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Kan mangler ved skolemedisinen forklare oppblomstringen av religiøs helbredelse?

4 Vestlige helbrederes syn på sine

4.4 Kan mangler ved skolemedisinen forklare oppblomstringen av religiøs helbredelse?

Pode-se considerar que as maiores movimentações de pessoas na região ocorrem a partir de dois calendários distintos: aquele que determina as festas, normalmente associadas a datas religiosas, e aquele que é pautado pelas atividades com o gado, como é o evento das férreas.

No caso das festas, algumas datas comemorativas do catolicismo popular local geram bastante expectativa e as pessoas aguardam ansiosas para o encontro com amigos e parentes. É comum ouvir anseios dos vaqueiros pelas festas ao enfatizarem, de forma chistosa, que não podem ficar demasiado tempo “no mato”, na companhia primordialmente de animais e poucos humanos, sob o risco de perder o domínio do que os torna gente e ceder profundamente à condição de bicho.

As festas do calendário católico em geral são associadas a uma determinada comunidade e ganham formatação local. Esse é o caso do dia 12 de outubro, dia da Padroeira Nossa Senhora Aparecida e também dia das crianças, quando acontece uma grande comemoração na comunidade do Tabaco, uma das mais populosas da região (Cf. 0 1 $, pág. 7). Em uma de minhas etapas de pesquisa cheguei justamente às vésperas desta festa, e quase a totalidade de meus interlocutores se organizava para o evento.

Comumente a festa é associada a um organizador, normalmente o líder da comunidade. No caso do Tabaco, todos mencionavam a fama de generosidade e esforço de Mimico em realizar uma boa festa e “receber bem” as pessoas que para lá vão. O que é considerado “receber bem” se refere à obrigatoriedade de servir um

$"/ grande almoço a todos os convidados, que ao longo do dia devem arcar somente com os custos das bebidas, e prover espaço para que as pessoas atem suas redes para dormir à noite. Nestes encontros uma diversão muito comum são os bingos, que distribuem pequenos prêmios doados pelo organizador da festa e têm o objetivo de arrecadar recursos para serem usados na manutenção das capelas locais. Após uma tarde de bingo, conversas e refeições, o cair da noite vem gradualmente elevando o som nas grandes caixas que tocam ritmos de dança da região sob influência estético- musical de Belém, como o arrocha e o melody.71

As festas são as ocasiões em que os vaqueiros afirmam aproveitar para se divertir dançando, namorando e, principalmente, bebendo.72 Raras são as pessoas que bebem com frequência na região, e estas ficam mesmo com uma fama ruim de “cachaceiro” se o fazem além do normal, o que pode dificultar a conseguir trabalho em fazendas. Se beber cotidianamente não é bem visto, as festas se tornam o momento em que é mais socialmente aceito se embebedar, o que de fato quase todos fazem. Mas isso pode levar a excessos, e não são raros os casos em que acontecem brigas nestas ocasiões. Em sua pesquisa no Sucuriju, vila bem próxima ao local desta pesquisa, Carlos Sautchuk descreve processos semelhantes:

O exagero na bebida, que pode se exprimir em condutas agressivas (verbais ou físicas) ou de um convite à dança ou um cortejo inconvenientes, resulta na intervenção de parentes ou amigos, que retiram o homem do local. Há, portanto, um controle mediador desse ambiente de trocas, que organiza a socialidade da festa, incentivando o consumo alcoólico até certo ponto e salvaguardando os limites para os comportamentos dele derivados (Sautchuk 2007: 214).

Sobre a bebida, um vaqueiro me disse algo muito interessante. Ao comentar de um colega que havia voltado bêbado de outra fazenda, ele disse que naquele caso “é só beber que fica com a cara dura”. O termo é uma relação direta com as noções de pescoço e “cara” “dura” ou “mole” usado com frequência para se referir ao

71 O método de observação participante almeja a inserção sociológica e ecológica, mas faz

parte dele uma forte inserção psicológica e fisiológica. O organismo funciona de forma muito diferente, seja pela alimentação, pela água ou pelo ritmo de atividades e sono. Como bem colocou Mariza Peirano (2014: 380): “a empiria – eventos, acontecimentos, palavras, textos, cheiros, sabores, tudo que nos afeta os sentidos –, é o material que analisamos e que, para nós, não são apenas dados coletados, mas questionamentos, fonte de renovação”.

72 Em festas é mais comum os vaqueiros consumirem cerveja. Quando bebem em dias e

horário de trabalho, a bebida comumente é a cachaça, também referida somente como “Duelo”, uma das marcas de aguardente comercializadas localmente.

$"% comportamento de cavalos e bois. O “duro”, no caso, remete à teimosia, a não aptidão para o trabalho naquela condição.

Pelo provável comportamento dos que se embebedam em exagero, nas maiores festas da região, como esta do Tabaco, policiais militares vindos de Cutias comparecem para ajudar na segurança e na ordem.73 Além da generosidade do anfitrião, estas celebrações são também a oportunidade das pessoas realizarem agrados àqueles que são mais próximos. Nas primeiras festas que compareci eu normalmente comprava a minha própria bebida, dinâmica que mudou após conhecer melhor as pessoas da região, que demonstravam presteza em me presentear com latinhas de cerveja tão logo me vissem. Obviamente isso é uma via de mão dupla, e eu deveria retribuir a dádiva tão logo fosse possível, entrando na rede de trocas de bebidas entre “compadres” e “comadres” que seguia madrugada adentro.

Como mencionado na introdução desta tese, os moradores da região normalmente trabalham recebendo um salário mínimo. Devido à distância e a dificuldade de acesso às comunidades do baixo Araguari, os produtos que lá chegam apresentam preços elevados e é mais caro comprar provisões lá do que na capital e nas cidades do interior do Amapá. Não obstante a baixa remuneração e o alto custo dos produtos na região, especialmente da cerveja, as festas são o momento em que os vaqueiros esbanjam seus recursos, principalmente se solteiros e se não tiverem os filhos consigo.74 De fato, não é rara a ocasião em que um assalariado gaste praticamente todo o seu salário mensal em uma única noite de festa, como me relataram algumas pessoas.

Como é bem descrito pela teoria antropológica, os gastos considerados excessivos nestes momentos trazem prestígio à pessoa, seja no caso do organizador da festa, figura máxima no reconhecimento de todos no momento, seja na compra de bebidas a colegas, parentes e amigos. Como descrito por Marcel Mauss em seu ensaio magistral, opera aqui o ideal de retribuir mais do que se recebeu, e esta devolução é sempre maior e mais cara (Mauss, 2003a: 294). Nas ocasiões comemorativas na

73 Na ocasião em que estive presente, os policiais chegaram a disparar tiros para cima para

apartar um início de briga entre dois homens embriagados, que foram provisoriamente presos e algemados a um poste como se estivessem se abraçando, o que gerou muitos comentários jocosos posteriormente.

74 Vários dos vaqueiros que conheci tinham filhos em Cutias do Araguari ou outra cidade.

Normalmente eles demoravam semanas para comentarem da existência de um filho e o assunto quase sempre passava pela obrigatoriedade de enviar a “pensão” para a mãe desse filho.

$"4 região, uma das dinâmicas em que isso ocorre é o discurso sobre quantas “caixinhas” cada pessoa adquiriu e colocou à disposição para o consumo de outras pessoas. O termo “caixinha” aqui se refere ao conjunto empacotado de doze latas de cerveja.

A centralidade que a compra das “caixinhas” tinha no discurso e nas conversas posteriores às festas foi aos poucos se mostrando bastante importante no discurso dos moradores. Após estes eventos, comumente se comenta a provável quantidade de bebida consumida, calculando-se quão farta foi a festa. Nesse sentido, as “caixinhas” se tornam quase que uma medida local da fartura, da festança, em um sentido de abundância. Nas ocasiões em que algum interlocutor na pesquisa narrava alguma festa ocorrida quando eu não estava presente na região, o sucesso do encontro era sempre exaltado pela quantidade de “caixinhas” compradas e consumidas pelos amigos de um determinado grupo. De igual maneira, a atitude contrária à benevolência na compra das bebidas é muito mal vista, e aquilo que chamam de “beber no vácuo”, se aproveitar das bebidas de outros sem retribuir ao grupo, leva a comentários bastante indignados em relação à pessoa que faz isso.75

Em relação a estes festejos, não seria exagero dizer que os moradores estão sempre vivendo entre duas festas: tão logo é passada uma data comemorativa, eles logo começam a comentar como e onde será a próxima grande festa da região, exprimindo sua expectativa de público baseada em eventos passados e lamentando de antemão se não puderem ir. Se as grandes festas pautam uma passagem mais longa do tempo, cotidianamente é possível dizer que há pelo menos três intervalos distintos: há o tempo das marés, mais presente para aqueles que moram mais à beira do rio; há o tempo das atividades cotidianas, de ordenhar vacas, ir buscar o gado; e há o tempo do relógio, muito importante pela noite, quando se liga a televisão e há a sequência de telenovelas, jornais e mais telenovelas.

Não obstante, há outro calendário importante na região, aquele que compreende as grandes atividades com o gado. Apesar de este envolver principalmente os homens, os vaqueiros, todos na região sabem quando está para acontecer alguma ação maior com gado, como as citadas férreas, ocasião de contagem e marcação a ferro candente

75 Quando um dos presentes na festa foi acusado de “beber no vácuo”, ele se mostrou

indignado e comprou uma “caixinha”, jogando-a a em cima da “cuba” com veemência e quebrando a caixa de isopor. Este gesto gerou uma indisposição momentânea entre os presentes e o caso foi recontado em várias ocasiões nos dias seguintes. Outro vaqueiro depois me explicou que é melhor beber em grupos menores, pois se sabe quando é a vez de cada um pagar uma “caixinha”. Como ele diz, “quando há muita gente, o caboclo se esconde atrás do outro”.

$"> do gado, ou os embarques de reses para serem enviadas para o abate. As ações coletivas de trato com o gado nas fazendas dependem de redes de colegas a serem acionados para ajudarem no trabalho, o que faz com que em alguns momentos alguns vaqueiros se ausentem de sua comunidade ou morada para “ajudarem” em outra fazenda por dias ou mesmo uma semana.

Isso nos leva a um outro ponto interessante e importante no estilo de vida e do trabalho com a vaqueirice no contexto desta pesquisa. Em geral, as ações coletivas como vacinações e castração de bezerros necessitam de um número de vaqueiros maior do que cada fazenda dispõe, o que envolve acionar vaqueiros amigos de fazendas vizinhas, ou mesmo distantes. Como em outras formas de circulação e troca, aqui há uma expectativa de que a mão de obra oferecida através da prestação de ajuda será algum dia retribuída. A partir disso, formam-se redes de sociabilidade de trabalho e ajuda entre os vaqueiros do baixo Araguari.

Essas redes não necessariamente se limitam às fazendas vizinhas, podendo acionar colegas vaqueiros de fazendas mais distantes, mesmo daquelas que estão na outra margem do rio. Essas afinidades dependem mais da simpatia entre os vaqueiros do que de quaisquer relações que existam entre os proprietários das fazendas. Isso significa dizer que tais redes são formadas, mantidas e reajustadas de acordo com as dinâmicas de amizades e afinidades dos próprios vaqueiros. Como um vaqueiro me relatou certa vez, ele havia se afastado por muitos anos da atividade da bubalinocultura no baixo Araguari, tendo ido trabalhar na capital. Quando retornou, teve muita dificuldade de se estabelecer novamente, pois não conhecia bem os vaqueiros das proximidades e tinha pouquíssima capacidade de mobilizar ajuda.

Em sua narrativa, um dos vizinhos que lhe ofereceu essa ajuda inicial lhe era de muito estima, pois este criou assim uma nova relação, que pressupõe que a retribuição viria e continuaria o fluxo de contraprestações. Se entrar em uma nova relação de camaradagem parece ser o passo mais difícil, ampliar a participação nessa rede de ajudas depende deste primeiro camarada levar o vaqueiro noviço na região para ajudar em outras fazendas, quando novas relações serão criadas. Pelo que pude notar, aqueles que comparecem a uma ajuda são também aqueles que visitam e são visitados posteriormente.

Por essa razão, as ajudas fornecidas criam vínculos entre vaqueiros, que retribuirão o auxílio em outra ocasião, mas que também passam a ter relações de amizade e compadrio com aqueles com quem mantêm esse vínculo. Isso implica que

$"< os vaqueiros e suas família podem visitar uns aos outros de tempos em tempos, como acontece com frequência, especialmente nos finais de semana. De igual maneira, as ajudas têm uma função de exercício das habilidades necessárias ao trabalho com o gado, que será melhor abordada adiante. Por isso, a “escolha” por métodos de lida com o gado teoricamente mais difíceis – em ações em campos abertos ao invés do confinamento do gado em currais – parece ter um resultado importante na constituição das relações entre os vaqueiros, pois as ações conjuntas entre eles é parte importante da sociabilidade na região.

Apesar de todos os perigos envolvidos na atividade da vaqueirice, ela vem sempre acompanhada da noção de diversão, de que é um trabalho mais prazeroso em certos sentidos do que outros. De um modo geral, com frequência os filhos de vaqueiros dizem querer ser vaqueiros como seus pais. Um vaqueiro, Dario, me contou que seus dois filhos que vivem com a avó em outra comunidade só falam em ser vaqueiros como o pai. Em uma família que acompanhei mais de perto na comunidade Vai-quem-quer, o pai insistia sempre que o filho não seria vaqueiro, que ele iria estudar. Mas presenciei o jovem pedir para acompanhar o pai quase diariamente, que por vezes lhe autorizava e às vezes declarava que a ajuda do filho era mesmo necessária.

De fato, a atividade da vaqueirice é mesmo derivada de uma relação intergeracional, e não foram raras as vezes que eu descobriria depois de um tempo que dois vaqueiros fossem parentes, fosse pai e filho ou mesmo irmãos. No baixo Araguari, os vaqueiros adultos raramente se referem aos seus parentes como tais, não chamando alguém de “pai”, mas sim pelo apelido que todos o chamam.

Portanto, não seria errado entender as técnicas de manejo com o gado nessa forma de pecuária extensiva como fundantes de uma sociabilidade entre os moradores do Araguari. Igualmente, tomei a imagem da rede para pensar a maneira como as pessoas fazem parte de uma sociedade mais ampla dos moradores do baixo Araguari, mostrando que esta rede tem momentos de distância, isolamento relativo e proximidade, convivência. 0 @ 1 ) 6 H 1 5 1 3: 3 6 1 3 56 56 1 3 & Assim, 1 @ ) 6 ' @ T ) 6 1 + + ' ( ) &

$"= + entre os vaqueiros e suas famílias tem pontos marcantes abordados por meio destes episódios, as festas, as viagens nas lanchas para Cutias e as ações com o gado, há um outro campo de relações que ocupa espaço constante nas falas das pessoas no baixo Araguari e que merece destaque.

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Na pecuária extensiva tal como praticada na região do Araguari, o gado sempre está em movimento e de tempos em tempos os vaqueiros tem que ir atrás de rezes desgarradas. Nesse sentido, é importante manter boas relações com as fazendas vizinhas, pois entrar em território de terceiros requer autorização dos responsáveis pela fazenda. Como explicado, de um modo geral as fazendas possuem relativamente poucos funcionários, não sendo raras aquelas que são administradas por apenas um vaqueiro. Esse é o caso de propriedades que têm planteis considerados pequenos para a região, como aquelas em que estão cerca de 200 bubalinos.

De forma aproximativa, poderíamos pensar que essa é a faixa em que é comum a presença de um ou dois vaqueiros, exponencialmente este número quando o número de reses é dobrada. Por essa razão, fica claro que os proprietários das fazendas tanto dependem quanto obtém ganhos com essa rede de circulação de mão de obra dos vaqueiros através da camaradagem. Pois, se um vaqueiro consegue realizar a manutenção periódica de cerca de 200 reses, ações em que seja necessário juntar todo o plantel dependem de mais vaqueiros, como as vacinações e férreas, que demandam a capacidade de trabalho de mais pessoas. Nessas ações, não somente a troca de mão de obra através da camaradagem é acionada, mas o vaqueiro que “convida” deve ser capaz também de prover a alimentação durante o dia.

Nas práticas observadas, esses recursos raramente vêm do patrão, com frequência ficando a cargo do feitor da fazenda o dispêndio com a bóia, caso este opte por lidar com o gado em uma ação com colegas de outras fazendas, ao invés de manejar o gado no curral, por exemplo. Comumente quando há uma ação de laçada programada, o feitor sai em busca de animais de caça maiores (jacarés, pirarucus, capivaras) que forneçam carne suficiente para alimentar os vaqueiros que virão. Caso

$-# ele não tenha sucesso, há um notório constrangimento em servir apenas alimentos industriais (como embutidos) acompanhados de farinha.76

De modo geral, as relações de trabalho entre vaqueiros e os proprietários das fazendas são de caráter informal. Quando o assunto era a remuneração, os vaqueiros reclamavam que haviam alguns patrões que não queriam pagar o “mínimo” (referência ao salário mínimo, R$ 622,00 no início da pesquisa e R$ 678,00 nos últimos meses em que estive na região). É comum também expressarem insatisfação com o fato de trabalharem muitos meses para um mesmo empregador com a promessa de um dia “assinar carteira”, referência à concretização da formalização do vínculo de trabalho, algo que raramente se concretiza.

A formalização do vínculo de trabalho, o “assinar carteira”, é importante em alguns aspectos. O primeiro, obviamente, são os benefícios legais do vínculo trabalhista: o seguro desemprego e as férias. Este último, as férias, é fonte de constante reclamação de vaqueiros que não possuem a “carteira assinada” e que dizem que raramente o patrão os deixar usufruir do período de férias, querendo que trabalhem continuamente e recebam uma indenização financeira em um momento posterior. Nas conversas sobre relações de trabalho é comum os vaqueiros expressarem quanto de dívida o dono da fazenda tem com eles, quantos meses cada um tem para receber, incluindo férias e indenização. Além disso, é comum que os pagamentos sejam feitos em periodicidade não mensal, podendo-se acumular dois ou três meses de salário em uma mesma remuneração.

A questão da carteira assinada é também descrita como essencial para que o vaqueiro possa comprar a prazo ou parcelado em algum estabelecimento, seja em Cutias ou mesmo em Macapá, em sistema de crediário, situação em que se pede a comprovação do salário mensal. Outro aspecto apontado como importante de “assinar a carteira” é a comprovação da experiência anterior frente a novos empregadores.

Certa vez um vaqueiro me explicou que planejava sair da fazenda em que trabalhava pois o patrão não queria “assinar carteira”. A “carteira assinada” é um objetivo almejado por vários dos vaqueiros na região, mas não é o único quesito que os mantém em um mesmo emprego. O mesmo vaqueiro que planejava não trabalhar

76 Em uma de minhas estadias na comunidade Vai-quem-quer quase todo o alimento que levei

para a fazenda foi consumido em um dia dessas ações, pois o feitor não teve sucesso em sua caçada e serviu para os vaqueiros visitantes o que tínhamos à disposição: feijão, calabresa e farinha.

$-$ para o “patrão” que não queria assinar a carteira me contou também que já trabalhou em uma fazenda maior onde tinha a “carteira assinada”. Mesmo que a formalização existisse, este vaqueiro me disse que saiu daquela fazenda em que trabalhava com a carteira de trabalho assinada, em uma situação formal, pois o serviço era “muito”. Isso porque ele diariamente tinha que “sair atrás de gado” meia noite, por conta do tamanho do terreno da fazenda e da quantidade de gado, só retornando para o quarto onde dormia por volta das 17h.

Além do serviço ser “muito”, a relação com o feitor dessa fazenda era muito complicada: “ele é chato” diz, pois “se não fizer o que ele pede na hora ele marca a pessoa”. Por essas razões, o vaqueiro trocou um emprego de “carteira assinada” por outro com a promessa de “assinar carteira”, o que não se concretizava e o levava a planejar uma nova troca de emprego. Ele me explicou que pretendia sair antes da