Vedlegg B. Simuleringsstrukturen i MOSART 1
B.1 Hvordan begivenhetene simuleres
A festa de São Pedro foi escolhida para esta análise por ser a festa católica de maior expressão na cidade. Essa escolha baseia-se também no fato de que São Pedro é o padroeiro da cidade e sua festa, ali, funciona como um dos espaços por excelência que agrega a maioria das outras festas e danças populares. Ademais, no período dessa festa a cidade se transforma, a população é redobrada, dessa forma, a festa serve também como espaço para atrair recursos econômicos para a cidade.
Dentre o conjunto de festas na cidade de Pindaré, a festa de São Pedro tem lugar especial , sendo este santo o padroeiro da cidade. Um pouco mais que
sexagenária, essa festa ainda hoje atrai anualmente inúmeros freqüentadores e devotos provenientes de diversos pontos da cidade, de outros municípios e até de outros Estados. A cada ano o número de fiéis aumenta.
A festa teve seu início por volta do ano de 1942, no entanto, segundo nosso entrevistado o Sr. Arlyson Ernesto Ferreira Gomes que exerce a função de agente de Pastoral na Paróquia,
São Pedro se tornou o padroeiro de Pindaré-Mirim pelo motivo de que na época da construção do prédio da Fábrica de açúcar, os operários terem encontrado uma pequena imagem de São Pedro, a qual se deduz que pertencia aos padres jesuítas (Arlyson, entrevista realizada em julho de 2007).
No decorrer dos anos, a festa foi tendo algumas alterações, dentre elas, a data, pois entre os anos de 1942 a 1968, os festejos eram realizados entre os dias 22 de dezembro a 1º de janeiro. A partir de 1968 a data foi transferida para o dia 29 de junho, por ser o dia oficial de São Pedro, conforme calendário católico.
Foto 08: A Procissão de S. Pedro – dia 29 de junho. Fonte: Fotógrafo Sebastião Domingos da Silva.
Atualmente, nos dias da festa é montada uma estrutura especial na cidade. O festejo inicia-se no dia 1º de junho com a alvorada pelas ruas da cidade. É o primeiro dia de peregrinação da imagem que é levada até a comunidade Santa Helena e ali a imagem do santo permanece até a noite onde é celebrada a primeira noite de peregrinação. No dia seguinte a imagem é levada em procissão até a próxima comunidade e assim se repete o ritual até o dia 19 de junho, data de início da novena. Dessa forma, a imagem peregrina por 19 comunidades da cidade. Na matriz de São Pedro todos estão focados na festa do padroeiro, por isso, durante todo o mês de junho as reuniões e demais atividades rotineiras são canceladas para que as lideranças dos grupos de pastorais participem das solenidades.
Além disso, nos dias mais intensos do festejo afluem muitos fiéis que vêm de fora, padres e lideranças religiosas de outras localidades vêm para presidirem celebrações, reforçar a oferta para os fiéis se confessarem e receberem atendimento individual. A festa de São Pedro em Pindaré costuma atrair os filhos da terra que residem em outras localidades, tanto no Maranhão como em outros Estados, até mesmo bem mais distantes, como do Sudeste. Esses se preparam o ano todo, fazem suas economias para a viagem; aproveitam os dias do festejo para rever os familiares, os amigos, a terra que os gerou, aproveitam para reatar os laços com suas raízes e para confirmar que se identificam com aquela cidade; valorizam a terra e sentem-se valorizados. Da mesa forma, os familiares ficam à espera, o ano todo, deste encontro com os filhos e amigos que estão distantes.
No mês da festa do padroeiro tudo se transforma na cidade de Pindaré. As pessoas se enfeitam com a mais fina jóia, as casas são reformadas e se necessário é até construído mais um quarto para a chegada dos parentes e amigos. Tudo é feito em função do santo que “anda” durante todo o mês de junho, nas casas, nos bairros, sempre acompanhado de grandes procissões. Além dos momentos religiosos, o festejo contempla eventos culturais, sociais e folclóricos.
Os nove dias que antecedem a solenidade maior que é no dia 29 de junho, são chamados novena. Neles são feitas procissões e cada dia é dedicado a um grupo ou comunidade que fica responsável por toda dinâmica daquele dia. Estes grupos ou comunidades são chamados noitários (catequistas, missionários, jovens,
movimentos, crianças, motoristas e as comunidades). Diariamente têm as procissões que saem de alguma comunidade e encerrando com a celebração da Missa. Os dias 23 a 29 de junho são considerados os dias do arraial de São Pedro. O arraial acontece na praça da Matriz de São Pedro em frente à Igreja. Vários grupos de festa se apresentam, dentre eles, os Bumba-Boi, a Capoeira, a Dança Portuguesa, a Dança Indígena, a Caixa do Divino e outras danças que compõem o cenário festivo de Pindaré.
Por vários anos participei desta festa, assim observei de perto que nos nove dias mais intensos as pessoas pagam promessas e no dia 27 de junho todos os grupos de Bumba-meu-Boi da cidade se reúnem na Igreja para receber a bênção do santo. Todos os dias é celebrada a missa, as pessoas podem se confessar, bem como, receber atendimento individual. Para nosso informante Arlyson Ernesto Ferreira Gomes que trabalha na secretaria da Paróquia e é uma das lideranças de grupo durante o festejo de São Pedro em Pindaré,
o clima na cidade se transforma em festa, alegria e em um lugar de acolhida. A cidade recebe muitos romeiros e visitantes; a comunidade se motiva para participar das programações religiosas; as famílias vão juntas para a Igreja, por fim, a cidade recebe um grande número de romeiros que vêm pedir e agradecer a São Pedro. [...] O dia 29 de junho, dia de São Pedro, começa com a primeira missa do dia na Matriz às 9h30, onde logo após a celebração acontece a cerimônia do batismo de crianças, jovens e adultos. No mesmo horário na Comunidade Nossa Senhora Aparecida, em Areias (comunidade da Zona rural) acontece a mesma cerimônia. Às 15 horas sem do Porto do Cais as embarcações, lanchas, canoas, com os romeiros até o Porto para dar início à procissão fluvial pelo Rio Pindaré até o Porto do Cais. Quando a imagem juntamente com os romeiros chega ao Porto, já está à espera um grande número de pessoas. A imagem logo que chega à terra firme é recebida com fogos e levada pelos romeiros até à Igreja Matriz. Ao chegar a procissão inicia a celebração solene do Padroeiro. Logo após a celebração tem o sorteio da rifa de São Pedro. Ao término da rifa é dado início ao último dia do arraial de São Pedro e assim se encerra mais um ano de festa de São Pedro. (Arlyson Ernesto, entrevista realizada em abril de 2007)
Na fala do Sr. Arlyson é evidente a forma pela qual as pessoas em Pindaré vão construindo uma convivência e relação afetiva e comunitária com o santo padroeiro da cidade.
Esta festa, anteriormente era mantida sob os cuidados dos “intendentes”64 da
localidade e do Apostolado da oração. O aspecto de benefícios materiais para a cidade é também um ângulo importante da festa do santo.
O festejo traz benefícios para a cidade, pois as nossas famílias aproveitam para vender aos visitantes comidas típicas da festa junina. Durante este mês as vendas no comércio aumentam trazendo assim melhoria para no nosso povo (Sr. Arlyson).
Embora não tenha havido nenhum comentário explícito nesse sentido, não é difícil imaginar a dificuldade com a qual a população de Pindaré lida com essa questão financeira. A festa de São Pedro é festa popular católica e precisa se manter viva para manter viva a cidade. Entretanto, para isso necessita de recursos financeiros para dar a visibilidade que a festa precisa manter a cada ano. Além do que, este é um momento intenso e prolongado para também angariar recursos para a cidade. E isso é feito a partir da presença dos romeiros que vêm de fora. Trata-se de uma via de mão dupla, porém de forma muito subterfugia. Pelo exposto, a respeito da população de Pindaré, do seu interesse em manter-se “bem lá fora”, a imagem que a cidade precisa dos de “fora” para manter a festa de São Pedro e para trazer recursos financeiros para a população não deve ser divulgada. Pindaré precisa se manter bem vista, festiva e cuidando de si mesma.
Para Durkheim (1996), a vida religiosa nos dias de festa atinge um grau de excepcional intensidade. Em Pindaré, tanto no ritual da festa de S. Pedro como nos rituais cotidianos, há um clima festivo propício à emergência de representações e à criação de um espaço interacional, onde se elabora e se cristaliza a identidade coletiva da comunidade. A festa de São Pedro é única por todo o Vale do Pindaré. “Nos sentimos orgulhosos de manter esta festa em nossa cidade, bonita assim e cheia de fé e com muita gente, só em Pindaré mesmo”, assim nos afirma o Sr. Arlyson.
Uma identidade através da festa, assim interpretamos a identidade de Pindaré. Identidade esta, como um processo de construção e desconstrução, nunca
64 Pessoas que auxiliavam na administração da cidade e ao mesmo tempo era um grupo que funcionava como
acabada e sempre em reconstrução. Ela foi sendo negociada de forma gradual e subjetiva e, em muitas vezes inconsciente, por sua população. Essa identidade enquanto processo acarretou benefícios em termos de uma nova visibilidade da cidade através das festas. Assim como a identidade é assumida como fato dinâmico em transformação, da mesma forma, a festa é assumida não como algo estático e que por isso deve ser preservado do mesmo jeito.
A festa de São Pedro em Pindaré reúne todas as outras festas populares da cidade, exceto as festas nos Terreiros. Os integrantes dos Terreiros participam e colaboram com a festa, mas de forma meio silenciosa, nunca como grupo. Ao serem perguntados por que os Terreiros não vêm também como grupo para se apresentarem, receber a bênção do santo como o fazem os outros grupos, a resposta é enfática e reticente: “nunca foi nossa tradição”, “Eles têm suas festas próprias”, e assim por diante. Nesse sentido o “silêncio”, em geral é sempre o subterfúgio mais fácil, por isso permanece. Afinal Pindaré não pode aparecer como se fizesse acepção de pessoas. No imaginário da população permanece o sentido do ruim que Pindaré foi no passado. Hoje, é necessário desconstruir o que foi mal e em seu lugar colocar o que é bom e bonito, nisso vale os princípios de paz, união, solidariedade, enfim, todos irmãos. O caminho continua aberto.
Neste campo se percebe um conflito velado e que até o presente as pessoas não querem falar sobre o mesmo. Este conflito vai desde as relações individuais das pessoas até a hierarquia da Igreja Católica. O passado histórico e conflituoso da Igreja Católica e as expressões da religião afro-brasileira, embora com muita sutileza, continuam ainda latente na sociedade de Pindaré-Mirim.
Foto 09: Saudação da Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré ao Presidente da Federação de Cultos Afros.
Fonte: Fotógrafo Sebastião Domingos da Silva.
CAPÍTULO V
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CIRCULAÇÃO DE FESTAS: COMUNIDADE ESPÍRITA
UMBANDISTA DO VALE DO PINDARÉ
O movimento das Festas na Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré, seguido da etnografia do Terreiro Espírita Umbandista Três Reis Magos e sua festa principal, mereceu atenção nesta pesquisa pela amplitude e significância dos Terreiros na cidade e na região.
As festas nos Terreiros em Pindaré, - de forma não oficial - fazem parte do circuito das festas da cidade. A cada festa nos Terreiros é comum se vê a população da cidade e circunvizinha afluir continuamente para assistir a festa neste ou naquele Terreiro. Além disso, a maioria dos Terreiros completa sua festa com apresentações de outras festas, como por exemplo: o Bumba-meu-Boi, o Tambor de Crioula, o Divino Espírito Santo.
Quanto ao universo das religiões afro-brasileiras, sabemos que os negros que foram trazidos para o Brasil apegaram-se especialmente às suas tradições religiosas, como um dos meios mais eficazes para preservar sua identidade fragilizada sob a dominação do poder dominante à época. Entretanto, essas religiões entraram em contato com outras manifestações religiosas no país, principalmente a religião católica, em sua expressão popular como por exemplo, a devoção aos santos.
Conforme estudiosos no assunto, as religiões afro-brasileiras, foram colocadas à margem e obrigadas a ocuparem espaços ínfimos nas várias formas de sistematizações da sociedade brasileira, as quais lhes impõem secularmente separações de forma desigual e sem escolhas.
Em diversos Estados do Brasil, os cultos afro-brasileiro recebem as mais variadas denominações, tais como: Candomblé, na Bahia, Xangô, em Pernambuco, Tambor-de-Mina, no Maranhão.
Ferretti define o Tambor-de-Mina no Maranhão como:
[...] a denominação de uma das religiões afro-brasileiras, desenvolvida por antigos escravos africanos e seus descendentes. Entre outros aspectos, caracteriza-se por constituir-se em religião de transe ou possessão, em que entidades sobrenaturais são cultuadas, invocadas e se incorporam em participantes, principalmente mulheres, e sobretudo por ocasião de festas,
com cânticos e danças, executadas ao som de tambores e outros instrumentos. Daí o termo tambor, pelo qual também são designados tais cultos. O termo mina deriva do Forte de S. Jorge da Mina, na Costa do Ouro, atual república de Gana, um dos mais antigos empórios portugueses de escravos na África Ocidental. Trata-se também do nome de um grupo étnico daquela região, que se dedicava ao tráfico de escravos. No Brasil o termo mina é atribuído genericamente a escravos procedentes da região do Golfo do Benim na África Ocidental (FERRETTI, 1995, p. 13).
As religiões afro-brasileiras possuem suas adorações relacionadas com a natureza, são repletas de magias e mistérios. Carregam no seu interior um conjunto de rituais, adereços, batuques, ritmos que refletem sua visão de mundo. No entanto, no Brasil, elas continuam estigmatizadas e marginalizadas socialmente.
No contexto de Pindaré, como acontece em várias cidades maranhenses, a maioria de sua população é católica e participa direta ou indiretamente, da religião afro-brasileira.
O paradigma analisado por Mauss (1974) - as três obrigações: dar, receber, retribuir -, ajudou-nos a analisar a dinâmica das festas na Comunidade Espírita Umbandista no Vale do Pindaré. Os rituais estabelecidos entre as casas religiosas de denominação afro-brasileira65 nessa localidade, representam vínculos locais e refletem no cotidiano dos participantes dessa Comunidade.
Nesse sentido, os rituais, por estarem entrelaçados pela história, refletem uma herança na qual o negro se reconhece, e estabelecem uma relação de reciprocidade que dão o caráter de uma grande e única Comunidade. Festa e religião são, para os pindareenses, parte integrante de sua cultura e de sua existência como coletividade. Nos cultos afro-brasileiros, em Pindaré, há um trânsito que parece instaurar o que nomeamos de trilogia do “dar-receber-retribuir” na perspectiva de Mauss (1974).
65 Diferentemente de outras cidades na região em que as festas e as casas religiosas (conhecidas como Terecô e
Tambor da Mata na cidade de Codó e na região do Mearim, e como Casa das Minas, Casa Nagô, Casa Fanti- Ashanti, em São Luis), em Pindaré a tradição religiosa afro-brasileira tem uma característica que lhe é típica: recebe a denominação de Terreiro de Mina, Macumba ou Cura (este referindo-se à celebração), Terreiro Espírita (referindo-se ao local geral), Tambor de Mina ou simplesmente Tambor(referindo-se à celebração) ou ainda Barracão (referindo-se somente ao local da celebração). Neste trabalho, usaremos a palavra Tambor de Mina para nos referirmos à celebração e Terreiro de Mina para nos referirmos ao local da celebração.
A teia de significados e de valores que perfazem o imaginário sócio-religioso dessa Comunidade indica que, no seu interior, o ritual de circulação das festas está imerso num universo simbólico com múltiplos significados, conforme as discussões de Mauss. A nosso ver, a idéia de coesão entre os Terreiros de Mina, o sentido da grande e única Comunidade, indica também estar dissimulando um passado conflitivo e desumano pelo qual passou aquela sociedade.
Conforme já referimos, em Pindaré-Mirim está concentrada não só uma população negra, mas também uma população detentora de uma cosmovisão religiosa e festiva que parece remontar a um legado do universo afro-brasileiro. Dentre as várias manifestações que remetem à herança cultural afro-brasileira, a população de Pindaré cultiva de forma assídua as festas, os ritos, os gestos, os símbolos, o mistério, o encanto.
No Brasil colonial, ao longo do Brasil império e ainda hoje, os termos “senhores”, “engenhos”, “cana”, “açúcar”, carregam significados intrinsecamente associados à escravidão negra. Uma importante contribuição sob o ponto de vista da história do Engenho Central e dos pindareenses são as rimas populares de Nickollas & Batista (2003): “O nosso Engenho central / hoje motivo de contemplação/ foi um terrível local/ Pra toda uma nação/ de negros que apanhavam demais/ tratados como animais/ Em nome da produção” (Nickollas & Batista, 2000, p. 4).
Encontramos, na singularidade da Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré, assim como no imaginário, sustentado por seus participantes – na sua maioria são negros e mestiços - uma possível explicação para religar fatos, resgatar a auto-estima das pessoas, refazer o senso de pertença, reelaborar imagens e levantar questionamentos sobre a formação da sociedade e da cultura maranhense. Nessa perspectiva, interpretamos que manter as trocas, sustentar uma dinâmica do ir-e-vir, evidencia o encontro e a fusão de uma história e destino comuns, ao mesmo tempo em que estabelece compromissos e reata laços, que gratuita e obrigatoriamente precisam ser mantidos para dar nova visibilidade à cidade.
Estudos mostram que festas e religião constituem uma das manifestações mais antigas e vivas da humanidade. Mediante o mistério do transcendente e a incompreensão das estruturas sociais construídas, o homem buscou formas de elaborações místicas ou rituais repletas de simbolismos. Sendo assim, podemos compreender festas e religião como os núcleos fundamentais que aglutinam as sociedades e representam algo revestido de importância para uma determinada coletividade.
Dessa feita, em Pindaré a dimensão da festa presente nos Terreiros de Mina é um rito de interação que permite a re-atualização de um sentido de pertencimento. O ritual de memória e de tradição, coloca em cena o passado e o presente fundidos, condensa os tempos diversos da história local; permite reatualizar os signos que acenam para a construção de um vir-a-ser. Assim, na transmissão, seja de valores, seja de formas de organização, o que se conserva é, de fato, antes reproduzido e recriado para, ao que parece, preservar o sentido de comunidade, para a garantia de uma possível coesão e oferecer uma nova visibilidade da população e da cidade. No Tambor de Mina em Pindaré e na sua circulação entre os Terreiros se encontram comandos coletivos e individuais que norteiam tanto o cotidiano, como os momentos especiais dessa comunidade.
Mauss (1974), estudando as sociedades consideradas arcaicas, dentre outras, descobre a possibilidade de estabelecimento de aliança concretizada por meio da circulação de dádivas. A partir do universo dessas sociedades, o autor percebe a capacidade de se constituir redes, a cadeia de interdependências e a relação de confiança e fidelidade.
Ao dialogar com Mauss, Allan Caillé (1998), aponta que: “A rede é o conjunto das pessoas em relação às quais a manutenção de relações interpessoais, de amizade ou de camaradagem, permite conservar e esperar confiança e fidelidade” (CAILLÉ, 1998, p. 18). Essa proposição ilumina nossa análise, pois, como vimos, a população de Pindaré criou inúmeros desdobramentos para a afirmação de uma singularidade local. As festas e os espaços da religião foram um dos recursos utilizados para sublimar a existência de uma coletividade distinta, com espaços exclusivos. O cultivo das festas na sua estrutura social, a manutenção da inter-
relação entre os Terreiros, dando a idéia de uma grande Comunidade, significou a possibilidade direta de a população se reconhecer nas tradições, bem como vir a ingressar numa rede de solidariedade.
Nossa pesquisa junto à cidade de Pindaré permitiu reconhecer que essa sociedade foi construída, imbricada num contexto regional e nacional, moldado nos princípios de uma economia capitalista, emergente. A partir desse reconhecimento podemos também fundamentar nossa análise em Godelier que ao reavaliar as análises de Mauss no “Ensaio sobre o dom”, afirma:
O paradoxo próprio das sociedades capitalistas é que a economia é a principal fonte de exclusão dos indivíduos. [...] Ela os exclui ou os ameaça a