3 Wimberister og lysarbeidere
3.2 En gudstjeneste og en gatehelbredelse med Oslo Vineyard
Um evento representativo do contraste das posições em relação à bubalinocultura que foi acompanhado durante a pesquisa foi uma audiência pública sobre a criação de bubalinos organizada pela Promotoria de Justiça do Meio
/$ Ambiente do Ministério Público do Amapá.20 A divulgação do evento se deu principalmente através da internet e de convites pontuais a entidades e organizações afins. A chamada enfatizava o objetivo de “levantar informações sobre a situação atual da bubalinocultura no estado, em especial com relação a formas de manejo e sobre os impactos ambientais gerados pela atividade”.21
A audiência teve lugar na sede no prédio da Promotoria de Justiça, localizado na Avenida Padre Júlio, n. 1585, Centro de Macapá e começou por volta de 9h, durando até às 14h em uma única sessão. Estavam presentes representantes de entidades como a Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária do Amapá (Diagro), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), a Secretaria do Desenvolvimento Rural (SDR), Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amapá (FAEAP) e a Embrapa Amapá, além de pecuaristas interessados. É importante observar que na reunião não observei a presença de vaqueiros ou de proprietários de fazendas pequenas, caracterizando-se, assim, como um local de pecuaristas donos de rebanhos médios e grandes. Ao longo do dia, foram feitas apresentações por representantes técnicos convidados e, ao final, a sessão foi aberta a comentários e perguntas.
A abertura foi feita pelo representante do Ministério Público, que enfatizou que a bubalinocultura é uma atividade muito importante para o Amapá, algo que marcaria o tom da maioria das falas. Em contrapartida, o mesmo representante do MP disse também ser necessário encontrar saídas para os desafios e impactos derivados desta cultura, objetivo da discussão em pauta. No evento, a primeira exposição foi de Cristóvão Lins, engenheiro agrônomo e zootecnista, que relata ter acompanhado o desenvolvimento de um rebanho de aproximadamente de 14 mil cabeças na região do Jari, em áreas de várzea,22 além de ter visitado criadores em países europeus, asiáticos
20 Este capítulo e suas seções se baseiam amplamente em dois encontros entre os grupos
abordados. O primeiro deles aconteceu em 31 de agosto de 2012 na cidade do Amapá e consistiu em uma reunião de acompanhamento entre representantes do ICMBio com proprietários de fazendas próximas à face Oeste da Rebio. Já o segundo foi uma audiência pública sobre a criação de bubalinos realizada no Ministério Público do Amapá no dia 15 de Abril de 2013.
21 Chamada do evento no site do Ministério Público do Amapá, publicada em 12 de abril de
2013 (Assessoria de Comunicação do Ministério Público do Amapá, 2013- http://www.mpap.mp.br/2013-07-01-12-54-27/gerais/1814-promotoria-de-justica-do-meio- ambiente-realiza-audiencia-publica-sobre-bubalinocultura)
22 Um conceito simples e prático de várzea é apresentado por Marques et al (2003: 40) e diz
que “as várzeas da Amazônia podem ser definidas como as áreas alagadas pelas águas barrentas formadas nas margens dos rios”. No caso do rio Araguari há também a ação das águas marinhas, que formam o fenômeno da Pororoca, e entram nos campos alagáveis.
/" e americanos. Lins abordou as origens asiáticas do búfalo criado no Brasil e a confusão gerada com o Bisão americano, chamado de Buffalo em inglês, mas que é, na realidade, de outra espécie.23
Ao comentar sobre a etologia do búfalo, seu comportamento, Cristóvão enfatizou: “O búfalo é um animal muito dócil quando manejado, mas é uma fera quando deixado ao Deus-dará; quando ele cria o dono ao invés do dono criá-lo”. A seguir, ele diz que “o nosso caboclo sabe lidar com ele”, mas que é necessário o conhecimento mais técnico, referência à sua visão de modernização das práticas atuais do estado. Cristóvão conta de sua experiência no Jari, município no sul do Estado do Amapá, onde diz ser sabido que búfalos enfrentam até onças-pintadas (Panthera onca) para proteger sua cria recém-nascida, enquanto bovinos fogem do predador e abandonam seus bezerros.24 Em sua fala, o búfalo é “um animal curiosíssimo, inteligente!”, que vem de longe para conferir uma voz desconhecida. Ao citar alguns dos problemas de manejo e possíveis impactos no meio, Cristóvão conta que o búfalo é “um animal muito social, muito gregário. Aí eles vão para a água tudo junto e dão uma cavadinha. Mas isso tende a se resolver”. Contudo, apesar disso, “é um animal talhado para a Amazônia, se manejado”, pois os campos de várzea estão entre os mais ricos do país e são propícios à criação bubalina, conclui. Essa linha de afirmação feita por Lins é consonante com o que é visto em manuais técnicos elaborados por instituições como a Embrapa, nos quais constam que:
... o elevado potencial da várzea para a pesca e agropecuária, em geral, proporciona destacada produtividade, tanto em culturas alimentares e industriais, quanto em carne e leite de bovinos e bubalinos (Marques et al, 2003: 31).
Um dos pontos mais marcantes da fala de Cristóvão, e que seria endossado por outros palestrantes, foi a defesa da qualidade da carne e do leite e a necessidade de que a produção se amplie para nutrir as novas gerações: “Nos países com deficiência alimentar [os búfalos] suprem as necessidades da infância com a rica proteína do leite”. Cristóvão Lins fala da “luta pela vida”, o combate à mortalidade infantil e a
23 Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Búfalos, “o búfalo doméstico nada tem a
ver com as espécies selvagens e agressivas do Bisão ou Búfalo Americano, Bos bison bison com 2n=60 cromossomos, nem com o Búfalo Africano, Syncerus caffer caffer, com 2n=52 cromossomos” - http://www.bufalo.com.br/ (acessado em maio de 2014).
24 Em um momento distinto, em reunião entre pecuaristas que criam búfalos em fazendas na
face Oeste da Rebio e a gestão do ICMBio, ouvi de um fazendeiro que o búfalo é o “Senhor da Bondade”. Esse mesmo pecuarista disse que antigamente falava mal do búfalo por não conhecê-lo, repetindo “o que ouvia por aí”.
/- necessidade de obtenção de alimentos de origem animal. Ele menciona, como exemplo, sua visita a países estrangeiros, como os Estados Unidos da América, onde a produção pecuária é mais desenvolvida, e diz que “as crianças de lá são muito melhor nutridas”. O potencial de produção de carne de qualidade é constantemente ressaltado na defesa da bubalinocultura, em especial pelo baixo teor de gordura e pela baixa taxa de colesterol da carne bubalina (Marques 2000).25
Essa possibilidade compõe o que o palestrante chamou de “a função social do búfalo”, que inclui, ainda, seu potencial uso na tração, que levou o animal a ser apelidado de “o trator do Oriente” em alguns casos. Para Cristóvão, a criação de bubalinos eleva a renda e melhora a qualidade de vida nas pequenas fazendas familiares. Ele propõe, afinal, um modelo de cadastro de rebanho e de manejo, no qual há a necessidade de uma cerca mais próxima à sede da fazenda para separar as fêmeas prestes a parir ou que pariram recentemente (! ) %).
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(Reproduzida com autorização a partir da apresentação do pesquisador Cristóvão Lins)
25 Considero importante ressaltar que o argumento de combate à pobreza é também
apresentado em Marques et al (2003: 76): “a pecuária, nessas áreas, só deve ser implantada, conciliando-se o desenvolvimento com o uso sustentável do ambiente e, então, as várzeas serão fortes aliadas no combate à pobreza, elevando o nível socioeconômico do varzeiro, ao mesmo tempo que reduz o impacto ambiental negativo”.
// A segunda fala foi de outro engenheiro agrônomo, Iraçu Colares, presidente da Federação dos Pecuaristas do Amapá, que falou de sua experiência na fazenda Garrote, na Cidade do Amapá. É importante notar que a maioria dos palestrantes e dos presentes eram, além de técnicos, advogados e empresários, também pecuaristas, alguns deles desenvolvendo a atividade há várias gerações na família. Sua fala se voltou ao histórico do desenvolvimento da pecuária no Amapá, abrangendo um período de 70 anos (1943-2013), que Iraçu percebe como dividido em quatro etapas. Antes de apresentar as etapas, o palestrante disse que 72% do território do Estado está protegido de alguma maneira, como terras indígenas e reservas ambientais, o que deixaria o Amapá com somente 28% de sua área disponível para desenvolver atividades econômicas, apesar de não explicar seus cálculos.
Iraçu aponta o ano de 1895 como o início da criação de búfalos no Pará, trazidos por Vicent Chermont de Miranda. Esse ano foi também o marco final da disputa entre Brasil e França pelo território que viraria o Amapá, como ele ressalta a coincidência histórica. A primeira fase que ele destacou constituiria os primórdios da pecuária amapaense, época em que os rebanhos eram formados predominantemente por bovinos. Foram, então, trazidos búfalos sem raça definida, oriundos da Ilha do Marajó. A fase seguinte, no período 1943/1975, seria marcada pela introdução de animais de origem indiana e europeia para melhorar geneticamente os planteis. Em um terceiro momento, a partir de 1975, houve incentivos à ampliação e melhoramento do rebanho bubalino (até então pouco expressivo no plantel amapaense) por parte de órgãos públicos estaduais.
Segundo Iraçu, no ano de 1975 haviam rebanhos de aproximadamente 11 mil bubalinos e 70 mil bovinos no estado do Amapá. Sua estimativa é que o rebanho bubalino ultrapassou o de bovino em 1985, o que coincide com diferentes relatos sobre a grande cheia no Rio Araguari, ocorrida em 1984 (Santos 2006), episódio a que voltarei mais adiante. Nesse momento de sua fala, Iraçu fala sobre o antigo estigma, ainda existente, em relação ao consumo da carne bubalina, que é considerada dura, forte e escura. Para ele, deveriam haver campanhas para diminuir essa fama: “a gente vende o búfalo escondido porque ninguém pode saber que é búfalo. A gente
/% compra madeira escondido porque não tem madeira para comprar”, fala que relaciona o produto final da bubalinocultura com um insumo necessário a ela.26
Em defesa da carne bubalina, Iraçu chama o búfalo de “Boi Ecológico”, “que só consome capim”, provavelmente uma referência ao uso de rações e hormônios na produção pecuária de outros estados, tentando acionar expressões positivas para a legitimação do búfalo. Argumenta, acima de tudo, que a carne do búfalo é de qualidade, pois no caso do baby búfalo, animal abatido em tenra idade, diz que “até pescoço vira filé”. Sobre esse ponto, autores como Moreira, Costa e Valentim (1994) ressaltam que o búfalo produz carne de grande aceitação, especialmente quando consumida na forma de baby-beef, categoria a que Iraçu fazia referência. Como me foi explicado por técnicos da Diagro, o Amapá não exporta carne por aspectos sanitários, como a categorização de alto risco de contaminação de aftosa e outras zoonoses no estado (cf. Figura 2), mas Iraçu vê como boa perspectiva a venda de carne bubalina para o país vizinho, a Guiana Francesa, caso essa situação mude.
Abro aqui um espaço para resgatar a opinião apresentada no livro da Embrapa Produção Animal nas Várzeas do Rio Amazonas em que um técnico defende que o búfalo é o animal ideal para o ambiente de várzea, pois ele se desloca no território de acordo com os períodos de seca e cheia, possibilitando, também, o desenvolvimento da agricultura sazonal (Marques et al, 2003: 58). Nesse mesmo trecho, o técnico afirma que o búfalo “não afetaria o peixe, viveria integrado ao ambiente, inclusive seus dejetos seriam usados como adubo para a formação de plânctons, para alimentarem os alevinos, além de produzirem leite e trabalho” (ibidem.). É importante ressaltar que o argumento desse técnico surge também como um contraponto à realização de grandes projetos em ambientes de várzea amazônica. Nesse sentido, ele afirma que a bubalinocultura seria a melhor opção de atividade econômica para esse tipo de ambiente.
Na mesma linha de argumentação, alguns autores sugerem a substituição dos bovinos pelos bubalinos nas áreas sujeitas a inundações periódicas, pois, os bubalinos mantém um ritmo de crescimento mais acelerado quando comparado com outros bovídeos nesse tipo de pastagem (Mazza 1990). O búfalo é caracterizado por ter maior aproveitamento de alimentos do que o bovino, em especial em pastagens
26 Essa característica da carne ser mais escura se deve ao maior teor de umidade da carne de
búfalo em comparação com a carne bovina, que faz com que o oxigênio da mioglobina transpareça a coloração mais avermelhada (Marques 2000: 132).
/4 nativas de baixo valor nutritivo, onde apresenta boa capacidade de transformar pastagens pouco nutritivas em carne e leite (Moreira, Costa e Valentim 1994). Outro estudo conclui que “no uso integrado de várzeas e terra firme, os búfalos apresentam excelentes índices de produtividade, sendo alternativa sem igual, tratando-se de animais de grande porte, para produção de carne, leite e derivados” (Marques et al, 2003: 64).
Esse ponto é importante de ser ressaltado, pois, durante a audiência pública, mais de um palestrante ou comentarista lembrou as culturas que não prosperaram no estado do Amapá: dendê, pimenta, cana, mandioca, banana e outras atividades econômicas, como a produção de frangos, que não conseguiu competir com as aves congeladas vindas de outros estados brasileiros.27 Devido aos fracassos de produção como estes, o Amapá seria ainda conhecido como “uma economia de contra-cheque”, como afirma Iraçu, em uma referência aos salários de servidores públicos. Em contraste com essa situação, a pecuária funciona também como uma economia de estoque que se reproduz, a lógica do gado como unidade e reserva de valor (Sordi, Heidegger, Ingold e as (zoo)técnicas: uma discussão a partir da bovinocultura de corte brasileira 2013). Vale lembrar que ao defender a pecuária, o expositor se refere a toda a cadeia produtiva que acompanha a produção de carne, composta por produtores de insumos (vacinas, componentes de nutrição, adubos, máquinas agrícolas), os frigoríficos, açougues e supermercados (Leal 2014).
Toda essa estratégia argumentativa culmina no que Iraçu considera a quarta e atual etapa da pecuária amapaense: a necessidade de recuperação do crescimento da bovinocultura, muito em função do melhor preço da carne bovina, mas devido também às restrições ambientais e à diminuição da assistência técnica em áreas de criação de búfalos. Como o palestrante anterior, Iraçu é taxativo ao afirmar que o território do Amapá é mais propício ao bubalino que ao bovino, desde que ele seja criado com técnicas de manejo e maior controle sanitário. Sobre a adaptação do búfalo às áreas alagadas, ele afirma que o “animal come aí com água na costela”, ilustrando uma situação em que outros bovídeos não sobreviveriam.28 Em comparação com outras culturas de búfalos, Iraçu considera que o rebanho no Amapá tem
27 Para um comentário sobre tentativas de produção dessas culturas, ver Reis (1974).
28 Em certa ocasião, ao conversar com um pequeno criador do Bailique, perguntei (como
sempre fazia) a diferença entre bubalinos e bovinos. Ele me disse que o bovino demanda mais cuidado, mais trato, tal como vacinas. Já o bubalino, não: “nasce na água e já sai nadando”.
/> qualidade e capacidade de melhor desenvolvimento do que o do Pará. Em suma, sua exposição tinha o objetivo de demonstrar que, sem o incentivo oficial, a produção bubalina pode não prosperar e acabar como outras atividades econômicas praticadas outrora no estado.
Sobre o comportamento dos bubalinos, Iraçu também vê os animais como dóceis, mas comentou de um incidente recente no qual o pai de um vereador macapaense morreu devido ao ataque de búfalo bravo, fatalidade tida como exceção. Dentre os problemas ambientais comumente associados à criação de búfalos, ele comenta sobre o Algodão-bravo (Ipomoea carnea), considerado “uma praga”, mas que não pode ser associada ao animal em si: “não pode culpar o búfalo, mas os criadores”. É interessante notar como Cristóvão e Iraçu deixam claro em suas falas uma partição de responsabilidades e qualidades entre o animal e o humano. Apresentado como “Boi ecológico”, animal dócil e bem adaptado às áreas de várzea, os problemas que surgem da criação dos búfalos são remetidos ao manejo feito de maneira errada. Assim, fica tácito nas exposições que a questão não estaria no búfalo ou no ambiente em si, mas no modo como os humanos os manejam.
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Em alusão à criação bubalina próxima a áreas de proteção, em especial da Reserva Biológica do Lago Piratuba, Iraçu afirma ser difícil saber e controlar o número de animais que transitam nos limites de áreas protegidas. Isso por que “a turma do Chico Mendes [ICMBio] não sabe o limite, como o búfalo vai saber?”. Aqui é interessante apontar como a fala de Iraçu faz uma partição de responsabilidades e qualidades entre o animal e o humano, destacando que a formalidade dos limites da Rebio não entram como algo perceptível ao búfalo, não faz parte da apropriação que este faz do meio.
Boa parte das disputas relacionadas à movimentação do gado, bem como aos limites com territórios vizinhos, passa por demandas de funcionários do ICMBio de construção de cercas dentro e próximas à Rebio. Nessa perspectiva, a delimitação das áreas de pastagem é essencial para a diminuição dos impactos da pecuária em terrenos de áreas de proteção. Na fala de Iraçu, ele enfatiza considerar o estabelecimento de áreas cercadas como uma ação problemática, pois isso pode criar conflitos entre os
/< pecuaristas, como é o caso da pecuária no Pará. Ele diz que atualmente produtores vizinhos mantém boas relações e o gado de “um entra na área do outro”, estilo de criação extensiva a que volto mais adiante na tese.
Em contraste com o modo de criação atual, estabelecer limites cercados pode levar a disputas, pois as referências de limites entre terrenos são comumente igarapés e valas, que mudam de lugar ou secam de uma temporada para outra29: “Tem caso que precisa ser cerca e tem caso que não precisa ser cerca. Acho que não é a cerca que vai resolver o problema”.30 E, por último, Iraçu faz um apelo semelhante ao do palestrante anterior. Ele menciona o pequeno produtor que tem cinco ou seis cabeças de búfalo “para dar leite para a meninada para ficar mais forte que a meninada da ressaca”. Essa afirmativa é uma referência às populações que vivem em áreas conhecidas como ressaca, expressão regional empregada para designar um ecossistema típico da zona costeira do Amapá31 (Neri 2004) em que as populações residentes são notadamente afetadas por doenças de origens sanitárias (Aguiar e Silva 2003).
Essa noção de um potencial de alimentação de populações pobres é também apresentada em estudos técnicos da Embrapa, onde consta que áreas de várzea amazônicas podem e devem ser utilizadas “para o combate à pobreza, que hoje grassa nessas áreas, através da elevação do nível socioeconômico da população, evitando os impactos ambientais negativos, conciliando desenvolvimento e ambiente físico” (Marques, 2003: 34). Na fala de Iraçu, ele diz que 98% dos produtores estão nas áreas
29 Essa é, em outra escala, a fonte de um dos principais problemas de fronteira da história
brasileira, a Questão do Amapá, também conhecida como Contestado franco-brasileiro, uma disputa de limites envolvendo França e Brasil que perdurou ao longo dos séculos XVIII e XIX. Nesse litígio, a França não reconhecia o rio Oiapoque como limite entre a Guiana Francesa e o Amapá, alegando, entre outros argumentos, que as dinâmicas hídricas aumentaram a área do Amapá (Tambs, 1974). Como explicam Silva e Rückert (2009), “após inúmeros estudos e conferências, a sentença foi pronunciada pelo governo suíço três anos mais tarde (1900), concedendo ao Brasil a posse definitiva da região litigiosa através do laudo suíço ou laudo de Berna. Para a solução e conclusão deste episódio, foi elaborado um relatório pelo suíço Emílio Goeldi, utilizado como base de defesa pelo representante do Brasil, José Maria da Silva Paranhos Júnior, comumente conhecido por Barão do Rio Branco”.
30 É importante ressaltar que Valdenira Santos (2006) enfatiza que o estabelecimento de
cercas nos terrenos da bubalinocultura também causam impactos ambientais ao interferirem nos circuitos de igarapés e vegetações flutuantes.
31 “São áreas encaixadas em terrenos Quaternários que se comportam como reservatórios
naturais de água, caracterizando-se como um ecossistema complexo e distinto, sofrendo os efeitos da ação das marés, por meio de uma intricada rede de canais e igarapés e do ciclo sazonal das chuvas” (Neri, 2004: 3-4).
/= de várzea, “onde não precisa desmatar. Se é de lá que tiram o sustento da meninada, como é que vamos desmatar?”. Uma intervenção rápida de outro técnico que assistia à exposição endossou o já dito: “Se não se criar búfalo aqui, o que vai se criar? O que vai se comer?”. Para fechar sua fala, Iraçu mostra gráficos de projeções da necessidade do aumento de produção mundial de alimentos.
A fala seguinte foi de um representante da Superintendência Federal de Agricultura no Amapá – SFA/AP, ligada ao Ministério da Agricultura, que afirmou que todos os estados brasileiros atualmente criam búfalos e que o Amapá o segundo