À direita da escala de concepções de avaliação de risco proposta por Ortwin Renn, tendendo para uma visão socioconstrutivista, estão as abordagens de risco desenvolvidas pelas ciências sociais. Em sociologia, afirma o sociólogo alemão, as classificações se deparam com o problema de que existem tantas perspectivas de análise quantos são os sociólogos dedicados ao assunto. Com a avaliação de riscos não é diferente, diz ele. No entanto, ele observa, todas as visões sociológicas e antropológicas têm em comum a noção de que “seres humanos não vêem o mundo com olhos imaculados, mas através de lentes alteradas pelos sentidos sociais e culturais transmitidos por influência da família, dos amigos, dos conselheiros espirituais (superordinates) e dos colegas de trabalho” (op.cit.: 67). A principal contribuição dessas correntes de pensamento, na visão de Krimsky e Golding (op.cit.: 355), foi estender as fronteiras do debate sobre riscos para além das considerações técnicas dos engenheiros e dos cientistas naturais, e explicar a divergência entre as visões dos leigos e dos especialistas a respeito do assunto.
Se as abordagens técnico-quantitativas de avaliação de risco surgiram e se consolidaram a partir de pesquisadores norte-americanos, foi entre os europeus que tiveram origem e vêm-se fortalecendo as teorias sociais sobre a temática dos riscos. Nesse sentido é emblemática a contribuição da antropóloga inglesa Mary Douglas, cujo livro Pureza e Perigo (1966) pode ser considerado marco inicial da abordagem cultural, com sua análise sobre a poluição moral, a partir do estudo das relações entre restrições alimentares e ordem social (GUIVANT, 1998: 4).
Depois da publicação desse livro, Mary Douglas passou quase vinte anos afastada das questões de risco. Ela voltou ao tema após o encontro com o cientista político norte- americano Aaron Wildavsky, trazendo o assunto para o campo do debate político e moral (DOUGLAS; WILDAVSKY, 1982). Para eles, ao abrirem novas áreas de conhecimento, os avanços científico-tecnológicos não só nos contemplaram com benefícios como ampliaram a distância entre o que se conhece e o que seria desejável se conhecer. Em face disso, explica Guivant, Douglas e Wildavsky entendem que, como não podemos conhecer tudo em relação aos riscos, não pode haver garantias de que os riscos que as pessoas procuram evitar sejam, efetivamente, os que, de forma objetiva, provocariam-lhes maiores danos. Essa constatação, complementa a autora, leva-nos a ter que lidar com conhecimentos que são incertos, aspecto não considerado pela perspectiva técnico-quantitativa de análise de riscos (GUIVANT, op.cit.: 4).
Para explicar como ocorrem as escolhas dos riscos, Douglas desenvolveu uma tipologia de “grade-grupo” (grid-group tipology), baseada na premissa segundo a qual as nossas escolhas estão vinculadas às escolhas feitas pelas organizações sociais das quais fazemos parte e aos nossos valores comuns, ou seja, à maneira como optamos por viver. A “grade” se refere à relação entre as escolhas do indivíduo e a sua posição na sociedade. O “grau” diz respeito à solidariedade entre os membros dessa sociedade. De acordo com essa perspectiva, observa Guivant (1998: 5), “as pessoas selecionariam determinados riscos como relevantes (guerra, poluição, câncer, desemprego) segundo o papel que esses riscos pudessem ter no reforço da solidariedade social das instituições das quais elas participam”.
Sendo assim, a atenção que as pessoas dão a determinados riscos em lugar de outros seria parte de um processo sócio-cultural que, dificilmente, teria uma relação direta com o caráter objetivo dos riscos. Ao considerar-se que os riscos são percebidos e administrados de acordo com princípios inerentes que reforçam formas particulares de organização, finaliza Guivant, Douglas e Wildavsky defendem não ser mais possível continuar a tratar os riscos de forma neutra, com ferramentas metodológicas quantitativas.
Analisando as discussões em torno da moderna biotecnologia, Wildavsky (1991) argumenta que o conflito entre os que aceitam e os que não aceitam a introdução dos transgênicos no meio ambiente tem um caráter eminentemente cultural, no qual, além das incertezas inevitáveis nesse tipo de discussão sobre riscos, estão em jogo “visões rivais” sobre como o mundo opera, que ele chama de “certezas contraditórias”. De um lado observa-se um cenário preventivo ou antecipatório, com fortes regulações, condições controladas de experimentações sem erros tolerados. De outro, o que se vê é um cenário resiliente, com a aceitação de uma aprendizagem sobre as biotecnologias do tipo ensaio e erro (GUIVANT, op.cit.: 8). Optar por uma ou outra visão de mundo tem conseqüências significativas na forma como se processam as discussões sobre o futuro das políticas públicas em relação às novas tecnologias.
Os argumentos de Douglas e Wildavsky provocaram muitas críticas e também encontraram muitos seguidores. No que diz respeito à comunicação sobre questões de risco, suas principais contribuições foram: i) chamar a atenção para a existência de incertezas e conflitos quando se fala em decisões sobre riscos; ii) reconhecer a existência de racionalidades plurais (entre peritos, entre peritos e leigos, e entre leigos) nas discussões sobre os riscos tecnológicos; iii) ressaltar o papel que a credibilidade e a confiança na fonte geradora de informações sobre riscos desempenham no processo de comunicação com o público leigo.
Ainda dentro das teorias sociais, mas caminhando mais para o lado da sociologia, Renn (op.cit.: 69-71) distingue seis abordagens teóricas que transitam entre dois eixos – individualista versus estrutural e construtivista versus objetivista –, e se baseiam no conceito de ator racional; na teoria de mobilização social; na teoria organizacional; na teoria de sistemas; na teoria neomarxista e crítica; e nos conceitos do construtivismo social.
O conceito de ator racional é amplamente usado nas análises econômicas de comportamento social e nas ciências sociais aplicadas. Segundo essa perspectiva, as ações sociais são entendidas como resultado de uma intenção deliberada de indivíduos ou atores sociais para promover seus interesses. O conflito social ocorre quando os interesses de um grupo colidem com os interesses de outro grupo. Os grupos que percebem os riscos como uma ameaça a seus interesses tratam de se mobilizar politicamente para reduzir ou eliminar os riscos. Esse comportamento, por sua vez, desperta a reação dos grupos que iriam se beneficiar com os riscos. E assim sucessivamente. O comportamento individual e institucional é guiado por estratégias com vistas a possibilitar a conquista dos objetivos pré-definidos.
A teoria da mobilização social está focalizada em dois pontos: sob que circunstâncias os indivíduos se sentem motivados a agir e quais são as condições estruturais necessárias para que grupos sociais obtenham sucesso em seus objetivos? O sucesso ou o fracasso de um grupo social pode estar menos relacionado ao esforço ou às estratégias de um ator social do que às regras de uma determinada arena e às conseqüências (intencionadas ou não) da interação – comunicação e comportamento – dos atores sociais nessa arena.
A teoria organizacional enfatiza dois aspectos estruturais das instituições: a rotinização de tarefas e a distribuição de responsabilidades. De acordo com o que propõe essa teoria, uma situação de risco tecnológico que inclua fatores organizacionais como a complacência de operadores ou o controle inadequado pode resultar em muito mais risco para o público do mostra o risco calculado com o uso de métodos técnico-quantitativos. Os riscos “reais” podem ser subestimados, gerando aumento na probabilidade de ocorrência de erros operacionais ou provocados por uma inadequação no controle.
A teoria dos sistemas vê os riscos como elementos de uma ampla unidade social ou institucional. Ela tem seu foco nos fatores estruturais e aceita a realidade como algo tanto real quanto construído. Para essa teoria as questões de risco evoluem num processo em que grupos e instituições organizam seu conhecimento sobre o ambiente natural e social e compartilham esse conhecimento com outros sistemas sociais por meio da comunicação.51 Os diversos
sistemas de conhecimento existentes na sociedade competem entre si e estão sujeitos a um processo de seleção e de adaptação orientado por critérios estruturalmente determinados. Renn (op.cit.: 70) pondera que essa visão da sociologia dominante nas décadas de 1950-1960 está, hoje, praticamente ausente da literatura norte-americana sobre riscos, embora permaneça proeminente nos trabalhos europeus.
Os conceitos neomarxistas e críticos partilham dos preceitos das teorias do ator racional mas se baseiam nas análises estruturais para determinar os interesses institucionais e o comportamento dos grupos sociais.52 A teoria tende mais a normatizar formas de
emancipação do que a explicitar experiências de risco e políticas para reduzir risco, considera Renn (ibid). Segundo essa perspectiva, as atuais políticas de risco atravessam uma crise de legitimidade por serem impostas por grupos sociais (reprodução da estrutura de classe) e não necessariamente representarem os interesses daqueles que serão afetados por elas (falta de integração social).
Finalmente, os conceitos socioconstrutivistas tratam os riscos como construtos sociais determinados pelas forças estruturais presentes na sociedade. Questões como ameaças à saúde, desigualdades, justiça, controle, e outras, explica Renn (1998: 71), não podem ser determinadas por análise científica objetiva (grifo do autor) mas sim reconstruídas a partir de crenças e racionalidades dos diversos atores sociais. Segundo essa visão, as políticas de risco são resultado de uma luta constante de todos os atores participantes para impor o seu sentido de risco na agenda pública. A necessidade de encontrar um acordo entre agir em interesse próprio (construir sua própria realidade) e comunicar-se com os outros (construir uma realidade social) é que dá as possibilidades e os limites dos construtos possíveis.
Sem negar a existência de uma realidade objetiva nem o poder dos fenômenos naturais, os cientistas sociais que passaram a se identificar como construtivistas tendem a afirmar que, dentro da análise dos riscos ambientais e tecnológicos, devem ser incorporados os processos de negociação sobre como defini-los e enfrentá-los, esclarece Guivant (op.cit.: 11). A exemplo do sociólogo inglês Brian Wynne, um dos mais destacados pesquisadores dessa corrente, eles têm se dedicado a estudar as percepções dos leigos em relação a diversos tipos de riscos e os conflitos daí advindos em relação à imposição do conhecimento perito. Seguindo a trilha aberta por Mary Douglas, eles defendem que compreender as diferentes experiências e racionalidades de peritos e leigos seria um requisito essencial para se estabelecer estratégias de comunicação que, em lugar de procurar “corrigir” os mal-
entendidos ou a ignorância dos não-especialistas, levassem em conta suas percepções e seus saberes (WYNNE, [1991] 2005).
Interessados em compreender como a autoridade institucional é criada e mantida (WYNNE, 1992; 2005) na análise das diferentes práticas de governança científica (IRWIN; WYNNE, 1996; IRWIN; MICHAEL, 2003; IRWIN; HORST, 2005; BERTRAND, JOLY; MARRIS, 2005; MACNAGHTEN, 2005); no papel da informação para a adoção de práticas emancipatórias na formulação de políticas ambientais (MOL, 2005; PORTO, 2004) e no comportamento dos consumidores (SPAARGAREN, 2005); ou na possibilidade de utilização de metodologias mais participativas nas discussões de riscos e incertezas (GUIVANT, 1998, 2002; 2005), os cientistas sociais adeptos de uma concepção mais construtivista têm contribuído para que se reflita a respeito dos modelos de comunicação utilizados até o momento pelas organizações públicas no tratamento das questões de risco.