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The wireless demonstrator

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4.2 The wireless demonstrator

Nas edições dos escólios de Acarnenses, é igualmente possível que se encontrem erros de citação. Novamente frisamos: não são erros nas citações feitas pelos escoliastas de

Acarnenses, mas na edição feita de tais citações.

Um notável erro de citação cometido por editores dos escólios de Acarnenses está vinculado a Σ Ac. 272. Nesse escólio, encontramos a citação do fr. 245 K.-A. da comédia

Convivas, de Aristófanes, que nas edições críticas de Kassel e Austin (1984) e Kock (1880)

aparece da seguinte maneira:

ὡρικὸν δὲ μειράκιον καὶ κόρη.

Um rapaz na flor da idade e uma moça.

Esse fragmento aristofânico foi citado pelos escoliastas dos códices ΕΓ no comentário que anexaram a Ac. 272. Foi por intermédio de ΣΕΓ Ac. 272 ou da fonte usada por ele que o fr. 245 K.-A. de Convivas chegou aos escólios de Acarnenses. Eis o texto integral de ΣΕΓ Ac. 272:

ὡρικὴν: ἀντὶ τοῦ ὡραίαν καὶ ἀκμαίαν, ὥρα γὰρ ἡ ἀκμή. καὶ ὡραῖόν φασιν οἱ τραγικοὶ τὸ ἀκμαῖον. κοινὰ δὲ τὰ τοιαῦτα ὀνόματα. ὡρικὸν δὲ μειράκιον καὶ κόρη ὡς ἐν Δαιταλεῦσιν αὐτός. ἡ δὲ λέξις ἀπόδεκτος.

Ὡρικήν: Significa ‘que está na flor da idade’ e ‘que está no auge da força da idade’, pois ὥρα é o auge da força. Os poetas trágicos também chamam de ὡραῖον aquele que está no auge da força da idade. O próprio [Aristófanes], na peça Convivas, também escreveu do mesmo modo: “um rapaz na flor da idade e uma moça”. Esta expressão também é aceitável.

Além de ser o mais extenso dentre os escólios antigos de Ac. 272, o comentário transcrito acima é o principal dos dois únicos testemunhos do fr. 245 K.-A. de Aristófanes (cf.

tópico 3.2.1). O escoliasta da Aldina copiou de ΣΕΓ Ac. 272 as anotações que colocou junto de

Ac. 272, inclusive a citação, que manteve inalterada.

Adotando uma postura contrária à do escoliasta da Aldina, Dindorf (1838) e Dübner (1855) modificaram a citação do fr. 245 K.-A., presente tanto em ΣΕΓ Ac. 272 quanto em ΣAld

Ac. 272. Eles mesmos admitem que alteraram a referida citação para acompanhar uma edição

de Dobree7, que propôs a substituição de κόρη (‘moça’) por ὡρικῶς (‘com o ardor da juventude’). Depois da modificação, a citação do fr. 245 K.-A. ficou assim nas edições de Dindorf (1838) e Dübner (1855):

ὡρικὸν δὲ μειράκιον καὶ ὡρικῶς.

Um rapaz na flor da idade e com o ardor da juventude.

Bekker (1829), diferentemente de Dindorf (1838) e Dübner (1855), conservou em sua edição dos escólios de Acarnenses a versão original do fr. 245 K.-A. de Convivas.

Como se vê, os únicos responsáveis pela modificação do fr. 245 K.-A. em Σ Ac. 272 são Dindorf (1838) e Dübner (1855). Não se pode creditar na conta dos escoliastas de Acarnenses a culpa por esse erro de citação.

4.2.5 Erros de correção indevida

Outro tipo de erro presente nas edições dos escólios de Acarnenses são as correções indevidas. Em alguns comentários dos escoliastas, os editores dos escólios de Acarnenses fizeram “correções” desnecessárias e questionáveis. O resultado dessas supostas correções são escólios com erros de informação ou erros de sintaxe, os quais não podem ser atribuídos aos escoliastas.

Nas edições de Dindorf (1838) e Dübner (1855), especificamente em Σ Ac. 875, temos um bom exemplo desse tipo de erro. Observe-se o que diz Σ Ac. 875 nas duas referidas edições:

φαλαρίδας: οἱ μὲν γένος ὀρνίθων, οἱ δὲ τὰς ἐν τῇ Φαληρίδι γενομένας ἀφύας. Φαλαρίδας: Uns dizem que são uma espécie de ave; mas outros dizem que eram as sardinhas que existiam em Faléris.

De acordo com esse comentário, algumas pessoas diziam que φαλαρίς eram sardinhas, especificamente “as sardinhas que existiam em Faléris”. No entanto, nenhum léxico grego

corrobora tal informação. Para LSJ, trata-se de uma ave chamada galeirão. Já Bailly (2000) o identifica com a galinha-d’água. Seria até esquisito encontrar o nome de um peixe no meio do comentário de um verso (Ac. 875) que só fala de aves!

Será que estamos diante de mais um erro de informação presente nos escólios de

Acarnenses? Não! Estamos, sim, diante de um equívoco de correção indevida e até cômica

cometido por dois sérios editores dos escólios de Acarnenses: Dindorf (1838) e Dübner (1855), que acrescentaram o substantivo ἀφύη (‘sardinha’) no final de Σ Ac. 875. Na verdade, eles não foram os autores dessa modificação, e sim Ludolf Küster, um notável editor de Aristófanes do século XVIII. Eles apenas incluíram em suas edições a sugestão de Küster. Bekker (1829), por outro lado, não seguiu a sugestão de Küster.

No comentário de Σ Ac. 875, tal qual escrito pelos próprios escoliastas, a palavra ἀφύη (‘sardinha’) não está presente. Na redação original de Σ Ac. 875, temos apenas o seguinte:

φαλαρίδας: οἱ μὲν γένος ὀρνίθων, οἱ δὲ τὰς ἐν τῇ Φαληρίδι γενομένας.

Φαλαρίδας: Uns dizem que são uma espécie de ave; mas outros dizem que eram as [aves] que existiam em Faléris.

Como se pode perceber, na última oração do escólio, o substantivo que forma um sintagma com o artigo τάς (‘as’) está oculto. Por isso, Küster acrescenta ἀφύας para que se tenha τὰς ἀφύας (‘as sardinhas’). Fez isso, possivelmente, por não perceber que ὄρνιθας (‘aves’) foi omitido para evitar a repetição da palavra.

O segundo erro de correção indevida nas edições dos escólios de Acarnenses está ligado a Σ Ac. 781-2. Vejamos antes o texto que foi modificado. Ao comentar os referidos versos, o escoliasta do códice de Ravena escreveu o seguinte:

νῦν σαφῶς σημαίνει ὅτι χοῖρον τὸ γυναικεῖον αἰδοῖον λέγει.

Agora, com certeza, ele está provando que chama a genitália feminina de χοῖρος (‘porquinha’).

Observe-se que nesse comentário o verbo λέγω, que está na voz ativa, tem o sentido de ‘chamar’ ou ‘denominar’. Quando usado na voz ativa e com esse sentido, o verbo λέγω integra a seguinte estrutura sintática:

Sujeito (nom.)

+

Denominação (acus.)

+

Objeto Denominado (acus.)

+

λέγω (voz ativa)

Em algumas situações de uso dessa estrutura, o sujeito pode estar oculto e a ordem da denominação e do objeto denominado pode estar invertida. O verbo também pode vir numa outra posição que não seja a final.

Essa estrutura sintática é bastante recorrente nos escólios de Acarnenses. Em Σ Ac. 61, por exemplo, temos: τούς βασιλεῖς τυράννους λέγουσι (‘chamam os reis de tiranos’). Nesse caso, o sujeito, que são os poetas, está oculto; o objeto denominado é τούς βασιλεῖς (acus. ‘os reis’); e a denominação dada ao objeto é τυράννους (acus. ‘tiranos’).

Em Σ Ac. 75, também encontramos a mesma estrutura: Κραναὰς τὰς Ἀθήνας λέγει (‘está chamando Atenas de Κραναάς’). Aqui o sujeito também está oculto, Diceópolis; o objeto denominado é τὰς Ἀθήνας (acus. ‘Atenas’); e a denominação dada ao objeto é Κραναάς (acus. ‘Crânao’).

Estrutura semelhante foi usada em Σ Ac. 146: λέγομεν ἄλοχον τὴν ὁμόλεκτρον (‘chamamos a que compartilha o leito de concubina’). Nessa oração, o sujeito, nós, está oculto; o objeto denominado é τὴν ὁμόλεκτρον (acus. ‘a que compartilha o leito’); e a denominação dada ao objeto é ἄλοχον (acus. ‘concubina’). Desta vez, o verbo apareceu no início da frase.

Como se pôde ver, a estrutura sintática utilizada por ΣR Ac. 781-2 é bastante recorrente nos escólios de Acarnenses. Ao comentar Ac. 781-2, o escoliasta do códice de Ravena fez uso da mesma sintaxe dos três casos acima: ocultou o sujeito, que era Diceópolis; colocou τὸ γυναικεῖον αἰδοῖον (acus. ‘a genitália feminina’) na posição do objeto denominado; e apresentou χοῖρον (acus. ‘porquinha’) como o nome dado ao objeto.

Embora não houvesse problema algum com a estrutura sintática de ΣR Ac. 781-2, Rutherford (1896) substituiu χοῖρον, que estava no acusativo, por χοῖρος, no nominativo. Para tentar justificar sua correção indevida, ele afirma que a mesma alteração foi feita pelo escoliasta da Aldina, o que é parcialmente verdadeiro. Na verdade, ΣAld Ac. 781-2 substituiu a estrutura sintática usada por ΣR Ac. 781-2 por outra semanticamente equivalente. Vejamos:

νῦν σαφῶς σημαίνει ὅτι χοῖρος τὸ γυναικεῖον αἰδοῖον λέγεται.

Agora, com certeza, ele está provando que a genitália feminina é chamada de χοῖρος (‘porquinha’).

Note-se que o escoliasta da Aldina, trocou uma estrutura sintática da voz ativa por outra que faz uso da voz média/passiva. Nessa nova estrutura, que é semanticamente igual à outra, a regência verbal é diferente. Agora, o verbo λέγομαι, na voz média/passiva, integra a seguinte estrutura sintática:

Denominação do sujeito (nom.)

+

Sujeito Denominado (nom.)

+

λέγομαι (voz med./pas.)

Assim como poderia ocorrer com a anterior, em algumas situações de uso dessa nova estrutura, o verbo pode vir numa outra posição que não seja a final, e a ordem da denominação do sujeito e do sujeito denominado pode estar invertida.

Dentre os escólios de Acarnenses, existem diversos exemplos de utilização dessa segunda estrutura sintática. Em Σ Ac. 81, para apresentar um primeiro exemplo, vemos o seguinte: ἀπόπατος λέγεται τῆς ἐκδεδιῃτημένης τροφῆς ἡ ἄφοδος (‘a latrina do alimento defecado é chamada de ἀπόπατος’). Nessa oração, o sujeito denominado é ἡ ἄφοδος (nom. ‘a latrina’) e a denominação do sujeito, ἀπόπατος (nom.). O verbo, nesse caso, foi posto entre os dois nominativos.

Outro exemplo de uso da mesma estrutura está em Σ Ac. 145: ἐλέγετο δὲ οὗτος Τήρης (‘este se chamava Teres’). Aqui o sujeito denominado é οὗτος (nom. ‘este’) e a denominação do sujeito, Τήρης (nom. ‘Teres’). Nessa oração, o verbo foi colocado na posição inicial.

Σ Ac. 162 fez igualmente uso da tal estrutura: οἱ ἄνω ἐρέττοντες θρανῖται λέγονται (‘os que remam na parte superior são chamados de θρανῖται’). Nesse caso, o sujeito denominado é οἱ ἄνω ἐρέττοντες (nom. ‘os que remam na parte superior’) e a denominação do sujeito, θρανῖται (nom.).

Como último exemplo, mostraremos a seguinte frase de Σ Ac. 350-1: ἡ ἐξ ἀνθράκων τέφρα μαρίλη λέγεται (‘a cinza dos carvões é chamada de μαρίλη’). Agora o sujeito denominado é ἡ τέφρα (nom. ‘a cinza’) e a denominação do sujeito, μαρίλη (nom.).

Diante dos quatro exemplos acima, pode-se ter a certeza de que ΣAld Ac. 781-2 não estava corrigindo um erro de ΣR Ac. 781-2, mas apenas substituindo uma estrutura sintática por outra, que talvez fosse mais usual em sua época.

Portanto, a correção de Rutherford (1896) é desnecessária e indevida. Se ele queria ajustar sua edição – que é paradoxalmente exclusiva aos escólios provenientes do códice de Ravena – à Aldina, deveria também ter trocado λέγει (‘chama’) por λέγεται (‘é chamado’), e não somente χοῖρον (acus. ‘porquinha’) por χοῖρος (nom. ‘porquinha’). O resultado da modificação feita por Rutherford (1896) é uma falsa ideia de que ΣR Ac. 781-2 contém uma pequena incoerência de sintaxe.

O terceiro e último caso de correção indevida nas edições dos escólios de Acarnenses está ligada a Σ Ac. 590. Comentando o verbo τεθνήξει (‘serás morto’: Ac. 590), o citado escoliasta afirma o seguinte:

Ἀττικοὶ δὲ διὰ τοῦ σ φασὶ τεθνήσει.

Os áticos também pronunciam τεθνήσει, com sigma (σ).

Como já mostramos no capítulo anterior (cf. tópico 3.4.4), esse escólio está mostrando que o verbo τεθνήξει (2sg. futuro perfeito med. de θνῄσκω: ‘morrer’), presente em Ac. 590, entre os falantes do dialeto ático também poderia ser pronunciado com sigma (σ): τεθνήσει, assim como acontecia com o futuro de εὑρίσκω e γιγνώσκω.

Possivelmente por entender que Σ Ac. 590 estava corrigindo o verbo τεθνήξει ou τεθνήσει (Ac. 590), como está no códice de Ravena, Rutherford (1896) fez uma correção indevida no mencionado escólio. Ele acrescentou o sigma (σ) no final do verbo τεθνήξει (‘serás morto’), mudando-o da voz média/passiva para a voz ativa: τεθνήξεις (‘morrerás’). Deve ficar claro que Rutherford (1896) fez essa modificação no próprio texto de Σ Ac. 590.

Nos três casos que acabamos de mostrar, o texto original dos comentários de Σ Ac. 875, Σ Ac. 781-2 e Σ Ac. 590 foi modificado desnecessária e indevidademente pelos editores dos escólios de Acarnenses.

In document 19-00602 (sider 33-41)