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-The analysis

Chapter 5: Hidden treasures revealed - Insights

O que estamos chamando de Era de Ouro da comunicação sobre riscos ficou, na visão de Powell e Leiss (2005: 198), incompleto porque o ingrediente-chave do sucesso das comunicações persuasivas – a confiança na fonte institucional de informações – não pode ser produzido apenas pelo uso das técnicas, “não importando quão ardilosos possam ser seus profissionais”. Acrescente-se a isso o fato de que, com a entrada em cena das novas tecnologias de informação e de comunicação – aí incluído a Internet -, as controvérsias científicas sobre os riscos em si e sobre como devem ser gerenciados saíram do âmbito dos encontros restritos aos pares e passaram a ser compartilhados com a população leiga.

Acidentes de proporções internacionais, como Chernobyl, na Ucrânia (1986); desencontros de informações institucionais sobre a existência (ou não) de riscos, como no caso do “mal da vaca louca”, que afetou sobremaneira o Reino Unido, o Canadá e os Estados Unidos (1996); ameaças de ocorrência de epidemias provocadas por mutações genéticas ainda sem controle, como a do vírus influeza aviário identificado em humanos (1997), entre outros eventos, abriram novos caminhos para a pesquisa sobre comunicação de questões de risco ou, como preferem alguns estudiosos, de riscos controversos.

Com base nas perguntas sobre “o que os especialistas sabem e quando o souberam” e sobre “o que os “integrantes” do público sabem e quando o souberam”, uma série de estudos de caso tinham (e ainda têm) como objetivo encontrar falhas nas comunicações sobre controvérsias públicas a respeito de riscos ambientais e para a saúde humana. Leiss e Powell (1997; 2004; 2005) chegaram a desenvolver um modelo de pesquisa com base nos documentos produzidos pelas instituições envolvidas – governo, indústria e pesquisadores – e na cobertura realizada pela imprensa, que adaptamos, neste trabalho, para analisar os releases produzidos sobre transgênicos pela Embrapa, entre 1997 e 2005. O interesse dos dois autores era saber como se forma a percepção dos riscos e dos benefícios; que conhecimento existe quanto ao estado da arte da compreensão científica sobre as questões relevantes; e, precisamente, como um perigo (harzard) em particular torna-se controverso. A cronologia dos eventos, segundo eles, é muito importante para “cruzar” as pistas das duas dimensões – riscos para os especialistas e riscos para o público leigo – e verificar como, quando e por que uma influencia a outra.

Figura 2

Método para analisar como se forma a percepção pública dos riscos

Documentos técnicos em revistas científicas e relatórios governamentais Novos itens, comentários precipitados, relatórios de grupos interessados Tempo Vácuo de Informações Avaliações especializadas de risco Percepção pública dos riscos

Fonte: Powell e Leiss (2005: 201), adaptado pela autora

Com base nessa metodologia, Leiss e Powell (1997; 2001; 2004), sozinhos ou em parceria com diferentes pesquisadores, analisaram uma série de casos sobre controvérsias públicas a respeito de riscos científicos envolvendo a saúde humana, preocupações ambientais

ou uma combinação dos dois, todos ocorridos na década de 1990. Os cases foram reunidos em dois livros, ainda não traduzidos para o português: In the Chamber of Risks:

understanding risk controversies (LEISS, 2001) e Mad Cows and Mother’s Milk: the perils of

poor risk communication (LEISS; POWELL, 1997; 2004).

Em Mad Cows and Mother’s Milk, os casos foram separados em dois grandes blocos: no primeiro, a ênfase das controvérsias recai sobre a própria ciência; no segundo, ela ocorre, segundo os autores, pela falta de se estabelecer ou pela demora em se divulgar os instrumentos de regulamentação da questão. No primeiro bloco foram relacionados os estudos sobre o “mal da vaca louca” (com Amanda Whitfield), cuja crise ocorreu em 1996; sobre o uso da dioxina (com Steve E. Hrudey) que, embora surgido nos anos 1970, continua gerando polêmicas nos dias de hoje e sendo considerada um estigma na indústria química; sobre a contaminação de hambúrgueres da rede de fast food norte-americana Jack-in-the-box por

Escherichia coli O157:H7, em 1993 (com Linda Harris); e sobre os processos impetrados por mulheres norte-americanas que haviam realizado implante de silicone no seio e estavam apresentando doenças como câncer, doenças auto-imunes e outras, cuja eclosão ocorreu em 1995 (com Conrad G. Brunk).

No segundo grupo, Leiss e Powell centralizaram sua atenção particularmente nas recentes polêmicas sobre produtos da biotecnologia, tais como o hormônio de crescimento rBST para bovinos, a canola resistente a certos tipos de herbicidas e a batata que produz um inseticida (Bt) que confere resistência à doença provocada por um tipo de inseto (o besouro do Colorado), todos eles provenientes do uso da técnica do DNA recombinante. Os dois últimos casos – canola e batata Bt – foram estudados junto com as pesquisadoras Angela Griffiths e Katherine Barrett.

O hormônio do crescimento de bovinos foi produzido inicialmente pelas empresas Genentech e Monsanto, em 1981, e, ao ser colocado no mercado, em 1994, ainda não havia uma legislação que definisse as informações ao consumidor que deveriam constar do rótulo. Nos Estados Unidos, a questão foi resolvida pelo Food and Drug Administration (FDA), em 1994, que obrigou a colocação de duas informações nos rótulos dos produtos derivados do leite: “vacas não tratadas com hormônio” (cows not treated with the hormone) e “nenhuma diferença foi observada entre o leite derivado de vacas tratadas com rBST e não tratadas com rBST”. Os rótulos, no entanto, não podiam conter a expressão “livre de rBST”, já o governo canadense, até janeiro de 1997, ainda não havia regulamentado a aplicação do hormônio rBST.

No caso da canola, quatro variedades transgênicas foram aprovadas, em 1995, pela agência canadense que regulamenta produtos alimentícios, e três em 1996, todas elas resistentes a diferentes tipos de herbicidas. No entanto, pouca documentação sobre os possíveis riscos de escape de genes, por exemplo, foi colocada à disposição do público. Muitos dos documentos sobre as decisões do governo só se tornaram acessíveis ao público após terem sido aprovados os testes de campo ou o lançamento comercial. Quanto à batata Bt (que contém gene da bactéria Bacillus thuringiensis), como ficou popularmente conhecida, seu grande mérito é necessitar de uma quantidade menor de pesticidas do que as outras batatas; o risco, no entanto, é de que, com o passar do tempo, os insetos adquiram resistência também a esse pesticida específico. Nesse caso, embora os documentos produzidos pelo governo tenham abordado os riscos, não houve uma política de ampla distribuição desses documentos. A falta de maiores esclarecimentos levou a imprensa a divulgar reportagens falando sobre uma “ciência fora de controle”, a exemplo do que havia sido focalizado no filme O Parque dos Dinossauros.

Em In the Chamber of Risks, Leiss separa os casos em função da categoria de ator institucional envolvida mais diretamente na polêmica (ou no “labirinto” dos riscos, como ele prefere): empresas privadas ou governos. No grupo que enfatiza o papel da iniciativa privada são analisadas, entre outras, as controvérsias sobre os organismos geneticamente modificados geral e a instalação de antenas de telefonia celular nas proximidades de escolas e residências (escrito em parceria com Greg Paoli). No segundo grupo, onde a ênfase é colocada no papel do governo, os casos focalizam questões ambientais e políticas públicas que hoje são o principal foco de interesse do autor. Nesse grupo estão relatadas, entre outras: a trajetória acidentada da legislação canadense para proteção ambiental (que ele chega a chamar de “novela”) e experiências européias e norte-americanas que reforçam o papel das organizações não governamentais como instrumentos de pressão para a solução de questões ambientais.

As relações entre cientistas, governo e sociedade na definição de políticas públicas vêm chamando a atenção dos pesquisadores que trabalham com divulgação de ciência e tecnologia para a sociedade e, de modo especial, com tecnologias que envolvem riscos e incertezas para a saúde humana e o ambiente. O interesse por esse campo de estudos abriu um amplo leque de pesquisas menos interessadas no uso instrumental da comunicação e mais voltadas para o “resgate” da natureza dialógica ou relacional da comunicação.

Verifica-se o crescimento de pesquisas enfocando as relações entre cientistas (e suas organizações) e jornalistas (PETERS, [1995]2005; STOCKING, [1999]2005) bem como sobre o tratamento que a imprensa confere às incertezas e aos riscos científicos

(DUNWOODY, 1998; GREGORY; MILLER, 1998), inclusive com o desenvolvimento de metodologias qualitativas para analisar conteúdos das mídias impressa e eletrônica (BAUER; GASKELL, 2002).

É visível também o destaque que o público passou a ter nas pesquisas nesta última fase. Conhecer o comportamento das audiências e levar em consideração os “saberes” dos leigos foram alguns dos itens que passaram a ser verificados quando da análise da comunicação sobre riscos controversos (WYNNE, 1992, [1991]2005; ROGERS, 199959; COLLINS; PINCH, [1998]2005; EINSIEDEL; THORNE, 1998). Até mesmo a influência da ficção na construção pública de sentidos sobre questões de risco passou a ser considerada nas pesquisas (TURNEY, 2005).

Ao privilegiar o lugar ocupado pelo público na comunicação sobre riscos controversos, os estudiosos passaram a defender a necessidade de o público conhecer mais sobre ciência. O significado dessa aquisição de conhecimentos, denominada de “alfabetização científica”, nos Estados Unidos, “compreensão pública da ciência”, no Reino Unido, e “cultura científica”, na França, bem como seu conteúdo e o método a ser utilizado tornaram- se objeto de uma série de trabalhos acadêmicos. Entre os autores que trabalham nessa linha de pesquisa, Miller (2005), Durant ([1993]2005) e Collins e Pinch (2003) defendem que a ciência que os cidadãos precisam realmente entender é a controversa uma vez que ela envolve decisões políticas. Quanto ao método de transmissão de conhecimentos do cientista (e suas organizações) para o público leigo, há uma predominância, nos estudos desenvolvidos nesta fase, da ênfase no “modelo de diálogo” entre cientistas e leigos (comunicação em duas vias) em oposição ao “modelo de déficit” usado nas fases anteriores (comunicação de mão única). Esses estudos, em suas diferentes vertentes, integram o que se convencionou chamar recentemente de “movimento para a compreensão pública da ciência”.

Outro aspecto observado nesta fase é o aparecimento de estudos sobre formas alternativas de participação social em deliberações sobre questões de risco com ênfase no uso da Internet (LEISS, 2001; LEWENSTEIN, 1995) e de outros mecanismos de relação face-a- face, tais como, por exemplo, os grupos focais, as audiências públicas e as conferências de consenso (EINSIEDEL; EASTLICK, [2000]2005). Nesse sentido, é importante ressaltar o crescimento da internet como meio “confiável” de divulgação e de mobilização do público leigo para discussão de questões de risco. Além de informações e campanhas usando e-mails, e de páginas eletrônicas mantidas por grupos de ativistas - como o Greenpeace e a World

59 O artigo de Carol Rogers foi traduzido e publicado no livro Terra Incógnita (2005), incluído nas referências bibliográficas ao final deste trabalho.

Wildlife Foundation (WWF) no que diz respeito ao meio ambiente - e de interessados em determinado assunto - como o Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) -, algumas experiências são empreendidas por grupos dispostos a manter a imparcialidade e estimular o debate sobre riscos controversos. Uma dessas páginas eletrônicas é a “emcom” (<http://www.emcom.ca>), criada por pesquisadores canadenses para testar o uso de uma base eletrônica de informações públicas sobre um único assunto: os problemas relacionados a doenças endócrinas causadas por fatores de risco. Outra experiência interessante é a da Rede para Compreensão de Crises e de Risco (CRN), uma iniciativa lançada, em dezembro de 2005, pela Suíça e pela Suécia, com o apoio do governo suíço, para “lidar com a complexidade e o caráter multidimensional das ameaças com as quais estamos nos defrontando nesta era de incerteza”.60 O novo formato de discussão e troca de experiências prevê, paralelamente ao uso da Internet, a realização de mesas redondas e workshops internacionais.

Finalmente, observa-se uma tendência a diferenciar a “comunicação sobre riscos” da “comunicação de crises”, o que traz para o primeiro plano as situações de rotina de divulgação científica vivenciadas pelos produtores de informações sobre riscos controversos em contraposição às situações de campanha privilegiadas pelos estudos anteriores. Não se trata somente de estudar como ocorrem (ou ocorreram) as falhas de comunicação por ocasião de acidentes de grandes proporções para a saúde humana e para o meio ambiente, mas de analisar os processos de comunicação que levam para a esfera pública a deliberação de questões de risco coletivo. Adicionalmente, portanto, o campo da comunicação sobre riscos passou a ter importantes conexões com os estudos de media e com os processos de comunicação organizacional.