5 NDN’s support for the information infrastructure
5.1 Service-Oriented Architecture (SOA)
No início desta seção (4.2), afirmamos que nem todos os erros que são associados ou atribuídos aos escólios de Acarnenses foram criados pelos próprios escoliastas. Asseveramos ainda que alguns dos principais editores dos escólios de Acarnenses cometeram diversos erros que poderiam ser – e muitas vezes o são – atribuídos injustamente aos escoliastas.
Por fim, queremos mostrar um tipo de erro que não é comumente visto em trabalhos com valor acadêmico. São erros de atribuição indevida. São casos nos quais alguém afirma equivocadamente que um determinado escoliasta escreveu sobre determinado assunto, sem que este o tenha feito de fato.
S. Douglas Olson, editor de uma das ou talvez da mais respeitada edição de Acarnenses da atualidade, cometeu mais de uma vez esse lapso.
Comentando Ac. 352-6, Olson (2002, p. 168) faz uma atribuição indevida ao escoliasta do códice de Ravena. Em meio às suas palavras, Olson afirma que a seguinte citação de Platão Cômico (fr. 32 K.) vem de ΣRΕΓ: καὶ τὰς ὀφρῦς σχάσασθε καὶ τὰς ὄμφακας (‘Raspai tanto as sobrancelhas quanto as genitálias8’). Contudo, consultando edições específicas dos
8 Ὄμφακες, literalmente, significa “uvas verdes”; mas, pelo menos entre os gregos contemporâneos de Aristófanes, metafórica e culturalmente, também representa a genitália feminina (cf. Ac. 274-5 e seu escólio).
escólios do códice de Ravena (MARTIN, 1882; RUTHERFORD, 1896), constatamos que ΣR
Ac. 352 não faz menção da tal citação de Platão Cômico. Eis o que ΣR Ac. 352 realmente escreveu:
ἀντὶ τοῦ ὠμὸν καὶ σκληρόν. μεταφορικῶς ἀπὸ τῶν ὀμφάκων.
É semelhante a ὠμόν (‘cruel’) e σκληρόν (‘ríspido’). De maneira metafórica, vem das uvas azedas.
Como se pode verificar, não existe menção alguma do fr. 32 K. de Platão Cômico em ΣR
Ac. 352. Por outro lado, em ΣΕΓ Ac. 352, realmente podemos encontrar a citação do referido fragmento:
ὀμφακίαν: ἀντὶ τοῦ ὠμὸν καὶ σκληρόν. μεταφορικῶς ἀπὸ τῶν ὀμφάκων. οὕτως δὲ αἱ σταφυλαὶ δριμεῖαι οὖσαι καὶ οὔπω πέπειροι καλοῦνται. ἐκ γὰρ τοῦ ἐναντίου πέπανον τὸ ἥμερον καὶ ἡδύ. θηλυκῶς δὲ καὶ τὰς ὄμφακας λέγει. ἔχεις παρὰ Πλάτωνι τῳ κωμικῷ ἐν δράματι Ἑορταῖς “καὶ τὰς ὀφρῦς σχάσασθε καὶ τὰς ὄμφακας.
Ὀμφακίαν: É semelhante a ὠμόν (‘cruel’) e σκληρόν (‘ríspido’). De maneira metafórica, vem das uvas azedas. Os cachos de uva que são azedos e que ainda não estão maduros são denominados assim. Pois, ao contrário, o [cacho] cultivado é doce e agradável. Mas ele também está falando ὄμφακας, no gênero feminino. Tu tens um paralelo com Platão Cômico, na peça Festivais (fr. 32 K.): “Raspai tanto as sobrancelhas quanto as genitálias.”
Portanto, ao dizer que o fr. 32 K. de Platão Cômico foi citado por ΣRΕΓ Ac. 352, Olson
(2002, p. 168) está parcialmente correto e parcialmente errado, pois a tal citação de fato está em ΣΕΓ Ac. 352, mas não se encontra em ΣR Ac. 352. Para ser exato, Olson não deveria fazer
menção do escoliasta do códice de Ravena.
Olson (2002, p. 192) comete novamente esse equívoco ao comentar Ac. 454. De acordo com suas palavras, ΣRΕΓ identificou no referido verso de Acarnenses uma paródia do Télefo, de Eurípides. Contudo, como no caso anterior, ΣR Ac. 454 não fez menção de paródia alguma
do Télefo. Para termos certeza disso, basta uma simples conferência do comentário integral de ΣR Ac. 454:
<τοῦδε πλέκους:> τοῦ σπυριδίου τοῦ πλέγματος. Τοῦδε πλέκους: Significa ‘do cestinho’, ‘da canastra’.
Por outro lado, em ΣΕΓ Ac. 454, realmente vemos a menção da paródia do Télefo euripidiano. Eis o que dizem os escoliastas dos códices ΕΓ:
τοῦδε πλέκους: τοῦ σπυριδίου τοῦ πλέγματος. καὶ τοῦτο δὲ παρὰ τὰ ἐκ Τηλέφου Εὐριπίδου “τί δ᾿ ὦ τάλας σὺ τῷδε πείθεσθαι μέλλεις;”
Τοῦδε πλέκους: Significa ‘do cestinho’, ‘da canastra’. Mas este [hemistíquio] também está em paralelo com estes [versos] do Télefo (fr. 717 N.), de Eurípides: “Mas por que, ó miserável, tu estás a ponto de obedecer a este?”
Para corrigir o seu lapso, portanto, bastaria a Olson dizer que o fr. 717 N. do Télefo foi mencionado apenas por ΣΕΓ Ac. 454, pois a atribuição ao escoliasta do códice de Ravena é indevida em relação a tal paródia.
Ao comentar Ac. 466-9, Olson (2002, p. 195) faz uma nova atribuição indevida ao escoliasta do códice de Ravena. De acordo com suas notas, ΣRΕΓ apresenta uma citação da comédia Pluto, de Aristófanes. No entanto, não há citação de Pluto em ΣR Ac. 469, no qual lemos:
τὰ ἀπολεπίσματα τῶν λαχάνων. οἷον μεμαραμμένα καὶ εὐτελῆ τῶν λαχάνων. São as cascas dos legumes, como as folhas murchas e de pouco valor das hortaliças.
Depois de conferirmos essas palavras, podemos ter a certeza de que a menção do escoliasta do códice de Ravena feita por Olson (2002, p. 195) é indevida. Por outro lado, ele está correto quando afirma que os escoliastas dos códices ΕΓ citaram um verso de Pluto. Afinal, ΣΕΓ Ac. 469 escreveu:
ἰσχνά μοι φυλλεῖα: τὰ ἀπολεπίσματα τῶν λαχάνων. ἰσχνὰ δὲ οἷον μεμαραμμένα καὶ εὐτελῆ τῶν λαχάνων φύλλα. τοιαῦτα γὰρ οἱ πτωχοὶ ἐσθίουσι. Καὶ ἐν Πλούτῳ “ἀντὶ δὲ μάζης φυλλεῖ᾿ ἰσχνῶν ῥαφανίδων”. καλεῖται δὲ φυλλεῖα καὶ τὰ τῆς θριδακίνης φύλλα. σκώπτει δὲ αὐτὸν ὡς λαχανοπώλιδος υἱόν.
Φυλλεῖα: São as cascas dos legumes. E ἰσχνά são como as folhas murchas e de pouco valor das hortaliças. Pois os mendigos comem as tais. Também aparecem em
Pluto (544): “E [comer], em lugar de pão de cevada, folhas de rabanetes murchos”.
Mas as folhas de alface também são chamadas de φυλλεῖα. Ele está escarnecendo de [Eurípides] como se fosse filho de uma verdureira .
A única inadequação de Olson (2002, p. 195) em relação à citação de Pluto em Σ Ac. 469 é – como nos dois casos anteriores – a atribuição indevida ao escoliasta do códice de Ravena. Ele deveria ter escrito apenas ΣΕΓ, e não ΣRΕΓ.
O último exemplo que pretendemos mostrar é semelhante aos três anteriores. No aparato crítico de sua edição de Acarnenses, Olson (2002, p. 38) diz que ταδή, variante de ταδὶ, aparece nos comentários de ΣRΕΓ Ac. 744. Novamente, porém, em ΣR Ac. 744 não contém o que Olson diz. Vejamos o que diz ΣR Ac. 744 ao comentar a palavra ῥυγχία (‘focinhozinhos’):
κυρίως ἔφη. ἐπὶ γὰρ χοίρου λέγεται ῥύγχος.
Ele estava falando corretamente; pois, em relação ao porco, diz-se ῥύγχος (‘focinho’).
Como se pode constatar, a palavra ταδή não está presente em ΣR Ac. 744. Por outro lado, como nos casos anteriores, a referida palavra está realmente inserida no comentário dos escoliastas dos códices ΕΓ. Eis o texto escrito por ΣΕΓ Ac. 744:
ῥυγχία: τὰ ῥυγχία κυρίως ἔφη. ἐπὶ γὰρ χοίρου λέγεται ῥύγχος. ἄμεινον δὲ ἀντὶ τοῦ γράφειν ταδὶ, τὰ δή. δωρίζει γάρ.
Ῥυγχία (‘focinhozinhos’): Ele estava falando τὰ ῥυγχία (‘os focinhozinhos’) corretamente; pois, em relação ao porco, diz-se ῥύγχος (‘focinho’). Mas, em vez de ταδί, é melhor escrever τὰ δή (‘agora estes’), pois ele está falando o dialeto dórico.
Outra vez, Olson (2002) atribui corretamente esse conteúdo a ΣΕΓ, mas erra ao dizer que o mesmo conteúdo também se encontra no texto do escoliasta do códice de Ravena. Assim como nos três exemplos anteriores, falta exatidão na informação dada por Olson. Embora nenhum dos quatro casos de erros de atribuição indevida cometidos por Olson (2002) tenha grandes implicações, eles não deixam de ser equívocos por isso. Também deve ficar claro que os quatro exemplos que mostramos não exaurem todos os possíveis casos de atribuição indevida em relação aos escólios de Acarnenses presentes na citada obra de Olson.
Ao encerrarmos esses sete tópicos que compõem a presente seção (4.2), acreditamos que fizemos um pouco de justiça aos escoliastas de Acarnenses, mostrando que nem todo erro que está associado ou é atribuído a eles foi realmente cometido por eles, e sim por terceiros, especialmente os editores dos próprios escólios.