Seguem-se ocorrências orais e escritas dos conectores e,
aí e então:
(3) eu não coloco óleo ... não coloco ... não coloco ... aí eu deixo ferver num sabe? aí já tá no sal a água ... dei- xo ferver lá ... aí fi co arrumando a casa fazendo coi- sa ... (...) antes eu tenho que quebrar ... pra coisar né?
aí eu ... boto ... fi ca lá ... aí eu dou uma mexidinha ...
(Corpus D&G, p. 350).
(4) Bem o meu Macarrão que eu faço é assim pego uma panela boto a água e sal depois boto a tampa e deixo en- quanto estou varrendo a casa. Depois de algum tempo vou ver está fervendo pego o Macarrão pico e coloco dentro. E o meu molho do macarrão é assim pego a cebola e pico e boto manteiga e passo o macarrão. (Corpus D&G, p. 363). (5) a varanda onde a gente faz a nossa sala íntima para ver televisão ... assistir fi lme ... essas coisas ... então lá tem duas cadeiras grandes e duas redes armadas para a gente ver televisão ... e tem uma mesinha com televisão ... vídeo ... essas coisas ... então essa é a nossa sala íntima que dá também pra rua ... (Corpus D&G, p. 58).
gundo retorna-se a sala de estar e sobe-se uma escada- ria; após subir a escada, encontra-se à direita um banheiro social e em frente a escada o quarto principal compos- to por: uma cama, dois criados-mudo, uma televisão, um guarda roupa, uma rede armada e um banheiro. (Corpus D&G, p. 69).
Cabe inicialmente distinguir gêneros e tipos de discurso, uma vez que, quando se comparam fala informal (uma conversa cotidiana entre dois amigos, por exemplo) e escrita formal (um texto acadêmico, por exemplo), encontram-se grandes diferenças. No entanto, quando se comparam textos orais e escritos de mes- mo gênero, observam-se, ao lado de uma gama de similaridades resultantes da identidade de gênero, as diferenças que, aí sim, po- dem ser atribuídas ao plano da modalidade da língua.
Os gêneros são formas textuais estabilizadas, histórica e socialmente situadas, embora maleáveis e dinâmicas, pois aten- dem às necessidades comunicativas humanas imediatas, que va- riam a cada comunidade e período de tempo. Caracterizam-se mais por suas funções comunicativas, cognitivas e institucionais do que por suas peculiaridades lingüísticas e estruturais. Por isso, quando nomeamos um gênero de discurso, não nomeamos uma forma lingüística e sim uma forma de realizar lingüisticamente objetivos específi cos em situações sociais particulares. Há inú- meros gêneros, alguns com manifestação possível através das modalidades oral e escrita da língua, outros apenas realizando-se em uma delas: conversação cotidiana, telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, bilhete, aula expositiva, peça teatral, re- união de condomínio, horóscopo, e-mail, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, outdoor, etc.
Em contraste, os tipos de discurso são defi nidos pela natu- reza lingüística de sua composição (aspectos lexicais, morfossin- táticos, semânticos): narrativa, argumentação, explicação, descri- ção, injunção. Um mesmo gênero pode possuir dois ou mais des- ses tipos. É possível, por exemplo, que um único e-mail contenha narrativa, argumentação, injunção, etc. Os gêneros distribuem-se
em classes consoante os traços dos tipos que os caracterizam. As- sim, gêneros como o romance, o conto, o laudo de acidente e a notícia pertencem à classe dos gêneros narrativos, por conte- rem, prototipicamente, seqüências narrativas. (cf. MARCUSCHI, 2003; BONINI, 2005).
Neste estudo, buscamos uma maior uniformização entre os textos ao tomar como material de análise amostras de fala e de escrita compostas pelos mesmos tipos de discurso – narrativa de experiência pessoal, relato de procedimentos, descrição de local e relato de opinião –, com o intuito de evitar enviesamentos na análise. Levamos em conta tipos de discurso (e não gêneros), uma vez que a fonte de nossos dados, o Corpus Discurso & Gramática, é composta por conjuntos de seqüências narrativas, argumentati- vas, descritivas, procedimentais, e não por gêneros específi cos.
Consideramos o conjunto de nossa amostra oral como me- nos marcado que o conjunto de nossa amostra escrita, pois a fala parece ser a modalidade menos complexa em geral, na comuni- cação humana. Ela é adquirida antes da escrita e há comunidades humanas ágrafas, mas todas fazem uso da fala. Segundo Givón (1979), esses fatos refl etem sua maior simplicidade cognitiva. Sendo assim, a hipótese é que e, o conector menos marcado, deve se sobressair na fala, e então, o conector mais marcado, deve re- ceber maior destaque na escrita.
Vejamos os resultados na tabela 1.
Tabela 1: Distribuição de e, aí e então – modalidade da língua
Os resultados mostram que os três conectores sob enfoque são mais freqüentes na fala. Aí e então quase só ocorrem nessa modalidade (com 99% e 97% de seus dados, respectivamente), ao passo que, ao contrário do que foi previsto em nossa hipótese,
E AÍ ENTÃO
MODALIDADE Freq. % Freq. % Freq. %
Fala 393 78 221 99 117 97
Escrita 109 22 2 01 4 03
e é o conector predominante na escrita, em que aparecem 22% de
suas ocorrências e em que corresponde a 95% do total dos 115 dados de conectores encontrados nessa modalidade. Talvez o fato de aí ter aparecido apenas duas vezes nos textos escritos se deva à estigmatização que parece estar ligada a seu uso como conector, geralmente considerado impróprio para a escrita ou mesmo um vício de linguagem. Portanto, uma pressão por parte da escola para que se evite o emprego de aí pode estar por trás de sua pre- sença insignifi cante nos textos escritos.
No entanto, o que explicaria a baixa recorrência a então na escrita? Trata-se de um conector não estigmatizado, vinculado a contextos de maior formalidade (cf. TAVARES, 2003, 2004), e, por isso, esperávamos que predominasse nos textos escritos. Por outro lado, o que faz e ser preferido na escrita, em detrimento de uma multiplicidade de itens como aí, então, logo, pois, dessa
forma, daí, sendo assim, portanto, por conseguinte, em conse- qüência? Na amostra escrita, os dois primeiros tiveram baixa re-
corrência (como mostra a tabela 1), pois teve dois dados, logo e
portanto tiveram um, e os demais sequer apareceram. Essa ques-
tão será retomada na seção 3.