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4.3 Lean-verktøy i praksis

4.3.1 Verdistrømsanalyse

O postulado de Clifford Geertz (1989:101-142) sobre a religião como um sistema cultural também é central para a presente discussão. O autor aponta que justamente por causa da carência humana de programação biológica específica, é que a necessidade de concepção é tão vital. O ser humano “nasce inacabado” e por isso, precisa através dos padrões culturais que recebe nos processos de socialização, apreender a realidade dentro de

uma chave hermenêutica que lhe traga a confortável sensação de que o mundo é um todo ordenado e com significado, ainda que este não esteja aparente.

O ser humano sente-se premido a conceber o mundo para não recair no caos. Nessa empreitada, ele elege perspectivas que julga serem apropriadas para levá-lo a elaborar tais concepções. São elas: a estética, a ciência, o senso comum e a religião, sendo esta última talvez a mais incisiva, pois localiza o significado das coisas em uma ordem que precede e transcende o ser humano. A religião, enquanto conjunto de símbolos, fornece noções para a concepção, propicia a incorporação de idéias, atitudes e julgamentos, enquanto “cria” padrões culturais, e o faz de forma mais eficiente que as outras perspectivas de concepção, de maneira a fundar uma nova ordem na qual o indivíduo decide viver. Pois para Geertz, uma religião é

“um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realistas” (1989:105).

Essas disposições e motivações são o que fazem com que a religião seja modeladora da ordem social. As disposições não são atitudes específicas, comportamentos repetitivos, na verdade,

“Uma disposição descreve não uma atividade ou ocorrência, mas a possibilidade de a atividade ser exercida ou de a ocorrência se realizar (...) ser devoto não é estar praticando nenhum ato de devoção, mas ser capaz de praticá- lo” (1989:110).

Por sua vez, as motivações possuem um caráter de continuidade, “uma inclinação crônica para a prática de determinados atos ou para a experiência de determinados sentimentos” (1989:111).

O devoto de Nossa Senhora de Nazaré demonstra toda a sua disposição para homenagear a Santa durante os eventos da quadra nazarena, e deles extraem motivação para

viver a sua fé cotidiana, ao longo do ano seguinte, até o próximo Círio de Nazaré. A quadra nazarena, na verdade, tem início na véspera do dia da romaria do Círio, no sábado pela manhã, quando saem as primeiras romarias e termina com o Recírio, que sucede na segunda-feira seguinte ao quarto domingo de outubro.

A primeira delas é a romaria rodoviária, na qual a Santa é levada da Basílica de Nazaré para a Igreja da Matriz, na cidade de Ananindeua, na Grande Belém; de lá, segue para o Distrito de Icoaraci, uma vila portuária, localizada na região metropolitana de Belém, ligado à Prefeitura desta. Nesse percurso, a Santa é conduzida em um micro-ônibus, aonde também vão as autoridades eclesiásticas, cercado por batedores e viaturas da Polícia Militar61. São seguidos por uma grande carreata, composta de ônibus coletivos, táxis e alguns carros particulares. É a romaria rodoviária.

No porto de Icoaraci, a imagem é embarcada em um navio da Marinha e trazida para o Porto de Belém, pela Baía do Guajará. Essa tradição foi introduzida nas comemorações pelas várias colônias de pescadores das populações ribeirinhas do interior do Estado, que vêm passar o Círio de Nazaré em Belém, chegando em suas embarcações, e sempre conduzindo uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, sobre um altar improvisado, no barco que saía à frente dos demais. Com o tempo, o clero incorporou essa tradição e ela tornou-se mais uma romaria oficial: a fluvial. Assim, atualmente, a imagem vem em uma berlinda, montada na proa de um navio da Marinha, seguido pelas demais barcas.

Ao chegar no Porto de Belém, é sempre aguardada por uma pequena multidão – cerca de dez mil pessoas, afastadas por um cordão de isolamento –, por um grupo de militares da Marinha – espadachins, canhoneiros e a banda, pelas autoridades eclesiásticas, inclusive o Arcebispo de Belém, pelo Prefeito de Belém62, alguns representantes da

61 Em todas as romarias, a Santa está sempre ladeada pela Guarda de Nossa Senhora de Nazaré, entidade

criada em 1974. Para ingressar na Guarda, os candidatos devem preencher alguns requisitos, tais como: ser do sexo masculino, com idade mínima de vinte anos, solteiro ou casado no ritual católico, ser pessoa de reputação inabalável e católico praticante. É a Guarda de Nazaré que toma conta da Santa durante a quadra nazarena, em que fica exposta na Praça do Complexo Arquitetônico de Nazaré.

imprensa previamente autorizados63, a Guarda de Nossa Senhora de Nazaré e a Diretoria do Círio64. O Arcebispo a retira do navio e desfila a imagem perante a assistência, acompanhado por um espadachim, enquanto a Banda toca. Após o momento com a Banda, segue-se um breve silêncio quebrado pela salva de tiros65, enquanto a Virgem de Nazaré atravessa com o Arcebispo e o espadachim, um túnel formado pelas armas dos espadachins em formação, cruzadas no ar, saindo em direção à berlinda que lhe aguarda.

Após o recebimento das honras, Nossa Senhora de Nazaré é posta em outra berlinda, esta armada sobre um carro que a leva até o Colégio Gentil Bittencourt66, cercada pelos batedores da Polícia Militar novamente, e seguida pelos motoqueiros da cidade. É a procissão motoviária. Lá, a Santa permanece aos cuidados das religiosas da Congregação

63 Para estar ali entre eles e registrar os acontecimentos, precisei de autorização da Diretoria do Círio.

64 Comissão constituída todos os anos para organizar as romarias, as celebrações, a montagem do Arraial e

que promove eventos beneficentes, cuja arrecadação é destinada às obras sociais da Paróquia de Nazaré.

65 Essa parte do cerimonial é realizada para cumprir a Lei da Padroeira, nº 4.371, de 15 de dezembro de 1971,

que estabeleceu que Nossa Senhora de Nazaré é a Padroeira do Pará e a Rainha da Amazônia, devendo portanto, receber as mesmas honrarias de um chefe de Estado.

66 Acredita-se que no passado, a propriedade do caboclo Plácido estivesse assentada naquelas imediações.

A Santa, conduzida por Dom Vicente Zico, recebe as honras. Foto de Fábio Pina.

das filhas de Sant’Ana, para à noite ser trasladada para a Catedral Metropolitana de Belém, a Igreja da Sé.

Durante quase um século e meio, as duas únicas romarias que se realizavam eram a trasladação e o Círio de Nazaré, propriamente dito. As duas repetiam os dois percursos que a Santa fez por ocasião do primeiro Círio. A trasladação da imagem, à noite, para a região do Palácio do Governo – atualmente, para a Igreja da Sé, que fica às proximidades – e na manhã seguinte de volta para o local do achamento – onde hoje se localiza a Basílica de Nazaré. As demais procissões foram incorporadas e tornadas oficiais na última parte do século XX. Alguns reclamam, acham que uma grande quantidade de romarias vulgariza o cerimonial,

“Antigamente, o percurso consistia só em ir para a Sé e de lá para a Basílica. Agora tem toda essa alegoria porque dá dinheiro. Eu tenho pena dela. Eu brinco com isso, até o ano passado ela me castigou por causa disso, eu acabei de falar isso apareceu um friso não sei de onde, e eu enfiei a cara no friso. O respeito que tem pela Santa está nas pessoas que ficam vendo ela passar. Isso é bom porque sai muito do poder da Igreja, a Nazica67. Ela não é deles [clero], aquela imagem é dos paraenses que já incorporaram sua tradição” (Sr. Abdias da Silva Filho, 47 anos, solteiro, jornalista).

Durante a trasladação, tem lugar uma das homenagens mais tradicionais, o festival pirotécnico, oferecido pelo Sindicato dos Estivadores do Pará à Virgem de Nazaré, no instante da sua passagem pelo cais do porto. Os trabalhadores da região das docas de Belém descontam uma mensalidade68 ao longo do ano inteiro, para que na quadra nazarena, o Sindicato tenha recursos para promover o festival, que dura cerca de dez a quinze minutos de queima de fogos de artifício69.

Na manhã do domingo, finalmente acontece a romaria pela qual essa devoção popular é conhecida no mundo inteiro – o Círio de Nazaré. A procissão tem um percurso de

67 Nazica é um apelido carinhoso dado a Nossa Senhora de Nazaré, utilizado por muitos devotos. 68 Essa arrecadação é chamada de “Placa da Santa”.

aproximadamente quatro quilômetros70 e meio, na qual a Santa segue dentro da berlinda que é toda ornada com flores brancas e amarelas71, vestida com um manto ricamente bordado.

Depois da chegada da berlinda ao CAN72, a corda é desatrelada, e o Arcebispo de Belém retira a imagem de dentro da berlinda, e erguendo-a abençoa todo o povo; em seguida, celebra a missa campal. Desde esse momento até o final dos quinze dias de comemorações, a Imagem da Virgem de Nazaré fica exposta, em um altar, no interior de uma redoma grande de vidro, à visitação publica. A Guarda de Nossa Senhora de Nazaré atua na segurança e preservação do local e da imagem, em tempo integral.

70 Anexo (nº 19) um mapa do percurso, impresso do site oficial da Diretoria do Círio de Nazaré,

www.ciriodenazare.com.br. O site fornece ainda os roteiros, os dias e os horários das outras romarias, com a possibilidade dos interessados poderem imprimir. A finalidade é orientar a grande quantidade de turistas que vem a Belém na época das celebrações.

71 É tradicional o uso dessas cores na decoração das casas, das fachadas dos prédios e das ruas. São as cores

de Nossa Senhora de Nazaré. Na edição nº 200 do Círio de Nazaré (1993), foram usadas apenas flores brancas, bem como a grande maioria dos participantes vestia roupas brancas. O objetivo era pedir paz para o mundo.

72 CAN – Complexo Arquitetônico de Nazaré, localizado em frente à Basílica de Nazaré, também conhecido

como Praça do Santuário.

A berlinda pára para receber a chuva de papel picado, em frente ao prédio da alfândega.

No terceiro domingo de outubro, acontece a romaria infantil, ou Círio das Crianças, tentativa da Arquidiocese de reprimir a presença das crianças na romaria principal, por causa do perigo de sofrerem insolação ou saírem machucadas em caso de haver tumulto.

Por fim, para o encerramento da quadra nazarena, na noite da segunda-feira, após o quarto domingo de outubro a Virgem de Nazaré é levada da Praça do CAN ao Colégio Gentil Bittencourt. É a oportunidade de prestar a última homenagem.

Na tradição do Círio, os mantos constituem uma tradição à parte. A imagem original de Nossa Senhora de Nazaré, que fica no Glória da Basílica de Nazaré, recebeu o manto bordado a ouro e pedras preciosas, pela primeira vez, durante o 6º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Belém no ano de 1953. No começo, a Santa não estreava um manto a cada ano, devido ao alto custo de fabricação. Foi somente quando a irmã Alexandra, religiosa da Congregação das Filhas de Sant´Ana (Colégio Gentil Bittencourt), assumiu esse empenho, oferecendo gratuitamente o seu trabalho, passou-se a ter um novo manto a cada ano. O material usado em sua confecção é sempre doado por um promesseiro abastado, instituindo-se uma nova forma de pagamento de promessas, sempre em sigilo.

Chegada da Santa, ao final da romaria do Círio, à Praça do Santuário. Ao fundo, vê-se a Basílica de Nazaré e à frente as bandeiras dos Municípios do Estado do Pará. Foto de Fábio Pina

Após a morte da irmã Alexandra, em 1973, a tarefa ficou a cargo de Dona Ester Paes França, uma ex-aluna da religiosa, que até 1992, confeccionou 19 mantos. De 1993 para frente, outras pessoas alternaram-se nessa tarefa, com destaque para o manto de 1999, confeccionado pela renomada estilista Dilu Fiúza de Mello73.

Os mantos, bem como a coroa e a própria imagem foram tombados pela Lei 5.629, de 20 de dezembro de 1990, como patrimônio artístico e cultural da cidade. O Círio de Nazaré dede 2001, vem sendo pesquisado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão federal ligado ao Ministério da Cultura – MINC, para obtenção do seu registro como bem cultural de natureza imaterial. Isso demonstra o valor que se atribui à devoção.

Outro marco do Círio de Nazaré é a tradição de puxar a corda. Esse costume teve início na segunda metade do século XVIII, em 1855. A procissão, naquela época, acontecia no fim da tarde, momento em que freqüentemente chove em Belém – uma combinação resultante da intensa evaporação de água, devido à presença da bacia hidrográfica e da floresta, mais a localização próxima à linha do Equador. Por causa das chuvas, a baía transbordava e às imediações do porto costumava formar-se áreas de atoleiro. Foi em um desses atoleiros que o carro-de-boi que transportava a Santa ficou preso. Alguns devotos puxaram o carro com o auxílio de uma grossa corda de sisal oleado, desvencilhando-o do lamaçal.

O fato teve dois resultados práticos: a romaria passou a ser pela manhã para que se evitasse as chuvas; e o ato de puxar a corda virou o maior símbolo do Círio de Nazaré. Os devotos levavam cordas e atrelavam-nas ao carro-de-boi e puxavam. Em 1868, o costume foi oficializado e organizado pela Arquidiocese. Hoje, a corda de sisal oleado tem um comprimento de aproximadamente quatrocentos metros e um diâmetro de duas polegadas, e ela ainda é atrelada ao carro que traz a Virgem de Nazaré. Esta não é mais trazida em um veículo puxado por bois – agora, é usado um automóvel adaptado para a berlinda – e a corda só é atrelada no Boulevard Castilhos França, esquina com a avenida Portugal, em

frente ao porto74. Antes, era presa logo que a romaria começava em frente à Sé, mas era problemático porque as ruas do Bairro da Cidade Velha são estreitas e a procissão não avançava.

O maior símbolo do Círio de Nazaré é também seu elemento mais polêmico. São milhares de devotos tentando distribuir-se ao longo de apenas quatrocentos metros, de modo que se torna extremamente penoso manter-se firmemente seguro à corda, uma vez que a condição essencial para quem se propõe a puxá-la, é não soltá-la sob nenhuma hipótese. É também a forma mais sacrificante de pagamento de promessas, muito embora haja devotos que puxam a corda apenas para mostrar respeito e submissão, ou simplesmente prestar homenagem. As motivações podem variar.

“(...) estou quase sempre relacionado à Maria, no cotidiano, para convivência, agradecimento. (...) não costumo fazer pedido nenhum. Eu sempre acompanho o Círio na corda, mas não pra pagar promessas – não faço promessas – apenas para manifestar o meu amor por ela” (Sr. Marcelo Henrique Mamede).

“(...) eu tenho uma tia que está vindo lá de Fortaleza, agora. Ela está com um problema na vista, e ela está vindo aqui [para Belém] com muita fé. Os médicos já disseram que ela não tem mais cura e ela de tempos em tempos, perde uma porcentagem da vista. Agora, já está em 60% e ela está fazendo fortes orações [para Nossa Senhora de Nazaré] de lá mesmo, e ela está sentindo melhoras. Ela vem em outubro para passar o Círio, a família vai na corda” (Srta. Daniele Cruz, 22 anos, química industrial, solteira).

74 Um croqui com o esquema da atrelagem, retirado do mesmo site que fornece o mapa do percurso, está

anexo (nº 20). O esquema demonstra também como as autoridades se posicionam ao redor da berlinda e como é praticada a segurança da Santa.

Pagadores de promessas puxando a corda. Foto de Fábio Pina.

No fim da romaria, depois que a berlinda é desatrelada, para adentrar a Praça do CAN, para a celebração da missa campal, pelo Arcebispo de Belém, há uma disputa pela obtenção de pedaços da corda, que são utilizados pelos devotos em seus lares para fabricação de chás, que segundo acreditam cura qualquer tipo de enfermidade. Outros, pretendem apenas possuir uma recordação dessa ocasião tão importante para eles.

Devoto, que após puxar a corda durante toda a romaria, conseguiu pegar um pedaço dela, aparentemente vivenciando uma situação de experiência extática. Fotos de Fábio Pina.

Embora a atitude de puxar a corda pareça a forma mais terrível de sacrifício, os devotos são criativos e quanto maior tenha sido a graça alcançada, maior a necessidade de demonstrar a gratidão de forma extravagante. Há, por exemplo, devotos que fazem a romaria de joelhos. Chegam ao CAN desfalecendo, amparados por romeiros ou pelos voluntários da Cruz Vermelha.

Segundo as estimativas da Polícia Militar do Pará, a romaria é composta em média por dois milhões de participantes. A do ano de 2002 contou com a participação de apenas um milhão e oitocentas mil pessoas, o que de qualquer forma é um número alto, se considerada a população de Belém, que é de um pouco mais de um milhão e trezentos mil habitantes. A romaria ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no interior do Estado de São Paulo nunca teve uma marca assim, embora seja o templo daquela que é a Padroeira do Brasil. Segundo a Folha de São Paulo, (12/10/2002 – Caderno Brasil, p. A6), baseado no cálculo da Polícia Militar, o Santuário recebeu em 12 de outubro de 2002 – dia de Nossa Senhora Aparecida, a visita de duzentos mil romeiros – um recorde que superou o de 1997, quando a participação foi de cento e noventa mil pessoas. Na mesma página, outra reportagem previa a participação de cerca de um milhão e oitocentas mil pessoas, no Círio de Nazaré, segundo dados levantados pela Agência Folha, em Belém.

Promesseira no final do percurso. Arrastada por outros romeiros, apoiada pelas axilas a uma maca da Cruz Vermelha, chega à Praça do Santuário

Além dos romeiros, alguns carros alegóricos fazem parte do Círio de Nazaré. Os principais são: o Carro dos Milagres, introduzido em 1805, que traz a representação dos dois milagres mais famosos do primeiro século da devoção75; o Carro dos Ex-Votos, desde 1826, onde são depositados objetos entregues pelos promesseiros como pagamento de votos feitos à Virgem de Nazaré76; o Carro dos Anjos, presente na romaria desde 1855, que leva crianças fantasiadas de anjinhos cumprindo o que provavelmente fora promessa de seus pais77. Há pouco tempo, a Arquidiocese introduziu um carro com uma representação da Santíssima Trindade, em uma tentativa de melhorar a presença pouco expressiva do Espírito Santo nessa devoção78. As fotos de todos os carros estão anexas (nº 13).

Atualmente, o primeiro pelotão de abertura da procissão do Círio de Nazaré é composto pelas bandeiras dos Municípios do Estado do Pará, que totalizam cento e quarenta e três. Essa comissão de frente representa a importância dessa devoção não somente para a religiosidade e a cultura de Belém, mas para os paraenses de modo geral. O conceito de cultura que utilizo é o de Geertz:

“um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida” (1989:103).

A partir do proposto por esse conceito percebemos que os elementos da religiosidade popular paraense são integrantes da cultura. Os costumes praticados no cotidiano da devoção, mas especialmente os que integram as comemorações da quadra

75 O milagre através do qual D. Fuás Roupinho escapou de despencar de um abismo, já relatado no capítulo 1.

E o segundo, o resgate com vida de doze sobreviventes do brigue português São João Batista, que vinha de Lisboa para o Brasil, em 1846. A embarcação naufragou na costa brasileira e os náufragos clamaram a Nossa Senhora de Nazaré.

76 Em geral, são objetos de cera representando partes do corpo humano, às vezes até órgãos genitais. Esses

artefatos são levados para o Museu do Círio, registrados e posteriormente cremados. Contudo, muitos promesseiros carregam seus ex-votos ao longo de todo o trajeto.

77 É muito comum na região, a prática de pedir a intervenção de Nossa Senhora de Nazaré, nas situações de

gravidezes de risco. A promessa usual, nesses casos, é vestir os filhos nascidos desses partos arriscados, mas