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5. 3 Ulike former for teodicéer

5.6 Den dualistisk teodicé – er wimberismen manikeisk?

É fato que nem sempre estamos bem emocionalmente, com disposição ou com vontade para o trabalho de investigação, principalmente se a atividade envolve exercícios que exigem esforço físico. Nestes anos de aprendizado percebi que conseguimos também realizar a prática mesmo com um aparente estado de desânimo. Não estar bem emocionalmente para trabalhar, não necessariamente é determinante para inviabilizar a prática.

Em muitos momentos em que eu achava que o treino iria ser péssimo, devido ao meu estado emocional, que geralmente chamamos de estado de “energia baixa”, fui surpreendido pela capacidade de transformação das emoções que o trabalho corporal provoca.

Por este motivo, quando entro em sala, seja para realizar o trabalho ou guiar os estudantes, antes de iniciar a investigação, sempre relembro a noção que o estado emocional ou de ânimo ao qual se encontra é o melhor estado para se começar o trabalho, com isso o estudante atenta-se a trabalhar com um estado “real” e não buscar um estado “ideal”.

Ao iniciar a prática, procuro sinalizar esta noção para que o estudante perceba em qual estado emotivo se encontra no momento, e que este é o melhor estado para começar o trabalho. Esta compreensão auxilia o estudante a perceber um princípio, de que a atuação antes de tudo trabalha no aqui e agora. Este “ser estar” no presente é o seu estado íntegro, real e não o estado ideal para a prática.

Esta noção convida o ator a estar íntegro e não se dividir em busca de um estado emocional ideal, aprender a trabalhar com sua pessoa, e não trabalhar a sua pessoa. Respeitar suas emoções, não as negar, transformá-las a partir delas, é o primeiro passo para compreender que se queremos transformar algo, antes temos que reconhecer e trabalhar a partir deste algo. Há nesta compreensão um sentido de integridade, uma aceitação das emoções do ator, ligadas ao seu físico e vice-versa. Uma atitude para dar espaço à corporeidade como ela de fato é, íntegra, orgânica e em constante fluxo emocional.

Iniciar o trabalho não negando o estado presente é primordial. É também um exercício de entrega e de generosidade. Provoca a abertura para uma forma de comunicação mais íntegra consigo. Segundo Burnier,

Essa abertura e entrega são como canais de comunicação que tendem a fazer fluir informações que navegam entre o corpo e a pessoa. Embora inseparáveis, existem várias práticas corpóreas (desportes, p. ex.) ou mentais (meditação...) que privilegiam um ou outro aspecto de nosso ser. Não vem ao caso, aqui, quão tais práticas possam ou não ser desenvolvidas de maneira mais ou menos “correta”. O que nos importa é que sua existência, reconhecida e aceita na cultura ocidental (a educação esportiva, ou o catolicismo, para ficarmos nestes exemplos), determina fissuras, rupturas, ou ainda ruídos nos canais de comunicação corpo-pessoa. O que era uno apresenta-se dividido em dois (BURNIER, 2001, p. 86).

Mais uma vez, um mestre da prática utiliza exemplos para evidenciar o como a cultura nos molda corporalmente. Importante esta colocação do ator fundador do Lume, pois algumas noções e comandos relacionados ao momento do aquecimento induzem, geralmente, a construir uma cisão na atitude do ator. É costumeiro se ouvir o comando “vamos aquecer o corpo! ”, “vamos alongar o corpo! ”. Este “o corpo” é sutil, porém ressalta a relação que estamos sempre aplicando comando para o corpo como se fosse realmente um instrumento à parte de nós que executa nossos comandos. Como Burnier bem coloca, esta noção talvez seja mais eficiente às práticas do esporte.

Em se tratando de atuação cênica, a noção de esquentar o ser é uma maneira de iniciar a prática de forma íntegra, uma metáfora da sala de estudo, que tenta prevenir uma cisão no entendimento do ator, para que ele possa fluir na prática, construindo uma atitude e atenção integral consigo mesmo. O conflito que o ator passa é a busca do ser e estar, como diz poeticamente a atriz Ana Cristina Colla, do Lume:

A necessidade de “ser” e “estar”, simultaneamente, me conflituam. Sou covarde. Necessito de máscaras que me revelem. É possível ser e estar ao mesmo tempo? Ou para estar é preciso deixar de ser? E sendo, conseguirei estar? Doidices de coração pensante. Quando em cena cruzo com os olhos daquele que me assiste, me sinto “ser-estando”. Serestando (2006, p. 29). Ser – estar, estado que compreende seu físico, suas sensações, sua pessoa, suas emoções, em ação focadas no aqui e agora. Esta noção também auxilia a expansão da percepção do estudante. Claro que concretamente, no sentido corpóreo, é impossível cindir corpo e emoções, porém, estar consciente da noção de completude no momento do aquecimento e depois durante todo o trabalho com os exercícios, imprime uma diferença entre tornar o trabalho apenas uma atividade física ou conseguir torná-lo uma prática de investigação que possibilita descobrir camadas mais profundas e sutis à nível corpóreo, caminho este primordial para o estudo no espaço do laboratório. Sobre uma noção para construir uma relação mais íntegra no momento do aquecimento, discorre novamente Burnier:

Para o aquecimento é importante ter em mente alguns detalhes: 1) ele visa acordar o corpo para uma atividade física e criativa. Parece redundante, mas muitos atores, ao se aquecerem, não dinamizam suas energias, mas, ao contrário, “apaziguam-nas”, quase adormecendo. Certas práticas, como a de massagear o próprio corpo, ou demorados alongamentos no início de um trabalho, não são, a meu ver, produtivas; 2) o aquecimento não é só físico, mas “físico e mental”. Embora aquecer o corpo seja importante, para um ator isto não basta. Ele precisa aquecer-se, e isto inclui a sua pessoa, ou seja, seu universo interior (BURNIER, 2001, p. 113).

Embora Burnier também utilize em sua fala acima “acordar o corpo”, o foco de investigação que o estudante de ator deve conseguir acessar e trabalhar é o que Burnier chama de “aquecer-se incluindo a sua pessoa”, seu “universo interior”. O ator deve, desde o início do trabalho, que começa pelo aquecimento, harmonizar-se com esta noção mais íntegra. Neste sentido, trabalhar com as sensações e emoções é um primeiro passo para conseguir acessar e dar espaço ao “universo interior” constituído de potência corpórea daí é que emerge todo seu trabalho.

Diante disso, qual o melhor exercício que trabalha de forma eficiente um aquecimento? Bem, a meu ver e de acordo com minha experiência no Nutra, este exercício não existe. O que percebo é que o mais importante é o princípio da atitude interna que o ator deve ter, em buscar esta integridade. Aquecer não necessariamente está ligado com movimentos, as possibilidades são muitas. Por exemplo, o ator pode conseguir um aquecer dinâmico do seu ser, realizando um exercício parado, como algumas posturas da yoga, por exemplo. Pode estar aparentemente parado do ponto de vista externo, desde que haja um trabalho interno. Aí terá

uma mobilidade interna da energia do ator. Bem como pode ficar duas horas se movimentando, se chacoalhando, pulando, mexendo os braços e conseguir realizar apenas um condicionamento físico, que também faz parte do trabalho, mas não é o objetivo do esquentar o ser. A citação a seguir esclarece o que deve ser buscado como príncipio de atitude no momento do aquecimento: Aquecimento – Sempre começávamos com um aquecimento individual, longo e criterioso, para que cada um descobrisse as necessidades de seu corpo, como o aquecimento das articulações e o alongamento da musculatura. É muito importante que cada ator descubra seu próprio aquecimento. O que é bom para um não o é necessariamente para o outro. Mas o fundamental é que cada um descubra qual é a dança que desperta cada corpo e, principalmente, a maneira de estar inteiro no trabalho desde o momento do aquecimento (HIRSON, 2006, p. 55).

A atriz do Lume pontua a necessidade de que logo no momento do aquecimento inicial, seja preciso buscar estar inteiro. Esta noção de aquecimento propõe não apenas a execução dos exercícios, mas também uma atitude de saber provocar com atenção uma autotransformação, para estar disponível corporalmente ao trabalho de investigação, e ao mesmo tempo perceber se conseguiu de fato transformar sua postura interna, antes estática, em dinâmica. O ponto de busca no aquecimento, se posso colocar como objetivo, é conseguir provocar tal transformação. Por isso, a noção de esquentar o ser é um comando que propõe ao estudante buscar uma relação de integridade, auxilia a focar na completude e na busca de trabalhar com o ser e não trabalhar o corpo. Ater-se aos princípios mais sutis nos faz trabalhar de forma atenta ao que estamos praticando e não apenas executar, de forma distanciada, exercícios físicos por meio dos comandos.