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Figur 9. Fordeling på høyeste fullførte utdanning ved fylte 55 år for forskjellige fødselskohorter

O universo simbólico dos rituais que perfazem o cotidiano48 da população de Pindaré-Mirim continua sendo um dos pilares que a sustentam na produção de significados, no refazer a memória coletiva e simbólica, no ressignificar o passado na tentativa de vivenciá-lo no presente, na busca concreta de inserção político- social.

Aqui em Pindaré se brinca, se vive de verdade. O tempo a gente faz. Festa pra nós é o ano todo, pois quando não se está brincando está se preparando, arrumando, pensando o que fazer e como fazer a outra festa e todo mundo brinca mesmo. Ah, mas quando não tem festa em minha casa tem na casa do vizinho, dos colegas e a gente tem que ir lá e brincar mesmo. Pra que ficar triste? Nesse Engenho Central que foi tudo bonito, que elevou nosso povo.... ah, aí também teve muito sofrimento. Nós pretos já sofremos demais. Temos que ser hoje alegres. Em Pindaré a gente rompe a tristeza com a festa. Pindaré é assim e todo mundo sabe (Depoimento de D. Maria Caixeira, janeiro de 2006).

A expressão “todo mundo sabe” volta sempre nos discursos das pessoas quando se referem às festas em Pindaré. A leitura é que nela está embutida o desejo da população de PIndaré, de se vê refletida pelas festas, pelo lado “bonito e alegre”. Há uma preocupação para que este “cartão de visita” seja apresentado e visto assim pelos outros.

Durkheim, um dos primeiros a analisar a festa afirma que ela serve “Para revificar os elementos mais essenciais da vida coletiva” (DURKHEIM, 1996, p. 409). Para o autor, nesses momentos, são reafirmadas as crenças grupais e as regras que tornam possível a vida em sociedade. Ou seja, “o grupo reanima periodicamente o sentimento que tem de si mesmo e de sua unidade; ao mesmo tempo, os indivíduos são revigorados na sua natureza de seres sociais” (idem,ibidem)

48 Cotidiano aqui entendido conforme a visão de Alfredo Bosi em relação à cultura popular. Este autor ao

formular sobre uma teoria da cultura brasileira nos aponta “terá como matéria-prima o cotidiano físico, simbólico e imaginário [...] Nele sondará teores e valores. No caso da cultura popular, não há uma separação entre uma esfera puramente material da existência e uma esfera espiritual ou simbólica. Cultura popular implica modos de viver: o alimento, o vestuário, a relação homem-mulher, a habitação, os hábitos de limpeza, as práticas de cura, as relações de parentesco, a divisão das tarefas durante a jornada e, simultaneamente, as crenças, os cantos, as danças, os jogos, a caça, a pesca, o fumo, a bebida, os provérbios, os modos de cumprimentar, as palavras tabus, os eufemismos, o modo de olhar, o modo de sentar, o modo de andar, o modo de visitar e ser visitado, as romarias, as promessas, as festas do padroeiro, o modo de criar galinha e porco, os modos de plantar feijão, milho e mandioca, o conhecimento do tempo, o modo de rir e de chorar, de agredir e de consolar...” (BOSI, 1992: 324).

Como D. Maria Caixeira, a maioria das pessoas de Pindaré vive a festa como uma reanimação da vida, ao mesmo tempo em que pela festa se mantém de forma diferente, singular. D. Maria mostra-se uma pessoa feliz e vibra ao contar sua história e a história da cidade. Seu depoimento é cheio de emoção e mostra todo um compromisso com a imagem da cidade, com a população que para ela: “são todos seus irmãos”. Por outro lado, sua linguagem reflete um desejo intenso de superação da dor, da doença, da fome, da falta de assistência, que, apesar da festa, estão presentes em meio à população da cidade. Revela o anseio por uma sociedade pindareense igualitária. Em suma, seu depoimento é permeado da perspectiva de como a sociedade de Pindare gostaria que fosse vista pelos outros e por si mesma: viva, alegre, sem dor, sem passado escravagista.

Nesse sentido, Guarinello se refere que

a festa não é uma realidade oposta ao cotidiano, mas integrada nele [...] envolve a participação concreta de um determinado coletivo [...] distribuindo-se os participantes dentro de uma determinada estrutura de produção e de consumo da festa (GUARINELLO: IN – orgs. JANKSÓ e KANTOR, 2001, pp. 971-972).

A fala de D. Maria caracteriza a presença da pessoa com seus múltiplos interesses na dinâmica das festas em Pindaré. A festa, perpassada pela fé mostra no ambiente da cidade as múltiplas relações que subjazem tanto individual como coletivamente em sua população. A festa em Pindaré é o ápice de um conjunto de interesses que são reforçados a partir dessas múltiplas relações.

Embora com status de município há mais de seis décadas, Pindaré-Mirim, ainda hoje, continua com um perfil rural e destaca-se de outras áreas do Estado por conservar muito das tradições populares do Maranhão. Podemos constatar que a população da cidade, em geral, se considera “guardiã” da cultura maranhense. Sua religiosidade, aliada ao gosto pelas brincadeiras, danças e festas, rituais, cultivo de devoções individuais e/ou familiares, transforma as comemorações durante o ano e o seu cotidiano, em motivo especial para reavivar velhas tradições, reforçar laços de origem, incorporar novos elementos e anseios, conservar a memória.

Neste sentido, as pessoas conquistam, no domínio do ritual festivo, um espaço que lhes assegura a liberdade de reproduzir valores culturais de tradição da cidade, cujo significado para alguns tem origem mítica. O Sr. Domingos, filho-de- santo, professor, em um de seus depoimentos deixa bem expressa essa dimensão. Segundo ele,

Pindaré é místico. Pindaré tem festa por causa de nossa origem. Aqui é rodeado de lagos. Pindaré é uma ilha. Veja, no inverno só tem a pequena ponte entre Pindaré e Santa Inês o restante bate aqui no rio. Se não fosse a ponte ninguém passaria. A cidade está em cima das águas, rodeada por águas. Isso fala muito para nós dos terreiros. Aqui tudo é movido pelas leis da natureza e a água é a mães de todos os elementos da natureza. Ela orienta. Precisamos nos direcionar pela água. A cidade de Pindaré pertence a água. Todos os pindareenses somos filhos dessa água que está aqui e cerca toda a cidade. Há seres maiores que nós que regem a cidade e nós somos envolvidos por eles, por isso Pindaré é tão diferente por exemplo de Santa Inês. Quem é de Pindaré tem essa marca de água, de natureza. Por isso nossa cidade é assim (Depoimento do sr. Domingos, agosto de 2006).

Como é possível notar, a fala desse informante associa um universo místico à idéia de pertencimento. O cunho religioso dá razão também para se festejar.

Nem mesmo o deslocamento dos mais jovens para outras cidades maiores ameaça a população de Pindaré a enfraquecer suas manifestações festivas. No cenário da cidade percebemos um fluxo acentuado de saída da juventude para outras cidades. Os motivos, em geral são:

Eles precisam sair, pois, Pindaré oferece pouco para as pessoas cresceram. Se quiser uma universidade, tem que sair, se quiser um emprego melhor, tem que sair e assim.... Só que eles sempre voltam. Aqui é a mãe. Tem que vir beber de novo de nossa água para que as coisas dêem certo lá fora. Por isso, no festejo de São Pedro é muita gente mesmo. Todos os filhos da cidade que estão fora volta mesmo e vem pra festa do padroeiro, aqui recebe as bênçãos de novo para poder voltar bem. É assim, eles representam Pindaré lá fora e nós representamos eles aqui. Seguramos, quando eles voltam está tudo bonito. Aqui a gente espera por eles (D. Maria Caixeira, depoimento em 29/10/2007).

O depoimento de D. Maria Caixeira é revelador da dinâmica do ir e vir, da juventude de Pindaré. As representações estão postas, os que ficam precisam dar continuidade ao mundo simbólico que representa Pindaré, aguardam os que saíram e os representam, os que estão fora devem representar a cidade, mas precisam voltar sempre. Essa volta significa o restabelecimento do contato com as raízes e a

garantia do universo construído a partir de valores que se tornaram importantes para a manutenção da cidade em rituais festivos. É um refazer para projetar novamente. Neste sentido, é oportuna a observação de Mariza Peirano ao trabalhar o tema, ‘Rituais’. A autora concebe que "Rituais e representações formam um par indissociável. Mas, para sua sobrevivência, é necessário um grupo de pessoas, uma comunidade moral relativamente unida em torno de determinados valores" (PEIRANO, 2003: 19). Em Pindaré-Mirim verifica-se que as pessoas sentem que se pertencem, e que pertencem a um determinado grupo e com essa marca se representam a si próprio e a seu grupo.

Ao chegar a Pindaré, logo defrontamos com um clima de familiaridade. Pode- se verificar que a relação de parentesco vai além dos laços sanguíneos, o exercício da solidariedade é uma constante, a acolhida e a gratuidade são valores altos, o dispensar o tempo para o outro que chega, os caminhos que são feitos simplesmente para visitar alguém, a forma de enfrentar a dor, a morte, os conflitos no grupo, na família, na vizinhança, o sentimento de dever obrigação e de consideração. Tudo isso, ao lado de certa ostentação, gosto pelo requinte e o “manter um aspecto bem apresentado” para ser “bem visto”.

Entendemos que estes rituais, presentes no cotidiano da população de Pindaré-Mirim, são movidos pela força da visão religiosa de mundo e da concepção de que o religioso e a festa não se separam dos outros aspectos da vida. Com efeito, neste meio, perpassa uma linguagem e uma prática repleta de sentido de transcendência. Sobre esse aspecto há uma ritualização do cotidiano entremeado pela concepção do religioso, que ajuda a construir um universo simbólico festivo em Pindaré. Para sua população, as festas e a manutenção de tradições religiosas constituem uma dimensão essencial de sua vida cotidiana. Neste cenário, festas populares, devoções religiosas constituem espaços de manutenção de tradições e se tornam um ritual sagrado, ao mesmo tempo em que se transformam em uma experiência social coletiva.

Ao lado desta ritualização também em Pindaré-Mirim, pode-se perceber o mesmo fenômeno existente em centros urbanos maiores no Brasil como, por exemplo, o modelo de concentração da riqueza que sustenta as desigualdades

sociais. Decorrente desse contexto, encontram-se na cidade, classes sociais bem estratificadas.

Em Pindaré, ainda podemos notar uma relação de gênero em que os espaços reservados ao homem e à mulher são bem definidos e hierarquizados. Geralmente, as relações nas famílias são marcadas pelo estilo da família patriarcal. Esta dimensão pode ser encontrada também em meio aos grupos organizados das diversas festas na cidade. Por outro lado, em outros grupos, como por exemplo, nas festas dos Terreiros de Mina e na festa do Divino, em geral, é a mulher quem exerce o papel da liderança principal.

Foto 04: Apresentação do Bumba-Boi.

Fonte: Fotógrafo Sebastião Domingos da Silva.

CAPÍTULO IV

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No que concerne às festas levadas a termo pela população negra, não se pode ignorar, que no período colonial e imperial os chamados ‘batuques de escravos’ constituíam-se em espaço de alegria, para além da aflição da escravidão. Nesse sentido, concordamos com Tinhorão ao considerar que,

o fato de os batuques constituírem para os escravos africanos, desde o século XVI, um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais, ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão (TINHORÃO, 1988, p. 45).

E, conforme mostra Domingos Vieira Filho,

a presença atuante do português e depois do negro, sem esquecer o índio, deu as coordenadas para o processo folclórico maranhense. [...] Os cronistas da missão catequética francesa, Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux, e um pouco mais tarde o minucioso Betendorf, surpreenderam vezes sem conta os índios do Maranhão em suas folganças características danças lúdicas ou puramente rituais. Yves d’Evreux anotou em certo lanço de sua Viagem ao Norte do Brasil: ‘Vão (os) índios livremente aos Cauins, e danças públicas, enfeitando de mil maneiras o seu corpo que com pinturas, quer com penas, quando podem, pois estas soam muito caras’. E noutro passo da mesma narrativa anota o minucioso cronista capuchinho: ‘Também tem por costume, que igualmente observei, o trazerem assobios e flautas [...]dos quais arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som deles entoam seus cantos usuais, especialmente quando estão nos Cauins [...]. Por sua vez o negro transplantado da África trouxe consigo um avultado contingente do folc: instrumentos musicais, sobretudo de percussão – essa gama imensa de tambores com que assinala impressivamente sua presenças seja em simples folguedos, sejam em danças mágico-religiosas – danças variadas, quase todas, ou todas, afinando num tônus de cálido e brabo sensualismo com requebros febricitantes [...]. Do índio duramente espoliado, execrado pela conveniência de muitos e exaltado pela piedade anódina de tantos, nos ficaram algumas lendas e mitos, uma alentada toponímia, o gosto pelo milho e a mandioca, o beiju, a farinha de pau, a carimã, esse processo de curar a carne ao fogo lento, o moquém [...] e o uso da rede de dormir. O negro africano, escravo e mártir, tratado como bicho-do-mato [...] fez uma presença marcante no plano étnico e religioso. O cuxá, a dança e a música, a culinária. O escravo negro amava dançar e liberar o corpo em contorções e meneios, em requebros cadenciados ou saracoteios frenéticos. Trouxe marimba, o caxambu, o urucungo, toda uma sorte de instrumentos de percussão, fricção, membranofones ou idiofones. Nos pontos de Tambor-de-mina ou de Terecô ou nas toadas de Tambor-de- crioula, estava sempre lembrado a terra d’África distante, ligada pela memória afetiva. Quanto ao português [...] em centenas de ocorrências de folc no Maranhão nós vamos encontrar essa presença lusitana. Na culinária, na lúdica infantil, na literatura oral – novelística popular, lendas, mitos etc, - no folclore mágico-religioso, no canto e na dança (VIEIRA FILHO, 1977, p. 7-8).

Não restam dúvidas que Pindaré é festeira. A população pindareense carrega em si uma forte inclinação para as comemorações e celebrações que atravessam o ano. Os pindareenses gostam de festa. Seus festejos são marcadas, historicamente, pelo sincretismo entre o catolicismo oficial e outras manifestações de caráter popular.

4.1 A Pindaré “festeira”

Pindaré-Mirim, instante único de festa e de fé. Cidade que como o Maranhão tem aspecto peculiar por sua intensa miscigenação. É nesse espaço que sua gente com suas “coisas” - magias, encantos, lendas, nostalgia, saudade, olhar de esperança, alegria, jeito de acolher - deixa fluir o ano inteiro sua diversidade cultural, mística, festiva.

As festas populares, religiosas em Pindaré, pela cadência e regularidade, pelo número tão grande, pelo estilo, afirmam a alma e o espírito festeiro da população. Em outras palavras, nessa cidade é intenso o gosto pelos ritmos, há um requinte e uma exuberância na indumentária.

Se documentos poucos registram, se parte de sua população quer dissimular que houve negros na formação de sua sociedade, quando se trata das festas a alma do pindareense vibra, o coração rejubila e fala com orgulho como D. Maria Caixeira: “Isso aqui é de preto mesmo. O sangue corre em nossas veias e aí não tem quem pare mais. A energia que nós temos é dos nossos antepassados. Temos que mostrar lá fora quem é Pindaré hoje” (Depoimento em maio de 2007).

É possível perceber na narrativa de D. Maria Caixeira o paradoxo que persiste em meio à população de Pindaré, por um lado tende a negar a existência do negro para a formação da cidade, por outro, encontra na festa um elemento que contempla as matrizes culturais negra, indígena e nordestina, incluindo e expressando que as festas em Pindaré também estão relacionadas à história do negro. Esses elementos

estão mesclados e remetem às concepções de identidade, ultrapassando a idéia de algo acabado, determinado, estático, permanente.

O depoimento de D. Maria Caixeira remete à idéia de pertencimento e de busca de construção de uma identidade comum. Aqui não se trata de algo fixo, mas de perfazer um caminho em que pelo desejo de visualizar Pindaré por outro ângulo, sua população vai buscando formas para se identificar, com um passado sim, mas também com um presente que desconstrói as marcas negativas desse passado. É importante para a população que Pindaré seja representada para si mesmo e “lá fora”, como diz D. Maria, com características particulares. Não como terra de negros, mas como terra de festa. Sua característica foi sendo construída nos princípios da festa e do espírito festeiro. Justifica-se assim, o título deste capítulo: A “Pindaré festeira”.