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I Trekker utvandring

6. Simulering av utdanning

Autores como Ubialli (1997), afirmam que a partir do ano de 1880, a seca que afligiu todo o Nordeste impeliu um grande número de nordestinos a migrarem para o Maranhão, expandindo-se pelos territórios indígenas até a região do Pindaré. Para Ubialli esse processo provocou “o esbulho dos Guajajara de suas terras. Processo que criou certa tensão entre índios e ‘brancos” (UBIALLI 1998, p. 65).

Além disso, a construção do Engenho Central entre os anos de 1883 e 1884 acelerou o processo dessa migração nordestina para essa região. Os nordestinos furtavam-se da seca, e se sentiam atraídos pela possibilidade do trabalho assalariado, ao mesmo tempo, a Companhia Progresso Agrícola necessitava dessa mão-de-obra, portanto, incentivou e importou levas de nordestinos principalmente do Ceará e/ou grupos que, vindos do Ceará ou do Piauí passavam por Caxias do Maranhão44 e por alguns meses ali se fixavam – estes também depois de um tempo

seguiam viagem. Eram estes os nordestinos que chegaram na região do Pindaré e que, em grande parte, foram utilizados como força de trabalho, de modo especial na construção da grande fábrica do Engenho Central.

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Na visão de Andrade (1969), ‘Os nordestinos que migravam para o Maranhão, o faziam geralmente por terra, atravessavam o rio Parnaíba em dois pontos, Teresina e Floriano. Os que chegavam por Teresina se dirigiam para Caxias, cidade que desde a sua fundação como Aldeia de índios, a antiga Aldeias Altas, tornou-se um pião nas comunicações entre o Norte do Maranhão e as terras do Piauí e da Bahia’ (ANDRADE, 1969, p. 82).

Do ponto de vista cultural, a população do Maranhão, à época, era constituída majoritariamente pelo contingente negro, seguida dos, assim chamados, caboclos maranhenses45 e pelos remanescentes indígenas. A chegada do elemento

nordestino na região acarretou em choques e conflitos culturais entre a população existente e o recém-chegado.

O caboclo maranhense vivia numa economia de subsistência, sem a preocupação de buscar outras terras, pois ali tinha a terra devoluta e chovia o suficiente para preparar o solo para plantar o necessário do dia-a-dia. Em geral, vivia à sombra das palmeiras para daí retirar o que podia para a sua sobrevivência. Pela forma com que adentrou o interior, por meio de embarcações, esse caboclo maranhense é idêntico ao caboclo do Amazonas.

Segundo Andrade,

O clima quente e excessivamente úmido o inibia de trabalhar, e de um esforço constante e organizado e ao mesmo tempo a natureza oferecia facilmente os alimentos indispensáveis à manutenção. [...] por isso ele é um estático, um homem que não se preocupa em armazenar para o dia seguinte porque sabe que terá facilmente alimento ao alcance da mão; é desambicioso, é desencorajado para a luta [...]. Valverde o considera um vencido, afirmando que ‘a condição de dependência econômica, a tradição escravagista e a indolência o derrotaram (ANDRADE, 1969, pp. 75-76).

As descrições de Andrade colocam o caboclo maranhense como de fato um indolente, sem coragem e sem inciativa para a luta pela vida, em que nem a mata nem o cerrado o atraem para uma exploração a fim de retirar sua sobrevivência. No entender do autor, esse elemento nativo, “ficou à margem do rio, no meio do babaçual e nos campos, onde o alimento era abundante e o índio dificilmente vinha atacá-lo” (ANDRADE, 1969, p. 76).

Para aquele que chegava, à primeira vista, era possível que ficasse surpreso, com essa atitude de “inatividade” ao lado de tamanha exuberância e recursos que a

45 Seguimos as discussões de Andrade (1969), ao considerar que ‘A palavra caboclo não é empregada aí, no

sentido étnico, significando o resultado do cruzamento do índio com o branco, mas no sentido etnológico, cultural, muito usado na região, indicando apenas o homem pobre e inculto que vive no campo e trabalha no meio rural. Este grupo maranhense é formado por caboclos autênticos e por numerosos mulatos de vez que com o surto algodoeiro da segunda metade do século do século XVIII, o negro passou a ter grande influência na população maranhense’ (ANDRADE, 1969, p. 75).

natureza oferecia. Contudo, se continuasse por mais tempo poderia passar a vê-la de modo diferente, como algo decorrente de fatores históricos e culturais. Em outras palavras, depois de um tempo de convivência, aprenderia as regras que regem a ocupação daquela região, que definem os domínios e dotam de sentido a vida de todos ali. Com o decorrer do tempo, ele iria captar a lógica da população da região do Pindaré, assim como, o caboclo maranhense iria assimilar alguns traços daquele que chegou à Região. Isto não aconteceria como algo automático e de forma rápida ou até mesmo organizada. Antes, exigiria muitos esforços das duas partes, o que foi sendo assimilado e incorporado mutuamente significou fruto de um processo lento, norteado por intensos e constantes conflitos.

A região do Pindaré é exemplar, pois nela, de modo especial, está inscrita a história da migração nordestina para o Maranhão. Ela não é apenas um local de aventuras de senhores, de fazendeiros, de detentores do poder, onde os horrores da escravidão, indígena e negra, tiveram seu ponto de culminância.

A respeito do caboclo maranhense Andrade afirma que,

o sistema econômico não lhe abria possibilidades de trabalho compensador. Os estímulos para o trabalho eram mínimos, os proprietários monopolizavam a terra e não ofereciam salários compensadores, o que podia obter com um dia de trabalho era menos do que o alimento que obtinha em algumas horas de caça ou de pesca; não convinha, portanto, trabalhar (ANDRADE, 1969, p. 76).

O autor continua a descrever o cenário que compõe o interior do Maranhão e a vida desse indivíduo, o caboclo maranhense. Informa que se alimentava de animais e caça do mato, da pesca que lhe era abundante, que tirava da floresta o açaí, a bacaba e muitas outras frutas que serviam tanto como bebida alimentícia como para fabricação de remédios, fazia a coleta do coquilho do babaçu, além de trabalhar em pequenas roças com o cultivo do arroz, milho, mandioca e feijão. O babaçu era vendido a preço irrisório, permitindo a exploração dos grandes proprietários e comerciantes.

Outros povos com outras culturas também vieram e se apropriaram dessa região no Maranhão, porém o migrante que mais se sobressaiu e deixou suas marcas foi o nordestino.

A atração de riqueza fácil e a ausência do perigo de ataques dos indígenas pacificados, fizeram com que convergissem em larga escala para a região, brasileiros de todos os Estados, sobretudo cearenses, e estrangeiros com línguas e costumes os mais variados, sírios, judeus, franceses, espanhóis, chilenos, norte-americanos, negros de Barbados, portugueses e guianeses (ANDRADE, 1969, p. 77).

Uma trajetória de muito trabalho, muito suor, labuta, sofrimento, dificuldade de adaptação era constante nos imigrantes nordestinos que ali chegavam. Na

concepção de Andrade,

o nordestino tem uma psicologia bem diversa do caboclo maranhense. Ele vem do Leste, do Piauí, do Ceará, do Rio grande do Norte, da Paraíba, de Alagoas e da Bahia. Geralmente não é oriundo da Mata, mas do Sertão ou do Agreste. Não está estigmatizado pela tradição escravagista, uma vez que nos sertões onde domina a pecuária, a escravidão não teve grande expressão econômica. O nordestino que se retira de sua terra vem premido em parte pela seca e em parte pelas condições do meio e as injustiças sociais. Os mais fracos ou mais dóceis temem a aventura, os riscos da migração e fixam-se à terra submetendo-se às privações oriundas das condições naturais e sociais. O migrante quase sempre ou é um homem de espírito independente, desejoso de conquistar melhores dias, ou é um homem que foge premido pelas circunstâncias; cometeu algum crime e foge à sua punição. Por isso o nordestino, que é numeroso nos altos cursos do Mearim, do Grajaú, do Pindaré e do Turiaçú [...] é considerado como mais altivo e é mais respeitado do que o caboclo maranhense (ANDRADE, 1969, pp. 81-82).

Quem migrou, se aventurou e buscou novas possibilidades para além de qualquer dificuldade. Queria terra para trabalhar, condições, espaço de sobrevivência, circunstância que a região do Pindaré oferecia.

O choque cultural foi inevitável, mas como quaisquer outros migrantes, os nordestinos buscaram formas de adaptação, aderiram a determinadas práticas culturais e sociais, mantiveram outras por achá-las melhores, e nesse sentido, o trabalho de adaptação à nova região foi lento e ardoroso, independentemente de qual estado ele tivesse vindo.

Da mesma forma, o nativo, o caboclo, os negros, que à época constituíam a maioria da população, não sem muito esforço, entraram num processo de negociação, ora acolhendo, ora rejeitando, ora estranhando a nova cultura trazida pelo elemento nordestino. Aplica-se aqui a noção de ethos e visão de mundo discutida por Geertz (1989) na qual o autor mostra que,

os aspectos morais (e estéticos) de uma cultura, os elementos valorativos, foram resumidos sob o termo ‘ethos’, enquanto os aspectos cognitivos, existenciais firam designados pelo termo ‘visão de mundo’. O ‘ethos’ de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético, e sua disposição é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete. A visão de mundo que esse povo tem é o quadro que elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito de natureza, de si mesmo, da sociedade (GEERTZ, 1989, p. 93).

Esta noção torna-se eficiente nesse contexto de encontro do nordestino com o caboclo maranhense. Na interação entre esses dois grupos, há um confronto de

ethos diferentes, onde o nordestino, por sua condição de estar disposto a tudo, por

vezes consegue fazer prevalecer sua visão de mundo, assim como, tende a considerar seu ethos como superior.

O nordestino, ao se deslocar para o Norte, no caso, para a região do Pindaré, e confrontar-se com um grupo diferente, toma uma consciência incômoda de seus costumes. As maneiras como tratam o caboclo maranhense e as maneiras como, por vezes, são tratados por estes são o reflexo desse enfrentamento com o outro.