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8 Fremtidens responssenter - funksjoner og tjenesteforløp

8.4 Kvalitetskrav til responssentertjenester

momentos foram com o tráfico, ele não é de roubar as coisas, ele é muito carismático, você já viu ele, então até na biqueira ele se destacou, porque ele era muito querido, [...] é muito doido, porque eu não consigo ver este lado nele, eu não consigo ver você na maldade, né? Mas esses meninos parecem que estão brincando, eles entram sem pensa e aí, quando tem esse olhar um pouco mais crítico, depois que sofre, eles preferem nem pensa, porque gera muito sofrimento olha de longe, olha o que eu fiz e aonde eu estava. São raros os meninos que fazem essa reflexão porque eles devem sofrer muito, é uma estratégia, porque se não eles não sobrevivem que é muito violento, né? Tem regras muito rígida, tem essa disputa,

tem a inveja, até mesmo prá quem tá dentro eles dizem que tem muita inveja, hoje é amigo, é irmão depois é um que quer matar, do amigo ao inimigo é um pulo. Eles tem essa coisa da irmandade que é muito incoerente, tem essa coisa da irmandade, mais piso na bola, é tem até lá no doutorado da Isa Guará, como é que é, não permite erros, uma coisa que eles tem é essa radicalidade, se é proibido, se é fortalecido, se não eles morrem.

N. situa o tráfico como o Isso, a causa da reincidência, afirma que R. não é de roubar as coisas. O que causa a reincidência de R.? Para a profissional N., é o tráfico que causa o re- aparecimento do ato no caso de R.?

A relação transferencial de N. para R. está estabelecida, ela enamora o adolescente, o que produz efeitos no atendimento, pois ele é carismático e querido e ela não consegue vê-lo na maldade. Opera pelo recalque a combinação dos quatro elementos que sustentam a relação transferencial: o amor, a ambiguidade, o erro e o engano.

Para a profissional N., o amor da relação transferencial opera a lógica de situar o seu olhar sobre o adolescente e percebê-lo ambíguo nas suas escolhas e sobre o ato, reconhecendo-os como um erro, um engano, uma brincadeira, um jogo de vida e/ou morte que o adolescente entra sem pensar. Para pensar nesse jogo, destacamos o seguinte trecho da entrevista:

O sujeito reduplica sua alienação num jogo com o prazer que brinca perigosamente com a pulsão, constrói um curto-circuito entre a fonte biológica da pulsão e produz um imaginário onde a satisfação existe tal e qual o encontro do objeto da necessidade. É um sujeito que se “instintiviza”. Isto é, busca uma via de relação com o mundo e um saber que supõe a palavra em segundo lugar (NOGUEIRA, 1999, p.26).

Nesse jogo da vida, o sujeito reduplica sua alienação, num jogo com o prazer e com a pulsão, constrói um curto-circuito pulsional e produz um imaginário social que supõe, em primeiro lugar, o encontro com o objeto de necessidade e, em segundo lugar, com a palavra.

Como bem a profissional N. associa a reflexão ao sofrimento, escolhe-se não pensar, porque isso produz sofrimento. Essa ideia nos mostra o quanto o adolescente se afeta com o ato, pois não pode nem pensar sobre ele. O afeto da ignorância é utilizado como mecanismo de defesa do ato infracional, ou seja, “a verdade se apresenta como um saber oculto encarnado pelo significante inesperado”(VIEIRA, 2001, p.174). Assim está descrito na entrevista:

[...] O acompanhamento é sempre interrompido, eu trabalho com ele coisas num atendimento, marco outro, e ele some e aí eu tenho que resgatá, e isso que é o mais difícil. E a família, a mãe, o pai sempre falo, ela não dá conta disso, não adianta nem convocá. Ela veio uma vez, ficou quieta o atendimento inteiro e é o pai que vem, então o pai vem com essa expectativa que o R. É o único filho que não deslanchou, ele tem cinco irmãos, todos estudaram, se formaram, trabalham deram conta da vida, tem um projeto de vida mais claro e o R. Foi o caçulinha que não deslanchou e o pai tem atitudes muito incoerentes, porque ele quer que o R. seja responsável, mais ele supri toda necessidade do menino, então ele dá dinheiro, ele compra as roupas de marca, entendeu? Então eu falo pra ele como ele vai crescer se você supri tudo, ele não tem essa necessidade de buscar algo pra ele, mesmo ele aprontando, ele tem, [...] e outra característica que eu achei interessante nessa família é o isolamento, então como o R. sumia muito, eu não sei se é ele ou irmãos que se afastaram, teve um atendimento que eu pedi que ele falasse um pouco de cada irmão, as características, o papel que eles exercem e o R. teve muita dificuldade de fala, tem um irmão que a gente gosta mais, tem um que a gente briga e o R. teve muita dificuldade foi muito trabalhoso, pelo menos ele colocou uma característica, que ele meio que se isolava, ele teve essa vida diferente da família, [...]

A profissional disse que R. demonstra um traço que caracteriza o seu modo de relacionar: reincide na inconstância, independente do estabelecimento da relação transferencial, oscila entre presença e ausência e se marca nessa inconsistência pela insustentabilidade. Nesse traço opera uma diferença, isola-se, é o único filho da família que não deslanchou. R. demonstrava suas emoções, seus limites e questionava a insustentabilidade dele e das Instituições. Destacamos o seguinte trecho da entrevista:

[…] e parecia para psicologia, ele parecia um estado depressivo, então tinha atendimento que se emocionava muito, mais não conseguia verbalizá. Eu não consigo, eu não sei porque eu paro com as coisas, a gente arrumo escola pra ele, não deu conta e desistiu as atividades do Projeto ele nunca veio, e nem vem, ele fala que vai vim, por exemplo ele quer trabalha, então vem pro treinamento a gente vai te prepara, ele some, então uma dessas, uma tristeza, não dar conta também angustiava ele, em um dos atendimentos ele conseguiu se abri, ele falo de uma forma mais minuciosa como que foi essa vivência no crime, o que ele fazia, qual o papel dele, como ele escondia isso da família, e também a

violência que ele vivencio, que ele praticou, então aquilo tudo foi ficando muito grande e ele não consegue se supera, não consegue perdoa, entendeu das coisas que já fez, e aí ele falava que tinha medo de prejudicar a família dele, ele fala umas coisas meio desconectadas, prejudicar como, ele não sabia dizer, e só o que acontece com o R.[...]

No que concerne à psiquiatrização do estado de R., não é relevante a caracterização, pois não ajuda na resolução do seu conflito existencial. O adolescente compartilha com N. essa vivência no crime, ela percebe que ele não consegue superar, não consegue perdoar, não consegue se desculpar.

A associação da superação com o perdão é algo que está posto para profissional, ou seja, para se superar é necessário que o adolescente se perdoe, ou melhor, se desculpe. “A voz do intelecto é baixa, mas não pára enquanto não se faz ouvida” (LACAN, 1998, p.130), enquanto R. não ouvir a voz do intelecto, não conseguirá parar de ouvi-la, pois sentirá culpa pelo que fez.

O sentimento de culpa deriva do fato de alguém ter uma intenção de fazer um “mau”. Para Freud (1930, p.147-148), “mau, é tudo aquilo que, com a perda do amor, nos faz sentir ameaçados. Nesse primeiro momento, o sentimento de culpa é apenas o medo da perda de amor, e nesse caso, basta que a autoridade externa nada saiba sobre a intenção ou o ato para que o sentimento deixe de existir.” Assim está descrito na entrevista:

[…] e o pai é esse que faz tudo, mas também não dá continuidade, eu falo você tem

que ir na escola, ele não vai porque sabe que o pai não vai mesmo, ele também não é

muito frequente nos atendimentos e fica aquela sensação de terceirizar a responsabilidade, tanto que eu prorroguei a medida por um apelo do pai, deixa ele aqui, que aqui ele dá uma sossegada, né, sempre indo atrás do R. querendo ou não dando um corte, um olhar de fora, um controle de fora, [...]

A descontinuidade é um traço familiar que não está ligado à doença da mãe. No que diz respeito aos atendimentos, especificamente ao pai, a profissional tem a sensação de terceirizar a responsabilidade. Faz-se necessário refletir sobre essa ideia de terceirizar a responsabilidade. Por um lado, quando o pai apela pedindo a prorrogação da medida, é preciso indagar: O que está contido neste apelo, ou seja, o que esse pai solicita? Dependendo do que está em jogo, faz-se necessário ou não a prorrogação da medida. Por outro lado, é preciso almejar a transitoriedade da Instituição na vida dos adolescentes, ou seja, uma instituição que momentaneamente tenha a

função de possibilitar que o adolescente se re-situe na vida.

A responsabilidade sobre o adolescente não pode ser terceirizada pela Instituição Fundação Casa e pelo CREAS, não é sua tarefa “dar uma sossegada, dar um corte, um olhar e um controle de fora”, mas questionar e apoiar essa família a desempenhar seu papel social. Caso a Instituição responda a essa necessidade, cria uma dependência, um assistencialismo e isso não é apoio, não permite que o adolescente e a família se desliguem da Instituição. O apoio caracteriza- se por ajudar o outro a se encontrar consigo mesmo e a se restabelecer nas relações com os outros, visando uma solução para o conflito.

Para Moura, na psicanálise a responsabilidade “é a resposta de um sujeito frente ao real (2009, p.140).” Terceirizar a responsabilidade, seria demandar de um Outro ao outro que respondesse frente ao real, seria transferir uma autorização do pai para Instituição CREAS, e isso é dizer da insustentabilidade da lei. Destacamos o seguinte trecho da entrevista:

[...] N. sobre R: Tem essa figura do juiz, representa muito, mais é assim é uma das

figuras mais meigas que eu já atendi muito sensível, tem uma sensibilidade muito grande, mais essa dificuldade de se centra nesse novo mundo que ele diz que quer

seguir, do trabalho. No último atendimento ele vem muito eufórico, ele é assim eufórico e depressivo, ele veio muito eufórico, porque ele tava trabalhando num buffet,

aí ele queria estudar, R. você perdeu a vaga, agora você vai ter que ir no Cristina, se não só em julho de novo. R: Então eu vou falar com o meu chefe, porque ele quer que eu

estudo durante semana e trabalhe no fim de semana. N:E tava feliz da vida, disse

que estava sendo elogiado, e o patrão gostava muito dele e ele sumiu, né? Eu não sei como está a vida dele agora, se o trabalho se perdeu ou se continua trabalhando, isso faz parte do R. É o perfil dele no acompanhamento. Aí que legal, né, quando a gente

começa faze uma reflexão, ele elabora alguma coisa. R. Essa coisa de você ir largando, você vai se desestimulando porque você nunca vai pra frente, então tenta pega uma coisa e vai até o fim, é mesmo, então agora vai, ele desistia, aí ele vem chateado.

A representação da autoridade para essa família está incluída na figura da profissional, mas nesse caso as figuras parentais precisam ser transmitidas e ressignificadas pelo adolescente, pois a referência de autoridade está fora do âmbito familiar, é a figura do juiz, que representado pela assistente social do CREAS, autoriza o funcionamento da Lei que ordena o modo de viver

dessas pessoas. E sobre a autoridade, diz Mena (2004, p.29):

O conceito de autoridade é político em sua base, vale-se da obediência para organização social, fica entre a persuasão e o autoritarismo, pois não utiliza nem o convencimento através de argumentos, nem a coerção pela força, violência ou medo. Na relação de autoridade, ambos os agentes estão submetidos a uma hierarquia ou estrutura comum, e a fonte de autoridade, que legitima o poder, é exterior a ambos os agentes, como Deus, o Estado, um antepassado, ou um código de leis.

Segundo o autor, esse conceito é político, localizado entre a persuasão e o autoritarismo. No caso em questão a profissional está representando a figura do juiz que se apresenta como o Estado que legitima o poder de ambos os agentes e da clientela, submetidos a uma estrutura comum. No entanto qual seria o lugar da família nessa hierarquia da Instituição CREAS? Para quem o CREAS presta serviços? O CREAS é um prestador de serviços de proteção social à família, ao adolescente e/ou Estado? Assim está descrito na entrevista com N: