5. Analyse av PTV
5.2 Vitenskapsdiskurs
De maneira introdutória iniciaremos com uma descrição geral da estrutura e do funcionamento do aparelho psíquico tal como é proposto no “Projeto de uma psicologia” (1895) 46. Freud tem como ponto de partida dois postulados fundamentais para abordar à estruturação do aparelho, o da quantidade (Qn) 47 e do neurônio (N). A concepção quantitativa lhe foi sugerida pelas observações clínicas, particularmente pela presença patológica em obsessões e histerias das chamadas idéias excessivamente intensas (überstarken Vorstellungen) que deram evidências da existência de processos de excitação neuronal em fluxo.(FREUD, 1988h, 340). Já o segundo postulado sobre o neurônio, acrescido e combinado a essa concepção quantitativa, foi fornecido pela descoberta recente advinda da
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Existem divergências sobre o valor deste escrito na obra de Freud, geralmente a literatura se divide em duas grandes posições: ou o texto é tido como um desvio neurológico na constituição da psicanálise, como é o caso da avaliação feita por autores como GARCIA-ROZA (2001,p.60) e FRAYZE-PEREIRA (1999) por exemplo, ou é tomado como já sendo uma teoria psicológica, onde o neurológico deve ser encarado apenas como metáfora da psicologia implícita nele, como se encontra em algumas leituras lacanianas. Em ambas as avaliações o valor e o lugar desse texto na composição da teoria freudiana é deslocado e reduzido. Existe em contrapartida uma terceira avaliação realizada por autores como MONZANI (1989) GEERARDYN (1997), GABBI JR. (2003), SIMANKE (2004 a,b) entre outros, que tende a localizar e explicitar lógica e historicamente, o lugar que esse trabalho ocupa no desenvolvimento da teoria psicanalítica, seus pressupostos epistemológicos, a origem e a construção de seus problemas, suas hipóteses, e sua contribuição para o conjunto da obra. O presente trabalho, que não tem como foco essa problemática em específico, tem como referência essa terceira via, e situa o Projeto... (1895) dentro da orientação científico-naturalista de Freud, onde é possível verificar que o campo das ciências naturais e a psicologia do inconsciente nunca foram alternativas excludentes para o autor.
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Freud utiliza duas notações para designar a quantidade: Q e Qn, cuja diferença nem sempre é clara ao longo do texto. Contudo, a hipótese mais sustentável sugerida tanto pelo editor como por GABBI JR. (2003, p.24) é de que o termo Q seja utilizado para referir-se a quantidade em geral, de origem externa, e Qn a de origem interna. Importante destacar que Qn é sinônimo de excitação neuronal.(Cf. FREUD, 1988h, p.340).
histologia da época, de que o sistema nervoso seria composto por neurônios distintos mediados entre si por uma massa nervosa, numa estrutura em que a direção da condução nervosa estaria prefigurada. Eles receberiam quantidade através dos prolongamentos celulares (dendritos) e a emitiram través dos cilindros de eixo (axônios). (Cf.SIMANKE, CAROPRESO, 2005). A combinação proposta por Freud entre esses dois postulados principais deu forma a uma primeira dedução teórica segundo a qual quantidade em fluxo implicaria, sob certas condições, a ocupação dos neurônios.
O signo de realidade é concebido nesse trabalho neuropsicológico de cunho clínico- especulativo em decorrência da introdução de um terceiro sistema na teoria do aparelho neuronal, o ômega. Esse sistema é introduzido ao lado dos dois outros já estabelecidos, o da memória psi e o da percepção phi. Ômega se torna necessário no momento em que os dois postulados para a construção de uma psicologia científica naturalista, o da quantidade (Qn) e do neurônio (N), encontram seus limites em dar conta de explicar a característica qualitativa atribuída à consciência, que então passará a ser atribuída às operações deste novo sistema.
A modalidade de funcionamento que antecede a introdução da consciência na constituição do aparelho é regida por uma lei que Freud empresta da física newtoniana e que traduz de forma adequada sua hipótese sobre o movimento neurônico, a lei da inércia, um modo de funcionamento regulado pelo seguinte princípio: “toda célula nervosa aspira a
libertar-se de Q”. (FREUD, 1988h, p.340). A ação deste princípio explica, segundo Freud, a
arquitetura bipartida dos nervos e neurônios em pólos motores e sensoriais que impõe uma orientação para a condução nervosa. Portanto, toda quantidade (Qn) recebida pelo aparelho deve ser descarregada automaticamente pela via motora, ou seja, este modo de processamento da quantidade visa, através de uma ação puramente reflexa, orientada no sentido sensório- motor, reconduzir todo o aumento da tensão interna a Qn = 0.
A hipótese de um aparelho como esse, regido exclusivamente pelo princípio de
inércia, cuja única fonte de excitação provém da estimulação externa, desempenha a princípio
a função de uma ficção teórica, uma vez que esse regime de processamento é incompatível com a realidade de um organismo vivo, como veremos. Essa hipótese será modificada até se adequar aos dados da observação, mas, no que concerne ao fundamento, será mantida, pois, segundo Freud, este principio geral da atividade nervosa que estabelece que o sistema neuronal em seu conjunto aspira a aliviar-se dos acréscimos de tensão (Qn), permite: 1. “compreender a arquitetura, desenvolvimento e as operações de seus sistemas” (FREUD,1988h, p.340); 2. com essa estrutura teórica, organizar e explicar os processos e mecanismos envolvidos na formação e na etiologia das neuroses.
Nos desempenhos proporcionados por essa arquitetura bipartida, segue-se o desenvolvimento de duas funções: uma função primária que é a eliminação de Qn, ou seja, a
descarga; e uma função secundária que é a fuga de estímulo. (FREUD, 1988h, p.340). Essa
última se estabelece em razão do fato de que no desempenho das operações no interior do aparelho são preferidos e mantidos aqueles caminhos que levam ao cancelamento do estímulo. A função secundária se utiliza desses caminhos selecionados para realizar a operação necessária à fuga.
De acordo com essa hipótese inicial, sua adequação a um organismo vivo exige uma série de substituições, pois a manutenção da vida implica que se leve em conta uma segunda fonte de excitação interna ao organismo acrescida desde as necessidades vitais, Freud refere- se às grandes urgências da vida: a fome, a respiração e a sexualidade. No caso dessas necessidades, a fuga de estímulos por meio da resposta reflexa é completamente ineficaz, e sua resolução exige a substituição da ação reflexa automática por uma ação específica dirigida ao mundo externo no sentido de obter o aprovisionamento dos objetos necessários a resolução da tensão. (FREUD, 1988h, p.341).
Essa inclusão exige uma alteração significativa na tendência à inércia, uma vez que, sob este regime o aparelho é incapaz de tolerar qualquer acréscimo de excitação, o que é inconcebível para um organismo vivo. Neste sentido, o princípio de inércia é substituído pelo que Freud denomina princípio de constância. Esse último exige que o aparelho seja capaz de tolerar um mínimo de acúmulo de excitação em seus sistemas, uma cota de energia necessária para o cumprimento da função secundária e para iniciar os rudimentos de uma ação específica.
Até o momento foi possível acompanhar as repercussões produzidas pela consideração das fontes internas de excitação na teoria do aparelho psíquico. Isso marca a passagem de uma ficção teórica de um aparelho regido pela inércia para uma especulação sobre a gênese do aparelho a partir de suas vivências fundamentais de dor e de satisfação, até chegar, em seu desenvolvimento mais complexo e organizado, à constituição da consciência, como veremos adiante.