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In document 19-00602 (sider 51-54)

O Suda (Σουίδας) é um dos léxicos mais renomados da renascença bizantina. Segundo Bailly (2000, p. 1772), Suda (S) foi um historiador e lexicógrafo. Porém, Dickey (2007, p. 90) acredita que Suda não é o nome do autor, mas apenas o nome pelo qual a obra ficou conhecida. Para ele, o autor é anônimo. Ainda de acordo com Dickey (2000, p. 90), é mais provável que o Suda tenha sido compilado por um grupo de vários escoliastas.

Em relação às comédias de Aristófanes e seus escólios, o Suda é o léxico mais importante. Primeiramente, porque mais de 5.000 entradas – das suas quase 30.000 – foram extraídas das peças de Aristófanes e de seus escólios (DICKEY, 2007, p. 34, 90). Muitos – conseguimos identificar 453 – verbetes do Suda são inegavelmente escólios de Acarnenses (cf. o “Índice de autores e obras da antiguidade citados ou mencionados nos escólios de

Acarnenses”, em anexo).

Sua importância, em segundo lugar, também se deve à sua antiguidade. Ele foi escrito no final do século X d.C., mas talvez tenha retirado seus extratos de um exemplar anotado que havia sido transcrito de um arquétipo do século IX (COULON, 1958, p. xix). Contudo, assim como ΣR Ac., o Suda também conserva alguns vestígios de uma época bem mais remota. Nele, por exemplo, também há escólios que remetem a diversas obras notórias e populares da Antiguidade clássica. Dídimo, para dar um só exemplo, é indicado como fonte de algumas informações presentes em diversos verbetes (cf. S α.2146; γ.48; ε.804, 1628; κ.2721, 2804; λ. 807; ο.425, 687; π.927, 1216, 1313, 2174, 2557; τ.431; φ. 105, 436).

Além disso, vários verbetes do Suda também coincidem com os fragmentos dos escólios de Acarnenses provenientes do já mencionado papiro Oxyrhynchus, do século III d.C. (GRENFELL; HUNT, 1908). O quadro abaixo demonstra tais semelhanças:

Quadro de semelhanças entre Suda e ΣΠ Ox.856 Ac.

Verbete Semelhança Temática Semelhança Textual

S α.4671 Cesta (Σ Ac. 108) ]οι δ(έ) φα(σι)

S σ.1186 Clístenes (Σ Ac. 118) ]ς Κλεισθ(ένης)

S ει.148 Teógnis (Σ Ac. 140) Θέογνις· τραγῳδίας] ψυχρός πο(ιητὴς)

S π.2290 Carvalhos (Σ Ac. 180) ]ς σκληροί

S σ.536 Hortaliça (Σ Ac. 478) σκάν[δικά· λ]άχανον τι.

S γ.424 Linha de largada (Σ Ac. 483) δρ]ομέων

S π.1434 Πεφυσιγγωμένοι (Σ Ac. 526) πεφυσιγγωμένοι· [ἐκκεκαυ]μένοι

S π.36 Imagem de Atena (Σ Ac. 547) π]ερὶ τὰς τριήρεις ὄντα Παλλάδ[ος ἀγάλματά S φ.218 Pena para vomitar (Σ Ac. 584) πτερὸν· αἰτεῖ ἵνα καθεῖς εἰς τὴν φάρυγα

ἐ[ξεμέσῃ

S μ.1118 Μισθαρχίδης (Σ Ac. 597) μισθαρχίδης· δὲ ὅτι μισθὸν λαμβάνων ἐφ᾿ οῖς ἄν π[ S κ.2568 Filho de Césira (Σ Ac. 614) ἀλλ᾽ ὁ Κοισύρας· Ὁ Μεγακλῆς· τ[

S φ.239 Faísca (Σ Ac. 668) φέψαλος· σπινθήρ

S α.2523 Ἐπανθρακίδες (Σ Ac. 670) ἐπανθρακίδες· ἰχθύες

Essas semelhanças com o papiro Oxyrhynchus, do século III, evidenciam que o Suda também conserva vestígios e conteúdos de arquétipos bem mais antigos, como o códice de Ravena. A presença de fragmentos de obras notórias da Antiguidade clássica naquele léxico também dá evidências do mesmo fato.

Como o Suda e o códice de Ravena são da mesma época, século X, é muito provável que eles tenham usado os mesmos protoarquétipos em relação a Acarnenses e seus escólios. Essa suposição ganha mais força quando percebemos que existem muitos escólios do códice de Ravena exatamente iguais aos verbetes do Suda (cf. ΣR Ac. 108 e S α.4671; ΣR Ac. 577 e S κ.168; ΣR Ac. 665-6 e S φ.530; ΣR Ac. 710 e S κ.959; ΣR Ac. 871 e S τ.401; ΣR Ac. 879 e S σ.527; ΣR Ac. 1111 e S τ.1040; ΣR Ac. 1201 e S π.1240).

A semelhança entre vários textos de S e ΣR Ac. é tão grande que pode levar alguém a imaginar que o Suda consultou o códice de Ravena ou vice-versa. No entanto, tal ideia parece improvável, pois existem escólios do códice de Ravena que são mais extensos que os verbetes do Suda que comentam o mesmo verso de Acarnenses (cf. ΣR Ac. 364 e S η.422), assim como também há verbetes do Suda mais extensos que os escólios de R correspondentes (cf. ΣR Ac. 57 e S α.2865). Além disso, existem comentários de Acarnenses que estão em ΣR Ac. e não estão em S e vice-versa. O mais provável é que, especificamente em relação a Acarnenses e seus escólios, eles tenham protoarquétipos em comum.

Todas essas semelhanças com o códice de Ravena também conferem ao Suda um significativo valor, que por sua vez implica em confiabilidade. No entanto, estamos falando do Suda apenas em relação ao objeto de pesquisa desta Tese: os escólios de Acarnenses. Não temos como falar da confiabilidade do Suda em relação aos verbetes retirados dos escólios de outras comédias aristofânicas, das epopeias, das tragédias etc.

De modo geral, a confiabilidade do Suda é posta em dúvida. Entretanto, no que diz respeito especificamente à comédia Acarnenses, o Suda goza de alguma confiança. Olson (2002), por exemplo, deposita bastante confiança no Suda, pois ele usa somente o Suda para estabelecer o texto de inúmeros versos de sua edição de Acarnenses.

Como ilustração, vejamos o uso do Suda no estabelecimento apenas dos cinco primeiros versos da edição de Olson (2002). S ο.675, S π.44 e S δ.142 foram três dos quatro testemunhos usados para estabelecer o texto de Ac. 1. No estabelecimento de Ac. 3, S ψ.22 é um dos quatro testemunhos apresentados. O texto estabelecido de Ac. 4 conta com apenas dois testemunhos, um dos quais é S χ.169. Por fim, Ac. 5 teve seu texto estabelecido contando com três testemunhos: S κ.1213 e outros dois.

Olson (2002) não confiou à toa no Suda para estabeler sua edição de Acarnenses. Embora não tenhamos detalhes, sabemos que o Suda usou uma boa versão de Acarnenses na exemplificação dos seus verbetes. Para termos certeza disso, basta-nos verificar a precisão das seguintes citações de Acarnenses feitas pelo Suda: Ac. 112 (apud S ι.363); Ac. 171 (apud S δ.1205); Ac. 352-4 (apud S δ.340, ο.315); Ac. 364 (apud S η.422); Ac. 391 (apud S σ.490);

Ac. 577 (apud S κ.168); Ac. 627 (apud S α.3305); Ac. 665 (apud S φ.530); Ac. 710 (apud S

κ.959); Ac. 928 (apud S φ.623). Esses são apenas alguns dos vários exemplos.

Portanto, se os verbetes do Suda que têm alguma relação com Acarnenses não forem confiáveis, a edição de Olson (2002) deverá igualmente ser alvo de desconfiança, pois esta contou bastante com o testemunho daqueles.

Diante de tudo isso, acreditamos que o mesmo grau de confiabilidade do Suda em relação à comédia Acarnenses também se aplique aos escólios de Acarnenses. Afinal, por qual razão confiaríamos no Suda em relação aos versos em si de Acarnenses e não o faríamos em relação aos escólios de Acarnenses? Não se pode esquecer que normalmente uma obra e seus escólios estavam juntos no mesmo manuscrito.

Quando comparamos os verbetes do Suda que são escólios de Acarnenses com os escólios de Acarnenses que estão no códice de Ravena, percebemos que em alguns aspectos o grau de confiabilidade daqueles é maior que o destes. Como exemplo, podemos citar o aspecto ortográfico.

Vimos que o erro mais recorrente nos escólios do códice de Ravena é o ortográfico. Mostramos, ao todo, catorze erros de ortografia em ΣR Ac. (cf. tópico 4.1.1). Dos catorze escólios que apresentamos, cinco têm um comentário correspondente no Suda: ΣR Ac. 72 ~ S φ.623; ΣR Ac. 279 ~ S φ.240; ΣR Ac. 547 ~ S π.36; ΣR Ac. 603 ~ S τ.658; ΣR Ac. 802 ~ S φ.287. Os outros nove não estão presentes no Suda.

Comparando esses cinco pares de comentários correspondentes, constatamos que no Suda não há nenhum dos erros ortográficos cometidos pelos escoliastas do códice de Ravena. S φ.623 escreveu ψιαθῶδες corretamente, com teta (θ); S φ.287 redigiu φίβαλις, e não φήβαλις, como fez ΣR Ac. 802; S τ.658 anotou ἡταιρηκώς de modo adequado; S φ.240 não acrescentou outro lambda (λ) em φέψαλοι; nem S π.36 confundiu ἐπεμελοῦντο com ἐπεμελῶντο.

Portanto, no que diz respeito à ortografia, os escólios de Acarnenses presentes no Suda são mais confiáveis do que aqueles que estão no códice de Ravena. Provavelmente, isso se deva ao tipo de atividade realizada pelos respectivos profissionais envolvidos na confecção das referidas obras. Copiar onze comédias com seus escólios é muito mais suscetível a erros do que apenas selecionar e transcrever pequenos excertos para ilustrar os verbetes de um léxico. Talvez essa seja a razão pela qual encontramos menos erros ortográficos nos verbetes do Suda que são escólios de Acarnenses do que em ΣR Ac.

Por outro lado, quando continuamos a comparar os verbetes do Suda que são escólios de

Acarnenses com ΣR Ac., constatamos que em outros aspectos o grau de confiabilidade do léxico é menor que o dos escólios do códice. Mencionamos, por exemplo, as citações.

Expomos dez erros de citação presentes nos escólios de Acarnenses. Desse número, cinco também têm um comentário correspondente no Suda: ΣΕΓ Ac. 86 ~ S κ.2413; ΣR Ac. 172 ~ S ε.1294; ΣAld Ac. 206 ~ S ξ.92; ΣAld Ac. 231-2 ~ S ε.2411; e ΣAld Ac. 398-9 ~ S α.4518. Como se pode perceber, é um percentual muito elevado: 50% dos exemplos apresentados.

Por outro lado, nenhuma dessas cinco citações do Suda é de algum verso de Acarnenses. Todas elas são de outras obras: de Arriano, Índ. 28.1 (S κ.2413 ~ ΣΕΓ Ac. 86); de Hesíodo,

Trab. 410 (S ε.1294 ~ ΣR Ac. 172); de Demóstenes, Míd. 21.116 (S ξ.92 ~ ΣAld Ac. 206) e

Olin. 1.13 (S α.4518 ~ ΣAld Ac. 398-9); de Od. 4.559 (S ε.2411 ~ ΣAld Ac. 231-2).

Portanto, podemos supor que o grau de confiabilidade das citações presentes no Suda é relativo: é maior em relação a Acarnenses e seus escólios e menor no que diz respeito às outras obras. Essa hipótese, repito, é específica aos verbetes do Suda que são escólios de

Acarnenses. Não nos referimos ao léxico como um todo, mas especificamente ao conjunto de

453 verbetes que são escólios de Acarnenses (cf. o “Índice de autores e obras da antiguidade citados ou mencionados nos escólios de Acarnenses”, em anexo).

Em síntese, os escólios de Acarnenses presentes no Suda têm um grau de confiabilidade maior em relação às questões ortográficas. Os verbetes do Suda, em relação à ortografia, podem até ser utilizados como referência para comparação e conferência dos possíveis erros de ortografia dos escólios do códice de Ravena. Por outro lado, os escólios de Acarnenses

constantes do Suda têm um grau de confiabilidade menor no que diz respeito às citações de versos e textos que não sejam de Acarnenses. No entanto, isso não significa dizer que o Suda não contêm erros ortográficos nem que todas suas citações são corrompidas.

Essas são as considerações que gostaríamos de fazer sobre a confiabilidade dos escólios de Acarnenses procedentes do Suda.

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