Miguel Jorge (1996), ao descrever aos dois sistemas de classificação mais utilizados em saúde mental, refere que a CID foi desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e teve início no Congresso Estatístico Internacional de 1853, em que organizaram uma nomenclatura uniforme de causas de morte para ser usado de forma internacional. Ela foi terminada em
1893, e assumida pelo Instituto Estatístico Internacional, sob o nome de Classificação Internacional de Causas de Morte. E depois sua nova versão passou a ser chamada de Classificação Internacional de Doenças, Danos e Causas de Morte e são reformuladas no intervalo de dez em dez anos, e, na sexta reformulação, (CID 6), a classificação passou a ser utilizada também para efeito de verificação da taxa de morbidade e mortalidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) criou em 1984 um grupo de estudiosos, com o objetivo da revisão da CID-10, e muitos pesquisadores foram convidados, de várias partes do mundo, a partir de uma grande conferência internacional sobre classificação e diagnóstico, realizada em Copenhagem, Dinamarca em 1982. Notáveis esforços foram empreendidos envolvendo 40 paises, com o fito de desenvolver a entrevista diagnóstica internacional, ela foi composta como um instrumento adequado para conduzir estudos epidemiológicos de transtornos mentais em grupos de população em diferentes paises.
A Classificação Internacional de Doenças (CID 10) ao todo é formada de 21 capítulos definidos em códigos alfanuméricos por uma letra, e o quinto capítulo é o equivalente aos transtornos mentais e do comportamento. O código alfanumérico é constituído de cinco caracteres sendo o primeiro uma letra (sempre F) no caso de transtornos mentais e de comportamento, o segundo se refere à classe diagnóstica, o terceiro, à categoria. Os dois últimos caracteres designam uma subdivisão categorial e um detalhamento diagnóstico.
Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID- 10 (Classificação Internacional das Doenças) - OMS (Organização Mundial da Saúde).
F 0 Transtornos Mentais Orgânicos incluindo Sintomáticos
F1 Transtornos Mentais e de Comportamentos Decorrente do uso de Substância Psicoativa F2 Esquizofrenia, Transtornos Esquizotípicos e Delirantes.
F3 Transtornos do Humor (Afetivo)
F4 Transtornos Neuróticos Relacionados com o Estresse e Somatoformes
F5 Síndromes Comportamentais Associadas a Perturbações Fisiológicas e Fatores Físicos. F6 Transtornos de Personalidade e de Comportamento em Adultos.
F7 Retardo Mental
F8 Transtornos do Desenvolvimento Psicológico
F90 a F98 Transtornos Emocionais e de Comportamento com Início usualmente ocorrendo na Infância e Adolescência
F99 Transtorno Mental não Especificado.
2.1.1.2. O Diagnostic and Statistical Manual (DSM) of Mental Disorders
Grob (1991, apud MIGUEL JORGE, 1996) divulgou um curioso trabalho de revisão sobre o surgimento do DSM. Nesse material, ele comenta que no século XIX as doenças mentais eram indiferenciadas das doenças físicas, e os psiquiatras, da mesma forma que os outros médicos, caracterizavam as doenças mentais por meio da análise dos sintomas e dos sinais.
Com o desenvolvimento das ciências sociais e dos estudos estatísticos possibilitou-se o desenvolvido do DSM que foi instituído pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), graças aos esforços de vários pesquisadores.
Ele cita que em 1917, nos Estados Unidos da América ocorreram críticas através do Comitê Nacional de Higiene Mental quanto à visão oficial da doença mental, alegavam que esta se restringia somente à visão ligada à doença, no isolamento dos hospitais psiquiátricos. Este comitê defendia a necessidade de definir e expandir políticas públicas para lançar as bases da higiene mental. E nesse mesmo ano, a partir do descontentamento dos pesquisadores pela falta de uniformidade na classificação das doenças mentais, que tornava impossível a coleta e comparação de dados, e em razão disso foi editada uma nosologia psiquiátrica padronizada para uso dos hospitais psiquiátricos contendo 22
grupos diagnósticos baseados nos fundamentos biológicos utilizados por Kraepelin.
Adolf Meyer foi um dos maiores críticos desse modelo classificatório dos sintomas, e com base em sua concepção genético-dinâmica expunha a sua teoria sobre a importância da experiência de vida da pessoa, juntamente com os dados fisiológicos e biológicos. Com a introdução da psicanálise no quadro teórico vigente nos primórdios do século XX e os estudos e pesquisas psicanalíticos a partir das observações e descrições das patologias transcorridas na Segunda Guerra Mundial, houve ênfase no entendimento da responsabilidade social em relação aos problemas da vida diária, através da psiquiatria social de Menniger.
E, em 1948, ocorreu a divulgação da CID 6, esta não incluía as síndromes cerebrais crônicas, vários transtornos de personalidade e reações transitórias ou situacionais, que eram de grande importância para psiquiatras norte-americanos, especificamente aqueles seguidores de Adolf Meyer e William Menninger. Tal fato mobilizou a Associação Psiquiátrica Americana (APA) a criar uma substituição para a CID 6, e editar o DSM I, que divulgou as idéias de Meyer, Menninger e Freud.
Em 1988, a Associação Psiquiátrica Americana produziu o DSM IV e realizou revisões em 1991e 1993. Nelas conservou os critérios de categorias e recomendou cuidado em relação ao trabalho diagnóstico por ser praticado por pessoas não habilitadas e incluiu uma nova seção em que considera a diversidade de culturas.
Cada categoria diagnóstica incluiu dados acerca dos transtornos e aspectos associados à idade, cultura, sexo, prevalência, incidência, risco, curso, complicações, fatores predisponentes, padrão familiar e diagnóstico diferencial.
Grob alega que o DSM IV se destaca na medida em que se afasta da dicotomia orgânica e funcional e aprofunda o conhecimento de cada categoria diagnóstica, desse modo abrange o diagnóstico diferencial, comorbidade, conteúdos dos exames físicos e de laboratório, características culturais e fluxo longitudinal.
O diagnóstico no DSM IV é multiaxial, e está dividido em cinco eixos, o eixo I abrange os transtornos de desenvolvimento; o eixo II constitui os transtornos de personalidade e deficiência mental; o eixo III são as condições médicas gerais, em que ocorre um transtorno mental devido a uma condição clínica atual; o eixo IV está ligado aos problemas do viver, ou de estressores psicossociais; e por último o eixo V é a Avaliação Global do Funcionamento (AGF), que quantifica o julgamento por parte do clínico, a gravidade dos sintomas e o nível de funcionamento do paciente, e resume o funcionamento psicológico, social e ocupacional. A escala (AGF) se estende de 1 a 100.
Miguel Jorge acredita que a padronização de conceitos e critérios diagnósticos em psiquiatria caminha para uma linguagem comum, e a divergência entre os dois sistemas classificatórios mais utilizados, o DSM e o CID, já não faz sentido, tendo em vista a grande utilidade que trazem para fins clínicos e de pesquisa.
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM IV-TR)-APA
EIXO I
Transtornos Clínicos Transtornos Cognitivos
Transtornos Relacionados ao uso de Substâncias Esquizofrenia e outros Transtornos Psicóticos
Transtorno de Humor Transtorno de Ansiedade Transtornos Somatoformes
Transtornos Dissociativos
Transtornos Sexuais e da Identidade de Gênero Transtorno da Alimentação
Transtorno Primário do Sono Transtorno dos Impulsos Transtorno da Adaptação
EIXO II Retardo Mental Transtorno de Personalidade Grupo A Paranóide Esquizóide Esquizotímica Grupo B Anti-Social Borderline Histriônico Narcísico Grupo C Esquiva Dependente Obsessivo-Compulsiva EIXO III Perturbações Orgânicas (História Médica) Transtornos Físicos Transtornos Neurológicos Endocrinopatias Desequilíbrio Eletrolítico Doenças Vasculares do Colágeno
Doenças Circulatórias Infecções Carcinoma Deficiência de Vitaminas
EIXO IV
Avaliação dos Estressores Psicossociais
Problemas do Viver ou Estressores Externos Problemas Psicossociais e Ambientais
Problemas de Família Morte de uma Pessoa Significativa
Abuso Infantil ou Sexual Dificuldade de Aculturação
Analfabetismo Pobreza Extrema
Problemas no Trabalho ou Desemprego Problemas Legais (Quer como Réu ou Vítima)
EIXO V
A Avaliação Global do Funcionamento (AGF) quantifica o julgamento por parte do clínico da gravidade dos sintomas e do nível de funcionamento do paciente (resume o funcionamento psicológico, social e ocupacional). A avaliação se estende de 1 a 100.