Del 1: Vold i fengslene 2004 – 2010
1.3 Voldshendelser og voldsformer
1.3.4 Opplevelsens konsekvenser og belastninger
Para além do já referido episódio marcado pelo encontro de Dioniso e Ariadne em Naxos (que incluímos no ciclo báquico), outras cenas idílicas – ou pelo menos alusivas ao Amor – figuram nos mosaicos hispânicos, atestando a popularidade de um tema que mereceu a atenção de vários poetas da Antiguidade, sobretudo gregos (denunciando a maior propensão destes para a dissertação filosófica de conceitos mais abstractos, por oposição ao maior pragmatismo dos romanos), tais como Ovídio, Plutarco e Platão, que escreveram, respectivamente, A Arte de Amar, Erotica e O
Banquete.
5.1 - Polifemo e Galateia
Em Córdoba420 regista-se uma rara representação dos amores do gigante Polifemo e da
Ninfa Galateia, pois, como notaram Blanco Freijeiro e Mercedes Durán, a correspondência de olhares das duas personagens parece indicar também uma correspondência de sentimentos somente referida na versão de Luciano421, onde a improvável relação do portento teratomórfico com a bela figura feminina tem um final feliz. Sendo que em todas as outras versões mais divulgadas no Império Romano, a paixão de Polifemo é rejeitada pela amada, a referida autora deduz que o encomendante fosse um erudito com profundo conhecimento literário e que o mosaicista tivesse tido acesso a uma iconografia presumivelmente não ibérica.422
5.2 – Cupido e Psique
De entre os temas idílicos protagonizados por seres de compleição híbrida, os amores de Cupido e Psique sobressaem no corpus musivo hispânico. De modo geral, aludem a
420 Vide VOLUME II, p. 151.
421 Os autores referem a obra Diálogos Marinhos, I (BLANCO FREIJEIRO, 1959, p. 5 e DURÁN PENEDO,
1993, p. 103).
uma estória relatada por Lúcio Apuleio (125 d.C. – 180 d.C.)423, de onde se retiram várias lições morais: para ajudar a divina Vénus a vingar-se da concorrência que a beleza da humana Psique lhe fazia, Cupido deveria suscitar nesta uma paixão pelo homem mais feio do reino. No entanto, o deus acabou por cair no próprio ardil e, à revelia da mãe, desenvolveu uma paixão recíproca pela rapariga, casando-se com ela e impondo-lhe somente a condição de esta nunca lhe conhecer o rosto. Cupido veio a sofrer as consequências da desobediência à progenitora, pois, naturalmente curiosa, a esposa também lhe desobedeceu, descobrindo-lhe o semblante à luz da lucerna. Também não ficando impune, Psique veio a ser duplamente castigada pelo marido, que fugiu, e pela sogra, que a fez cumprir várias tarefas, quais etapas iniciáticas. Apesar de falhar o último trabalho, Psique acabou por ser perdoada e, com a per- missão de Zeus e a reconciliação de Vénus, foi tornada imortal, unindo-se para sempre a Cupido. A concessão deste perdão demonstra o carácter incondicional do Amor.424
Este mito foi objecto de diversas hermenêuticas simbólico-filosóficas desde Platão425 até aos nossos dias426, mas geralmente considera-se «a possibilidade de se tratar de uma alegoria ao Conhecimento, sendo Psique a personificação da mente humana – já que etimologicamente o seu nome (Psykhē em grego e Psyche em latim) remete para esse conceito –, caracterizada pela ávida curiosidade em relação ao desconhecido, e Eros a personificação do Amor e do Mistério.»427
423 APULEIO, O Burro de Ouro, IV-VI. 424 MOURÃO, 2009 b, p. 17. 425
Sobretudo na sua obra O Banquete. Para uma detalhada fortuna crítica filosófica do mito, vide GÉLY, 2006, p. 151 e ss. A título de exemplo referimos BERGER, 1767, ROSCHER, 1886, JONG, 1900,
REITZENSTEIN, 1912, CUMONT, 1966, STOCKER, 1944, SOUSA, 1947 e BARBAFIERI e RAUSEO, 2004.
426 Em 1947, o filósofo português Eudoro de Sousa elaborou uma resenha das principais exegeses sobre
o mito (SOUSA, 1947).
427
MOURÃO, 2009 b, p. 18: «Algumas leituras posteriores demonstram uma exegese cristã, fazendo referência à “queda” da Alma humana e ao perdão divino (GÉLY, 2006, p. 164); outras conferem uma visão laica, ressaltando o teor romântico do conto mítico (GÉLY, 2006, p. 269); outras revelam uma perspectiva historicista e portanto pagã, vendo os castigos de Psique como etapas de uma iniciação nos Mistérios gnósticos antigos (de Ísis, Osíris, Elêusis ou Orfeu) e o seu sono final como uma condição de possibilidade de ascender à Verdade e à imortalidade divina, ao invés de uma verdadeira punição;
Conforme as interpretações, os dois esposos míticos têm sido eternizados nas diversas expressões artísticas, ora apresentando-se ambos acordados e em ritual de inicia- ção, ou em cenas de idílio amoroso, ora estando um deles a dormir e o outro acordado (sendo que quando Cupido dorme é perscrutado por Psique e quando Psique dorme é observada ou acordada por Cupido).428
Ainda que a estória de Apuleio refira Psique e Cupido como dois jovens adultos, a arte musiva e a escultura antigas atestam três versões, sendo que numa os amantes correspondem à ekphrasis do mito, noutra figu- ram como duas crianças e noutra Psique aparece como uma jovem e Cupido como uma criança. O primeiro caso realçará a libido, o segundo a inocência e o terceiro o paradoxo da Gnose. Esta última variante inclui sempre temáticas que fogem à narrativa literária de Apuleio, pois nenhuma ilustra qualquer episódio nela descrito.
Como salientou Rodríguez López, «el arte de la Antiguëdad pone ante nuestros ojos numerosas imágenes de Psique y Amor, desde el siglo III a.C., mostrando escenas únicas, en general iconos carentes de índole narrativa. *…+ Podría pensarse que fueran, sencillamente, cuadros simbólicos con los que evocar un contenido o mensaje alegórico»429, como aliás se depreende nas representações do par mítico em contextos funerários, tal como surgem no mosaico da Basílica Paleocristã de Santa Constança, em Roma (séc. IV d.C.), num sarcófago de Camposanto, em Pisa (séc. III d.C.), e num relevo do Mithræum de Santa Maria di
outras ainda remetem para uma dimensão hermética, perfilhando a leitura historicista e acrescentando- lhe uma interpretação do sono de Psique como um símbolo da condição de adormecimento da mente humana, em geral, que subentende a necessidade do despertar.»
428Para uma detalhada fortuna crítica artística do mito, uide ROSCHER, 1886; CUMONT, 1966;