Foto 06: Caixeiras do Divino – Festa no Terreiro Três Reis Magos. Fonte: Fotógrafo Sebastião Domingos da Silva.
Dentre o conjunto de festas em Pindaré-Mirim foi escolhida para análise a Festa do Divino pelo seu caráter comemorativo ligado a festejos de santos da Igreja Católica e a festejos de entidades dos Terreiros. O Divino em Pindaré é um espaço aglutinador de festas, por isso, “caminha” o ano todo. Ele “circula” de festa em festa. A maioria das festas em Pindaré somente é completa se tiver o “rufar da Caixa” do Divino.
A festa do Divino tem sua matriz em Portugal. Autores como Reis (2004) adotam a linha que atribui seu surgimento na região de Alenquer, no século XIII, quando D. Isabel54, “a santa” era a rainha. Ela teria construído uma Igreja para o Divino Espírito Santo.
54 D. Isabel – Santa Isabel depois. Teve vida dedicada à prática da caridade e a ela foi atribuída “o milagre das
rosas”: enquanto fazia doações para operários, seu marido a surpreendeu e quis impedi-la, de imediato as moedas que seriam doadas se transformaram em rosas (REIS, 2004, p. 167).
No Brasil ela chegou por volta do século XVI e se espalhou de forma popularmente por todo o território ganhando contornos diferentes em cada região. Homenageia-se a 3ª pessoa da Santíssima Trindade55. Instituída na realeza portuguesa a festa traz elementos da corte.
No Maranhão56 a festa do divino é cultuada na capital e em várias cidades do interior do estado. Em Pindaré, além da festa na Igreja Católica, o Divino é invocado pelas pessoas, de um modo geral, pelas famílias, pelos grupos de festas e devoções populares. Este fervor pelo Divino é ligado à crença no poder da proteção e do envio da luz espiritual e força de Deus para enfrentar as dificuldades e males da vida. Evocação importante no contexto de Pindaré, pois as pessoas acreditam que é pelo Divino que a vida se transforma e tudo fica novo, recriado. O mal se transforma no bem. O cenário de Pindaré mostra que ali, tanto as festas populares quanto a religiosidade, servem para esse fim. Elas simbolicamente revertem a situação de penúria e recria um universo de benefícios e de reconstituição da vida.
Conforme o professor Domingos, a festa do Divino em Pindaré , surgiu ligado aos rituais religiosos nos Terreiros, a religião afro-brasileira. Com o decorrer dos anos a festa foi ganhando a simpatia da população e ampliando o seu universo para além dos Terreiros.
Tudo começou no Terreiro de seu Antenor (pai-de-santo falecido) no povoado denominado Cafezal, neste município. Era a festa de Batismo de uma filha-de-santo daquele Terreiro e Dona Catarina e Dona Rosanira57 levaram um grupo de mulheres e ‘rufaram’ as caixas (Professor Domingos, 29 de outubro de 2007).
Os seguidores do Divino em Pindaré falam com muita emoção sobre a festa e afirmam que pelo menos essa manifestação é mais que cinqüentenária na região.
55 Divino – homenagem à 3ª pessoa da Santíssima Trindade [...]. Os católicos acreditam que Jesus Cristo, na sua
ressurreição, isto é, ao subir ao céu, pelo sopro divino, tomou a forma de uma pombinha, que nada mais é do que a chama, o fogo, a luz divina do Espírito Santo. A rainha de Portugal doou a sua coroa para o Divino Espírito Santo, que representa o símbolo da força como a rainha governou Portugal. Os tambores-caixas –eram os clarins que tocavam anunciando a vinda do Espírito Santo. (REIS, 2004, p. 168).
56 Sobre a festa do Divino no Maranhão, ver mais sobre o assunto em REIS, José Ribamar de Sousa dos. 2004,
p. 167-173; FERRETTI, S. 1985, p. 161s; SANTOS, M. R. e SANTOS NETO, M. 1983, p. 93.
Apesar de crianças e jovens participarem desta festa, ela é mantida no seu conjunto, em geral, por pessoas na idade adulta.
Atualmente existem dois tradicionais grupos de Caixeiras na cidade, um grupo que tem como liderança a Sra. Maria do Carmo Pinheiro Silva, conhecida por dona Carmina e o outro grupo liderado pela Sra. Maria de Ribamar Travassos Nunes, a conhecida dona Maria Caixeira.
O primeiro grupo é constituído atualmente por aproximadamente 25 pessoas, e tem como nome “Grupo do Divino Espírito Santo da Palmeira”. Em entrevista, com muita emoção, dona Carmina assim se expressa:
A minha festa dura um dia e uma noite completa, essa eu chamo de festa anual, que é celebrada no dia 02 de abril. Nesta festa do dia 02 de abril, não acontece coroação e nem procissão. As coroações e procissões só acontecem nas festas dos Terreiros, onde faço minha missão com muita alegria. Sou chamada o ano inteiro para bater caixa e coroar o Divino em todo do Vale do Pindaré. Essa minha missão, é minha devoção, eu amo muito o Espírito Santo, trabalho com grande respeito, com grande valor, amor e carinho. Tenho honra e muito prazer de trabalhar com o Divino Espírito Santo em Pindaré. Já batia Caixa quando morava no interior, mas me aperfeiçoei mesmo foi aqui em Pindaré (Dona Carmina, entrevista dia 22 de novembro de 2007).
E assim imbuída de muita devoção dona Carmina cantou o refrão, “Meu Divino Espírito Santo (2x)
Que já fizemos obrigação (2x) Estou aqui com seu Império (2x) Aí entrego em vossas mãos “(2x)
A seguir, o segundo grupo eleito para análise, porém, muito do que é descrito sobre a dinâmica desse grupo entrevistado pode ser aplicado também ao primeiro grupo, salvo algumas nuances próprias e inerentes à cada grupo.
Como citamos, o segundo grupo tem como liderança Dona Maria Caixeira, 65 anos. Para Dona Maria, o Divino em Pindaré ganhou um contorno diferente nos últimos anos e se estruturou. Foi organizada a sede das Caixeiras que funciona à Rua da Estrela, nº 64, Bairro da Palmeira. Recebeu registro oficial com o nome
“Associação Feminina Cultural Democrática Divindade do Vale do Pindaré”58. O
grupo foi oficializado recentemente no dia 27 de julho de 2007. Quando perguntada sobre o que a levou a iniciar esse grupo das Caixeiras em Pindaré, a resposta de D. Maria Caixeira é enfática e alegre: “O amor pela cultura da ‘Caixa do Divino’, até porque eu recebi como herança dos meus antepassados”.
A estrutura atual da Associação das Caixeiras tem a seguinte configuração: Presidente: Maria Regina Soeiro Mesquita, como Secretaria: José Raimundo Costa Rodrigues e como Tesoureira: Augusta Pereira da Silva. Outras funções ainda fazem parte do conjunto da diretoria, dentre elas, as atuais, primeira e segunda conselheira, Zenira de Melo Viana e Teotina Bispo de Melo Viana, respectivamente.
O grupo das Caixeiras é composto por aproximadamente 58 membros efetivos. Destes aproximadamente 15 são homens, 15 crianças, 20 a 30 são mulheres. Quanto à idade aproximadamente, 15 participantes estão entre 25 a 50 anos, 40 entre 50 a 75 anos e 10 acima de 75 anos. Percebe-se que a grande maioria está concentrada na faixa etária acima de 50 anos.
O motivo que levou a fundar este grupo é por razões de tradições, pois a minha avó materna, a senhora Henriqueta Travassos que morava no povoado São Cristóvão, município de Viana – Maranhão. Ao falecer D. Henriqueta deixou a função de caixeira para minha mãe, D. Alípia Marçalina Travassos que também morava em São Cristóvão e esta ao falecer me deixou desde o instrumento que é a ‘Caixa’ à qual eu toco até hoje. Eu ainda comecei com a minha mãe, foi ela quem me ensinou a bater ‘Caixa’ e até hoje eu continuo e tenho muito orgulho e satisfação por ter herdado essa missão da minha mãe. Cheguei em Pindaré em 1984 e comecei a tocar ‘Caixa’ em outro grupo que ainda existe. Lá eu permaneci até 1989. Era o grupo da D. Rosanira. E entre 1989 e 1991 eu fui formando o grupo que foi registrado com o nome citado (D. Maria Caixeira, 15/10/2007).
A festa do Divino em Pindaré, ou simplesmente a “Caixa”, como comumente é mais conhecida, tem seu início já na sua preparação que, segundo nossos informantes, acontece durante todo o ano. Do ponto de vista de seus participantes “a festa começa no momento em que durante o ano se começa a economizar em sua
58 Essa Associação foi uma iniciativa de Dona Maria Caixeira – Maria de Ribamar Travassos Nunes - e seu
grupo. Até o momento atual, o primeiro grupo aqui mencionado, não faz parte da referida Associação. Apesar de certa divergência entre as duas lideranças, as pessoas que são membros integrantes tanto de um grupo quanto de outro se visitam nas festas e podem ‘tocar Caixa’ tanto em um quanto em outro grupo.
função, pois não recebemos nenhum tipo de ajuda econômica”. Por isso, a idéia de que a festa acontece o ano todo.
Para preparar a festa do Divino de D. Maria Caixeira, acontecem muitas reuniões para acertar todos os detalhes da festa. Os ensaios com as crianças que representam os “membros da corte” se iniciam em setembro até os dias da festa propriamente dita que são 16 e 17 de novembro, ou seja, são dois dias de festas que tem seu início com a Missa solene em ação de graças por toda a comunidade participante do grupo e da festa, além do que esta Missa é celebrada na intenção de toda a cidade de Pindaré.
Depois da Missa, saem em procissão por algumas ruas da cidade. Na casa da “festeira” ficam os dois dias e as duas noites e batem as Caixas em uma cadência de ritmos. As Caixeiras dizem seus versos e vão passando de uma a uma, e a roda só tem uma pequena pausa quando todas entoam os seus versos, que são de “cor”, como comumente dizem: “Sai tudo de nossa cabeça. É o Divino Espírito Santo quem bota em nosso juízo e em nosso coração”.
As Caixeiras são, em geral, mulheres negras, moram em bairro periféricos da cidade e várias são semi-analfabetas. Algumas são “filhas-de-santo” e tocam caixa como uma continuidade de sua obrigação no Terreiro, outras vão aos Terreiros somente em épocas de festas quando o Divino é convidado e tocam. Na sua maioria são senhoras acima de 40 anos. Em geral, são domésticas, lavadeiras, lavradoras, zeladoras, uma ou outra funcionária da Prefeitura.
Na casa de D. Maria Caixeira de modo especial naqueles dois dias de festa há comida e lanche para todos. Muitas pessoas não só usufruem dos benefícios da casa, mas também levam algum alimento, ou presente para partilhar. No revezamento das Caixeiras, aqui acolá é necessário um “gole de pinga”, “para alegrar o grupo e agüentar o rojão”. Ninguém se excede. Há regras a serem obedecidas, pois a festa é do Santo e precisa ser mantida religiosamente. Naqueles dois dias de festa a alegria é contagiante. A casa é arrumada como se para a chegada de uma visita ilustre. O altar, que na casa de D. Maria, é permanente, nessa época ganha um vigor e um colorido infindo. Tudo é ornamentado com muito
gosto, luxo, requinte, exuberância, pois quem vai receber tudo é o Divino. Flores, bandeiras, luzes, rendas, toalhas e cortinas com o mais fino bordado são estampadas por toda a casa da “festeira”. De longe se escutam os fogos.
Há uma divisão de serviços, umas cantam, dançam e batem a Caixa para o Divino, outras cuidam da cozinha, outras da recepção, outras se preocupam para que não falte nada a ninguém, em geral há um ou dois homens responsáveis para soltar os fogos. Há um esmero em receber as pessoas visitantes. Todos devem se sentir bem e em casa.
A cada noite, após o jantar, é rezada a Ladainha que é cantada em Latim por D. Maria e sua neta jovem que já está no aprendizado da devoção. Antes da Ladainha, D. Maria59 assume a presidência da celebração e “puxa” a reza. Ela fica ao centro defronte ao altar e todos ao seu redor. São feitas muitas orações e cantos, um seguido do outro. Os cantos são populares e evocam os santos de devoção, das caixeiras, do dono ou da dona da festa.
“Levanta mana da cama/ para ver romper o dia/ Vamos salvar Oliveira/ E a Virgem Santa Maria/ Levantei de manhã cedo/ Fui varre o barracão/ Encontrei Nossa Senhora/ com seu raminho na mão/ Pedi um galinho a ela/ ela me disse que não/
Eu tornei a lhe pedir/ Ela me deu seu cordão/ Senhor Padre S. Francisco/ Me benzei este cordão/ Nosso Senhor me deu/ com sua sagrada Mãe/ Numa ponta tem S. Pedro/ Na outra tem S. João/ Bem no meio tem letreiro/ Da Virgem da Conceição”
Neste canto, o padroeiro da cidade, São Pedro é invocado - o santo do Bumba-Boi - São João, também, bem como, a Virgem da Conceição que é invocada nos Terreiros. Considerando que a festa do Divino é católica e, em Pindaré, nasceu em um Terreiro e circula por inúmeros lugares, isto é, o Divino percorre outras festas
59 D. Maria Caixeira, em geral é convidada para outras festas na cidade de Pindaré para rezar a Ladainha, seja
nos Terreiros, nas devoções familiares, em aniversários.... todos gostam de ouvir sua voz e ver seu jeito contagiante de “tirar” a Ladainha. Tudo em Latim. Tudo de “cor” e com muito entusiasmo e alegria. Com respeito a outras Caixeiras e “tiradeiras de reza” e sem desmerecer nenhuma, mas para algumas pessoas da cidade a festa é boa se dona Maria Caixeira rezou e cantou.
populares religiosas, esta característica destaca elementos sincréticos na festa, pois nela se encontra articulado diferenças culturais religiosas. No entanto, essas diferenças se interpenetram e incidem em novos arranjos repletos de significados para além de qualquer concepção etnocêntrica. Assim, a idéia de se tratar a festa em Pindaré como um espaço de aglutinação de elementos culturais comuns às populações que formaram aquela sociedade tem sua procedência. No contexto de Pindaré-Mirim, no Terreiro, na Igreja Católica, nas festas populares religiosas, o Divino torna-se um espaço de trocas culturais, de enriquecimento recíproco. Mesmo voltada para o contexto da Bahia, em um de seus trabalhos, Consorte afirma que “O sincretismo continua em alta na maior parte das casas tradicionais Jege-Nagô de Salvador” (CONSORTE, 2000, p. 14). Arrisca-se dizer que este pensamento se aplica no fenômeno da festa do Divino em Pindaré.
A formação social e religiosa de Pindaré resultou em uma população profundamente miscigenada e sincrética, embora sabendo que esse processo se deu sob o jugo de constantes conflitos. E, aqui cabe evidenciar, o caráter, por vezes, dúbio do sincretismo discutido por autores como Ferretti “[...] O sincretismo é um tema confuso, contraditório e ambíguo” (FERRETTI, 1995, p. 87), pois ao mesmo tempo em que o sincretismo pode ser fator de enriquecimento mútuo, pode também contribuir para uma simples adaptação e apropriação fazendo valer também perdas culturais.
Durante a festa do Divino na casa de D. Maria Caixeira, ainda à noite, preces e súplicas são externadas em comum, é rezado o terço, a ladainha e o “Senhor Deus”, é cantado o “Bendito de louvor” e de pedido da bênção, sendo a primeira ou a última noite. Ao final todos se despedem do Santo Divino. Antes do término desse momento, em ritual, um a um ali presente chega perto do Divino, se ajoelha, beija, faz alguma reverência e pede a bênção e assim sucessivamente até passar todos que estão ali presentes. Enquanto isso, são entoados cantos, um após outro, em geral de louvor, de despedida, de pedido de bênção e proteção. Após esse momento há uma pausa, e é servido bolo ou salgadinhos e refrigerante para todos.
No último dia da festa tem novamente procissão, mas tudo é voltado para o ritual da Coroação, ponto alto de toda a festa.
O ritual da coroação é uma tradição que no Maranhão foi inserida, a corte imperial, principalmente de Alcântara até toda a Baixada Maranhense incluindo o Pindaré – que ainda faz parte da Baixada Ocidental Maranhense. (D. Maria Caixeira, 15/10/2007).
Nesse ritual estão representados imagens do império. De acordo com D. Maria Caixeira essas imagens têm significados que remontam ao império português. Autores apontam que elas se diversificam dentro do Estado do Maranhão, porém o princípio básico é o mesmo: homenagear a rainha de Portugal, Dona Isabel (século XIII) de Portugal.
Explicando sua festa, Dona Maria Caixeira aponta que o cortejo do Divino em Pindaré é composto pelas seguintes representações:
Imperatriz: representa a Imperatriz da época do Segundo Império de D. Pedro II. Imperador: representa o soberano ou Imperador que governa o Império.
Pajem: é aquele que preparava os cerimoniais para receber a corte. Mordomo: administrador do palácio e organiza a festa para a corte. Mordoma: exerce os mesmos papéis.
Aia: cuida das damas e da Imperatriz.
Os Anjos: representam os guardiões da corte (guardas)
As Floristas: são as aias que jogam flores no caminho por onde passa a corte. Nossa Senhora: representa a proteção dos céus à corte.
Bandeirinhas: carregam as bandeiras e vão à frente do cortejo. São elas os
responsáveis pela animação e promoção da alegria no cortejo e durante toda a festa.
Nesse cenário, há ainda a Coroação do Divino, que na festa de D. Maria Caixeira é o momento esperado por todos os participantes e visitantes. Um grupo de crianças, que são escolhidas60 no ano anterior, e preparadas cuidadosamente pelos pais – que foi treinado anteriormente, trajam roupas finas, com cores e detalhes de acordo com a função. Essas crianças estão ornadas e rodeadas de flores para presentear o Divino. Este grupo é encarregado do cumprimento de todo o ritual da
60 A escolha é feita pela dona da festa que fala com os pais antecipadamente para saber se têm condições para
coroação. Muitos cantos, louvores, dizeres em versos – que a criança sabe também “de cor” – são recitados e externados. Os pais assistem a seus filhos orgulhosamente e cuidam para que não falte nenhum detalhe. São estas crianças que coroam o Divino. Dentre estas, a dona da festa escolhe antecipadamente uma criança para coroar o Divino (a pomba branca), em geral entre as maiores e alguém que possa aprender o canto da coroação.
Depois da coroação, a Caixa ainda rufa por toda aquela noite. Muita festa, muita gente, sejam participantes ou apenas visitantes. Ao amanhecer o dia a festa chega ao seu final. É hora de despedir-se mais uma vez do Divino. Um ritual de despedida é celebrado. As pessoas expressam sua saudade, despedem-se do Santo. “Até para o ano, se Deus quiser”, é a palavra balbuciada em quase todos os lábios dos presentes. Algumas pessoas choram, pedem a bênção, a saúde e se “for da vontade de Deus” expressam o desejo de estar vivas no próximo ano para novamente festejar o Divino, e, de forma melhor. Todos agradecem à “festeira” D. Maria, ali também já são feitos os convites das próximas festas e em muitas delas D. Maria Caixeira deve ir rezar e puxar a ladainha para a festa ficar bonita e animada. Cantam os “parabéns”, e parabenizam D. Maria pela festa tão bonita e de todos. Ela, de sua parte tece seus agradecimentos à todos que colaboraram e estiveram presentes e renova o convite para a festa do próximo ano. O Divino fica recolhido, na casa de Dona Maria Caixeira, mas fica á disposição para “andar” em outras festas que serão realizadas na cidade ou na região durante o ano. Por vezes vão só as caixeiras, outras vezes o Divino vai junto e lá vão ajudar o festeiro que convidou a cumprir sua “obrigação”. Dessa forma, o Divino é festejado e ajuda a festejar o ano todo. O Divino é visitado e vai visitar.
Ao se referir ao ritmo próprio do Divino de Pindaré com relação ao toque das Caixas, D. Maria nos lembra,
quanto ao ritmo de Pindaré é um pouco diferente do ritmo de outras regiões, os que mais se aproximam são os ritmos do Vale do Pindaré que são Monção, Cajari, e Santa Inês esses grupos existentes se aproximam mais na tonalidade das ‘Cantigas’. Mesmo assim só as Caixeiras veteranas conseguem perceber essa diferença (D. Maria Caixeira, 15/10/2007).
Essa fala de D. Maria Caixeira remete à questão da etnicidade para além dos laços sanguíneos e, ao mesmo tempo, expressão da diferenciação. Como bem expressa o pensamento de Barth (1998) em que falar em etnicidade é associá-la a processos sociais. Esses processos podem excluir ou incorporar novos elementos que asseguram significados simbólicos individual ou coletivamente, sendo que os significados equivalem à identidade.
Pelo relato de Dona Maria Caixeira, o Divino em Pindaré expressa também uma diferença, que segundo ela, é tão sutil que somente percebe quem tem “experiência no ouvido e na alma”, por isso a expressão “só as Caixeiras veteranas”. No entanto ela existe e dá um caráter que assegura uma identificação, a tal ponto de se ouvir várias vezes a exclamação: “Somos as Caixeiras de Pindaré” e quem é de Pindaré não quer ser confundido como de outro lugar.
Para D. Maria o compromisso com o grupo, o amor, a cultura e à devoção, à herança recebida de sua avó e mãe, é que a motiva a sustentar esta manifestação