2. Context
2.3 The 90’s Community policing (“Närpolisreformen”)
Schlesinger (1995) organiza hierarquicamente os verbos de acordo com os traços semântico-pragmáticos que manifestam – em especial, o grau de atividade que indicam –, baseando-se na proposta de classifi cação feita por Quirk et al. (1972). Neste estudo, reorganizamos a categorização de Schlesinger, composta por onze traços verbais, acrescentando-lhe mais quatro, dicendi, atenuação, existência e estado:
Quadro 1: Hierarquia dos traços semântico-pragmáticos verbais
Nessa hierarquia, as classes superiores são as referentes aos verbos cujo sujeito pode ser dito engajado em uma ativida- de, e as classes inferiores são as de verbos que indicam pouca atividade. Assim, quanto mais alta a posição do verbo na escala, maior a atividade envolvida e, como contraparte, quanto mais bai- xo está situado o verbo, menor o grau de atividade que pode ser atribuído a seu sujeito.
E AÍ ENTÃO
NÍVEIS Freq. % Freq. % Freq. %
Segmentos oracionais 160 32 11 05 5 04
Segmentos tópicos 342 68 212 95 116 96
TOTAL 502 100 223 100 121 100
1. Momentâneo - refere-se à atividade repentina, de curta duração: saltar, chutar, bater, derrubar, golpear, quebrar (intencional)
2. Atividade específi ca - evoca uma imagem específi ca: escrever, jogar, beber, desenhar, nadar, andar, sorrir
3. Dicendi - precede a citação ou discurso direto: dizer, falar, responder, ordenar, perguntar
4. Atividade difusa - não evoca uma imagem específi ca: aposentar-
O controle dos traços verbais aqui levado a cabo consi- dera o verbo principal da primeira oração da porção discursiva (seja segmento oracional, seja segmento tópico) introduzida pelo conector em análise a cada caso. Assim como Schlesinger (1995), não levamos em conta verbos modais (poder, dever, etc) e verbos auxiliares (ser, estar, ter). Nesses casos, apenas o verbo principal
5. Instância - posição corporal estática: deitar(-se), recostar(-se), sentar(-se) , pousar (-se), reclinar(-se)
6. Estímulo mental - o sujeito da oração é o estímulo da experiência mental de outrem: impressionar, agradar, surpreender, assustar, espantar, aborrecer
7. Evento transitório intencional - indica se o sujeito permanece em certo lugar: permanecer, residir, situar, estar (em um lugar)
8. Evento transitório não intencional - refere-se a ações não intencionais: morrer, cair, desmaiar, adormecer, acordar, quebrar (não intencional)
9. Processo - mudança não intencional sofrida por um corpo (mais ou menos animado): deteriorar, crescer, amadurecer, transformar, ferver, congelar
10. Experimentação mental - o sujeito da oração é o experienciador: adorar, odiar, desejar, pensar, lembrar, entender
11. Atenuação - distanciamento ou suavização da opinião: achar, pensar
12. Relacional - representa relações assinaladas pelos homens em seu processo de percepção da realidade: identidade, analogia, comparação, posse, causa, fi nalidade, conseqüência, etc: depender de, merecer, precisar; servir como, assemelhar-se, causar, igualar, ter (posse), determinar, faltar (algo), errar, resultar de/em, relacionar- se com, custar
13. Sensação corporal - sensação física: machucar-se, doer, ferir, sentir, sofrer
14. Existência - ter, haver, existir
foi controlado quanto ao traço semântico-pragmático. Dessa ma- neira, temos, por exemplo, posso dizer = dicendi, estava cantan-
do = atividade específi ca. Uma vez que não obtivemos dados de e, aí e então introduzindo orações com verbos de estímulo mental
e com verbos de sensação corporal, consideramos apenas os tre- ze tipos restantes. Para facilitar a análise, distribuímos os verbos desses treze tipos em cinco categorias:
a. Os verbos que ocupam a posição mais alta na escala de atividade são momentâneo, atividade espe-
cífi ca e dicendi, os quais podem ser tomados em con-
junto como um grupo denominado ATIVIDADE 1. Esses verbos referem-se a ações físicas intencionais executadas com o corpo (ou, mais especifi camen- te, com a boca, no caso dos verbos dicendi), envol- vendo um ser físico que age no mundo, movendo-se (salta, desenha, fala).
b. Os verbos de atividade difusa e de instância são tidos como de ATIVIDADE 2. A taxa de ativida- de que transparece quando tais verbos são utilizados é menor que a que transparece quando são utilizados os verbos de ATIVIDADE 1. Os verbos de atividade
difusa envolvem ainda, a exemplo dos verbos de ativi- dade específi ca, ações físicas intencionais executadas
com o corpo, mas de um modo menos circunscrito, me- nos específi co (comparem-se, por exemplo, o verbo de
atividade difusa ‘trabalhar’ com o verbo de atividade específi ca ‘digitar’), evidenciando um grau menor de
movimento físico no mundo. Os verbos de instância são os de posição corporal estática, que indicam ação no sentido de mudança ou preservação intencional da posição física ocupada no mundo.
c. Os verbos transitório intencional, transitório
não-intencional e processo, de ATIVIDADE 3, organi-
zam-se em uma escala que vai da perda de movimen- to e fi xidez em um lugar do mundo, mas manutenção
da intencionalidade (o traço transitório intencional), à perda não apenas da mobilidade mas também da in- tencionalidade, levando a cabo ações não intencionais ou mesmo passando a sofrer a ação de processos fí- sicos (os traços evento transitório não-intencional e
processo, respectivamente).
d. Os verbos de experimentação mental, atenua-
ção e relacional, de ATIVIDADE 4, referem-se a ope-
rações cognitivas complexas. Verbos de experimenta-
ção mental são os que codifi cam as atividades mentais
experimentadas, intencionalmente ou não, pelos seres humanos (refl etir, amar). Verbos de atenuação estão li- gados à relação do falante com seu discurso, suavizan- do a própria opinião acerca de fatos. Verbos relacio-
nais representam relações complexas assinaladas pelos
homens em seu processo de percepção da realidade, tais quais comparação, posse, fi nalidade, conseqüên- cia. Esses tipos de traços verbais podem ser mais ou menos intencionais, mas não codifi cam nenhum tipo de ação física concreta no mundo: seu escopo de ação é a organização das relações mentais, do discurso hu- mano e das relações através das quais o homem torna o mundo apreensível à mente.
e. Finalmente, os verbos de existência e de esta-
do, de ATIVIDADE 0, não evidenciam traços de ati-
vidade. De acordo com Schlesinger (1995) e Bybee (2003), esses verbos são os mais generalizados, pouco signifi cando além de interligação entre nacos do dis- curso (mais especifi camente, entre sintagmas cons- tituintes da oração da qual o verbo faz parte). Trans- mitem informação principalmente em conjunção com seus complementos, e quase nada quando isolados. Qual a relação entre o traço do verbo da oração introdu- zida pelo conector com o conector em si? Os verbos de maior atividade (ATIVIDADE 1) são pouco marcados, já que não re-
presentam muitas difi culdades em termos de processamento cog- nitivo: estão ligadas às experiências básicas dos seres humanos com a realidade exterior. Os verbos que implicam um maior grau de atividade cognitiva, às expensas da atividade física (ATIVI- DADE 4), são os mais complexos, por estarem mais distantes da sinalização de relações voltadas ao mundo externo, manifes- tando, ao invés, traços de atividade mental, mais difíceis de ser processados. Já os verbos de existência e de estado (ATIVIDADE 5) são os menos marcados, pois são altamente genéricos, indi- cando apenas haver uma relação entre os componentes da oração por eles interligados.
Assim, a hipótese é que e deve aparecer mais em con- textos caracterizados por verbos de traços pouco marcados, os de ATIVIDADE 0. Como contraparte, então deve predominar na introdução de orações cujo verbo principal possua traço bastante marcado, como os de ATIVIDADE 4.
Os resultados, na tabela 5, confi rmam a hipótese. Os prin- cipais contextos de uso de e são aqueles em que estão presentes verbos de existência e de estado (ATIVIDADE 0), os menos mar- cados, e os de ATIVIDADE 1, de marcação intermediária. Quan- to a aí, suas ocorrências concentram-se em contextos de verbos de marcação intermediária (ATIVIDADE 1 e ATIVIDADE 2). Por sua vez, então destaca-se em contextos de traços verbais mais marcados, agrupados como ATIVIDADE 4.
Tabela 5: Distribuição de e, aí e então – traços verbais
E AÍ ENTÃO
TRAÇOS VERBAIS Freq. % Freq. % Freq. %
Atividade 0 172 34 27 12 10 08 Atividade 1 141 28 77 35 18 15 Atividade 2 69 14 54 24 18 15 Atividade 3 46 09 33 15 24 20 Atividade 4 74 15 32 14 51 42 TOTAL 502 100 223 100 121 100