais o
distanciamentoentreambos.
Oensinodematemáticanoprimeirociclofoipropostoparaserdesenvolvido
“Nastrêsprimeirasséries,fundamentalmentedenaturezainstrumental,isto
é, visará a proporcionar ao educando conhecimentos de ordem utilitária,
exigidospelasatividadescotidianas,taiscomopercentagem,desconto,juro,
conversão de medidas, problemas de velocidade, problemas de geometria
plana intuitiva...”, propondo a redução, ao mínimo, das “Preleções e
memorizações, dedicando-se o máximo do tempo possível à resolução de
problemaseexercícios”.Oensinodageometriaplanadedutiva,iniciadona
4.ª série, era limitado “à demonstração dos teoremas mais importantes, e
semprecomvistasàsaplicaçõesdeordemutilitária” (ZUIN,2001,p.85).
OabandonodoensinodaGeometriaedoDesenho,contudo,concretizou-secom
apromulgaçãodaLeideDiretrizeseBases(Lei5.692/1971)que,entreoutrasdeterminações,
reduziuadisciplinadenominadaDesenhoàqualidadedeconteúdoasertrabalhadodentroda
“atividade educativa” (de caráter não obrigatório) denominada Educação Artística, que
deveriaenglobarasáreasdaexpressãocorporal,expressãomusicaleplástica,eoretiroudos
examesvestibulares(ZUIN,2001,p.87).
OimpactodeseconsideraroDesenhocomopartedeuma“atividadeeducativa”
de caráter não obrigatório, refletiu-se negativamente em toda a estrutura curricular. Se até
então os professores que trabalhavam com a disciplina denominada Desenho eram
matemáticos, no trabalho com a “atividade educativa” denominada Educação Artística, sua
formaçãonãoerasuficienteparaenglobarasáreasdeexpressãocorporal,musicaleplástica.
Embora houvesse uma determinação legal para o desenvolvimento da nova “atividade
educativa”, no Brasil, conforme destaca Zuin (2001, p. 94) somente em 1973, por meio da
Resolução23,de23.10.1973,queforamfixados“osconteúdosmínimoseaduraçãodocurso
deEducaçãoArtística,quetinhaporobjetivoformarprofessoresparaasatividades,áreasde
estudoedisciplinasdoensinode1.ºe2.ºgrausrelacionadascomosetordaarte”.
Aceleumaestavainstauradae,segundoapontaaautora,foifortementefomentada
peloParecer540/1977doConselhoFederaldeEducação,que,comointuitodeexplicarde
uma vez por todas o que deveria ser feito com o Desenho, acabou por gerar mais
desentendimentos:QuemdeveriatrabalharcomoDesenho?Oquefazercomosprofessores
deDesenho?FicariamestesencarregadosdasaulasdeEducaçãoArtística,quecontemplavam
outras áreas de expressão que não faziam parte de sua formação? Como não encarar a
Educação Artística como disciplina, se havia professores licenciados e contratados para tal
trabalho?
Enquanto os debates se acirravam em relação a quem deveria trabalhar com a
“atividade educativa”, a mesma indefinição passou a ser percebida no trabalho com os
conteúdos do Desenho (construções geométricas), que ora eram entendidos como parte do
trabalho da disciplina da Matemática, aliados aos conteúdos da Geometria, ora eram vistos
comopartedotrabalhocoma“atividadeeducativa”daEducaçãoArtística.Emboramuitos
anostenhamsepassado,éaindapossívelverificarquemuitosprofessoresdosanosiniciaisdo
EnsinoFundamentaldelegamoensinodaGeometriaaosprofessoresencarregadospelasaulas
deArtes.
Zuin (2001) observa que a indefinição da posição em que o trabalho com o
Desenho Geométrico deveria ocupar acabou gerando acentuadas diferenças na estruturação
curricular das escolas da elite (que optaram pela permanência do trabalho com a disciplina
“DesenhoGeométrico”) edasescolasdestinadasàsclassespopulares(queemgrandeparte
suprimiram o Desenho Geométrico de suas grades), fato que ainda pode ser observado nos
diasatuais.Ademais,pelofatodenãoserconsideradapelalegislaçãocomouma“disciplina”
obrigatória, ainda que fizesse parte da grade curricular das escolas e estivesse prevista na
gradehoráriasemanal,aaprovaçãodosalunospassavaasercondicionadaexclusivamenteao
atingimentodafrequênciaprevistaemlei,enãomaispelodesenvolvimentodascompetências
previstasparaotrabalho.
“O Desenho Geométrico foi abandonado gradativamente em algumas escolas,
radicalmenteemoutras,ouconstavadagradecurricular,masseuprogramanãoera,demodo
algum,cumprido”(ZUIN,2001,p.87).
Detalsortequeadualidadeobservadanaestruturacurriculardasescolaspúblicas
e privadas, segundo Pavanello (1989, p. 166), “poderia ser colocada como: escola onde se
ensina geometria(escolapara aelite)e escolaondenãoseensina geometria(escolaparao
povo)”.
Apartirdadécadade90,comofracassodoMovimentodaMatemáticaModerna,
novas propostas curriculares foram elaboradas a fim de atender aos anseios sociais pela
construçãodeumaescolainspiradanosideaisdemocráticos.Nessemomento,oBrasilvivia
umperíodobastantefavoráveldereaberturademocrática,queculminoucomaelaboraçãode
umanovaConstituiçãoFederal(1988),comapromulgaçãonaLeideDiretrizeseBasesda
Educação Nacional (1996), com a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais
(1997/1998)edoReferencialCurricularNacionalparaaEducaçãoInfantil(1998).
Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei
9.394/1996 – e posterior publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) e do
Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998), a integração entre os
conteúdosdaGeometriaeotrabalhocomasconstruçõesgeométricaspassamasernovamente
discutidos, sob um enfoque cujo objetivo era o desenvolvimento de um ensino que se
colocasse a serviço de uma aprendizagem significativa para o aluno. Nesse momento,
segundoapontaKobashigawa(2006,p.30),observou-seatentativaderetornodoensinoda
GeometrianassériesiniciaisdaEducaçãoBásica,cujaênfaserecaiunosaspectosempíricos
da Geometria, que acabou por não levar em consideração a parcela referente ao raciocínio
dedutivo.
[...] procurou-se colocar ênfase à aprendizagem com compreensão, à
aprendizagem significativa; com investimento nas explicações dos
“porquês”enabuscadeprocedimentosquepudessemserjustificadosparao
aluno; investimento na proposição de aulas por meio de atividades,
experiências, descobertas pelos alunos [...]; menor preocupação com a
linguagem formal [...] e, finalmente, a tentativa de recuperar o ensino de
geometriaedeoutrostemasdecaráteraplicativo(KOBASHIGAWA,2006,
p.30).
ÉapartirdapublicaçãodosParâmetrosCurricularesNacionais(1997/1998)edo
Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) que se verificam novas
iniciativas para o ensino da Geometria na Educação Infantil e anos iniciais do Ensino
Fundamental,contempladasnoblocodeconteúdosdenominado“EspaçoeForma”.
1.2.2 Espaço e Forma: uma análise sobre os documentos oficiais – Referencial Curricular
In document
09-00911
(sider 28-32)