Neste trabalho propomos escutar os atores partícipes da e na cena social, como sujeitos da pesquisa. Foram escutados dois psicólogos, três assistentes sociais, além de cinco adolescentes em condição de reincidência que estão sob regime de LA no CREAS. Para realizarmos a análise do acontecimento social, a escolha não foi aleatória, pois foram escolhidos dois adolescentes que puderam comparecer às entrevistas.
O trabalho foi desenvolvido com adolescentes que, na condição de reincidência ao ato, eram partícipes dessa cena social. Os termos ‘reincidente’ e ‘liberdade assistida’ leva-nos a questionar: O que será que reincide, repete, insiste? O que será que será que não pode calar, mas não pode ser dito? Como funciona esse regime de liberdade? O que significa liberdade assistida? Assistida por quem? O que os adolescentes insistem em nos dizer com a reincidência ao ato?A reincidência no ato seria uma passagem traumática da reedição da tragédia sob forma de um acontecimento social?
Como bem diz Lesourd (2004, p.151), “esses adolescentes que interpelam o social, no desvio, na errância, ou na delinquência, são jovens chamados de ‘inclassificáveis’ por causa da incapacidade das estruturas médico-sociais de encontrar com seus critérios um lugar para eles, os quais preferem chamar de desarrimados do social e de suas leis”. Aichorn apud Lesourd (2004, p.150) refere-se a esses sujeitos como “jovens e/ou adolescentes em situações de sofrimento”.
Concordamos com a crítica de Lesourd (2004), e com a afirmação de Aichorn. Consideramos a juventude e/ou adolescência um momento de transição, do mítico infantil à vida
adulta, uma passagem conflituosa e traumática para todos os que a atravessam e para os que sucumbem nessa travessia. Sendo assim, os adolescentes interpelam o social pelas situações de dor.
No que diz respeito à legitimação social dessa clientela, esta é principalmente discriminada em sua esfera intelectual, econômica, social, cultural e psicológica, assim produzindo categorias descontextualizadas de deficiência, desvio e desigualdades, operando como efeito discursivo políticas de inclusão, exclusão e segregação dos sujeitos na sociedade.
Os sujeitos da presente pesquisa foram tratados com dignidade, respeito e autonomia. Houve garantia de consentimentolivre e esclarecido por parte dos sujeitos e, ainda, a liberdade de se recusarem a participar ou reiterar algo em qualquer fase da pesquisa, sem penalização alguma
e sem prejuízo de sua parte.
5.1.3 Procedimentos da Estratégia de Investigação
O procedimento metodológico foi construído a partir do conceito freudiano de transferência, compreendida como “uma repetição de protótipos infantis, onde haveria um deslocamento de afeto de uma representação para outra” (1912), articulado com a escuta psicanalítica na prática discursiva dos atores do contexto Institucional. Este processo emergiu da escuta e transferência psicanalítica, em seis momentos, descritos a seguir, e foi dividido em três tempos lógicos: o instante de ver, o tempo de compreender e o de concluir.
O primeiro momento, o instante de ver, iniciou-se com a visita à Fundação Casa, da qual registrei a experiência que vivi em forma de Testemunho (Apêndice A), e foi desenvolvido na Instituição CREAS.
O segundo momento, encaminhamento para Avaliação da Comissão de Ética, e diante da aprovação foi marcado novos encontros na Instituição para solicitar a autorização do trabalho de campo.
O terceiro momento, caracterizou-se pela observação na Instituição CREAS. Fui recebida pelo Coordenador C., que demonstrou disponibilidade em participar da pesquisa, solicitou o projeto de pesquisa e agendou uma reunião com a equipe técnica para apresentação da proposta de trabalho. Nessa reunião com a equipe os atores demonstraram disponibilidade em participar, bem como interesse no tema, uma vez que a reincidência é um elemento de constante reflexão, devido à importância e complexidade desta na prática cotidiana. Acordamos, portanto, os termos de responsabilidade da pesquisa, tendo a equipe decidido levar em consideração a condição de reincidência ao ato e indicar um ou mais casos.
Ainda nessa fase, o Coordenador C. apresentou-me à psicóloga R., que nesse percurso Institucional me acompanharia no que fosse necessário para desenvolver o trabalho. Agendei com R. um outro momento para que pudéssemos compartilhar um planejamento. Na primeira entrevista R. narrou a história institucional e apresentou documentos institucionais relativos ao Projeto de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei e os prontuários. Posteriormente
deu-se o agendamento dos adolescentes. R. recebeu dos profissionais o encaminhamento de cinco adolescentes e os agendou para o mesmo dia, alegando não apenas uma dificuldade no comparecimento destes, como também que, por tratar-se de uma pesquisa, eles poderiam escolher não participar do trabalho.
Concordei com R.e, nessa primeira marcação, apenas um adolescente compareceu e aceitou participar da pesquisa. Vários agendamentos foram realizados com essa dificuldade que afeta o serviço da psicóloga R presente em todos eles: os adolescentes não compareciam e muitos não queriam participar. Podemos nos questionar: Neste contexto disciplinar o que significa a falta? O que significa para o adolescente faltar no CREAS?
Diante do exposto e atravessado pela escuta psicanalítica, intervim propondo um outro manejo para situação: um manejo institucional, isto é transferencial, influenciado pelos elementos institucionais. Propus aos profissionais que escolhessem o caso e agendassem comigo o horário em que o adolescente deveria estar na Instituição. Sendo assim, depois do atendimento com o técnico, estes poderiam encaminhar o adolescente, a quem caberia a decisão de participar ou não da pesquisa. Os adolescentes, portanto, não compareceriam ao CREAS por escolha, mas por determinação judicial, tendo eu decidido inserir esse processo determinado judicialmente, como parte da coleta de dados da pesquisa.
Os profissionais concordaram e assim foi possível realizar o trabalho. A psicóloga e as assistentes sociais diziam que se afetavam pela falta dos adolescentes, pois isso lhes causava o sentimento de vergonha. A imposição judicial e a oferta de serviços produzem categorias como a resistência do adolescente em participar da Instituição como infrator, delinquente, em conflito com a lei, e os efeitos no laço, que se marcam pela repetição da ausência do sujeito.
Oito adolescentes compareceram e apenas dois se comprometeram a participar da pesquisa. Estes demonstram dificuldades em comparecer ao CREAS para cumprir a exigência da medida socioeducativa, o que nos abre a possibilidade de questionar se a medida é do jovem e se é socioeducativa, pois quando o adolescente falta, ele se justifica muitas vezes valendo-se de mentiras que são aceitas pela lógica burocrática como verdade.
Considerando que a falta nesse contexto é operacionalizada pela política de denegação, por se negar o limite existente de se fazer todas as coisas ao mesmo tempo, faz-se necessário torná-la uma política da castração, um significante que se remete à perda de algo ou de alguém, perda essa que seja suportável para o sujeito e para Instituição. Mas, para tal, é necessário
repensar a imposição judicial como medida socioeducativa e o CREAS como uma Instituição que oferta serviços, em vez de acolher os jovens naquilo que não conseguem parar de pensar. Como bem diz Mattos (2011, p.6):
Ao ser acolhido o que atenta as crianças e os jovens, ao ser escutado naquilo em que estão enredados e ao que realmente dão atenção – e não ao que lhes é exigido mas, ao que não conseguem parar de pensar –, eles acabam por encontrar um lugar para sua subjetividade e para seu modo de satisfação. Algo do pulsional pode ser regulado no dispositivo da conversação.
Para delimitar esse acontecimento social, utilizamos o termo construído por Rosa (2001, p.129) “encontros decididos”, ou seja, encontros que foram decididos ao longo do processo com o jovem, na tentativa de fazer vacilar o significado da falta e escandir uma diferença no que a concerne ao significante. A falta é real e deve estar incluída como um elemento imprescindível a ser analisado no processo da medida socioeducativa, pois indica a posição do suposto sujeito diante da castração naquele acontecimento social.
O primeiro caso estudado foi o do adolescente Alexsandre (nome fictício), que chegou encaminhado pela técnica R. que o acompanha desde 2010 no Projeto Juventude Cidadã. Percebi que o encaminhamento de R. havia sido determinante para o P. estar ali. Minhas palavras não faziam diferença enquanto explicava o termo de consentimento e o projeto de pesquisa, pois estava decido a participar do trabalho e sob relação transferencial com a assistente social R.
Durante o percurso foram marcadas oito entrevistas com ele, que compareceu a quatro e faltou em quatro. Para minha surpresa, ofertou sua palavra, tendo solicitado ser escutado, uma vez que o encontro não havia sido marcado. O jovem Alexsandre, que inicialmente demonstrava estar afetado pela desconfiança, foi aos poucos construindo uma relação transferencial com esta pesquisadora. Quando estava presente nos encontros decididos demonstrava estar afetado por esse acontecimento e mostrava o conflito psíquico na idealização da relação familiar e seu sofrimento diante da vida. A profissional R., na relação com o jovem, apostava na escola como uma saída real desse acontecimento traumático na dimensão do imaginário e do simbólico.
Já no segundo o caso estudado, o adolescente R. demonstrou que estava no momento de ver, ao querer saber qual era a proposta do trabalho e o que agregaria a ele. No final da explicação do Projeto concordou em participar, saiu da entrevista, sentou-se na sala de espera para aguardar seu pai, que estava falando com a técnica, e convenceu todos os adolescentes que
haviam sido encaminhados pelos profissionais a participarem do trabalho. Naquele dia pude então entrevistar mais quatro adolescentes que acabaram desistido durante o processo.
Podemos nos questionar: O que fez a permanência de R. em nosso trabalho, se a oferta era apenas da escuta psicanalítica? O que a escuta psicanalítica poderia agregar à R.?
A permanência de R. no processo, foi difícil, pois das oito entrevistas marcadas, compareceu a apenas dois encontros decididos. Num terceiro encontro compareceu, mas justificou ter outro compromisso, tendo faltado aos outros cinco. O comparecimento de R. aconteceu graças ao manejo transferencial da técnica N., que sustentou sua permanência durante todo o processo da pesquisa.
R. demonstrou capacidade de liderança diante do grupo, marcada pela posição colaborativa e apresentou características como simpatia e meiguice, o que algumas vezes é interpretado pelos técnicos da Instituição como um modo de manipular a ação. “Um manipulador”, tomado como significante do sujeito pela Instituição, como alguém que mani-pula- dor, como uma defesa egóica vivida de modo maníaco para não sentir a dor.
O adolescente apresentou desconfiança no estabelecimento de novos vínculos, produzindo o efeito de descomprometimento. A presença desse traço em sua relação com o outro resultava no isolamento e na descontinuidade como elementos que obstaculizam a realização do seu projeto de vida.
Na verificação dos documentos institucionais, a história institucional foi contada pela psicóloga R., por meio dos dados dos prontuários dos sujeitos da pesquisa, com a finalidade de mostrar como se constituem as tramas relacionais entre os atores e a produção do laço como efeito social e da apresentação do Projeto de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei.
No quarto momento, no tempo de compreender, incluiu o memorial dos profissionais do CREAS e foi solicitado à eles que narrasse como sua história de vida se articula, fazendo laço, com a dos adolescentes, levou-se em consideração o conceito freudiano de transferência como um operador ético-político na construção do diagnóstico.
Os profissionais não articulam as histórias, mas no cotidiano institucional, de maneira descontraída, um profissional fala para o outro: “eles estão lá e que todos tem um pezinho na infração”. Essa fala traz para uns risos, comentários e para outros, olhares compenetrados e um silêncio mortífero. Podemos nos perguntar: Como as histórias desses sujeitos se (des)articulam? Será que são sujeitos que buscam amparo discursivo?
Ainda foram realizadas as entrevistas com as técnicas responsáveis pelo encaminhamento dos adolescentes escolhidos. Foi solicitado aos profissionais que contassem a história dos adolescentes. Enquanto isso acontecia, elas se surpreendiam pela afetação de suas falas, por não haverem pensado naquilo, ou pelo afeto que predominava.
Em diversas situações os profissionais demonstram a impotência advinda da constatação do pouco que eles podem fazer para mudar essa realidade. A impotência como afeto produzido nessas relações pode ter o efeito de paralisação, se a intenção for situada na dimensão do impossível: de curar, educar, governar e/ou psicanalisar. No caso contrário podemos pensar que algo deve ser feito e isso pode fazer a diferença.
No quinto momento, foram realizadas as entrevistas com os adolescentes, objetivando escutar sua trajetória de vida a fim de conhecer o lugar e posição do sujeito nas tramas relacionais discursivas e seu efeito na produção dos laços sociais. Como diz Dutra (2009, p.9), para “deixar que na associação livre a palavra da fantasia ofereça seu material e suportar não dirigir a cena que se desenrola sobre temas que provocam angústia [...] suportar a sua dor, sem minimizar, apenas oferecendo a escuta.”
Finalmente, o sexto, no tempo de concluir, na demonstração da construção do diagnóstico psicológico ético-político, apoiamo-nos na articulação destas discursividades e utilizamos da teoria dos conjuntos para pensar a estrutura e a teoria dos jogos para análise, mais especificamente da lógica proposicional, contida e entrelaçada nos discursos, em busca de compreender o sintoma no social como um lugar de afetação que produz a verdade e/ou gozo como efeito dos laços sociais do sujeito.