Del 1: Vold i fengslene 2004 – 2010
1.3 Voldshendelser og voldsformer
1.3.2 Voldshendelser som kombinasjon av voldsformer
Nas evocações cosmogónicas estão compreendidas as personificações de elementos e fenómenos naturais, que resultam como «figuras mágico-propiciatórias da preservação do equilíbrio cósmico e da renovação do ciclo anual da natureza»356. Trazendo implícito um conceito humano acerca da ordem do Mundo e da Natureza357, que assenta nos princípios de harmonia, felicidade, paz, prosperidade, optimismo, vitória sobre as adversidades e sobre a própria morte358, as suas representações são sempre antropomórficas, na forma pura ou híbrida (normalmente justaposta), em consonância com a tradição teológica greco-romana que concebia os deuses maiores com uma aparência, sentimentos e atitudes próximos dos humanos, por influência epicurista antropológica – via adoptada pelos literatos e artesãos –, por oposição à estóica – doutrina partilhada pela maior parte dos naturalistas, que rejeita esse princípio e privilegia a noção panteísta de divindade como entidade fenoménica de manifestação imanente.
A maior parte destas evocações cosmogónicas encontra-se reunida na escultura e no mosaico. Como exemplo da primeira expressão artística, menciona-se novamente o
Sarcófago das Quatro Estações, que congrega os Génios alados dos Tempos do Ano
(segurando cornucópias, símbolos da renovação cíclica da Natureza e da sua abundância), com o deus híbrido Oceano abraçando um ketos (representando o elemento Água e a variedade de seres vivos que alberga), com a deusa Ceres, com uma junta de bois puxando o arado (representando o elemento Terra e a sua fertilidade), e
356 PESSOA, 2008, p. 62. 357
MORAND, 1994, p. 61-113.
ainda com dois pares de putti pisando uvas no lenos (representando a riqueza alimentar da cultura ligada ao culto báquico).
Génios das Estações segu- rando clipeus com efígie do defunto. Sarcófago das Quatro Estações, proveni- ente do Monte da Azi- nheira. Séc. III d.C. Museu Nacional de Machado de Castro. Porto.
Já na arte musiva, o mosaico Cosmogónico de Mérida, conservado na Casa do Mitreu359,
apresenta-se como paradigma perfeito: a obra constitui «una verdadera expresión del Universo, tal y como lo entendieron los antiguos: representa el mundo físico mediante la personificación de los elementos del cielo, la tierra y el mar, identificados por sus rótulos correspondientes, es decir, un “Kosmikós pínax”, según el decir del poeta bizantino Juan de Gaza».360 Este painel, de amplas dimensões e admirável concepção plástica e técnica, surge como uma composição unificada que congrega os vários elementos num mesmo espaço mas de modo escalonado, sendo que as várias personificações naturais, como alegorias helenísticas, se dispõem consoante os meios e os elementos a que pertencem: na parte superior, que representa o céu abobadado (sintomaticamente semicircular), encontram-se as do Ar; na parte intermédia situam- se as da Terra; na parte inferior localizam-se as da Água. Esta organização reflecte uma noção de equilíbrio universal e de harmonia cósmica (como ideal da «oikouméné romana»361) que concilia diversas cosmologias da Antiguidade greco-romana362– embora alguns autores o relacionem directamente com a filosofia estóica363 e outros
359 Vide VOLUME II, p. 44-46. 360 RODRÍGUEZ LÓPEZ, 1993, p. 204. 361 QUET, 1981, p. 207.
362
FERNÁNDEZ GALIANO, 1989-1990, p. 176.
com o mitraísmo364.
Noutros mosaicos ibéricos podem igualmente ser encontradas evocações cosmogóni- cas mais condensadas, mas igualmente ricas de sentidos, como o painel bicromo de La Alcudia (Elche), que alude aos Quatro Elementos (Ar nos cantos, Água na orla, Terra a seguir e Fogo ao centro – representado por Fénix)365 personificações cosmogónicas com morfologias híbridas, tais como os Génios da Natureza (mosaico oriundo da Travesía de Pedro María Plano, em Mérida366), algumas figuras do Zodíaco (Capricórnio,
Sagitário, Touro, Escorpião e outros presentes no mosaico do Calendário367, em Hellín368), os Ventos (Domus do Mitreu369 e Calle Masona, em Mérida370, Faro371, Santa
Vitória do Ameixial372, Villa Balazote, em Albacete373, Alcolea374, Avenida Miguel de
Cervantes, em Écija375, e Baños de Valdearados, em Burgos376), e ainda as Estações do
Ano, também designadas por Tempora Anni. Estas últimas serão, talvez, as mais
364 Cfr. DURÁN PENEDO, 1993, p. 154 e BLÁZQUEZ MARTÍNEZ, 2003, p. 794. Este último autor refere que
«el paralelo para esta cosmogonía mitraica se há buscado en el mural o en el techo de las termas descritas por Juan de Garza, de fecha no precisada, de Antioquia o de Gaza».
365
Vide VOLUME II, p. 259 e 260.
366 Vide VOLUME II, p. 32 e 33. 367
Sobre este mosaico, Isabelle MORAND refere que a estrutura compositiva e as figuras nela integradas formam um conjunto coerente que evoca «a ideia de uma harmonia divina» (MORAND, 1994, p. 100. Tradução livre do francês, por Cátia Mourão). Por sua vez, Pau FIGUERAS considera que este e outros pavimentos congéneres, «tanto por su temática como por su composición, tienen que ser considerados como el reflejo de una bóveda. Efectivamente, la forma circular y radiada inscrita en un cuadrilátero permite imaginar un punto central en lo alto, rodeado por formas trapezoidales de iguales dimensiones. Fuera del círculo, los cuatro ángulos corresponderían a los pendentivos que completan la bóveda.» (FIGUERAS, 2001, p. 130)
368 Vide VOLUME II, p. 253-256. 369 Vide VOLUME II, p. 44-46. 370 Vide VOLUME II, p. 35. 371
Vide VOLUME II, p. 78 e 79.
372 Vide VOLUME II, p. 70 e 71. 373 Vide VOLUME II, p. 251 e 252. 374 Vide VOLUME II, p. 124 e 125. 375
Vide VOLUME II, p. 167 e 168.
frequentes377, apesar de nas Províncias romanas ocidentais surgirem quase sempre com morfologias antropomórficas puras, em contraste com as Províncias romanas do Oriente, onde figuram na forma híbrida justaposta alada, ou seja, como Génios, conhecendo-se apenas duas excepções hispânicas em Écija378, onde apresentam,
respectivamente, uma combinação zoomórfica e uma combinação vegetalista.