Las altas cumbres reflejan la nieve con sus senderos al borde de abismos flota en el aire el aroma de nardos entre los juncos se siente su esencia. Pastos tan altos a orilla del río cual esmeralda de verde brillante duermen los pinos y salces del bosque solo un susurro se aleja en la tarde Viene el recuerdo de tiempos hermosos junto a las dalias retorna el rocío cual un cristal que ruega los prados. Luego un suspiro se escapa del alma Pronto la calma regresa tranquila Sobre el sendero prosigue su marca.
(REYES, s/d)
Dois mundos diferentes e separados por um vasto oceano se defrontaram no início da era moderna. Cada um com a sua geografia, crença, forma de vida, organização social, política, econômica, percepção do mundo e da natureza. Um remete ao espaço andino e o outro à região ibérica.
Por mais de cinco séculos esses dois mundos conservam resquícios de uma oposição gerada desde o princípio por uma relação conflituosa que se perpetua até hoje. De um lado os valores andinos – baseados na resistência e defesa de sua cultura. De outro os ibéricos, detentores do poder, da força e da exploração dos nativos por meio de dois sistemas, a mita70 e a encomienda71, da mão-de-obra escrava africana e dos recursos naturais, basicamente o ouro e a prata.
70“A mita era uma máquina de triturar índios. O emprego do mercúrio para a extração de prata por amálgama envenenava tanto ou mais do que os gases tóxicos do ventre da terra. Fazia cair o cabelo, os dentes e
provocava tremores incontroláveis. Os „azogados‟ se arrastavam pedindo esmolas pelas ruas. Seis mil e
quinhentas fogueiras ardiam na noite sobre as ladeiras da montanha, e nelas se trabalhava a prata, valendo-se
do vento que o „glorioso Santo Agostinho‟ mandava do céu. Por causa da fumaça dos fornos não havia pastos
nem plantações num raio de seis léguas ao redor de Potosí, e as emanações não eram menos implacáveis com
os corpos dos homens” (GALEANO, 2005, p.61).
71“A encomienda é a concessão a um particular, pela autoridade administrativa e política, de um conjunto de direitos público, sobretudo de ordem financeira” (MAURO, 1986, p.26).
O confronto iniciado na era colonial ainda não foi totalmente equacionado, pois 500 anos após a chegada dos conquistadores, uma parcela significativa dos andinos continua na luta pela preservação de sua forma de vida ancestral baseada na integração com a natureza, em contraste com o modelo econômico capitalista agro-exportador, cujos sintomas, a destruição do espaço natural e dos ecossistemas, dificilmente podem ser revertidos.
Embora exista uma grande pluralidade étnica, linguística e cultural entre os povos indígenas que compõem o território andino, em essência, todos buscam preservar as tradições de seus antepassados baseadas na relação harmônica do índio com a natureza, expressa na agricultura de subsistência e no cultivo de produtos como o milho. Em comum estes povos têm a preocupação de preservar o lugar em que vivem e onde viveram seus ancestrais, como também os conhecimentos transmitidos oralmente e as práticas que valorizam a convivência harmônica entre todos os seres vivos. Atuam no sentido de criar uma resistência ao modo de vida dos colonizadores que procuraram apagar a cultura das comunidades indígenas, ao não respeitar a identidade das diversas comunidades locais, ignorando, ou mesmo fingindo desconhecer sua existência.
Para que se possa compreender a relação entre os povos andinos e a natureza faz-
se necessário entender o princípio da “reciprocidade”, um dos conceitos mais importantes
para os povos da região. A reciprocidade tem o sentido de correspondência, mutualidade, troca; também diz respeito ao intercâmbio estabelecido entre homem e planta; homem e animal, homem e terra, homem e homem, homem e deidades. Está presente em todas as
relações e interações do homem com o seu entorno. O movimento de “dar-receber” e de “receber-dar” representa a sua dinâmica, pois a terra cria e recria a vida para o homem e o
...na cosmovisão andina, o mundo se recria pela sintonia comunitária de seus membros e pelo que é feito ou não é feito pela comunidade humana. De forma que na cultura andina, seus membros não estão interessados em conhecer o outro para transformá-lo, senão em se sintonizar mutuamente para que a vida flua de modo comunitário72 (RENGIFO VÁSQUEZ, 1994).
Para que a reciprocidade tome forma, outros valores precisam ser levados em consideração, como o respeito, a responsabilidade, a dedicação, a solidariedade, o diálogo (saber perceber, ouvir e sentir os sinais da natureza), a conversa contínua, a afetividade, a gratidão, a sensibilidade, o equilíbrio e a harmonia (Revista Volveré, 2008). Esses valores funcionam como base para a ética indígena-andina, como o respeito profundo por todas as formas de vida; a gratidão à terra e à natureza pelas vidas geradas, e também a responsabilidade de cuidar da natureza para que o meio ambiente e a biodiversidade sejam bem preservados. A ética é fundamental dentro da interação homem-natureza, principalmente no momento do cultivo e da criação de animais, tendo como primazia o carinho pela terra, geradora e produtora de vida.
Para a cosmogonia indígena três comunidades vivas constituem o universo andino: a natureza (plantas, animais, minerais), os homens e as deidades. Tudo o que apresenta relação com a vida na região compõe uma irmandade simbiótica de onde brota um intenso laço fraternal entre os elementos pertencentes à natureza – uma relação íntima e familiar –, já que todos possuem um grau de parentesco, são irmãos, pois foram gerados pela mesma mãe: a terra.
O sentimento de pertencimento à natureza faz parte da herança cultural e religiosa indígena, pois os mais variados povos, ainda que apresentem uma grande diversidade cultural, têm como um dos elementos em comum o amor e o respeito pelo mundo natural,
72“en la cosmovisión andina, el mundo se re-crea por la sintonía comunitaria y continua de sus miembros, y no por lo que haga o no haga la comunidad humana. De modo que en la cultura andina, sus miembros no están interesados en conocer al otro para transformarlo, sino en sintonizarse mutuamente para que la vida
já que se sentem plenamente parte integrante da natureza. Como enfatiza Ailton Krenak (1992), descendente do povo indígena Krenak, tribo localizada no Vale do rio Doce, leste do estado de Minas Gerais:
Nós temos tradição e ela está fincada em uma memória da antiguidade do mundo, quando nós nos fazemos parentes, irmãos, primos, cunhados da montanha que forma o vale onde estão nossas moradias, nossas vidas, nosso território. Aí onde os igarapés, as cachoeiras, são nossos parentes, ele está ligado a um clã, está ligado ao outro, ele está relacionado com seres que são aquilo que chamaria de fauna, está ligado com os seres da água, do céu, que liga cada um dos nossos clãs e cada uma das nossas grandes famílias no sentido universal da criação (KRENAK, 1992, p.202).
Desse mesmo modo as populações indígenas andinas divinizam a natureza. Para esses povos a terra é uma deusa-mãe. Os índios dessa região possuem um vínculo sagrado com Pachamama, vista por eles como sua principal divindade, e considerada como:
...criadora da vida, que gerou tudo o que existe na natureza (flora, fauna, pedra, água,
montanhas, rios, sol, lua, estrela, batata (…), lhama, etc.), como seres orgânicos vivos,
porque têm vida e as qualidades de uma pessoa73 (SALAS, 2008).
Essa personificação de Pachamama foi construída de forma correlata à mulher- mãe, mas também pela composição de seu corpo constituído por elementos naturais, como as pedras, símbolo de seus ossos, a terra que representa a sua carne, os rios que representam seu sangue e a vegetação os seus cabelos. Como uma mãe, Pachamama também tem o poder de gerar a vida e alimento – frutos, água, árvore, carne, entre outros. Dessa forma, ela fecunda, nutre e protege seus filhos.
Reverenciada por esses povos pelo fato de todas as formas de vida girarem ao seu redor, conhecida tanto como por Mãe-Terra quanto por Mãe-Natureza e ainda por Mãe da Vida, Pachamama estabelece um vínculo entre o homem e as forças naturais, baseado na afetividade. Ela é a mãe universal e generosa de tudo que existe e brota da terra. Animais,
73…criadora de la vida, que ha generado a partir de ella todo cuanto existe en la naturaleza (flora, fauna, piedra, agua, cerros, ríos, sol, luna, estrellas, papa (…), llama, etc.), como seres orgánicos vivos, porque tienen vida y las cualidades de una persona (SALAS, 2008).
vegetais, minerais e humanos são todos filhos da mesma terra e irmãos entre si. Considerada também como uma fonte de sabedoria, é importante aprender com ela por meio do diálogo e ouvir os seus conselhos.
Pelo fato de ser a responsável por criar e dar a vida, Pachamama é cuidada por essas comunidades com muito carinho, dedicação e sensibilidade, motivo pelo qual os andinos procuram preservá-la, não permitindo que a vendam, explorem ou a prejudiquem. Por ser a geradora de vida, o homem depende da sua ajuda e da sua fertilidade. Uma maneira de retribuir as dádivas da Mãe-Natureza é preservar o espaço de cultivo e criação de animais, cuidando com zelo do solo para não causar-lhe feridas. Outras formas de agradecimento são as celebrações, os rituais, a reverência e as oferendas, denominadas de
“pagos a la tierra”, “pago a la pachamama”, “pago a la madre tierra” (Revista Volveré,
2007).
A base econômica indígena vincula-se à terra, que não possui um dono específico, pois trata-se de um sistema comunal (onde o seu uso é coletivo e comunitário). A produção se baseia basicamente na agricultura doméstica e na criação de animais para o próprio consumo, venda em feiras ou moeda de troca de produtos.
O trabalho é de responsabilidade da família (alicerce da conservação da cultura tradicional, pois o conhecimento e saberes ancestrais são passados de pais para filhos) que se une para realizar tarefas. Porém, em determinadas etapas é comum a realização de mutirão. O trabalho, para o camponês andino significa:
Plenitude existencial, celebração da vida e comunhão com a divindade (…), é seu culto
pluridimensional e que tem sentido econômico, como também, social, ético, estético, afetivo e emocional74 (VAN KESSEL, 1994).
Pela relação de respeito com a natureza cabe ressaltar que as comunidades andinas possuem um expressivo conhecimento do solo. Uma parte desse saber milenar foi herdada de seus ancestrais Incas. Já a outra foi adquirida pela observação contínua do seu entorno, motivo pelo qual tomam uma infinidade de cuidados e precauções indispensáveis no momento do cultivo e na criação de animais.
Destacamos algumas técnicas tradicionais básicas e importantes para proteção do solo no tocante ao combate a erosão e ao aumento e conservação da fertilidade da terra, tais como investir na variedade de espécies de animais e de produtos agrícolas dentro de um determinado espaço e tempo (ainda que haja uma espécie vegetal predominante, outras são plantadas conjuntamente, quanto mais variedades menos danos); criar uma forma rotativa de plantação (não repetir no mesmo lugar o cultivo anterior), e deixar a terra sem cultivar por um determinado tempo para que ela possa descansar, período que dependerá do tipo de plantação realizada anteriormente e da qualidade do solo.
Existem cultivos que exigem mais recursos, pois há terrenos que possuem menos nutrientes. Dependendo de cada tipo de solo e/ou clima, a terra vai precisar descansar por um tempo maior ou menor. Os mais prejudicados poderão necessitar de 5 a 10 anos de repouso. Já os que estão em melhores condições repousarão por 1 ano a cada ciclo de três de cultivo. Esse intervalo é de vital importância para que a terra possa regenerar-se e, dessa forma, aumentar a sua capacidade produtiva.
74“Plenitud existencial, celebración de la vida y comunión con la divinidad (…), es su culto a la tierra y la chacra es su templo. (…) representa su realidad existencial que es pluridimensional y que tiene sentido
A técnica do repouso também justifica o motivo pelo qual os índios precisam ter uma determinada extensão de terra. Se vivem em uma área com problemas de erosão, como ocorre em parte significativa do território andino, terão de deixar boa parcela do solo em descanso, restando pouco espaço para o cultivo de forma consciente, sem agredir a natureza.
A sabedoria indígena também beneficia o cultivo no momento de adubar a terra e de preveni-la contra as pragas, pois ambos os procedimentos são realizados sem a utilização de insumos químicos e tampouco de defensivo agrícolas. A respeito de doenças e de pragas, a própria maneira de combinar produtos diferentes em uma mesma plantação serve de prevenção, sem que seja preciso optar por substâncias nocivas como fertilizantes e pesticidas, evitando o risco de envenenar a plantação ou degradar o solo. Portanto, na mesma medida em que esses povos utilizam a terra para a sua subsistência, preocupam-se com a sua conservação, respeitando tanto o espaço quanto o tempo necessário para a regeneração do solo.
Embora a cultura ocidental tente dividir a história dos indígenas americanos em duas partes, antes e depois da conquista, não houve uma ruptura total na maneira pela qual compreendem o seu meio, já que conservam até hoje muitas formas seculares e ancestrais de interação com a natureza. Desde o período anterior à conquista, a vida indígena é integrada ao seu espaço e como ressalta José Carlos Mariátegui (2004): “o povo incaico era um povo de camponeses, dedicados habitualmente à agricultura e ao pastoreio. As indústrias e as artes tinham um caráter doméstico e rural. No Peru dos Incas enxergava-se
que „a vida vem da terra‟” (p.36).
Assim, por mais que os indígenas tenham sofrido com o choque cultural que lhes coube viver desde a época colonial, muitos conservam grande parte do legado de seus
antepassados, sobretudo no que diz respeito à maneira de atuar na natureza, projetando, desse modo, uma forma de continuidade cultural.
4.2 Contextualização geográfica da
pentalogía
En el departamento de Pasco se encuentra la ciudad más alta del mundo que es Cerro de Pasco (…). En Pasco se encuentra el yacimiento minero del Perú.
(SEGURA, 2010)
O universo andino é formado por uma cadeia de montanhas com 7.200 km de extensão que corta toda a América do Sul, passando pelo Peru, Equador, Colômbia, Argentina e Chile.
A pentalogía tem como espaço narrativo os Andes centrais peruanos, mais
especificamente o departamento de Pasco, cuja capital é a cidade de Cerro de Pasco. Muitas ações narradas se passam nessa cidade ou em suas proximidades. Por possuir um forte potencial para a atividade mineradora Cerro de Pasco é conhecida também por
“Ciudad Real de Minas”.
Cerro de Pasco se encontra em uma região montanhosa, com elevadas altitudes e climas diversos, por isso é um ambiente difícil para atividades agrárias e pecuárias; possui uma atmosfera onde a falta de oxigênio pode causar sensações estranhas para os forasteiros e é também um lugar que chove quase todos os dias do ano. Não há árvores ou flores – a única vegetação existente é o capim que serve de alimento para os animais ou algum cultivo, principalmente plantação de batatas –; escurece plenamente às quatro horas da tarde, além de fazer um frio intenso.
Apesar dessas peculiaridades, muitos estrangeiros interessados em investir na atividade mineradora chegaram à cidade de Cerro de Pasco na segunda metade do século XIX, como alguns empresários, engenheiros e técnicos europeus que viam no potencial de mineração da região uma forma de enriquecer rapidamente. No entanto a mão-de-obra mineira era composta basicamente por habitantes locais ou das redondezas.
Nessa época, Cerro de Pasco chegou a possuir doze consulados, entretanto no final do século XIX, com o suposto esgotamento dos recursos minerais, todos se foram e a cidade ficou deserta. Mas no início do século XX, estudos feitos por engenheiros estadunidenses comprovaram a existência de uma expressiva reserva mineral na região.
O narrador de Garabombo, el invisible descreve Cerro de Pasco como: “una ciudad sucia, mortecina, cribada de agujeros, y después de la apertura de la mina de tajo abierto, un hoyo donde se acumulan la lluvia, el fracaso, el aburrimiento” (GI, p.139-40). Esse buraco, além da água da chuva, representa também a ruína de um sistema de vida voltado
para a integração com a natureza, representado aqui pelo termo “fracasso”.
Até hoje este “tajo abierto” está em operação e atualmente possui cerca de 2.000
metros de diâmetro e 400 metros de profundidade (seguem fotos em anexo). Também existem as doenças causadas, principalmente nas crianças, muitas delas possuem um nível de chumbo no sangue três vezes superior ao limite máximo estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Além das diversas consequências originadas pela exploração de minérios em Cerro de Pasco, a população local, nos próximos anos, terá de ser retirada e enviada para viver em outro local, pois foram encontradas novas fontes de matéria-prima e com isso a
“Plan L”, plano que tem o objetivo de ampliar suas atividades de exploração mineral
naquela região.