Foto 07: Apresentação da dança Indígena. Fonte: Fotógrafo Sebastião Domingos da Silva.
Ao propor nesta pesquisa a análise da “Dança Indígena” estamos afirmando sua relevância no contexto de Pindaré, uma vez que se trata de uma dança “inventada” com o propósito de perpetuar a memória indígena na cidade, portanto, contar sua história também através desse sujeito.
Assisti por várias vezes apresentações dessa dança, ao mesmo tempo em que aproveitava esses momentos para convivência com as pessoas integrantes do grupo e para dialogar com seus idealizadores. Dentre as pessoas que atualmente lideram e dão continuidade a essa dança na cidade, está o professor Joacy Santos, o conhecido Jojó, com o qual cursei junto os anos de graduação. Além da relação próxima que tenho pessoalmente com as pessoas de Pindaré, esse dado permitiu
ainda mais o acesso ao grupo. Pelo o que pudemos escutar a história dessa dança na cidade mostra que ela só foi aceita a partir do momento em que buscou recuperar
in loco, isto é, a partir de uma convivência e aprendizado entre o povo Guajajara,
expressões de seu universo cultural.
A dança Indígena foi criada, e depois de aceita pela população foi inserida ao contexto de comemorações festivas, na cidade, conforme pudemos observar. Essa dinâmica revela a preocupação da população de Pindaré para desconstruir a imagem da cidade identificada, por vezes, somente por um passado que brilhou por meio do Engenho Central e/ou por um passado estigmatizado pelos horrores da escravidão – mesmo tendendo a negar a existência de negros na sua origem.
É certo que, as festas populares estão relacionadas à matriz cultural tanto do indígena, quanto do negro e do nordestino que povoaram a região. Também é certo, que ninguém ali sabe desde quando datam essas festas. Contudo, é necessário verificarmos que a construção - na sua maioria subjetiva, mas também objetiva, como no caso da Dança Indígena - de um cenário para a recuperação da imagem da cidade e do pindareense constituiu-se, também pela “invenção” de algumas festas. Essas festas visaram uma rememoração da história da cidade, ao mesmo tempo, significou uma possibilidade de enaltecimento de seu passado de outra forma, que não a face da glória do Engenho Central ou a face “feia” da escravização indígena e negra.
É nesse contexto que a dança indígena foi criada em Pindaré. Assim foram surgindo vários grupos e atualmente, de acordo com Santos & Santos (2006), existem 5 grupos, na cidade, a saber:
• Pnuk Putaneeté; • Mapinguapá; • Guajá Arvanã; • Olho Guará; • Vitória Régia.
Como vimos, em termos numéricos, o censo oficial (2000) apresenta uma população, residente no município de Pindaré, que se declara indígena de apenas 39 pessoas62. A origem histórica, os traços culturais e os traços físicos presentes na população da cidade nos permitem afirmar que parte significativa de sua população pode ser considerada descendente dos povos Guajajara.
A despeito disto, povos indígenas ficaram à margem do espaço da cidade de Pindaré. Atualmente residem na Área Indígena Pindaré, fruto de conquista após muitas lutas e resistência. Essa área, embora próxima à cidade de Pindaré, pertence ao município de Bom Jardim. No entanto, talvez por estar mais próxima, os Guajajara dessa área mantêm mais contato com a população de Pindaré. Por parte da população da cidade, atualmente há poucas iniciativas que visem estabelecer vínculos com os Guajajara. Ao que pudemos observar e de acordo com nossos informantes apenas no Dia do Índio – 19 de abril – os Guajajara são convidados e participam dos eventos na cidade. Além disso, fazem apresentações, trazem seus artesanatos e vendem para a população de Pindaré A população da cidade, embora tenda ignorar sua origem, também indígena, se faz presente, compra seus produtos, assiste às apresentações.
Dentre o conjunto de acontecimentos que as pessoas de Pindaré foram criando - objetiva ou subjetivamente - em busca de afirmar-se numa identidade, a criação da dança Indígena nos anos 90 foi um acontecimento singular que, no nosso entender, pelo fato de ter como ícone o indígena pode ser um elemento, dentre outros, a contribuir para que este sujeito histórico passe a integrar também a história dos pindareenses o que contribui para “desconstruir” a tendência da dissimulação dessa ascendência populacional.
Em sua monografia, Maria Ribamar Coelho Santos explica que a idéia da dança partiu do contato que a professora da Escola CENSA, Káthia Cristina teve
62 A população residente no Município de Pindaré, constitui-se de 27.517 conforme o IBGE (2000) e, pelo
critério de autodeclaração está assim distribuída: 5.157 – branca; 3.555 – preta; 167 – amarela; 18.365 – parda; 39 – indígena. Com relação à Terra Indígena Pindaré são 556 indígenas que ali residem e se constituem como povo da Guajajara. Os dados do CIMI – MA afirmam que no Estado do Maranhão, atualmente, residem 27 mil indígenas distribuídos nos diversos povos.
com sua aluna, à época, Alana que havia residido em Manaus e aí participou de um grupo de dança indígena, na cidade de Parintins63.
Alana convidou a professora Káthia para desenvolver o mesmo trabalho [...]. Em 15 de abril de 1998 formaram o primeiro grupo de dança indígena do Maranhão na Escola CENSA, composta por 16 componentes, entre eles quatro homens e doze mulheres, divididos nos seguintes personagens: Cunha-poranga, Pajé, Rainha do Folclore e os Índios Guerreiros que compunham a tribo. Sobre essa organização o grupo se apresentou por três anos (SANTOS, 2006, p. 42).
Com o passar dos anos, com a volta da aluna para Manaus, a professora Kathia foi encontrando várias dificuldades para dar continuidade ao trabalho. Segundo a professora Kátia havia certa rejeição por várias pessoas da cidade pelo fato de ser uma cultura trazida de outro Estado. Essa atitude evidencia a resistência ao “outro” e apego ao “nós”. Ao mesmo tempo, revela demarcação de fronteiras. Novamente vemos neste fato, a tendência que parte da população de Pindaré carrega em querer ser diferente.
Após esse impasse a professora Kátia,
...decidiu desenvolver um trabalho que se baseasse em nossas raízes culturais, buscando fundamentação para o mesmo junto aos índios Guajajara da Terra Indígena Pindaré, aonde recolheu algumas informações que a ajudaram a definir o nome do grupo, bem como dar nomes a seus personagens. Convidou o seu irmão Joacy para fazer um estudo junto à FUNAI para levantar dados históricos e costumes daquele povo, e assim nasceram as primeiras letras de músicas para a dança. Porém o professor Jojó queria ir mais longe e fez uma pesquisa de campo junto aos moradores mais antigos da cidade e também junto aos livros, em busca de lendas e histórias que marcaram a identidade cultural do povo do Vale do Pindaré, onde conseguiu resgatar algumas lendas que serviram de base para a composição da ‘Lenda do Cabeludo’, a lenda da ’Onça do Canadá’ e do ‘Pássaro Agoureiro’. Assim nasceu esse novo folclore, que até os dias atuais [...] visa resgatar a história de Pindaré-Mirim e seu povo (SANTOS, 2006, p. 43).
63 Nessa região do Amazonas se expandiram e se recriaram os Bois-Bumbás. Sua maior forma de expressão está
no grupo Caprichoso e no grupo Garantido que tem suas matrizes no Bumba-meu-Boi do Maranhão, pois foi o seu Lindolfo Monteiro, maranhense que levou essa expressão cultural para a região. Lá ela foi recriada, reinventada. Atualmente, no Barracão do Boi Garantido, na Baixa de São José em Parintins, está exposto um memorial em homenagem ao sr. Lindolfo Monteiro.
Atualmente, segundo a informante, a professora Maria Ribamar Coelho Santos, compõem o corpo da Dança Indígena em Pindaré, os seguintes personagens com os respectivos significados:
Cacique: representa a liderança da “tribo”. Foi um personagem incluído na dança pela professora
Káthia mediante a necessidade do mesmo em seu trabalho segundo o estudo por ela realizado na Aldeia dos Guajajara;
Pajé: curandeiro ou feiticeiro da “tribo”;
Miarrú Puraneté: representa a beleza indígena feminina, apresenta-se como a índia mais bela da
“tribo”;
Catuau Uicorreré: representa a índia prometida da aldeia que é preparada desde pequena para
servir ao Cacique, casando-se com o mesmo;
Pitu Puranzé: representa a vaidade indígena, através de um índio que segundo a lenda conta, era
vaidoso e preferiu a morte que se entregar a uma paixão;
Índios Guerreiros: representam a coragem indígena, um casal de índios é escolhido, preparado pela
tribo e abençoado pelo pajé, para guardarem a segurança da “tribo”;
Mãe D’água: representa uma moça indígena que é encantada pela Mãe D’água, ganhando poderes
especiais tornando-a bela, sedutora e com poderes de lançar encantos sobre suas vítimas;
Tribos: representam através da dança os costumes e toda a riqueza cultural do povo índio.
Quanto à indumentária dos dançantes, assemelham-se bastante ao índio Guajajara quando em dia de suas festas, no entanto trazem também outros adereços mais parecidos com os trajes dos índios do Bumba-Boi. Em geral usam o cocar e um peitoral trabalhado de miçangas e vários enfeites de penas. As penas são usadas como espécie de braçadeiras e tornozeleiras. Para completar o traje, usam uma tanga, arco e flecha.
De acordo com a observação feita às apresentações da Dança Indígena e de conforme minha informante, toda a indumentária dos componentes da dança indígena de Pindaré, a cada ano é trocada. Nesse sentido o grupo encontra muita
dificuldade financeira para levar à frente seu trabalho. Segundo a professora, eles só têm contado com o recurso financeiro da Companhia Folclórica Pnuc Puraneté a partir de seu próprio trabalho. Mesmo assim, para a professora que tem a dança indígena na alma, a manifestação não pode parar, pois,
esta uma oportunidade aos jovens da cidade de expor seus talentos, alguns trados da marginalidade, excluídos da sociedade. Além do mais, essa dança relembra nossos antepassados e faz as novas gerações se manterem em contato com a tradição e a história, porque não devemos esquecer nossa história. Aqui em Pindaré viveram muito índios, eles sofreram e muitos foram mortos assim somos o que somos hoje: Pindaré que tem uma história para contar e algo bonito para apresentar no Maranhão (Depoimento da professora Maria Cristina Moraes Santos. Agosto de 2006).
O depoimento da professora reflete mais uma vez o desejo de valorizar a continuidade de sua história, pela memória passada de geração a geração. Percebemos assim, o anseio de que essa história seja contada e vista, porém de forma bonita, diferente. No meu entender, encontra-se aí o princípio da reconstrução de uma identidade que vai se elaborando e se refazendo a partir de “invenções de tradições” – no caso, a invenção da Dança Indígena - segundo a visão de Hobsbawm. Entendemos o movimento que foi sistematizando e afirmando a Dança Indígena em Pindaré com base nas análises de Hobsbawm. Para o autor tradição inventada é:
Um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceita; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado (HOBSBAWM, 1997, p. 9).
Desse ponto de vista, para o autor, a tradição é uma construção que se faz no presente a partir de elementos do passado. Constantemente reconstruído de forma coletiva. A Dança Indígena, reinventada na cidade, só foi aceita a partir do momento em que suas inspiradoras, com a ajuda de outros, decidiram aproximar-se de sua fonte na Aldeia dos Guajajara, que lhes mostrou um passado que ao mesmo tempo é presente em seu meio, de forma ressignificada. Essa manifestação retornou à cidade de Pindaré, reconstruída sim, mas com elementos que remetiam a uma história local e comum: a presença dos Guajajara e de sua cultura peculiar.
Um dos informantes que ao se reportar à Dança indígena de Pindaré, assim se expressa:
É uma dança muito bonita e envolvente. Ela existe em Manaus, mas aqui em Pindaré ela tem um rosto próprio, pois aqui houve grandes mudanças no ritual da dança como, por exemplo: as lendas do nosso município, o cabeludo, a onça do Canadá e outras lendas. A cada ano de suas apresentações ela vem com novos rituais (CARLINHOS, entrevista no dia 28 de setembro de 2007).
Hobsbawm (1997) assume a visão da tradição como um processo de construção do presente. Poderíamos afirmar diante de suas reflexões que toda sociedade tende a criar formas para se perpetuar para além das existências individuais. Para Hobsbawm a tradição é seletiva e conta com o papel da memória coletiva para esquecer alguma parte tendo em vista algum objetivo - aquilo que deve ser lembrado. Certos significados são escolhidos para ênfase e certos são negligenciados. Esse processo é decisivo, pois a parte selecionada permanece como a tradição (Hobsbawm, 1997).
A Dança Indígena se soma à cadência de festas na cidade. Que se por um lado, ajudam a “esquecer” um passado, por outro, perpetuam a afirmação e construção de uma identidade, que do ponto de vista da população, deve ser mais leve, mais digna de ser apresentada, mais bonita.