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In document Utsiden av livet (sider 90-97)

Ao concluirmos esta série de análises sobre a mudança no perfil de textos selecionados pela Revista de Occidente, inserindo o periódico no debate sobre a elaboração de um projeto político para a Espanha dos anos trinta, é preciso esclarecer alguns pontos acerca das implicações deste discurso dentro e fora da publicação. Ao analisarmos algumas posições ideológicas, devemos ter o cuidado de observar a diferença entre a construção de um discurso característico da R. de O. e a identificação de todos os colaboradores, ou de todos o textos, com a perspectiva da publicação. Por contraditório que pareça, não podemos afirmar que os textos publicados apresentam exatamente a mesma perspectiva ou defendem as mesmas ideias, mas também não podemos concluir, por isso que se tratam de textos de um amplo leque de teorias, que corroborariam a idéia de a R. de O. foi uma publicação “permeável e disponível”

(LOPEZ CAMPILLO, 1972, 250) a todos os debates intelectuais de seu tempo, abrindo espaço para diversas correntes de pensamento atuais.

Se Bertrand Russell e a defesa de uma libertação do amor, Giménez Caballero e a adoração feminina a São José, Jung e a diferença entre o Eros feminino e o Logos

masculino, ou Rosa Chacel e a crítica a Jung, sem mencionar os diferentes intelectuais que usam o método fenomenológico (Hartmann, Klages, Katz), não constituem precisamente uma corrente filosófica única ou mesmo um grupo de intelectuais com uma atitude única (exemplo disso serão as diferentes posições tomadas em relação à Segunda Guerra, por exemplo) também não podem escapar a um certo perfil de intelectual conservador burguês, preocupado com os rumos da Europa do pós-guerra, imprensada de um lado pelo novo modelo americano e de outro pela revolução soviética.

Ao mesmo tempo, essa relativa diversidade de colaborações reflete a necessidade da existência de certa “polêmica”, de questionamento, como exigência do processo intelectual de construção do conhecimento. Uma revista cultural, antenada com as novidades do seu tempo não deveria se furtar ao debate, embora na verdade este esteja sempre filtrado pela polêmica que se permite instalar na publicação, a partir, tanto da seleção dos artigos de colaboradores notáveis, quanto da orientação das notas publicadas pelo grupo da revista.

Assim, não importam demasiado as diferentes opiniões expostas desde que permaneçam dentro do perfil ideológico da R. de O, responsável pela manutenção de um espaço hegemônico dentro do campo intelectual espanhol. O sistema absorve as diferenças e a vida continua: o que não se pode é escapar muito desta perspectiva, romper os fundamentos da sua unidade. Este constituiu um dos problemas do êxodo de colaboradores a partir de 1930. Como dinâmica própria das revistas culturais, o seu caráter de instância coletiva leva em si mesmo as tensões que provocam os movimentos de rupturas, deserções e os novos recrutamentos. (ALTAMIRANO; SARLO, 1983, 97)

Uma das questões oriundas de um primeiro contato com os volumes de 1930, 1931 e 1932 que nos chamaram a atenção foi a diminuição do número de páginas de cada volume. A publicação, cujas edições trimestrais55 de 1929 tinham cerca de 400 páginas, chega a ter no primeiro semestre de 1931 dois volumes com 320 páginas. Isto é perfeitamente compreensível se observarmos que este é o período do surgimento da 2ª República, e que pode ser um indício de uma série de novos interesses por parte dos colaboradores.

No entanto, fenômeno mais significativo e complementar, em nossa opinião a este movimento foi a diminuição do número de notas publicadas a partir de julho de

55

Vale lembrar que o nosso corpus foram as edições da Revista de Occidente organizadas em edições trimestrais, organizadas pelas “Juntas de Relaciones Culturales” do governo espanhol.

1931. Os volumes dos anos de 1929 continham uma média de 400 páginas, com 116 textos (57 artigos e 59 notas), em que se observava um certo equilíbrio entre o número de artigos e o de notas publicadas. No entanto, após julho de 1931, e principalmente em 1932 o número de notas se reduz consideravelmente, chegando a apresentar edições sem elas (fevereiro e abril não tinham notas e os meses de março, maio, agosto e setembro têm apenas uma). Poderíamos atribuir tal diminuição à participação do grupo de Ortega em torno da nova Constituição, fato plausível somente se o auge da redução se concentrasse nas edições de 1931 e não nas de 1932. No entanto, a hipótese mais correta aponta para o fenômeno de transição de colaboradores, marcada por uma relevante debandada no biênio1930/1931 e cujo espaço só seria preenchido em 1932/3356.

Paralelamente às mudanças internas oriundas dessa redefinição do projeto da revista, procuramos observar a origem desta mudança. Em nossa dissertação de mestrado, observamos como a fenomenologia se constituía como um suporte filosófico para a R. de O. e como esta, apesar do seu relativismo, era uma tentativa de recolocar o lugar do homem e da verdade no mundo em meio a um caos de teorias e idéias irracionalistas, de um lado, ou positivistas do outro.

Han caído las concepciones idealistas – religiosas y metafísicas – y tampoco puede sostenerse ya la concepción materialista que las arruinó [...] El hombre

actual vive en contradicción interior – de la que esta multitud de doctrinas es, simplemente, el reflejo -, separado de la vida por la excesiva

intelectualización y mecanización de su cultura y, sin embrago, sumido en la vida. (VELA, R. de O., t. XXIX, set. 1930)

56 A seguir colocamos uma lista de colaboradores que deixam a revista e outros que começam a publicar.

Entre parênteses o período de colaboração. Fonte: LOPEZ CAMPILLO (1972, 75)

1. Grupo dos que deixam a revista- Francisco Ayala (1927-1931), M. Fernández Almagro (1924-1931), Giménez Caballero (1924-1930), Ledesma Ramos (1929-1930), Rosa Chacel (1927-1931), Rafael Alberti (1925-1929), Valentín Andrés Alvarez (1925-1931), García Lorca (1926-1931), Antonio Machado (1923- 1931)

2. Grupo dos que entram – Lino Novás Clavo (1932-1936), José Antonio Maravall (1933-1936), Antonio de Obregón (1931-1935), María Zambrano (1933-1935), Ricardo Gullón (1935-1936), José Antonio Muñoz Rojas (1934-1935), Xavier Zubiri (1933-1936), José Gaos (1935), Julián Marías (1936). Eugenio Imaz (1936), José Moreno Villa (1930-1935) y Manuel Altolaguirre (1931-1932)

Para uma maior explicação acerca da definição do grupo de colaboradores da Revista ver SANTOS, 2005, cap. 3.2.

Neste contexto de “urgência vital”, nada mais normal que a procura pela

redefinição de conceitos. Por isso ainda que os textos citados não respondessem da mesma forma às questões postas, a busca por uma ciência, ou melhor, a necessidade de se fazer ciência na Espanha, revestia de importância a Revista de Occidente como um suporte, um meio de comunicação da elite, que não poderia, ou não queria, mais sustentar a sua posição somente no debate estético. Em uma entrevista de Fernando Vela a Ortega aquele lhe pergunta por que tinha abandonado as questões estéticas que nunca faltavam nos seus textos. E Ortega respondeu: “-No los he abandonado yo solamente; los ha dejado el mundo, y yo acompaño a la naturaleza, como, según Goethe, se debe hacer. (VELA, 1933, xvi)

Da mesma forma, a R. de O. “abandonava” a análise estética da arte de

vanguarda que se distancia das massas, representada pelo ensaio “La deshumanización

del arte”, e passava a se dedicar à conceituação teórica, sob o seu ponto de vista, da “constituição histórica do massivo [...] ligada ao longo e lento processo de gestação do

mercado, de Estado e da cultura nacionais.” (MARTIN-BARBERO, 2008, 132)

Agora bem, ao fazer esta operação não se pode negar que nos referidos anos apareceram uma série de textos que se relacionariam diretamente com a questão tanto do nazismo, em franca ascensão, quanto do fascismo espanhol posterior. Ao analisar os processos constitutivos da massa, a revista caiu em conceitos como eugenia, superioridade da raça alemã ou estado total. É certo que não se pode estabelecer uma relação direta entre os artigos de Karl Schmitt, ou mesmo os de Gimenez Caballero e as ideias de Ortega y Gasset, ou de Fernando Vela. O próprio Ortega na Rebelião das massas se distanciava do populismo das tendências nacionalistas57. Mas se Ortega nunca se atribuiu uma filiação falangista durante sua campanha por um partido

57

Não importa aqui o teor exato do distanciamento entre a concepção orteguiana e as políticas de Mussolini ou Hitler.

nacional58 ou nos seus discursos cada vez mais severos contra a República, a partir do

final de 1931, parece que o filósofo soube se deter “en la puerta del infierno”

(ELORZA, 2002, 210), não se pode negar que vários aspectos do seus textos permitiam uma interpretação em termos fascistizantes. Toda a elaboração fascista a partir das leituras de Ortega foi obra dos próprios fascistas (SAZ CAMPOS, 2003, 99), mas não se devemos esquecer o fato de que este fértil material estava ali, disponível para uma parte importante da intelectualidade espanhola, passado pelo crivo de hierarquia e clareza, ou seja, atestado pela autoridade da Revista.

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