O crescimento do interesse na comunicação de riscos foi responsável pelo estabelecimento de uma nova geração de centros de pesquisa nos Estados Unidos, dos quais o
57 É interessante observar que dez anos antes (1990), quando tratou desse mesmo assunto, Leiss esclareceu a questão da dose-resposta, mas também manifestou sua preocupação com os efeitos dos riscos das substâncias químicas para o homem e o ambiente, a necessidade de se ter mecanismos institucionais para evitar os possíveis efeitos. “Temos que saber que doses provocam efeitos adversos na saúde humana e no meio ambiente. Temos que ter mecanismos institucionais com vistas a garantir que não ultrapassaremos essas doses” (LEISS, 1990: 88). Hoje Leiss se dedica a pesquisar questões de risco controversas, em particular as relacionadas a organismos geneticamente modificados e a aquecimento global.
primeiro foi o Programa de Pesquisa em Comunicação Ambiental (Environment
Communication Research Program) da Universidade de Rutgers, fundado em 1986, pelo professor de jornalismo Peter M. Sandmann. O grupo de Sandman especializou-se em produzir manuais e indicações práticas para os profissionais de comunicação sobre riscos na indústria, no governo e nos meios de comunicação de massa. Em 1987 e 1988, vários outros centros voltados para pesquisa - básica e aplicada - em comunicação de riscos foram sendo criados. Entre eles, o Center for Law and Technology, na Universidade de Boston, o Western
Washington University for Social and Organizational Research, na Universidade de Western Washington, e o Center for Risk Communication, na Universidade de Columbia, este último fundado por Vincent Covello.
Foi dessa fase o primeiro registro de uso da expressão “comunicação de riscos”, como explicitamos anteriormente, em função do interesse crescente manifestado por pesquisadores da área da Psicologia em explicar por que razão grupos e indivíduos mantêm visões tão diferentes sobre os riscos. Nesta fase, as pesquisas em comunicação sobre riscos dedicaram- se, principalmente, a entender as “disparidades” existentes entre os riscos avaliados por especialistas, de um lado, e sua compreensão pelos membros não especializados do público em geral, de outro. Aliando os conhecimentos disponíveis nos estudos do campo da Comunicação e da Psicologia , a comunicação de riscos voltou-se para: a) “melhorar a qualidade do diálogo sobre riscos, ultrapassando o abismo que separa os especialistas do público em geral”; e b) “aplicar esse diálogo melhorado sobre riscos, de modo a obter um grau de consenso social nos aspectos inerentemente controversos de gerenciamento dos riscos ambientais e de saúde”, tendo, desde o início, uma “finalidade prática” (POWELL; LEISS, 2005: 193-194).
A essas alturas a SRA já dispunha também de um boletim – RISK Newsletter -, que, lançado em 1981, passou a ter periodicidade trimestral em 1988. Inúmeras publicações científicas marcaram esse período. Golding, (op.cit.: 45) enumera algumas delas: Risk
Abstracts, sobre riscos e incertezas; Risk: Issues in Health and Safety, dedicado à saúde humana; e publicações sobre desastres naturais (Disasters, International Journal of Mass
Emergencies and Disasters e Natural Hazards Observer). Ela também ressalta o crescimento do número de artigos científicos publicados nessa ocasião e, em particular, aqueles referentes ao gerenciamento de riscos, nos quais se incluem os de comunicação sobre riscos. No que diz respeito especificamente à revista da SRA, Golding chama a atenção para a relativa “popularidade” de três tópicos: percepção de riscos, aceitação de riscos e comunicação de riscos. Embora o número total de artigos seja muito reduzido (apenas sete), o que, segundo
ela, requer cuidado redobrado em se tirar conclusões, a autora considera “impressionante” a aparição da comunicação de risco como foco de estudos a partir de 1986.
Gráfico 1
Número de artigos científicos sobre Análise de Riscos, entre 1981-1990, por tópicos: Comunicação de Riscos, Aceitação de Riscos e Percepção de Riscos
Fonte: Golding (1992: 51)
Embora não teçam qualquer consideração sobre os motivos que levaram a esse crescimento, Krimsky e Golding (1992: 358) admitem que a comunicação sobre riscos foi “entronizada” na legislação norte-americana com a aprovação pelo Congresso, em 1986, do
Superfund Amendments and Reauthorization Act. Também conhecido como Emergency
Planning and Community Right to Know Act ou, ainda, SARA Title III Community Right-to-
Know, o ato foi uma resposta do governo norte-americano ao acidente químico ocorrido em Bhopal, na Índia, em dezembro de 1984, quando o gás tóxico methyl isocyanate escapou de uma indústria, matando ou causando danos à saúde de mais de 1.000 pessoas.58 Com isso, agências governamentais como a EPA, FDA e o Departamento de Energia passaram a investir
58 O SARA Title III, como é popularmente denominado, estabelece que o público tem o direito de saber quais produtos químicos existem em sua comunidade. Ele também exige que os governos local e estadual estabeleçam comitês locais para identificar materiais que possam causar dano à comunidade e responder pelo lançamento desses materiais. Disponível em: <http://www.state.sd.us/denr/DES/ground/SARATitleIII/SARATitleIII.htm>. Acesso em: 26 jun. 2008.
recursos materiais e humanos para a elaboração de manuais e o treinamento de seus funcionários em comunicação de riscos. Seja em resposta à nova legislação ou ao “humor” do público em relação aos riscos à saúde e ao ambiente, também na iniciativa privada foram introduzidas atividades voltadas para a confecção de manuais e o treinamento em comunicação de riscos. Segundo Krimsky e Golding (ibid.), muitas dessas iniciativas foram encaradas como “nada mais que um renovado exercício de comunicação organizacional com o objetivo de apaziguar a reação contrária por parte da sociedade”. Pelo sim ou pelo não, concluem as autoras, o fato é que a comunicação sobre riscos foi adotada “entusiasticamente” pelas organizações dos setores público e privado.
Bem diferente da fase anterior onde predominavam informações factuais sobre dados estatísticos referentes à identificação e avaliação dos riscos, este período foi caracterizado pela ênfase no uso de técnicas de comunicação persuasiva. Powell e Leiss (2005, op.cit.: 196- 198) afirmam que as mensagens eram vistas como atos de comunicação destinados a “persuadir um ouvinte sobre a correção de um ponto de vista”. A nova abordagem tem suas raízes nas técnicas de propaganda e de marketing utilizadas, inicialmente, nos anúncios comerciais e, depois, de modo mais amplo, complementam os autores. Ela leva em consideração dois fatores fundamentais, explicam: as características da audiência e a percepção que o público tem da situação. “A palavra-chave da boa comunicação é a confiança na fonte da mensagem (“Você acredita em mim quando lhe conto algo?”)”. Essa é a viga- mestra da credibilidade, que Powell e Leiss entendem ser “a percepção da honestidade intrínseca do próprio conteúdo da mensagem e do contexto institucional global em que ela foi gerada”.
Se de um lado o uso de fórmulas da prática da boa comunicação de risco adaptadas do
marketing alcançou bons resultados, de outro, foi justamente o fato de seu sucesso estar fundamentado na confiança da audiência no emissor da mensagem que gerou problemas, segundo análise de Powell e Leiss. Para eles, a falta de confiança do público nos atores institucionais limitou a eficácia da comunicação. Na visão desses dois estudiosos, ao dar atenção excessiva às técnicas persuasivas – em particular àquelas que tentavam manipular as emoções da audiência – as mensagens arriscavam-se a ver seu conteúdo informativo “destruído por essas técnicas excessivamente engenhosas”.
As discussões em torno da confiança nas instituições contribuíram para colocar em xeque o paradigma psicométrico, abrindo as portas da comunicação de riscos para os contextos social e cultural focalizados pelas teorias sociológicas, bem como para os aspectos
políticos da participação do público nas análises de risco. Essa outra abordagem caracterizou (e ainda caracteriza) a terceira fase das pesquisas na comunicação de questões de risco.
Dentre os esforços empreendidos para integrar as abordagens cognitiva e sociológica, Golding e Krimsky (op.cit.: 359) destacam os estudos de Roger E. Kasperson, publicados pela primeira vez na revista Risk Analysis em 1988 sobre mecanismos de amplificação social de riscos. Com base nos estudos realizados por Melvin DeFleur (1966) sobre o processo de comunicação, Kasperson (1992) e Kasperson et al. ([2000] 2006) defendiam que uma mensagem, ao caminhar do emissor para o receptor, passava por “estações” de amplificação que intensificavam ou atenuavam o sinal de acordo com as características do indivíduo e de seu grupo social. Essas estações incluíam o cientista que conduz a avaliação do risco, a instituição que gerencia o risco, as notícias publicadas pela imprensa, as organizações de grupos ativistas, os líderes de opinião, as redes de relacionamento pessoal e de grupos de referência e as organizações públicas. Com a introdução do modelo de amplificação social dos riscos, os meios de comunicação de massa foram incorporados às teorias sociais de risco, abrindo, segundo as duas autoras, um campo a ser explorado pelas pesquisas em comunicação sobre riscos.