5. Findings
5.8 The work with the citizen’s promise
O uso de orações adjetivas constitui, desde muito tempo, um recurso a que recorrem os falantes da língua portuguesa no intuito de delimitar a signifi cação de um termo, seja restringindo ou comentando o conteúdo semântico dele. Para tanto, vale-se o usuário de formas distintas de organizar aquele tipo oracional. Tarallo (1983), investigando estratégias de relativização na variante falada na área urbana de São Paulo, numa perspectiva formalista, apresentou três tipos diferentes de cláusula relativa no português brasileiro.
O primeiro tipo, denominado pelo autor variante com
lacuna, assemelha-se a sentenças relativas encontradas na língua
escrita padrão, e é assim chamado por apresentar uma lacuna na posição do SN relativizado, ou melhor, na posição que ele ocuparia dentro da relativa, como vemos em (15):
(15) Tem as que (___) não estão nem aí, não é?
Nessa situação, a lacuna existente, para o autor, se deve exatamente à ausência do SN antecedente (as = aquelas) na oração relativa, em que assumiria a função de sujeito5.
O segundo tipo encontrado apresenta a posição da lacuna 5 Essa análise é compatível com a Teoria Padrão (da Gramática Gerativa), mas não corresponde à visão que utilizamos neste trabalho. A nosso ver, não existe lacuna no exemplo referido (15), pois a função de sujeito da cláusula adjetiva está representada pelo relativo QUE.
preenchida por uma forma pronominal correferente ao SN núcleo da relativa, o que se ilustra em (16). Tarallo referiu-se a ele como estratégia do pronome resumptivo/lembrete ou relativa
copiadora, conforme notou Kato (1996) e como a denominamos
neste trabalho.
(16) Você acredita que um dia teve uma mulher que ela queria que a gente entrevistasse ela pelo interfone.
O terceiro e último tipo ocorre apenas quando o SN relativizado é o objeto de uma preposição. Nesse tipo, denominado
relativa cortadora, estão ausentes a preposição regente e o SN
relativizado, conforme ilustra o exemplo (17). Notemos que a ausência desses elementos é nitidamente percebida ao comparar (17) com a copiadora correspondente, mostrada em (17a).
(17) um fi lme que eu vi ... que eu gostei muito ... mas me lembro poucas coisas ... (Corpus D&G, língua falada, ensino médio, p.232)
(17a) um fi lme que eu vi ... que eu gostei muito dele ... Para os casos como esse, Tarallo faz notar que a norma padrão prescreve o uso de piedpiping6, doravante relativa padrão
preposicionada (RPP), fi cando (17) com a versão ilustrada em (17b). (17b) um fi lme que eu vi ... de que gostei muito.
Kato (1996) observa que Tarallo (1983 e 1985), em seu estudo diacrônico das relativas, mostra que o português contava basicamente, até meados do século XIX, com duas das estratégias de relativização apontadas acima: a estratégia com lacuna, como exemplifi cado em (15) – nas posições de sujeito e objeto direto – ou sua correlata, a RPP (cf. 17b) – nas funções preposicionadas, e a estratégia do pronome resumptivo ou relativa copiadora, 6 O piedpiping corresponde a uma estrutura oracional que coincide com a forma prescrita pela norma padrão, envolvendo o uso de um relativo em função preposicionada (adjunto adverbial, complemento nominal e objeto indireto), o que obriga a um deslocamento da preposição para o início da oração, conforme ocorre em (a) e (b).
a) “A inveja é um mal contra o qual há poucos remédios”. (SACCONI, 1999, p. 220)
b) “A senhora a quem cumprimentara era a esposa do tenente- coronel Veiga.” (CUNHA; CINTRA, 1985, p. 341)
conforme ilustram (16) e (17a). O outro tipo, a relativa cortadora, começa a aparecer na metade do século XIX para as posições de objeto indireto e outros constituintes preposicionados. A tabela 1 abaixo, adaptada da tabela 5 de Tarallo (1996), ilustra essa constatação.
Tabela 1: Distribuição das estratégias das relativas através do tempo.
Fonte: Tarallo, 1996, p. 88.
A tabela acima mostra, entre outras coisas, uma oscilação da cláusula adjetiva copiadora. Do século XVIII à primeira metade do século XIX, houve uma considerável diminuição da recorrência a essa estratégia oracional, enquanto, da primeira à segunda metade do século XIX, percebemos um aumento do uso desse recurso.
Outra realidade revelada pela tabela acima e comentada por Tarallo (1996) diz respeito ao fato de que a RPP praticamente não existe na língua falada, conforme ele próprio constatou em suas análises. Observe-se que, enquanto no século XVIII e início do XIX a recorrência a essa estratégia representava uma média de 90% dos casos, a partir da segunda metade do século XIX, houve uma forte queda no número de suas ocorrências. O mesmo autor afi rma que, em substituição a RPP, concorrem a relativa copiadora e a cortadora.
Também é válido ressaltar que, conforme nota Tarallo, a estratégia do pronome lembrete ocorre com o relativo em qualquer função sintática, diferentemente das outras estratégias, cuja ocorrência limita-se a determinadas funções assumidas pelo relativo: a estratégia com lacuna só acontece com o relativo nas funções de sujeito e objeto direto; a RPP e a cortadora, com o
Período Estratégia 1725 1775 1825 1880 N % N % N % N % Piedpiping 99 89,2 89 88,1 73 91,2 63 35,4 Pronome lembrete 11 9,9 8 7,9 1 1,3 9 5,1 Cortadora 1 0,9 4 4,0 6 7,5 106 59,5 TOTAL 111 100,0 101 100,0 80 100,0 178 100,0
relativo nas funções mais baixas (objeto indireto, oblíquo e genitivo). A tabela 2, adaptada de Tarallo (1996), mostra bem essa afi rmação.
Tabela 2: Porcentagem das relativas de acordo com a estratégia em cinco funções sintáticas.
Fonte: Tarallo, 1996, p. 87.
Uma vez que as relativas copiadoras podem ocorrer com o relativo nas mais variadas funções sintáticas, podemos depreender, a partir da tabela acima, uma outra tabela para melhor visualizarmos quais as funções que prevalecem nessa estratégia, especifi camente. Assim, a tabela 3, que construímos a partir de dados extraídos da tabela 2, revela-nos que, das 161 ocorrências da relativa copiadora, 102 (63,3%) apresentam o relativo na função de sujeito. Seguindo a função de sujeito, vem a de oblíquo, com 14,9%, seguida pela de objeto indireto, com 9,9%; com menor incidência está a função de genitivo, com apenas 5,6%.
Função Estratégia
Sujeito Objeto
direto
Objeto
indireto Oblíquo Genitivo
N % N % N % N % N % Com lacuna 890 89,7 374 97,4 - - - - - - Piedpiping - - - - 03 3,9 17 7,4 01 5,9 Pronome lembrete 102 10,3 10 2,6 16 21,1 24 10,4 09 52,9 Cortadora - - - - 57 75,0 190 82,2 07 41,2 TOTAL 992 100,0 384 100,0 76 100,0 231 100,0 17 100,0
Tabela 3: Distribuição das copiadoras por função sintática do pronome relativo.
Fonte: Tarallo, 1996, p. 87.