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Gjerningspersonens lovbruddskategorier og alder

Del 1: Vold i fengslene 2004 – 2010

1.3 Voldshendelser og voldsformer

1.5.3 Gjerningspersonens lovbruddskategorier og alder

2.1 – HIBRIDISMOS ENTRE MAMÍFEROS

2.1.1 – Hibridismos entre humanos e não humanos

– CENTAUROS

Na sua origem grega, os Centauros eram morfologica- mente compostos por uma aglutinação antropomórfica até à cintura e equina a partir daí, ostentando um núme- ro de membros anormal em mamíferos, formado por seis pares – um superior, outro anterior e um último posterior –, locomovendo-se de modo quadrúpede e mantendo a parte humana liberta e hábil. Já em contexto romano passaram a ser contempladas conjugações análogas entre

a espécie humana e diferentes mamíferos quadrúpedes, sendo que aos primevos Hipocentauros (homens-equinos) se juntaram os Bucentauros (homens-bovinos), os Capricentauros (homens-caprinos) e, mais tardiamente, os Onocentauros (homens- asininos). Em qualquer das variantes híbridas, a aparência dos Centauros é bizarra, grotesca, algo desarticulada, corpulenta e brutal. Este aspecto estranho era concebido como uma característica de nascença, sintomaticamente reveladora da índole desordeira e feroz741 destas criaturas, bem como da sua inexorável ligação simbólica ao

mundo terreno, material e pouco elevado em termos espirituais.

Os primeiros Centauros equídeos seriam filhos de Ixíon, rei dos Lápitas, e da nuvem Néfele742 (à qual Zeus havia dado a forma de Hera)743. Habitavam em grutas da Arcádia

741 OVÍDIO, Metamorfoses, XII, 211 e 219: «os ferozes filhos da Nuvem»; «Êurito, ó mais feroz dos

ferozes Centauros».

742

OVÍDIO, Metamorfoses, XII, 210 e 211.

743 GRIMAL, 2004, p. 82.

Centauro lutando com um Lápita. c. 447-438 a.C. Métopa do Parténon, Atenas. Grécia.

e da Tessália – portanto num locus afastado da civilização –, viviam numa sociedade mista e normalmente acasalavam entre si (embora se verifiquem casos de tentativa de rapto e violação de humanas por Centauros machos, como quase aconteceu com Hipodâmia, noiva de Pirítoo, com Mnesímaque, noiva de Hércules, com Dejanira, filha de Eneu, rei de Calidão, e com a virgem Atalanta, filha do arcádio Íaso).744 Os filhos destas relações interespecíficas eram semelhantes aos progenitores, situação pouco frequente nas mitologias, onde normalmente os filhos diferem da(s) espécie(s) dos seus pais745. Tais particularidades revelam um interessante sentido de família, de grupo e até de identidade social, o que, porém, não é garantia de cumprimento de quaisquer regras comportamentais próprias das sociedades desenvolvidas. Estes indi- víduos eram quase selvagens, sem outra ocupação além da luxúria, da caça e do combate desorganizado (centauromaquia)746, dados ao uso excessivo da força em detrimento da inteligência747 (características da parte equina748), movidos pelos instin- tos desenfreados749, acometidos por violentas pulsões carnais e habituados a comer carne crua e a abusar do vinho750 puro (ou seja, não diluído com água)751, o que trans- formava a sua sociedade num exemplo de desordem, caos e devassidão, bastante pró- xima das sociedades primitivas e bárbaras, ainda distantes do conceito de civilização. Neste sentido, os Centauros – descritos por Valeriano como paradigma da «luxúria da vida humana»752– constituíram-se como alegorias do Homem em estádio de evolução inferior, civilizacionalmente atrasado e entregue a uma vida marginal quando compa- rada com a que levavam os restantes cidadãos helenizados e romanizados. Aliás, já em contexto cristão,Clemente de Alexandria «compara la doble naturaleza del centauro

744 GRIMAL, 2004, p. 82; MORGAN, 1984, p. 215-217. 745 Vide supra, p. 42. Vide também MORGAN, 1984, p. 209.

746 Vide, por exemplo, a batalha entre os Centauros e os Lápitas in OVÍDIO, Metamorfoses, XII, 210-458. 747 CHEVALIER e GHEERBRANT, 1994, p. 181 e 182; BELFIORE, 2010, p. 212-214.

748

CHEVALIER e GHEERBRANT, 1994, p. 171.

749 VILASEÑOR SEBASTIÁN, 2009, p. 159.

750 HIGINO, Fábulas, XXXIII; OVÍDIO, Metamorfoses, XII, 242; APOLODORO, Biblioteca, II, 5.4. Vide

também MORGAN, 1984, p. 212 e 213.

751

GUIMIER-SORBETS, 2004, p. 909 e 910.

en general con la nuestra»753:

Se existe uma função própria à natureza peculiar de cada criatura, como a do boi, a do cavalo e a do cão, qual diremos que é a função peculiar do homem? A mim parece que este se assemelha ao centauro (uma ficção do povo de Tessália), composto de uma parte racional e de outra irracional, de alma e de corpo. Pois bem, o corpo trabalha o solo e rastreia-o; por seu turno, a alma ergue-se diante de Dios: se educada na verdadeira filosofia, corre em direcção aos seus congéneres superiores, afastando-se dos prazeres da carne, e além destes, dos afazeres e do medo.

Clemente de ALEXANDRIA, Miscelânia, I, 15754

A carga essencialmente negativa dos Centauros perdurou, por conseguinte, além da Antiguidade, sendo que na Idade Média se estendeu ao campo religioso, tornando-se exemplo de ameaça para o Cristianismo. A este propósito, refere o Fisiólogo (grego) que os Onocentauros são como «el varón de corazón engañoso,

inconstante en todos sus camiños. Así son los actos del alma de los males mercaderes *…+. Y se parecerán a jumentos insensatos. *…+» 755 A mesma obra acrescenta que o profeta Isaías (740 a.C. – 681 a.C.) vaticinara mesmo a insurreição destes híbridos contra a cidade da Babilónia, pelo que eles «representan a nuestros enemigos».756 No entanto, não se descartava a possibilidade da redenção destas “bestas”, tal como demonstra um mosaico bizantino de Séforis, datável do séc. VI. Nele está representado um Centauro com nebris pelos ombros, cingida por fíbula, em conformidade com a iconografia romana, mas ostentando, ao alto, a inscrição em grego «ΘΕΟ΢ΒΟΗΘΟ΢», que significa «Deus Ajuda». Sendo portador de uma mensagem contextualizável no culto cristão, esta criatura poderá simbolizar a «esperanza de la victoria escatológica.»757 Esta ideia parece

753 FIGUERAS, 2004 b, p. 246 e 247. 754 Apud FIGUERAS, 2004 b, p. 246 e 247. 755 ANÓNIMO, Fisiólogo, XV.

756

ANÓNIMO, Fisiólogo, XV, referindo ISAÍAS, 13, 21.

757 FIGUERAS, 2000 a, p. 270. Vide ainda FIGUERAS, 2000 a, p. 265-266 e FIGUERAS, 2004 b, p 245-247.

Pormenor de mosaico bizantino com Centauro redentor. Séc. VI d.C. Casa do Festival do Nilo. Séforis. Israel

ganhar mais força perante a existência de dois Centauros que constituíam excepções à regra da simbólica negativa destes híbridos758: Folo (filho de Sileno e de uma Ninfa759) e Quíron (filho de Crono760 / Saturno761 e de Fílira). Nascidos de progenitores diferentes daqueles que fundaram a raça centáurea, estes dois congéneres poderiam facilmente ser encarados como pagãos a quem o Deus do cristianismo não negaria a Salvação: notabilizaram-se como coadjuvantes de alguns heróis, regiam-se pelo raciocínio, pela cultura e pelas boas acções, apesar de manterem alguns hábitos primitivos, como viver em cavernas e comer carne crua762. Quíron, por exemplo, considerado «o mais justo dos Centauros»763, tinha esposa e adoptou Aquiles (filho de Peleu)764; conhecia as propriedades medicinais das plantas765 (sendo que a centáurea recebeu o seu nome a partir da espécie animal a que pertencia o “bom híbrido”) e ensinou-as ao filho adoptivo e a Esculápio (padroeiro da Medicina); também ensinou Aquiles a caçar, para que este sobrevivesse ainda em tenra idade, e iniciou-o na prática do canto com lira, através da qual o herói aprendeu as virtudes morais. Pela sua boa índole, Quíron, que era imortal, foi tornado mortal por Prometeu – situação paradoxalmente considerada como uma benesse, na medida em que o

758 Vide MORGAN, 1984, p. 210-213. Cfr. MORAND, 1994, p. 109. A autora reconhece a possibilidade de

os dois Hipocentauros do mosaico báquico de Alcolea terem «um valor psicopompo», por comparação com os dois Centauros portadores do clipeus com epitáfio num sarcófago de Nápoles, refererido por R. TURCAN in Les sarcophages romains à représentations dionysiaques. Essai de chronologie et d’histoire

religieuse, Bibliothèque dês Écoles françaises d’Athènes et de Rome, 210, Paris, 1966, pl. 5ª.

759 APOLODORO, Biblioteca, II, 5.4. 760 APOLODORO, Biblioteca, I, 2.4. 761

PLÍNIO-o-Velho, História Natural, VII, (LVI) 196.

762 APOLODORO, Biblioteca, II, 5.4. 763 HOMERO, Ilíada, XI, 830-832.

764 APOLÓNIO DE RODES, A Viagem dos Argonautas, I, 554-558. 765

Sobre os conhecimentos farmacêuticos de Quíron, uide, por exemplo, HOMERO, Ilíada, XI, 830-832; PLÍNIO-o-Velho, História Natural, VII, (LVI) 196. Vide também BELFIORE, 2010, p. 215.

Quíron ensinando Aquiles a tocar lira. Pormenor de fresco proveniente de Herculano. Séc. II a.C. Museu Arqueológico Nacional Nápoles, Itália.

Centauro havia sido ferido por Hércules, de modo acidental mas incurável e perpétuo, sendo a morte uma salvação para esse sofrimento crónico.766 O justo Centauro foi ainda homenageado com uma Constelação celeste própria. Sábio, taumaturgo e virtuoso, Quíron é, pois, o redentor dos Centauros e a esperança da elevação espiritual e da salvação do Homem.

Ainda que as fontes sejam lacunares relativamente às Centauras, parece-nos igualmente possível entrever nelas um sentido positivo, em virtude da sua maternidade e da sua suposta fidelidade conjugal. De facto, não é conhecida qualquer versão da mitologia que as penalize ou castigue directamente, como acontece com os seus congéneres masculinos que foram, em parte, mortos por Hércules767 e por Ceneo768, façanha que consagrou os autores como heróis e que constituiu um acto de triunfo da virtude sobre o vício.

A vivência familiar e os hábitos sociais dos Centauros são claramente reconhecíveis no mosaico hispânico de Écija, datável da segunda metade do séc. II d.C. e conservado no Museo Histórico Municipal daquela localidade.769 Nele estão representados dois casais de Centauros puxando a quadriga triunfal do deus Baco, à semelhança do que acontece nos mosaicos tunisinos de Acholla e Thysdrus e no mosaico italiano da Tenuta di Fiorano (conservado no Museu do Vaticano), fórmula que remonta à arte grega770 e que se difundiu no Império romano em contextos funerários alto- imperiais771. O contexto báquico em que as figuras foram integradas denuncia a propensão destes seres para a embriaguez e para os comportamentos desregrados. As suas atitudes são, aliás, reveladoras da desordem social em que vivem, pois cada par

766 APOLODORO, Biblioteca, II, 5.4. O autor referiu os nomes dos Centauros Anquio e Agrio.

767 APOLODORO, Biblioteca, II, 5.4. O autor acrescentou que também Folo morreu acidentalmente com

uma flecha que acabara de extraiu do cadáver de um outro Centauro e que manuseou sem perícia, deixando-a cair no próprio pé. Apiedado de Folo, Hércules providenciou-lhe um funeral digno.

768 APOLÓNIO DE RODES, A Viagem dos Argonautas, I, 59-61. 769 Vide VOLUME II, p. 165.

770 GRIMAL, 2004, p. 121 e 122. 771

FOURCHER, «Le char de Dionysos», C.M.G.R., II, Picard, Paris, 1973, p. 57 e ss (apud DURÁN PENEDO, 1993, p. 113 e GUARDIA PONS, 1992, p. 355).

segue uma direcção oposta, sendo que o casal da direita vai a galope para esse lado e o casal da esquerda toma o rumo correspondente. A esta dessincronização junta-se o facto de cada um tocar o seu instrumento musical de forma diferente, o que parece resultar numa certa cacofonia. Apesar da desarticulação geral, este mosaico destaca a propensão familiar e conjugal dos Centauros, própria dos humanos, único valor social destes indivíduos híbridos.

De igual modo, a ligação destes seres ao ciclo báquico, ao transe da embriaguez e da música festiva é reforçada nos mosaicos policromos de Alcolea (Museo Arqueológico de Córdoba)772 e da uilla de Noheda (Cuenca, in situ)773, o primeiro dos quais datável do último quartel do Séc. II e o último da segunda metade do século IV d.C. Estando em ambos ausentes as suas companheiras, no mosaico cordobês os dois Hipocentauros puxam o carro da divindade sem demonstrar qualquer esforço, empinando as patas dianteiras como se dançassem, enquanto seguram os seus atributos (o da esquerda leva um cesto e um cajado, e o da direita uma pandeireta774). No mosaico de La Noheda os quatro Hipocentauros fazem pleno uso da força equestre masculina para deslocar o carro de Baco. Exibem corpos robustos, rostos hirsutos e cabeleiras em desalinho, tocam instrumentos desencontrados (siringe / flauta dupla / flauta dupla / siringe) e seguem em pares desordeiros para lados opostos, como acontece no mosaico de Écija.

Ainda em ambiente báquico, mas fora do cortejo da divindade, três outros mosaicos hispalenses integram Hipocentauros em composições reticuladas datáveis da segunda metade do Séc. II, ou de inícios do Séc. III d.C. O primeiro tesselado, em depósito no Museo Arqueológico Provincial de Sevilha775, apresenta os híbridos, as demais perso- nagens (Sártiros, Pã, Sileno, Ménades) e os vários elementos evocativos do culto dioni- síaco (folhas de hera cordiforme, lagar de vinho) isolados no seu espaço da malha geo- métrica. Apesar de apartados, os Centauros surgem afrontados e parecem unidos pela

772 Vide VOLUME II, p. 124 e 125. 773 Vide VOLUME II, p. 203-205. 774

GARCÍA Y BELLIDO, 1965, p. 7ss e BLAZQUEZ MARTÍNEZ, 1981, p. 41. Cfr. MORAND, 1994, p. 107.

música, sendo que o da esquerda toca uma flauta dupla e o da direita eleva os braços, dançando ambos com as patas dianteiras empinadas e os corpos contorcidos. No segundo mosaico, conservado na Domus do Planetário776, quatro Hipocentauros surgem integrados nos quadrados de canto, intercalados com felinos e Sátiros, em torno de Dioniso e Ariadne. Apresentam-se em movimento, com as nébrides esvoaçando pelos ombros, como se corressem para o interior da composição, levando consigo kraters, cajados e talvez alguns instrumentos musicais entretanto perdidos.

No terceiro mosaico da Domus de Neptuno777, o Hipocentauro ocupa um lugar periférico no extenso reticulado que inventaria o reportório báquico. Funcionando como elemento numérico e referencial de uma lata iconografia, esta criatura barbada e de corpo robusto segue a galope e agita um tosco ramo na mão direita, fazendo esvoaçar a nébride atrás de si.

Num último mosaico hispalense contemporâneo dos anteriores, entretanto destruí- do778, figurava mais um Hipocentauro inscrito na malha circular que compunha a orla de uma cena de circo. Arredado do ambiente báquico, marcava presença entre outros animais reais, na sua maioria usados em espectáculos de arena, e entre vários bustos antropomórficos com personificações das Musas e das Estações do Ano. Com os primeiros tinha a afinidade da natureza selvagem, própria da sua parte bestial; com as segundas tinha a afinidade de uma arte (a música), própria da sua parte humana; com as terceiras tinha a afinidade do tempo eternamente revivido, próprio da sua condição mítológica (como espécie imortal e como personagem submetida a um catasterismo), podendo a sua presença neste conjunto aludir à Constelação do Centauro779.

776 Vide VOLUME II, p. 90. 777 Vide VOLUME II, p. 108. 778

Vide VOLUME II, p. 106 e 107.

779 Cfr. MAÑAS ROMERO (no prelo), p. 88. A autora diz tratar-se da “Constelação Sagitário”.

Pormenor do Hipocentauro do canto superior esquerdo do mosaico da Domus do Planetário. Itálica (Bætica).

O Mosaico do Calendário, proveniente de Hellín (Albacete, hoje no Museo Arqueoló- gico Nacional), datável da primeira metade do séc. III d.C.780, elenca as principais espécies de Centauros terrestres, em analogia com os Signos zodiacais, com as Constelações e com as Estações do ano correspondentes:

– O mês de Abril (identificado pelas capitais «APR», que abreviam a designação latina APRILIS) está representado por um nédio Bucentauro com chifres de bovídeo, montado por uma Ninfa (certamente uma Méliade781) com a aura uelificans, em alusão ao signo Touro (– o segundo do zodíaco);

– O mês de Agosto (com as iniciais «AVG», do latim AVGVSTVS) é personificado por um Hipocentauro montado pela deusa caçadora Diana782, ambos segurando flechas, em referência à constelação estival Flecha;

– O mês de Novembro (com a abreviatura «NOV», de NOVEMBER) apresenta outro Hipocentauro, munido de arco e flecha, que evoca o signo Sagitário (– o nono da

sequência zodiacal);

– O mês de Dezembro é personificado por um Capricentauro com vestígios de chifres de caprídeo (à direita), montado por uma figura humana feminina armada com lança (talvez Atalanta, a caçadora devota à deusa Artemisa/Diana783), referente ao signo

Capricórnio (– o décimo do zodíaco).

Afirmando-se como híbridos aglutinados, estes três géneros de Centauros diferem das restantes alegorias estelares e temporais (zodiacais, mensais e sazonais) do pavimento, caracterizadas por formas puras (Estações), ou por morfologias híbridas justapostas (signo de Escorpião784 e Génios de Maio e Setembro785).

780

Vide VOLUME II, p. 253-255.

781 Vide GRIMAL, 2004, p. 300 e 331. 782 DURÁN PENEDO, 1993, p. 202. 783 Vide GRIMAL, 2004, p. 51. 784 Vide infra, p. 211 e 212. 785 Vide infra, p. 244.

Num outro mosaico datável de finais do séc. III d.C. e proveniente de Complutum (Alcalá de Henares, hoje no Museo Arqueológico Nacional de Madrid)786 surge um Hipocentauro, munido de pedum e lança, junto ao emblema central onde o herói Aquiles (opositor dos troianos) derrota a amazona Pentesileia (apoiante dos troianos)787. O posicionamento do animal mítico no lado correspondente à figura masculina leva-nos a presumir que se trate do Centauro Quíron, tutor do herói. A sua presença neste conjunto concorre para o sentido apotropaico dos demais elementos híbridos (Medusa em duplicado), antropomórficos (Estações do Ano), zoomórficos (felinos e bovinos), florais e vegetalistas que envolvem a cena de combate e que parecem favorecer o vencedor.

De época já tardia, datando provavelmente do Séc. V, um derradeiro Hipocentauro integra a moldura de uma composição com tema báquico, muito arruinada, originária da

Villa de Pesquero, hoje no Museo Arqueo-

lógico de Badajoz.788 Toda a orla é percorrida por círculos de folhagem de acanto e vinha, que servem de poiso a aves e que funcionam como fundo a cenas de caçada protagoniza- das por putti archeiros e domadores de feras e pelo próprio Centauro, que subjuga um felino pela frente, sem qualquer dificuldade. A ligação dos Centauros à caça foi cedo

atestada nos pavimentos gregos, como provam os mosaicos de seixos de Sicyone (Séc. IV a.C.) e de Corinto (Séc. V a.C.)789, e continuou a vigorar na iconografia local, como atesta um tesselado actualmente exposto no Museu de Corinto (Séc. III d.C.).

786 Vide VOLUME II, p. 238 e 239.

787 HIGINO, Fábulas, 107-112. Vide também GRIMAL, 2004, p. 35-39 e 366. 788

Vide VOLUME II, p. 117.

789 GUIMIER-SORBETS, 2004, p. 909; DUNBABIN, 2006, p. 6.

Pormenor do Hipocentauro na moldura do mosaico de Villa de Pesquero. Pueblonuevo del Guadiana (Conuentus Hispalensis. Bætica).

Pormenor de friso musivo com Hipocentauro caçador. Séc. III d.C. Museu de Corinto. Grécia.

– MINOTAURO

Desde a sua origem minóica790 até à Idade Média, o Minotauro foi sempre

representado com uma morfologia aglutinada, composta por uma parte taurina capitular (alargada a toda a cabeça na arte grega e ocasionalmente resumida a dois chifres na arte romana), e pelo corpo humano791, diferindo dos Bucentauros pela

distribuição inversa das partes e pela redução do hibridismo zoomórfico792. Tal

dissemelhança afigura-se-nos particularmente relevante, na medida em que confere à criatura um aspecto físico menos corpulento (ainda que a sua anatomia antropo- mórfica fosse bastante musculada) e uma capacidade intelectual aprioristicamente muito inferior em relação aos Centauros taurinos. De facto, estes eram dotados de inteligência humana e podiam fazer bom uso dela, embora normalmente optassem por entorpecê-la com vinho e preferissem ceder aos instintos da sua porção animal; por seu turno, o Minotauro não tinha o dom da reflexão e estava privado do livre arbítrio, ficando a sua humanidade circunscrita à forma inferior793, a sua acção depen-

790

GRIMAL, 2004, p. 314.

791 APOLODORO, Biblioteca, III, 1.4. 792

Não obstante, assinalamos alguns casos já medievais e renascentistas de representações do Minotauro como um Bucentauro: dois deles podem ser vistos nas iluminuras do original francês e da cópia flamenga do fólio 20r do Liber Floridus, de Lambert de Saint-Omer (uide supra, p. 126), e um terceiro pode ser contemplado numa pintura do Mestre da Capela Velha (Maître des Cassoni Campana), datável de c. 1500 – 1525, no Musée du Petit Palais, em Avinhão. Nestas versões é privilegiada a parte humana superior, ficando a parte taurina relegada para a zona inferior do corpo.

793 Aqui usamos a expressão “forma inferior” com um sentido que vai além da óbvia referência à parte

do corpo abaixo da cabeça. Efectivamente, contemplamos também a conotação terrena, material e inferior da corporalidade, face à conotação celeste, sublimada e superior da espiritualidade. Neste sentido, reportamo-nos às palavras do Imperador Juliano II (331 – 363 d.C.): «o homem é a inteligência, é a sabedoria, é *…+ como um génio, que nós dizemos residir na parte superior do nosso corpo, e que nos eleva desta terra em direcção ao nosso parentesco celeste.» (JULIANO, Discurso I, 1) Este raciocínio expressa de modo claro o pensamento antropocêntrico das Civilizações Clássicas, por oposição à concepção das Civilizações Pré-Clássicas, que se revelava mais integracionista do Homem na Natureza e mais admiradora das capacidades próprias dos restantes animais, ao ponto da urdidura de divindades teriomórficas. Com efeito, no Egipto Faraónico a imagem do Minotauro não teria repre-sentado o mesmo valor irracional que veio a assumir na Grécia e na Roma Antigas. Vide supra, p. 46.

dente do impulso animalesco e a sua liberdade confinada a um espaço intransponível para o seu limitado discernimento: o Labirinto de Knossos794, na ilha de Creta.795

Arquitectado por Dédalo a mando do rei Minos, padrasto do monstro, este sinuoso cárcere erguido no coração da cidade796 representava o paradigma da Obra humana,

porquanto subentendia uma concepção inteligente, que a tornava inalcançável pela besta, e «um objectivo racional», que visava «encobrir a vergonha da família régia»797.

Efectivamente, o Minotauro envergonhava o soberano não tanto pelo aspecto disfor- me, mas sobretudo por ser fruto da relação extra-conjugal da rainha Pasífae com um touro que Poseidon havia oferecido ao monarca com intuito sacrificial, devendo Minos imolá-lo em honra do deus798, o que acabou por não fazer.

Agora, o opróbrio da família crescera: estava à vista de todos, pela estranheza do monstro biforme, o imundo adultério da mãe. Minos decide expulsar a vergonha para o seu matrimónio e fechá-la numa casa complexíssima, de aposentos nas trevas. Celebérrimo pelo seu talento na arte da arquitectura, Dédalo encarrega-se da obra, baralha os sinais e faz o olhar enganar-se em retorcidas curvas e contracurvas de corredores sem conta *…+ os inumeráveis corredores de equívocos.

OVÍDIO, Metamorfoses, VIII, 155-167

No seu aspecto híbrido, o Minotauro simbolizava os vários actos de hýbris cometidos não apenas pela sua progenitora, mas também pelo seu padrasto: da mãe carregava «a culpa da

luxúria»799, do adultério e da ligação aberrante entre a espécie humana (cuja

inteligência ficara aturdida pela paixão800) e a espécie taurina (cuja irracionalidade nata

794 PAUSANIAS, Descrição da Grécia, I, 27.10.