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Dentre os vários caminhos possíveis para contar a história das pesquisas sobre risco sob a ótica das teorias sociais, a geógrafa norte-americana Dominic Golding optou por acompanhar os programas de financiamento desenvolvidos pela National Science Foundation (NSF). A NSF é uma das mais prestigiosas entidades dos Estados Unidos, responsável, em 2007, por um orçamento de cerca de U$ 5,9 bilhões e por 20% da pesquisa básica financiada pelo governo federal a universidades e institutos norte-americanos.55

A pesquisa sobre risco não era um programa explícito na área até a formação, em agosto de 1979, do programa de Avaliação Tecnológica e Análise de Risco (TARA), esclarece Golding (1998: 26). O TARA tinha por objetivo “a pesquisa sistemática com vistas a aperfeiçoar os métodos de avaliação comparativa de riscos de longo prazo para soluções tecnológicas alternativas, aí incluída a falta de ação, abrangendo preocupações como energia, materiais, qualidade ambiental, alimentos e drogas” (ibid.). O psicólogo social Vincent Covello, que já fazia parte do grupo, tornou-se o gerente da parte relativa à avaliação de risco do programa.

Num esforço inicial para ampliar as fronteiras da pesquisa sobre risco, o TARA identificou dez questões genéricas referentes a avaliação e gerenciamento de riscos. Elas tinham como guia aquela pergunta colocada pelo artigo de Chauncey Starr, dez anos antes - Quão seguro está seguro o suficiente? -, demonstrando a preocupação do grupo com aspectos sobre como o risco era percebido e como determinar o que seria o “risco aceitável”. Percebia- se, então, uma preocupação clara em separar a avaliação de risco do gerenciamento do risco, ou seja, a ciência e a formulação de políticas. De uma maneira geral, analisa Golding, “a lista [de questões] parecia consistente, mas, fazendo-se uma retrospectiva, dois temas notáveis estavam ausentes – comunicação de risco e o contexto sociocultural do risco, os quais se tornaram, a partir daí, áreas proeminentes de pesquisa nas ciências sociais” (GOLDING, op.cit.: 27).

Figura 1

Questões usadas pelo TARA para fazer análise e gerenciamento de riscos

Fonte: Golding, Dominic (1998: 28)

Logo em seguida, em 1980, foi fundada a Sociedade para Análise de Risco (SRA), a partir de um encontro casual entre o toxicologista genético Robert B. Cumming e o teórico em mutações Lars Ehrenberg, em Estocolmo (Suécia). Durante as conversas, ambos concordaram sobre a necessidade de se criar uma publicação científica internacional sobre risco, com vistas a incentivar as comunicações interdisciplinares e as trocas de experiências entre os pesquisadores. Formou-se um comitê informal para discutir as idéias e, dentre os participantes, estava novamente Vincent Covello. A análise de risco precisava construir uma imagem mais respeitável, explica Golding, e um novo “journal” parecia ser o veículo perfeito para essa empreitada (GOLDING, op.cit.: 35). Assim foi criada a Sociedade e, junto com ela, o jornal científico oficial da entidade, denominado Risk Analysis.

No terceiro mandato (1982-83), o psicólogo Paul Slovic tornou-se presidente-eleito da entidade, cargo que, no período de 1986-87, foi ocupado Vincent Covello. Juntos, Slovic, Covello e Detlof von Winterfeldt, escreveram um dos trabalhos considerados seminais para o desenvolvimento das pesquisas em comunicação de risco: Risk Communication: Background

Report for the National Conference on Risk Communication (1986). Golding comenta que foi surpreendente a presença de representantes das ciências sociais no comitê executivo da entidade. Na visão dela, a forte posição ocupada pelas ciências sociais na SRA pode estar

relacionada à natureza dos problemas de risco e às contribuições apresentadas pelos pesquisadores da área, que “incendiaram” a imaginação dos que estavam envolvidos no gerenciamento dos riscos. “Conceitos como percepção pública de risco, avaliação e aceitabilidade de risco, e comunicação de risco passaram a ser o centro das atenções, para tristeza daqueles que viam o gerenciamento de riscos como um problema técnico que requeria soluções técnicas” (op.cit.: 39).

Dentre os pesquisadores da área social, destacava-se o grupo formado por Paul Slovic, Baruch Fischhoff e Sarah Lichtenstein, responsável pelo desenvolvimento do paradigma psicométrico para análise da percepção do risco pelos indivíduos. A equipe é originária do

Decision Research, um dos primeiros centros de pesquisa de risco em ciências sociais, fundado em 1976. Talvez nenhum outro centro tenha tido uma influência tão profunda na natureza do debate sobre riscos quanto esse, observa Golding (op.cit.: 43). A noção de “risco percebido” tornou-se um tema poderoso, provocativo e recorrente desde a primeira conferência da SRA, intitulada “A análise do risco real versus risco percebido”, e se espalhou por diferentes campos de pesquisa, incluindo o da comunicação de risco. Até hoje é utilizada como fundamentação teórica para a “fórmula” usada pelo professor de jornalismo Peter Sandman, especialista norte-americano em comunicação de riscos: Risk = Hazard + Outrage (Risco = Perigo + Apreensão).

Como acontece com todas as novas idéias, diz Golding, a comunicação de risco passou a ser vista como a resposta para os problemas mais espinhosos, em particular como uma ponte entre o ponto de vista dos peritos e o dos leigos. Isso, no entanto, complementa a autora, não é tarefa tão fácil. A comunicação de risco clareou muitos problemas, mas não foi a panacéia universal.

A força do que foi conseguido durante essa fase está explícito, segundo entendem Powell e Leiss56, na seguinte afirmação: “para funcionar sensivelmente num mundo de oportunidades em expansão, devemos ter a capacidade de avaliar e gerenciar os riscos em um nível exato de detalhamento. A abordagem científica do gerenciamento de riscos oferece-nos uma ferramenta imperfeita, porém indispensável, para isso” (2005: 195). A diferença entre o remédio e o veneno, dizia o pensamento então em vigor, é apenas uma questão de dose. Assim, entendia-se que os métodos científicos eram adequados e suficientes para “dosar” os

56 As afirmações de Powell e de Leiss se repetem, muitas vezes com pequenas alterações, nos dois textos consultados. Procuramos manter as expressões que, na nossa visão, melhor refletem o pensamento dos autores, respeitando o fato de que o primeiro texto a falar em comunicação sobre riscos é de autoria apenas de William Leiss. O outro texto, assinado por ambos os autores, tem versão em inglês e em português. Nesse caso, optamos pela versão em português a não ser em casos nos quais entendemos que a tradução tenha comprometido o sentido da frase.

riscos de maneira criteriosa, trazendo enormes benefícios para a sociedade. Como escrevem Leiss e Powell, “os remédios são o melhor exemplo disso: nas doses corretas, os benefícios são substanciais e os efeitos colaterais, embora sempre presentes, são minimizados” (POWELL; LEISS, 2005: 195). 57

A postura assumida pelos peritos diante dos questionamentos do público leigo acabou por provocar reações de oposição e ceticismo da sociedade em relação a algumas decisões tomadas com base apenas em critérios técnicos. Powell e Leiss classificam o que eles chamam de “arrogância da perícia técnica” como uma das fragilidades da comunicação de riscos nesse estágio inicial. Para os especialistas, os “riscos percebidos”, argumentam esses autores, muitas vezes estão relacionados a uma “falsa” compreensão do público, em contraste com os “riscos reais”, que supostamente seriam uma descrição “objetiva” (verdadeira) da realidade (ibidem).

Outra fragilidade identificada por Powell e Leiss nesse período foi a dificuldade sentida pelo público em lidar com as incertezas provocadas pelas lacunas de informação e pela natureza sempre mutante dos resultados das pesquisas científicas, fatos comuns quando se trata de gerenciamento de riscos. Para eles, essa dificuldade foi parcialmente provocada pela própria postura dos especialistas e acabou por gerar um clima de “profunda desconfiança pública em relação a eles [especialistas] e às instituições que representam”, em particular nos momentos em que a população é levada a tomar decisões do tipo “sim/não” (POWELL; LEISS, op.cit.: 196).

É importante ressaltar que durante esse fase ocorreram vários acidentes químicos, a envolver contaminação do solo, morte de plantas e de animais e doenças em seres humanos provocados pelo uso de produtos à base de dioxina. Três notabilizaram-se em face de suas dimensões: Times Beach, no estado de Missouri (EUA), em 1970; Seveso, na Itália, em 1976; e Love Canal, nas cataratas do Niagara (EUA), em 1978.