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Como sugere esse artigo sobre a cura hipnótica, o isolamento associativo de representações penosas acaba por resultar numa intensificação patológica de seu afeto aflitivo, o que as força a se objetivarem através da inervação corporal sob a forma de sintomas. No trabalho subseqüente “Algumas considerações para o estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas” (1893) Freud reformula a ação desse mecanismo introduzindo a noção de trauma; essa tarefa e realizada ao mesmo tempo em que avança na compreensão daquilo que a histeria revela sobre a particularidade com que o corpo é apreendido quando se trata de sua representação psicológica. A formação do sintoma é concebida na dependência do trâmite que esse modo particular de representação recebe diante das condições que decidem o destino de seu afeto traumático.

Segundo Freud, a clínica nervosa reconhece duas classes de paralisias motoras que estão em perfeito acordo com os dados da anatomia do sistema nervoso, são elas: a paralisia periférico-espinhal e a paralisia cerebral, ou segundo a diferença no modo de representação da periferia, se na medula ou no córtex: paralisia de projeção e paralisia de representação respectivamente. Freud atribui essa diferença aos resultados obtidos em seu exame sobre as afasias (1891) em relação à estrutura do sistema nervoso retomando as características das duas modalidades de representação39. Com a Projektion se trata da relação ponto a ponto que a estimulação periférica mantém com medula espinhal, e com a Repräsentation, da relação entre as terminações sensoriais periféricas e o córtex, mediada por sucessivos processos de seleção, recombinação e organização das conduções nervosas nos núcleos intermediários. (SIMANKE, 2004b, p.15). De acordo com essa diferença na estrutura nervosa as paralisias se

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dividem em paralisias em détaillé, que são as de projeção, e as paralisias em masse, as de representação.

Com base nessa distinção Freud da continuidade ao exame clínico comparativo entre essas paralisias orgânicas e as paralisias histéricas iniciado no artigo “Histeria” (1888). Contudo, iremos nos concentrar na teoria da representação que aí está em jogo. Quanto a isso, diante das evidências, Freud entende que “se pode sustentar que a paralisia histérica é

também uma paralisia de representação, mas de um tipo especial de representação cuja característica deve ser descoberta”. (FREUD, 1988g, p.200, grifo nosso).

Buscando responder as características desse tipo de representação com o qual as paralisias histéricas estão associadas, Freud pondera que não há a menor dúvida de que as condições que dominam a sintomatologia da paralisia cerebral são os fatos anatômicos referentes organização do sistema nervoso. Cada detalhe clínico das paralisias cerebrais se explica em um detalhe da estrutura cerebral. Por exemplo, se um segmento distal de um membro é mais atingido pela paralisia que seu segmento proximal, isso se deve ao fato anatômico de que as fibras representativas do segmento distal são mais numerosas, o que aumenta sua influência cortical; e assim por diante. Por outro lado, não se pode afirmar o mesmo quanto às paralisias histéricas, pois é impossível explicar seus traços característicos através da distribuição e organização da anatomia cerebral. A histeria, por exemplo, combina em suas paralisias uma delimitação exata com uma intensidade excessiva, uma impossibilidade do ponto de vista nervoso.

Freud propõe elucidar essas questões interrogando a natureza da lesão que estaria em jogo nas paralisias histéricas. Segundo Charcot, afirma Freud, trata-se na histeria de uma lesão cortical, no entanto, essa lesão é de natureza unicamente dinâmica ou funcional, ou seja, um tipo de lesão em que não se pode detectar nenhuma alteração tecidual por meio da autopsia. Charcot acredita que essa lesão dinâmica possa decorrer de perturbações

perfeitamente localizáveis como edemas, anemias ou hiperemias; todavia, Freud observa que essas perturbações, apesar de transitórias, são ainda autênticas lesões orgânicas.

Afirmo o contrário, que a lesão das paralisias histéricas deve ser por completo independente da anatomia do sistema nervoso, posto que a histeria se

comporta em suas paralisias e outras manifestações como se a anatomia não existisse, ou como se não tivesse nenhuma noticia dela. (FREUD, 1988g,

p.206, grifo do autor).

A sintomatologia histérica ignora a distribuição dos nervos, e aí está à tese que Freud quer introduzir, aderindo de forma plena, como ele mesmo reconhece, às concepções de Pierre Janet a favor da particularidade com que o corpo é representado do ponto de vista psicológico. A histeria: “toma os órgãos pelo sentido comum, popular, dos nomes que eles

têm: a perna é a perna até sua inserção no quadril” (FREUD, 1988g, p.202), quando que, no

sentido estritamente anatômico, a perna consiste na parte do membro inferior que vai do joelho ao pé. Assim, o mecanismo responsável pela função de nomear encontra suas analogias na vida cotidiana, perna é perna e não fibras, músculos. (GABBI JR 1991,p.197).

Para apreender a particularidade da formação dos sintomas na histeria é necessário rever essa noção de lesão funcional extraindo-a do âmbito da anatomia para o da psicologia das neuroses. Nessa acepção a lesão, enquanto alteração de uma propriedade funcional (como uma diminuição da excitabilidade ou de uma qualidade fisiológica constante) passa a estar correlacionada com a dinâmica dos nomes com que o corpo é representado de acordo com a experiência perceptual de cada paciente construída e partilhada na relação com os semelhantes.

Afirmo, com Janet, que [...] essa concepção (Vorstellung)40 não se funda em um conhecimento profundo da anatomia nervosa, se não em nossas

40

Nesse artigo de 1893, escrito originalmente em francês para os Archives de Neurologie, Freud reserva o termo “répresentation” para designar “Repräsentation” e emprega “conception” para a "Vorstellung”.

percepções tácteis e, sobretudo, visuais. [...] A lesão da paralisia histérica será então, uma lesão da concepção de braço; a idéia de braço, por exemplo. (FREUD, 1988g, p.207)

Se por um lado há um débito para com Janet, por outro se pode reconhecer que, em termos estritamente freudianos, o que está em jogo na nomeação do corpo é a relação associativa entre Wortvostellung (representação de palavra) e Objektvorstellung (representação de objeto). Freud afirma nesse momento que a Vorstellung em questão que designa: a tomada dos órgãos pelo sentido comum dos nomes que recebem (portanto uma representação de palavra), tem seus antecedentes fundamentais em nossas percepções tácteis, sobretudo as visuais, e não em imagens sonoras lingüísticas, por exemplo. Com isso, está propondo que a apreensão sensorial do corpo, que resulta numa representação de objeto primária, deva preceder a sua nomeação através da associação com as representações de palavra, que é uma aquisição mais tardia. O ato da nomeação se faz, portanto, através da associação entre impressões corporais periféricas, representadas por meio de suas imagens tácteis e visuais, e as impressões lingüísticas sonoras, representadas pelas imagens acústicas. 41

41 Partindo da distinção clínica entre patologias orgânicas e doenças neuróticas iniciadas no artigo “Histeria” (1888), a investigação freudiana acaba por abrir o campo e fundar as bases de uma nova concepção de corpo sustentada pela teoria da representação e distinta da idéia de organismo definida desde o ponto de vista da ciência anatômica. O trabalho com as paralisias dá um passo importante na compreensão desses fenômenos. A histeria toma o corpo desde sua representação e desconhece completamente o saber adquirido pela ciência anatômica. Trata-se de um corpo construído par a par com a experiência, muito diferente do corpo revelado pela autopsia. Contudo, como foi possível fundamentar, a nomeação da experiência com o corpo nunca tem fim, ela se faz a partir de um aparelho de linguagem organizado em torno de uma relação aberta com a experiência sensorial. De acordo com isso a representação do corpo deve sempre comportar um resto que se subtrai ao processo de significação por meio da associação com as representações verbais.

Tendo em vista o ponto de partida freudiano no interior de uma tradição médica constituída historicamente sobre a clínica do visível, no momento em que Freud elege a escuta do discurso afásico e histérico como objeto de sua pesquisa, executa um movimento que o levará a uma ruptura com esta tradição. Desse movimento foi possível destacar o estatuto inédito que o corpo adquire a partir de uma clínica da escuta e de uma teoria da representação cujo enraizamento material torna inteligível a passagem de um pensamento e de sua carga afetiva para a inervação corporal, onde o sintoma advém no lugar de uma fala capaz traduzir e liberar o afeto de uma vivência sem palavras.

A lesão funcional da qual resulta a paralisia histérica deve então incidir não sobre o corpo anatômico, e sim sobre sua representação psicológica: trata-se da lesão de uma representação.

Considerada psicologicamente, a paralisia de braço consiste no fato de que a concepção de braço não pode entrar em associação com as outras idéias que constituem o eu do qual o corpo do indivíduo forma uma parte importante. A lesão seria então a abolição da acessibilidade associativa da concepção

de braço. Essa se comporta como se não existisse para o jogo das

associações. (FREUD, 1988g, p.208, grifo nosso).

Freud pretende demonstrar com a introdução dessa noção de abolição da acessibilidade associativa que a representação psicológica pode estar inacessível, (como se não existisse) sem que seu substrato material correspondente esteja lesionado ou destruído. Para isso re-introduz a noção de afeto:

Se a concepção de braço está envolvida numa associação de grande valor afetivo, será inacessível ao livre jogo das outras associações. O braço estará paralisado em proporção a persistência desse valor afetivo ou da sua diminuição por meios psíquicos apropriados. (FREUD, 1988g, p.208).

Assim, conclui Freud, a representação de braço existe no substrato material, mas não está acessível aos impulsos conscientes, e isso se dá devido ao alto valor afetivo relacionado com a recordação de um evento traumático com que está envolvida numa associação subconsciente.

Tanto nesse trabalho com as paralisias como no texto anterior sobre a cura pelo hipnotismo 1892, mantêm-se o paralelismo adotado no ensaio de 1891, consequentemente Freud não consegue romper com a identidade entre o psíquico e a consciência. Muito embora, como observa CAROPRESO (2003, p. 337), o uso do termo subconsciente para designar tanto os processos psíquicos envolvidos nas paralisias quanto o âmbito de sua atuação,

indique os primeiros movimentos a favor da superação dessa identidade, a existência psíquica da representação permanece dependente de sua acessibilidade psicológica consciente. Seu substrato material, apesar de psicologicamente eficaz, com bem demonstrou a sintomatologia apresentada nos dois textos examinados, não é concebido como fazendo parte dos processos psíquicos, e sim como o correlato neural de uma representação.