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3. Theoretical framework

3.5 Institutional Perspective

Privilegiando a língua escrita, respaldada pelas obras li- terárias de autores clássicos, a GT desconsidera a variação e a mudança lingüísticas, caracterizando os múltiplos usos da lín- gua – orais e escritos – como desvios ou infrações da modali- dade padrão, reconhecida e preservada institucionalmente como norma culta. A GT – comumente denominada normativa no meio educacional – apresenta-se como um corpo de leis que pretende

reger o uso da língua de modo uniforme nos diversos contextos do ambiente social. Como conseqüência, a atividade docente em nossas escolas, no que diz respeito ao ensino da língua pátria, tem sido fortemente marcada pela infl uência da gramática tradi- cional, de natureza lógico-fi losófi ca, repositório das concepções culturais greco-latinas. A propósito, sabe-se, hoje, da existência de uma considerável divulgação de obras, produzidas por lin- güistas e estudiosos da linguagem, a respeito das limitações teó- rico-metodológicas das gramáticas tradicionais, em particular, as editadas no Brasil.

Todavia, ao levantar esta série de observações, sem a me- nor pretensão de execrar a doutrina da gramática normativa – cre- denciada ao longo dos anos pela tradição escolar deste país –, nem tampouco supervalorizar os “achados” da ciência lingüística – embora sérios e dignos de referência –, tencionamos, na medida do possível, focalizar no estudo do gênero alguns tópicos teóricos passíveis de questionamento.

Em suma, com relação ao estudo do gênero patrocinado pelos compêndios gramaticais, levantamos algumas evidências em torno das quais elaboramos os seguintes argumentos:

1. As GT – privilegiando a língua escrita literária – des- consideram os fenômenos proeminentes da escrita cotidiana e da oralidade (= fala), estigmatizando-os de “desvios” ou “irregulari- dades” próprias de falantes analfabetos ou negligentes.

Assumindo o peso da tradição lingüística clássica – he- rança cultural greco-latina – a GT espelha-se nos exemplos de escritores e poetas de prestígio, visando uniformizar os múltiplos usos da língua e tomando como parâmetro única e exclusivamen- te o código verbal escrito. Com o estatuto de língua culta, a língua escrita passa a ser reconhecida socialmente como a modalidade padrão de referência. Assim, no caso particular do gênero, as for- mas a presidente, a poeta, meia doente, menas gente, a alface, a

tomate, a champanha, a guaraná, são concebidas pela GT como

produtos de uma fala (ou escrita) errada, nitidamente popula- resca. Dessa forma, as forças inerentes (cognitivas, semânticas e pragmáticas) do processo discursivo – objeto de pesquisa dos

lingüistas contemporâneos – têm sido a priori rejeitadas, aliás, às vezes os estudos desses fenômenos são até cognominados de veleidades/modismos pelos representantes da resistência purista conservadora.

2. Considerando a convenção por nós formulada neste tra- balho, nota-se que os gramáticos tradicionais tendem a proceder orientados pela mesma concepção metodológica: a diacronia.

O estudo do gênero desenvolve-se atendendo aos mesmos requisitos metodológicos: conceituação, classifi cação, listas de casos e exceções. Chega-se a constatar, em alguns compêndios, os mesmos exemplos para ilustrar regras idênticas. A categoria de gênero, a exemplo de outras categorias gramaticais, não recebe um tratamento adequado e completo, buscando, por conseguinte, descrever/interpretar as diferentes nuances de natureza sincrônica pertinentes a esse fenômeno. Fica a impressão de que a língua sofrera tão-somente as alterações fonéticas, morfológicas e sin- táticas na passagem do latim para o português, congelando-se a ponto de petrifi car-se como monumento cívico-patriótico, objeto a ser reverenciado e reproduzido pelas gerações presentes e futu- ras, por ser legado irremovível da memória histórica de um povo.

3. Os compêndios de orientação lingüística (gramáticas descritivas) consultados, embora partindo da compreensão his- tórica de gênero, transferem o assunto do campo da morfologia para o âmbito da morfossintaxe, porém ainda não contemplando plenamente as questões semântico-pragmáticas.

A gramática de Luft (1991), apesar de incorporar alguns avanços teóricos da lingüística contemporânea, principalmente das escolas estruturalista e gerativista, ainda aborda o gênero sob a ótica puramente formal. Esse autor descreve, sumariamente, os passos do processo fl exional dos nomes em português. Com efei- to, agindo assim, seu estudo se aproxima mais do modelo descri- tivo tradicional do que do paradigma das teorias lingüísticas (a pragmática, a semântica, o funcionalismo, a psicolingüística, a sociolingüística, dentre outras tendências).

No caso de Perini (1996), constatamos a preocupação desse autor em demonstrar, a princípio, que a analogia entre

gênero e sexo – proposta pelas GT – é confusa e improduti- va. Sua contribuição consiste, de fato, em analisar a categoria de gênero no contexto da sintaxe, precisamente no interior dos sintagmas nominais (SN). Isso o leva a propor, por conseguin- te, uma nova defi nição para a classe dos substantivos, a saber:

substantivos são todas as palavras que podem ser complementos

do predicado e não podem ser nem modifi cadores nem predica- tivos (p. 327). Percebe-se, portanto, a rejeição da estereotipada

defi nição de substantivo adotada pelas gramáticas tradicionais:

substantivo é a palavra que designa os seres em geral. Na ver-

dade, a compreensão do que seja substantivo tem implicações diretas – numa abordagem sintático-semântica – no processo fl exional das palavras.

4. Sob uma perspectiva sincrônica, o problema do gênero gramatical em português parece residir nas tentativas de classifi - cação dos substantivos que denotam seres inanimados desprovi- dos de sexo.

Dos autores investigados, Ribeiro (1917), Pereira (1926) e Luft (1991) se aproximam teoricamente da concepção de gê- nero que considera a noção de sexo aplicável à fl exão dos no- mes. A princípio, esses gramáticos operam a distinção de sexo com relação aos seres animados (humanos/animais), estendendo- -a, por analogia semântica, aos seres inanimados (coisas). Por mais didática que seja a intenção, na prática, o resultado dessa estratégia mostra-se inconsistente e pouco efi caz. Enquanto isso, Said Ali, Rocha Lima, Bechara e Perini convergem para um pon- to de vista que aponta os traços de concordância nominal entre substantivo e artigo/adjetivo, para determinação do gênero gra- matical, descartando, ou colocando num plano secundário/fa- cultativo, a indicação do gênero biológico (sexo) no tratamento dos nomes de coisas.