Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome, de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais...
(CAETANO VELOSO)
A questão agrária causada por uma grande concentração de latifúndios88 em áreas rurais dessa região é um grave problema para os países andinos. Para Galeano (2005) a escassez de terras coletivas é “um dos fatores primordiais da marginalização e da pobreza das massas latino-americanas” (p.84). O que se constata é que existem amplas extensões territoriais monopolizadas por poucos proprietários, e um grupo grande de pessoas que
lutam pela preservação ou pelo acesso à terra: “trabalhadores rurais das mais diversas
categorias lutavam e continuam a lutar pela posse e uso da terra; pela conservação,
conquista ou reconquista da terra” (IANNI, 1993, p.55).
Um dos povos mais afetados pelo sistema agrário predominante é o indígena,
porque além de possuírem uma relação sagrada com a terra, também são a “maioria entre
as massas populares de algumas nações-Estado da América Latina”89 (BROTHERSTON, 1997, p.22). Segundo Mariátegui (2004) o maior problema do índio está fundamentado na forma de repartição baseada no privilégio exclusivo e individual da terra; assim sendo,
88 “Grande extensão territorial, propriedade de uma pessoa que não trabalha a terra. Esse sistema foi trazido pelos espanhóis como principal forma de organização agrícola” (BLANCO, 2002). // “Gran extensión
territorial, propiedad de una persona que no trabaja la tierra. Ese sistema fue traído por los españoles como principal forma de organización del agro” (BLANCO, 2002).
89“mayoría entre las masas populares de algunas naciones-Estado de América Latina y luchan para que se respeten sus territorios” (BROTHERSTON, 1997, p.22).
afirmou ainda que, embora estivesse no início do século XX, existia reminiscência do feudalismo na América Latina, configurada em dois aspectos interligados – latifúndio e servidão – e pertencentes à herança medieval trazida pelos conquistadores: “Manifestações solidárias e consubstanciais, cuja análise nos leva à conclusão de que não é possível acabar
com a servidão que pesa sobre a raça indígena, sem extinguir o latifúndio” (p.34). Sendo
assim, ainda de acordo com Mariátegui (2004), as comunidades indígenas não alcançarão justiça enquanto prosseguir um sistema econômico baseado no latifúndio e, por conseguinte, na servidão.
Cabe destacar que quanto maior for o êxito da grande propriedade agrícola, mais intensa é a exploração de mão-de-obra. Nesse cenário os indígenas são vítimas de “uma ordem econômica e social onde desempenham o duro papel dos mais explorados entre os
explorados” (GALEANO, 2005, p.71). Os grandes proprietários geralmente têm a garantia
legal para abusar desses povos, muitas vezes prevalecendo-se da servidão por dívida, pois
o “trabalho gratuito é proibido por lei e, no entanto, o trabalho gratuito, e mesmo o trabalho forçado, sobrevivem no latifúndio” (MARIÁTEGUI, 2004, p.23).
Antes da chegada dos conquistadores à América, a maior riqueza dos Incas era a terra, elemento de grande importância para suas comunidades, por ser o seu principal meio de sobrevivência. Por conta do vínculo que eles possuíam e continuam tendo com o seu espaço, a concentração da terra nas mãos de poucos latifundiários provoca um grande problema agrário no Peru.
Diante desse panorama, Mariátegui (2004) ressalta que a elite peruana tentou vincular o indígena a temas raciais, religiosos e morais, entre outros; porém, o autor
entende que na base de todos os demais problemas está a questão agrária: “Não nos
amor, e ao céu. Começamos por reivindicar, categoricamente, seu direito à terra” (p.83), pois “a questão indígena emerge de nossa economia. Suas raízes estão no regime de propriedade da terra” (p.21).
A servidão e os conflitos agrários existentes na região provocam uma profunda pobreza, visto que sem a terra, principal fonte de alimento e vida para as comunidades indígenas dos Andes, esses povos perdem sua principal base identitária. A ausência de espaço para cultivar gera a fome, fiel companheira dos afetados pela falta de acesso à terra, ciclo retratado em El jinete insomne: “– Los hombres tienen una sombra. Nosotros tenemos
dos: el hambre nos sigue donde vamos (…). El hambre es el único perro que me siguió”
(JI, p.179-80). Nesse trecho, a fome é comparada à imagem da sombra ou a de um cachorro, ambos possuem um valor correlato aqui, pois não se afastam de seus donos.
A fome também pode simbolizar a servidão dos trabalhadores rurais, que cuidam das plantações para seus patrões, mas não podem tocar no cultivo: “–Animal feo es el hombre: el único que muere de hambre mirando el alimento que por miedo no se atreve a tocar” (JI, p.182). Esse fragmento cria uma imagem muito próxima a outra encontrada em
versos de uma letra de música: “Sabe lá / O que é morrer de sede em frente ao mar / Sabe lá”90
. Nas duas imagens, existe algo funcionando como impedimento para a saciedade da fome ou da sede. Na primeira está retratada a força do latifúndio e na segunda o sal marinho. Em ambas, conforma-se um paradoxo representado pelas ações de “ver” e
“sentir”, mas não poder comer e beber.
Dentro de um contexto, como esse, a única via para romper com a exploração dos povos originários é a da organização indígena. Embora o enfrentamento exista desde o
início da colonização, seria preciso continuar planejando ações para, por meio da luta, garantir a vida e o trabalho.
Nos romances em estudo, essas mobilizações são vistas de formas diferentes. Elas são denominadas de acordo com a perspectiva e camada social a qual cada grupo pertence, fato que provoca um confronto semântico em relação ao valor de alguns vocábulos como
“expropriação”, “invasão” e “recuperação”.
O uso do termo “expropiación” por alguns personagens é questionado por outros,
porque se o objetivo da mobilização indígena é garantir o direito de acesso à terra de seus
antepassados, não se trataria de “expropiación‟, mas de “recuperación”: “Un dueño no
suplica por lo que es suyo: recupera” (CAR, p.176).
Outro termo empregado nesse contexto é “invasión”, mas sua utilização está restrita
aos representantes do poder instituído e aos agentes de repressão:
No invadimos tierra ajena: recuperamos. Estas tierras nos pertenece desde 1705 (CAR, p.196).
La palabra invasión no cabe, mi comandante. Nosotros no invadimos: recuperamos las tierras de nuestros antepasados (TR, p.219).
Já “recuperar” é uma palavra tão significativa que com base nela são formados diversos grupos intitulados de “Comité de Recuperación de Tierras”, cuja estrutura opera
como núcleos importantes de organização da luta indígena.
Um artefato a ser combatido e eliminado pelos movimentos de recuperação da terra é a cerca de arame farpado, símbolo do latifúndio, que constitui uma reprodução da desigualdade social, bem como um elemento de domínio que isola e segrega, ao representar a demarcação de um espaço privado e, ao mesmo tempo, um obstáculo para a
coletividade. A cerca também produz um sentimento de perda de liberdade por violar a relação existente entre índio e natureza.
Na pentalogía scorziana, a “Companhia” mineradora, além de explorar minerais,
investe também na criação de ovelhas para compensar os momentos de baixa do valor dos recursos naturais explorados. Por conta da grande extensão de terra necessária para a pastagem de milhares de ovelhas, a mineradora investiu na expansão de seus limites territoriais, construindo uma gigante cerca, que é representada, na primeira narrativa desse conjunto de obras, como algo interminável que se estende até o infinito:
–El Cerco tiene más de cien kilómetros (…); el alambrado empieza en San Mateo (…);
en el kilómetro doscientos del camino a Lima.
–¿Quién es el dueño? (…)
–Es la compañía „Cerro de Pasco Corporation‟. –¿Cómo sabe usted?
–Yo tengo amigos choferes. (…) –¿Y dónde termina? (…)
–No termina (…); quieren cercar el mundo (RR, p.92).
La pampa no era infinita, el Cerco, sí (RR, p.169).
Rancas é uma região pastoreira e as consequências geradas por essa “cerca”
atingem humanos e animais, pois os pastos e os lagos que servem para saciar a fome e a sede estão cercados e, portanto, muitos animais também morrem pela falta de acesso ao alimento ou à água:
Septiembre encontró más de treinta mil ovejas muertas. Ensordecidas por el estruendo de su desgracia, los pueblos sólo sabían llorar. Sentados en el mar de lana de sus ovejas moribundas, sollozaban, inmóviles, con los ojos fijos en la carretera (RR, p.110).
–¡Han cercado Rancas! ¡Han cercado Villa de Pasco! ¡Han cercado Yanacancha! ¡Han
cercado Yarusyacán! ¡Encerrarán el cielo y la tierra¡ ¡No habrá agua para beber ni cielo para mirar! (RR, p.140).
A “cerca” também infringe a liberdade de ir e vir, pois altera significativamente os
caminhos utilizados pelos moradores da região e, por conseguinte, prejudica a mobilidade dos habitantes daquele espaço:
La pampa quedó dividida. El Cerco cortó la planicie. Pueblos que antes quedaban a una hora de viaje, ahora distaban cinco (RR, p.52).
La pampa fue siempre de los caminantes. Ahora la tierra, toda tierra conocida, envejecía soltera detrás de un cerco que los pies de ningún humano eran capaces de seguir. Los pueblos más cercanos distaban jornadas (RR, p.201).
Os dois fragmentos anteriores remetem ao aumento da distância geográfica por
conta da “cerca”. No primeiro o tempo de uma viagem é multiplicado por cinco. Aqui, a
divisão é retratada como um corte. No segundo os povoados próximos, ficaram bastante afastados.
No seguinte trecho: “„La Cerro‟ clausuraba el único paso libre. Las tres cuartas partes del ganado habían muerto. La pampa era un osario colosal” (RR, p.203) surge uma
imagem que dá a dimensão dos problemas causados pela expansão da “cerca” representada
na quantidade expressiva de ossos provenientes de tantas mortes.
Podemos estabelecer uma analogia entre esta “cerca” e os “muros de cerca”
descritos por De la Vega em seu referido livro, no capítulo “Tres muros de la cerca, lo más admirable de la obra”:
...feitos em forma de arco de ferradura, porque se fecham e se juntam com o outro muro polido que está além da cidade. No primeiro muro daqueles três quiseram mostrar a força de seu poder, que embora todos os três sejam do mesmo tipo, aquele tem a grandeza (...), onde puseram as pedras maiores, que tornam incríveis o edifício para quem não o havia visto, e espantável a quem o olha com atenção, se fosse considerada a grandeza, e a aglomeração de pedras, e a pouca ferramenta que tinham para cortá-las, trabalhá-las e assentá-las na obra91 (1991, p.144, Vol.II).
Um sacerdote, natural de Montilha, que foi ao Peru, depois que eu estava na Espanha, e voltou em pouco tempo, falava desta fortaleza, particularmente da monstruosidade de suas pedras, me disse que antes de vê-las jamais imaginou acreditar que fossem tão grandes como haviam lhe dito; e que depois que as viu lhe pareceram maiores que a
fama, (…) nisso aquela obra excede as sete que escrevem por maravilhas do mundo,
91“…hechos en forma de media luna, porque van a cerrar y juntarse con el otro muro pulido que está a la parte de la ciudad. En el primer muro de aquellos tres quisieron mostrar la pujanza de su poder, que aunque
todos tres son de una misma obrar, aquél tiene la grandeza (…), donde pusieron las piedras mayores, que
hacen increíble el edificio a quien no lo ha visto, y espantable a quien lo mira con atención, si considera bien la grandeza, y la multitud de piedras, y el poco aliño que tenían para las cortar, labrar y asentar en la obra” (1991, p.144, Vol.II).
(…) uma muralha tão longa e larga como a da Babilônia, e um colosso de Rodes, y as pirâmides do Egito, e as demais obras…92 (1991, p.145, Vol.II).
Cada cerca tinha seu parapeito de mais de 772 mm de longitude em altura, de onde se podia lutar com mais proteção do que em campo aberto93 (1991, p.145, Vol.II).
Conforme a descrição anterior, os muros incaicos eram vistos como grandiosos, comparáveis as “Sete maravilhas do mundo”. No critério tamanho, podemos dizer que os
muros existentes no Império Inca e a “cerca” retratada nos romances em estudo são
extraordinários, porém o muro possui beleza artística e a “cerca” não. No entanto, o que diferencia significativamente os dois é o papel que exerce cada um. Os muros incaicos tinham o objetivo de preservar o povo indígena, figurava como uma muralha de proteção,
já a “cerca” exerce a função de intimidar, de investir contra os índios, de defender a
arbitrariedade e os excessos de uma empresa estrangeira amparada pelo governo peruano.
Por esse objetivo, esta “cerca” é um elemento a ser eliminado na luta contra a propriedade privada da terra e a favor do seu uso coletivo. Combatê-la é também lutar pela sobrevivência, porque rompê-la significa muito mais do que recuperar terras usurpadas por empresas estrangeiras ou pela ampliação do latifúndio, expressa também a superação de uma condição de sofrimento e de miséria, pois:
…un cerco es un cerco; un cerco significa un dueño (RR, p.65).
–En esos lugares nunca se conocieron cercos (…). Nosotros nunca supimos lo que era
un muro. Desde nuestros abuelos, y aun antes, las tierras eran de todos. Ni alambrados, ni cercos, ni candados conocimos hasta que llegaron los gringos (RR, p.229).
92“Un sacerdote, natural de Montilla, que fue al Perú, después que yo estoy en España, y volvió en breve tiempo, hablando de esta fortaleza, particularmente de la monstruosidad de sus piedras, me dijo que antes de verlas nunca jamás imaginó creer que fuesen tan grandes como le habían dicho; y que después que las vio le
parecieron mayores que la fama, (…) en esto excede aquella obra a las siete que escriben por maravillas del mundo; (…) una muralla tan larga y ancha como la de Babilonia, y un coloso de Rodas, y las pirámides de Egipto, y las demás obras…” (1991, p.145, Vol.II).
93“Tenía cada cerca su antepecho de más de una vara en alto, de donde se podía pelear con más defensa que al descubierto” (1991, p.145, Vol.II).
Além da “cerca” outros elementos presentes nos fragmentos anteriores tratam do uso particular da terra como “dono”, “muro”, “arame farpado”, “cadeado”, todas essas
palavras poderiam ser consideradas como símbolos do domínio privado.
Pelo fato de a “cerca” se estender para atender a ambição de uma companhia que
representa um forte poder econômico imperialista e interesses estrangeiros, com a conivência do governo peruano, a luta dos camponeses contra essa expansão travou-se de
forma totalmente desigual, já que essa “cerca” possuía uma estrutura forte e poderosa por
detrás de si. Ainda assim alguns ranquenhos, inicialmente, apelaram para o socorro divino, suplicando ajuda para deter a sua expansão e aplacar os seus efeitos: “Rancas, arrodillada, alzó las manos inútiles hacia los cerrados labios de Dios” (RR, p.78).
Não obstante, foi dentro da própria igreja, por meio do Padre Chasán, que eles tomaram conhecimento de que não podiam contar somente com a ajuda de Deus, portanto, teriam de enfrentar a cerca com bravura: “–El Cerco no es obra de Dios (…). Es obra de los americanos. No basta rezar. Hay que pelear” (RR, p.110).
A ampliação da “cerca” realizada pelos grandes proprietários rurais também
contribuiu para a gradativa perda de espaço de cultivo, porque na mesma medida em que as terras dos fazendeiros aumentam as comunitárias diminuem, pois aos poucos: “…los hacendados se han apoderado de casi todos los pastales” (GI, p.24-5).
Nesses romances, a fazenda do Juiz Montenegro é a que mais se apropria indevidamente de terras comunais, ela “avanza a costa de la impotencia de nuestro pueblo desamparado” (CAR, p.55-6), representando, desse modo, a ganância desmedida, como relata Héctor Chacón “cuando yo entré en la cárcel (...) nuestras tierras eran el doble. En cinco años Huarautambo se las ha tragado” (RR, p.25).
Por serem as terras indígenas de uso coletivo, a “cerca” é um elemento estranho à comunidade e altera completamente a forma de vida do lugar, começando por privar as pessoas do contato com o solo, e por transformar a dinâmica social de um espaço que antes atendia as necessidades básicas de um grupo de pessoas e agora serve de recurso exclusivo para satisfazer os interesses de uma empresa mineradora e dos grandes proprietários rurais.
No entanto, o resultado dos mais diversos intentos de resistir à perda das terras coletivas é a intensa repressão. Diante de tantas mortes, os cemitérios ganham destaque
dentro das narrativas. Desde o “Prólogo-Noticia” do primeiro livro de La guerra silenciosa
aparece alusão ao cemitério: “…la „Cerro de Pasco Corporation‟, por cuyos intereses se fundaron tres nuevos cementerios, arrojó, en su último balance, veinticinco millones de dólares en utilidad” (RR, p.11).
Esse fragmento demonstra a consequência da luta indígena: sempre termina em morte e multiplicação de cemitérios. E, ao revelar os altos ganhos advindos da exploração mineira, estabelece um contraponto entre o aumento do lucro da empresa e a inauguração de novos cemitérios, estabelecendo um valor de causa e consequência entre o lucro e as mortes. Nessa perspectiva, para que os ganhos financeiros sejam significativos é preciso matar quem estiver no caminho de sua expansão territorial.
Outras mortes são provocadas pelo conflito existente entre camponeses e fazendeiros. Os grandes proprietários rurais tentam anular a mobilização indígena contra o sistema latifundiário, a ampliação das fazendas a custo da diminuição das terras comunais, as que não têm um dono específico e pertencem à comunidade. Nesses confrontos, muitas vezes as vítimas são enterradas em cemitérios encontrados dentro das próprias fazendas, como observa um personagem de El jinete insomne: “–Conozco decenas de cementerios donde los hacendados mandan enterrar a sus víctimas” (JI, p.133).
Além de ser o resultado da atrocidade cometida contra os índios e suas reivindicações, o cemitério simboliza também o único espaço de terra reservado para esse povo: “las invasiones acababan recuperando tierra solamente en los cementerios” (TR, p.84). Somente a morte pode garantir efetivamente ao camponês o acesso a um pedaço de chão. Entretanto, os efeitos dos conflitos agrários não atingem exclusivamente os indígenas. O sofrimento é também estendido aos animais:
Desgraciados no sólo eran los hombres: por el Abigeo le constaba también los sufrimientos de los animales (RR, p.189).
…los caballos también lloran (…), padecen y sufren como los hombres sentenciados a
existir (GI, p.265).
Irmanados pela dor, humanos e cavalos se unem para reagir contra as crueldades –
“violência acrescida de todo tipo de excesso” (SOARES, 2009, p.200) – de que são
vítimas. A insurreição dos cavalos é organizada pelo Abigeo, detentor do dom de se comunicar verbalmente com esses animais, e conta com a ajuda do Ladrão de Cavalos. Os dois juntos:
…organizaban una insurrección de equinos en Yanahuanca. Pacientemente, el Abigeo
explicaba a los caballos de la provincia los mundiales alcances de la conjura (RR, p.198).
Os cavalos se sensibilizam com a causa:
…con los ojos mojados, (…) entendían que se acercaba la aurora de las pampas libres.
Solemnemente se comprometían a sublevarse (RR, p.198).
Essa aurora é bastante significativa aqui, pois pode remeter ao início de um novo dia ou de novos tempos. Em ambos os casos se refere a uma boa expectativa, a um sentimento de esperança. Além dos romances apresentarem uma cumplicidade entre os animais e os camponeses (ambos são vítimas de um sistema rural baseado na exploração e na servidão), abordam também a falta de união entre distintas comunidades indígenas:
¡Indios combatieron indios! Hacía cuatrocientos años que guerreaban sin tregua. Solitariamente padecían los abusos; solitariamente se rebelaban; solitariamente los masacraban. Era imprescindible que se unieran (TR, p.74).
O último romance das narrativas em estudo retrata essa rivalidade existente entre algumas comunidades como um elemento facilitador, de certa forma, para o fracasso das mobilizações indígenas. Nessa perspectiva, Mariátegui (2004) ressalta que, “padecem os índios a falta de união nacional. Seus protestos foram sempre no âmbito regional. Isso
contribuiu, bastante, para sua prostração” (p.31).
Alguns grupos de camponeses, por acreditarem que não possuem força suficiente para enfrentar os grandes proprietários de terra e as mineradoras, entram em conflito com as comunidades vizinhas, porque desse modo o confronto não será tão desigual e
contribuem duplamente para o “jogo de poder”, pois não ameaçam, de forma alguma, os
verdadeiros causadores dos problemas agrários existentes na região e, ao mesmo tempo, fragilizam-se, já que ao invés de somarem forças para lutar contra um inimigo comum fragmentam-se, ficando mais enfraquecidos:
¡Qué desgracia! En vez de juntar sus pequeñas iras, sus pequeñas impotencias, sus