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5. Analyse av PTV

5.3 Trygghetsdiskurs

Essa nova modalidade de funcionamento, regida pela tendência a manter a tensão interna constante defendendo-se contra todo acréscimo de excitação, segue a mesma orientação de eliminação sensório-motora estabelecida pela tendência à inércia; a diferença está em que para o cumprimento dessa função secundária é preciso que uma parcela da quantidade seja retida no interior do sistema, não pode ter sido completamente eliminada. Essa retenção de uma cota de excitação para ser utilizada na realização dos desempenhos do aparelho está diretamente articulada à constituição da memória. Isso se deve ao fato de que

nessas operações de fuga e descarga são selecionadas e mantidas aquelas trilhas abertas pela condução nervosa que levam ao cancelamento do estímulo, assim, ambas, retenção de Qn e seleção de caminhos, articulam-se na constituição de um sistema mnêmico.

Para tanto, é preciso supor uma resistência que faça oposição às descargas, algo como barreiras que contenham o livre curso da excitação. Freud introduz, então, a hipótese das

barreiras de contato situadas entre os neurônios. (FREUD, 1988h, p.342). Tais barreiras se

articulam e se justificam devido à observação de que a condução nervosa atravessa o protoplasma indistinto provocando aí uma diferenciação e, com isto, uma melhora da faculdade condutiva para as conduções posteriores. O que demonstra a capacidade do tecido nervoso de ser “alterado permanentemente por processos únicos.” (FREUD, 1988h, p.343). As barreiras de contato ainda tornam possível uma outra inferência sobre a diferenciação no tecido nervoso que divide as células em duas classes de neurônios: o sistema (phi), que serve à percepção, cujas barreiras de contato são completamente permeáveis ao decurso da excitação (logo, após cada processo de condução eles estão no mesmo estado que antes; não há alteração, portanto, não há registro, apenas recepção sensorial) e o sistema (psi), representando a memória e os processos psíquicos propriamente ditos, em que as barreiras de contato conservam sua resistência à passagem da excitação, o que as torna relativamente

impermeáveis ao processo excitatório. Uma vez que o decurso da excitação atinge uma

intensidade “x” capaz de vencer as resistências oferecidas pelas barreiras, com a passagem da condução elas caem num estado de alteração permanente, se tornam mais susceptíveis à condução, menos impermeáveis: “Designamos este estado das barreiras de contato como

grau de facilitação.” (FREUD, 1988h, p.344). As diferenças entre os graus de facilitações

existentes entre os neurônios psi é que constituem então o fundamental da explicação da memória dentro dessa teoria do aparelho psíquico.

Essa hipótese das facilitações se ajusta bem à observação da experiência psicológica, Freud cita o exemplo da aprendizagem como evidência de que a memória se faz por facilitações. Essa justificativa teórica da memória é traduzida na linguagem da experiência como o poder de uma vivência de seguir produzindo efeitos continuamente. O poder de efetividade permanente de uma vivência está na dependência de dois fatores: “da magnitude

da impressão e da freqüência com que essa mesma impressão fora repetida.” (FREUD,

1988h, p.345). No plano metapsicológico, originariamente, a quantidade é o fator eficaz, e o resultado, a facilitação; a posteriori, em termos de eficácia, a facilitação pode substituir a quantidade, assim como a recordação substitui a vivência.

Todas as operações do aparelho devem-se adequar à tendência à constância; nessa orientação, as facilitações como base para a memória também servem à função primária da descarga. Frente a um acréscimo de tensão advindo de uma vivência, a seleção dos caminhos de eliminação é determinada pelo grau de facilitação das barreiras de contato, ou seja, em relação aos posteriores decursos da excitação serão selecionadas as trilhas que melhor conduzem à cessação do estímulo. (FREUD, 1988h, p.345). Assim, os caminhos preferenciais são estabelecidos pelos próprios processos e experiências e não estão previamente determinados por restrições anatômicas.

Descrita como fato psíquico fundamental, a memória, que demonstra a capacidade do tecido nervoso de ser alterado permanentemente por processos únicos, encontra sua justificativa teórica através da teoria das barreiras de contato, que também é o fundamento em que repousa a possibilidade das aquisições psíquicas: “Toda aquisição psíquica consistiria,

então, na articulação do sistema psi por um cancelamento parcial e topicamente definido da resistência nas barreiras de contato, que distingue phi e psi”. (FREUD, 1988h, p.346).

A fim de diminuir a arbitrariedade de suas construções, Freud, após esgotar as possibilidades de explicação mecânica, via de regra concebe um fundamento evolutivo para

seus conceitos, o que se aplica tanto para explicação da memória como para percepção através da ação da quantidade sobre os neurônios. A hipótese é de que a ação da quantidade se deu de modo diferente ao longo da evolução dos sistemas phi e psi. Do ponto de vista da história evolutiva, a divisão entre essas duas classes de sistemas se justifica pelo fato de que os neurônios phi da percepção estariam submetidos a uma quantidade externa muito mais intensa do que aquelas advindas do interior do corpo. Com isso, as barreiras de contato entre seus neurônios tornaram-se completamente permeáveis ao curso da quantidade; enquanto as barreiras de contato dos neurônios em psi, por sua localização tópica mais interna, afastadas da ação direta dos estímulos, mantiveram certa impermeabilidade (resistência) ao curso da quantidade: “Por conseguinte, a arquitetura do sistema nervoso serviria ao afastamento; a

função, à eliminação de Qn’ dos neurônios.” (FREUD, 1988h, p.350).

O sistema phi, voltado para recepção sensorial do mundo exterior, tem por finalidade duas tarefas: reduzir o impacto das quantidades exógenas, e descarregar, através do pólo motor, as quantidades excedentes que penetram em seus neurônios. O que vale também para o sistema psi, que não tem conexão direta com o mundo externo, e recebe as quantidades de duas fontes: aquela advinda de phi e outra proveniente dos estímulos endógenos advindos do interior do corpo. 48

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Com relação aos dois sistemas em questão Freud tece uma comparação que confere uma continuidade de base em relação ao Ensaio sobre as afasias (1891). O sistema de neurônios phi é correlacionado à substância cinza da medula espinhal, e o sistema psi a substância cinza do cérebro. Da crítica da idéia de projeção realizada no ensaio resulta que: phi (assim como a medula espinhal) é o único sistema que tem uma conexão direta com o a periferia externa, enquanto que o sistema psi (comparado ao córtex) distante da periferia sensorial é o único que tem vias diretas até o interior do

corpo. (FREUD, 1988h, p. 347). A fecundidade e o alcance do trabalho crítico com as afasias podem

ser conferidos ainda pelo uso que Freud faz dele no esquema proposto pela Carta 52 (1896), por exemplo, quando trabalha com a estratificação sucessiva da memória e suas retranscrições, que é uma primeira versão do aparelho psíquico apresentado na Interpretação dos sonhos (1900). (Cf. Parte III, seção 2.2). Na Interpretação dos sonhos a crítica a favor da representação contra a idéia de projeção assume características psicológicas que dizem da seleção e recombinação dos pensamentos do sonho no conteúdo manifesto. (Cf. Parte IV, seção 4.1).

O curso da quantidade proveniente das fontes endógenas de excitação, após atingir certo limiar, ultrapassa a resistência existente entre o aparelho e o interior do corpo. Ao ultrapassar essa resistência oferecida pelas barreiras de contato entre os neurônios, o curso da quantidade abre trilhas nessas barreiras entre os neurônios em psi, as facilitações. Na próxima recorrência do decurso excitatório, esse é induzido a percorrer novamente essa trilha já facilitada, ou seja, está garantida a possibilidade da repetição dos processos.49 Essa é a base material da memória que fornece os elementos necessários à constituição de uma representação.

No caso da recorrência do curso psíquico por essas trilhas facilitadas devido à ação da quantidade de origem endógena, trata-se então, da constituição de representações mnêmicas

das excitações provenientes do interior do corpo. Existem também as representações mnêmicas provenientes da percepção phi, constituídas pela ação da quantidade externa sob o

aparelho. No caso do fenômeno da dor, que é o exemplo dado por Freud, o curso da quantidade de origem externa, por sua intensidade, rompe os dispositivos de proteção contra Q, deixando atrás de si poderosas facilitações em direção à representação do objeto hostil, essas funcionam como motivos compulsivos no interior de psi.

Com essas considerações, Freud toca o limite do que é possível deduzir e explicar a partir da articulação entre os postulados principais da quantidade e do neurônio na sua

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No “Ensaio sobre as afasias” (1891) essa possibilidade decorria da hipótese de uma modificação permanente que os processos deixavam após a sua passagem, os traços mnêmicos. Aqui, essa modificação permanente, que até então permanecia sem uma definição mais precisa, é especificada pela teoria memória sob a forma da abertura de facilitações nas barreiras de contato entre os neurônios. Segundo SIMANKE (2004b), a teoria da memória desenvolvida no “Projeto...”(1895), consolida a prevalência e autonomia do ponto de vista funcional sob a concepção estática e localizacionista da memória criticada por Freud desde 1891. A consolidação se apóia em duas substituições: 1º. A idéia do localizacionismo de que os elementos mnêmicos estariam contidos no interior da célula nervosa, é substituída pela concepção funcional de que “a única coisa que um neurônio, entendido com a unidade material de composição do sistema nervoso, pode inteligivelmente conter é certo montante de quantidade (Qn).” (SIMANKE, 2004b, p.52). 2º. A hipótese de que a rememoração é garantida pela permanência de uma modificação cortical morfologicamente concebida, é substituída pela idéia de que o processo deixa sim atrás de si uma modificação, “mas não no neurônio, que permanece idêntico (...), mas na barreira de contato que, uma vez ultrapassada, tem a sua capacidade de oferecer resistência ao fluxo da quantidade diminuída.” (SIMANKE, 2004b, p.53).

intenção de construir uma psicologia científica naturalista. O limite dessa construção é colocado pela impossibilidade de se conceber a consciência unicamente pela ação da quantidade; para tanto, é preciso incluir a qualidade e as sensações. Até este momento da estruturação do aparelho, tanto as atividades quanto a própria constituição da memória, base de todos os processos psíquicos, prescindiram completamente das funções desempenhadas pela consciência:

Explicitemos uma premissa que nos tem guiado até aqui. Temos abordado os processos psíquicos como algo que poderia prescindir do conhecimento dado pela consciência, como algo que existe independentemente de uma consciência. [...] A consciência não nos proporciona um conhecimento completo nem confiável dos processos neuronais; e esses, em toda sua extensão, tem que ser considerados em primeiro lugar como inconscientes e devem ser inferidos do mesmo modo que as outras coisas naturais.(FREUD, 1988h, p.352).

É importante observar que com isso Freud empreende um movimento conceitual de grandes proporções que implica na própria ultrapassagem do paralelismo psicofísico, uma possibilidade aberta desde 1891:

1º. Reafirma que a existência dos processos psíquicos é independente daquilo que se experimenta como consciência.

2º. Atribui uma natureza psíquica aos processos neurológicos, ou seja, aquilo que no “Ensaio sobre as afasias” (1891) era tido como o correlato da representação “é agora pensado

como consistindo na própria representação, enquanto processo psíquico inconsciente”.

(CAROPRESO, 2002, p.100).

A ultrapassagem se dá justamente no momento em que a teoria da memória torna possível identificar os processos psíquicos que ocorrem na ausência da consciência aos processos neurológicos. De acordo com esses desenvolvimentos, a própria opção de Freud no “Projeto...” (1895) pelo termo Vorstellung ao invés de Repräsentation para designar seu

conceito de representação (SIMANKE 2004a, p.25), indica, justamente, a efetivação do que desde as afasias se tornara uma possibilidade: conceber a Vorstellung como

conjunto de propriedades distintivas que os processos corticais adquirem ao se verem organizados de uma determinada maneira, no nível mais evoluído e de maior complexidade e flexibilidade, segundo os princípios jacksonianos; haveria, então, uma diferença funcional entre o neurológico e o mental, mas não mais uma diferença essencial ou de natureza (SIMANKE, 2004a, p.32, grifo nosso).

SIMANKE (2004b, p.58), ainda extrai dessa reordenação conceitual elementos que permitem conceber a relação entre o psíquico e sua base neural escalonada em três níveis:

O primeiro corresponde a uma série de facilitações deixadas por algum processo anterior que constitui um complexo associativo de neurônios operando, desde então, como uma unidade funcional; pode-se dizer que este sistema de traços mnêmicos constitui a representação em potência [uma possibilidade]. (...) O segundo nível corresponde ao processo da representação (Vorstellungsabaluf) propriamente dito, quando o complexo torna-se novamente ativo devido à sua ocupação pela quantidade, e a representação pode ser dita psicologicamente eficaz. Isso, por si só não significa que a representação torne-se consciente, o que configuraria o terceiro nível da relação mente-cérebro.