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6 Wimbersk og nyåndelig helbredelse

6.2 Wimbersk helbredelse

Após muitas saídas de palhaço, e interações com o público em espaços não convencionais, procurei juntar algumas ideias de cenas que queria fazer com o palhaço juntamente com um material surgido nas muitas situações que vivi de palhaço na rua, para organizar pequenas cenas que pudessem ser apresentadas para um público, mas agora dentro de uma relação de plateia ou local onde o público pudesse ver todas as cenas que criei de clown interligadas.

O caminho de criação das pequenas cenas e construção do espetáculo se deu tanto a partir das experiências vivenciadas nas saídas de rua, quanto em momentos de treino e improviso com objetos e música em sala de trabalho. A construção do espetáculo se deu no ano de 2000, as cenas curtas foram apresentadas em espaços como cabarés em festivais, saraus e onde fosse possível caber um palhaço e um público organizado.

Realizei muitas apresentações em formato de pequenos números, depois o desafio foi juntar todas as cenas para realizar um espetáculo solo.

FIGURA 49:JOÃO PORTO DIAS.

CENA DO ESPETÁCULO SOLO-ÍO (2010),UNB.

Fonte: Arquivo do Grupo.

Desta maneira, o primordial para mim, não era chegar rapidamente num espetáculo, mas sim, nas experiências que a cada apresentação ia agregando no meu aprendizado, e também foi neste espaço de estudo expandido que o meu desenvolvimento dentro da linguagem do palhaço foi se construindo. Sem perceber, mas ao mesmo tempo, forçado pelo tempo que o aprendizado de uma linguagem necessita, respeitei o tempo necessário tanto para a formação e domínio de uma linguagem, quanto na construção e criação técnica e cênica do espetáculo.

Neste caminho tive a oportunidade de permitir que as experiências vividas com o público fizessem parte da direção do espetáculo, assim considero que o caminho de sua construção realmente tem o público como coautor. Até seu tempo de duração foi sendo expandido aos poucos, começou com quinze minutos, depois cresceu para 30 minutos e atualmente tem cinquenta minutos de duração.

FIGURA 50:CENA DO ESPETÁCULO SOLO-IO (2010)UNB.

Fonte: Arquivo do Grupo.

Este modo de criar e construir o espetáculo Solo-io me educou no sentido de saber dar o tempo necessário ao aprendizado de uma linguagem. A lógica percorrida para montar o espetáculo não foi em função da busca por um resultado, ou encenação, seguiu a lógica do tempo necessário a aprendizagem de uma linguagem.

Em algumas linguagens, como o circo por exemplo, é necessário que o estudante domine e se dedique ao aprendizado, ao mesmo tempo que a pratica em cena. Bem como o bonequeiro com a arte do mamulengo que requer anos de exercício, e geralmente acompanha um mestre em manipulação, e aos poucos aprende e compreender as leis que regem o teatro de animação.

Desta forma, o caminho da montagem do espetáculo pode ser um potencializador de inovação, investigação e formação, se respeitado o tempo do aprendizado e do seu domínio, também priorizando a verticalização de uma linguagem e não apenas um espetáculo pela via de diversificar encenações.

A cada sessão do Solo-io, ele se modifica, se recria, se reinventa para se manter pulsante. E a cada vez, o público interfere de maneira a ajudar a criar e recriar o espetáculo daquele dia. Agora, após um longo tempo de dezesseis anos de início do mesmo, cada vez mais as mudanças são menos estruturais, e mais internas na dinâmica de minhas ações e das cenas. São sutis modificações, que para um olhar não treinado não é percebido, mas totalmente perceptível para mim como ator.

A longa duração, e a contínua realização do mesmo, faz com seu roteiro fique firme, sua estrutura, como um trilho de trem do ponto de vista exterior é: preciso e firme.

FIGURA 51:JOÃO PORTO DIAS.CENA DO ESPETÁCULO SOLO-ÍO,(2016)PARATY-RJ

Fonte: Arquivo do Grupo. Foto: Maira Jeannyse.

Sobre o termo precisão, há uma observação importante a ser ressaltada, no que diz respeito ao seu entendimento quanto ao momento do ensaio e da construção técnica do espetáculo, que difere do momento em que é realizado na presença do público.

Neste sentido, quando se refere ao momento da realização do espetáculo para o público, a relação com a precisão deve ser flexível. Por exemplo, referindo-se a Stanislavski, o historiador Franco Ruffini reflete sobre uma fala do ator e mestre russo, em relação ao trabalho da repetição e da precisão mecânica:

Precisão é a perfeita aderências das ações a todas as circunstâncias que a determinam aqui e agora, e não àquelas que determinaram lá e então, no ato da construção do personagem. As circunstâncias mudam a cada apresentação. Muda o olhar do companheiro de cena, atenua-se ou eleva-se o tom da sua deixa, varia a qualidade da luz. Modifica-se o próprio estado interior e físico do ator. O ator deve, a cada vez, reagir a todas essas mutantes circunstâncias, deve encontrar a ação que é precisa, sem contentar-se me repetir que talvez foi precisa e que se fixou na memória muscular (RUFFINI, 2004, p. 11). Ao realizar o espetáculo Solo-io a cada vez, e mantê-lo em repertório, tenho a oportunidade de entender, como ator, o como lidar com a repetição em cena com o público e buscar estratégias para fazer com que as ações ensaiadas não percam a vida, e ao mesmo tempo não perca a precisão. O sentido de ser preciso, para que a vida do espetáculo continue pulsante, ganhou uma outra compreensão para mim. O ator deve ser preciso, não como algo estanque ou

repetir de maneira igual sempre, pois a cada vez que o ator faz suas ações, na realidade, para mim, ele as recria no espaço e no tempo presente.

Neste sentido, a repetição em cena também, no sentido mais fiel da palavra, não existe, em se tratando de atuação cênica. Se a arte da atuação é realizada em vida e na vida corrente, logo nunca será igual à última vez que a realizou. Entretanto, sua estrutura, como ações, deve estar fixa e clara, de forma precisa, para ser passível de repetição pelo ator.

FIGURA 52:JOÃO PORTO DIAS.CENA DO ESPETÁCULO SOLO-IO (2014)SÃO LUÍS-MA.

Fonte: Arquivo do Grupo.

Percebi que este modo de estudar a linguagem do clown e do caminho de construção do espetáculo condicionou o meu olhar para não somente focar no espetáculo em si como um resultado final de um processo, mas utilizar o espetáculo como um patamar de investigação e desenvolvimento de uma linguagem.

Dentro desta lógica, o espetáculo não é um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida. Assim, este caminho fez com que enxergasse o espetáculo como um espaço como Laboratório expandido, no qual, mesmo em cena diante do público, sinto-me como ator tendo de lançar um olhar de constante investigação.

Sinto que não apresento o Solo-io, mas o construo e o reconstruo com o público a cada vez que o realizo. É importante para mim relatar esta experiência porque o caminho de construção deste espetáculo ainda se dá, juntamente com o meu aprendizado e contínuo estudo como ator.

A origem deste espetáculo aconteceu após o curso de palhaço com o Lume, de muitas saídas de palhaço na rua e estudo em sala sobre a clownaria55. Mas sua criação, repetição e recriação perpassam pelos 16 anos que atuo com ele.

FIGURA 53:JOÃO PORTO DIAS.CENA DO ESPETÁCULO SOLO-IO (2014)SÃO LUÍS-MA.

Fonte: Arquivo do Grupo.