Conforme o exposto no capítulo 1, a trajetória do crescimento da devoção acompanha a elevação da Vila de Santa Maria de Belém do Grão-Pará à condição de cidade de Belém, assim como da Província a Estado. A população de devotos cresceu junto com a de habitantes. Em muitos episódios, as duas histórias se cruzam e se imbricam. Desse modo, é compreensível que essa religiosidade popular seja a maior manifestação cultural local. E como o Círio de Nazaré é sua expressão mais visível tornou-se um marco dentro da cultura.
O Círio de Nazaré pára a cidade de Belém. Para compreender essa realidade, basta comparar os números. A cidade tem um pouco mais de um milhão e trezentos mil habitantes, mas essa população quase dobra durante a quadra nazarena, com a chegada de romeiros de todo o Pará, de outros Estados do país e turistas estrangeiros, que vêm para presenciar o que consideram um espetáculo.
Toda a cidade se prepara para receber esse excedente de pessoal. Além da rede hoteleira, residências também são postas para alugar nessa temporada; ou apenas se hospedam parentes vindos de outras regiões para passar o Círio. Toda a estrutura da cidade é modificada, mas especialmente, o paraense se modifica: ele se percebe dentro de um tempo diferente, como se a realidade ficasse suspensa por algum tempo. Passar o Círio é um termo usado com a mesma conotação que se dá à pergunta, no restante do país: “Como
você vai passar o Natal?”. O Círio de Nazaré, na prática é o Natal dos paraenses, pois o Natal mesmo não é tão fartamente comemorado quanto a quadra nazarena. A Ceia do Círio – almoço com as comidas típicas da culinária paraense, que acontece nos lares após a romaria de domingo – é uma festa de confraternização da família, que é mais comum reunir-se nesse dia que no Natal. O mesmo observa-se na decoração: a Prefeitura decora as ruas ao longo do percurso da procissão; a avenida Nazaré recebe vários arcos; a Basílica de Nazaré tem o seu contorno delineado por lâmpadas; os cidadãos decoram as fachadas das casas e dos condomínios; as empresas também são decoradas79. Se no Natal, em algumas cidades brasileiras, há concursos para eleger a decoração – em geral, um presépio – mais bonita, em Belém, a competição é entre as berlindas.
As pessoas se confraternizam, desejam boas festas, trocam presentes, é imperativo manter um estado de paz, harmonia e alegria. Instala-se um outro tempo, sagrado. Os informantes do campo não são alheios a essas mudanças:
“O Círio de Nazaré pra gente é tipo o Natal do resto dos brasileiros, para os paraenses. O dia que se reúne a família, que se confraterniza, é uma ceia antecipada do Natal. E tem uma importância fundamental, todo ano, aquela mesma missão, nós vamos para a trasladação, nós vamos para o Círio” (Srta. Ana Carolina de Macedo).
Um informante nordestino, residente em Belém há quinze anos, o Sr. Abdias da Silva, 47 anos, jornalista, dá conta desse algo imaterial, mas mesmo assim perceptível, que as pessoas dizem perceber “nos ares” da cidade:
“(...) A cidade, ela muda, o aroma da cidade é outro, a temperatura da cidade é outra, as pessoas são outras. Isso tudo tem um espírito. Se a gente tivesse aparelho para medir essa radiação energética do povo, você ia ver que Belém fica mais limpa, mais iluminada, mais harmoniosa. A cidade fica fervilhando de gente, há uma harmonia maior, há fraternidade, isso é muito importante. As pessoas desprendem energia pra essas coisas do mais rude até o mais santificado. (...) Todas as casas são decoradas, são pintadas e são
79 Anexas (nº 12, 15 e 16), fotos dos arcos de rua, das fachadas das residências e das empresas, dos
enfeitadas. Todo aquele sentimento que se observa em uma cidade que tem uma tradição do Natal, no final do ano, e também no São João, aqui se repete no Círio. É mais forte o sentimento cristão, religioso, o desprendimento dessa energia, do que o Natal, que é o nascimento do filho da mulher. A festa da mãe é mais importante e mais forte que o nascimento do filho, que no planeta todo é comemorado, com tantos movimentos culturais e folclóricos. O Natal, aqui, é secundário. Supermercado vende pouco, feira vende pouco, as coisas do Círio, a maniçoba e as outras coisas ninguém está comprando. Mas para o Círio se compra tudo. No Círio se dá presente, se compra roupa nova, se pinta a casa, vem tudo que é parentada, dormem um por cima do outro, dormem no sofá, dormem no terraço. A família fica mais unida quando se troca presente no Círio. Entra a época do Círio – eu que já estou aqui há quinze anos, já sei – eu saio à rua para sentir os cheiros, as mangueiras parece que vão florando. Isso não é fantasia da minha cabeça. Pode reparar, muda o clima da cidade, é uma coisa gostosa, relaxante. A vala parece que fede menos. Só o Ver-o-peso80 que não – embora na véspera do Círio, as mulheres da sociedade vão lavar o local com água cheirosa, patchouli, mas não tem jeito, é o cheiro da natureza. O Círio é uma coisa muito grandiosa”.
O slogan intensamente proferido no período é “Círio de Nazaré: orgulho de ser paraense”. Esse sentimento de identificação da cultura religiosa como uma parcela ontológica do paraense – que é mais evidente na época das celebrações, mas que está presente no cotidiano da religiosidade popular – é o que faz acreditar que a devoção a Nossa Senhora de Nazaré possa realmente influenciar profundamente os papéis sociais, modelando-os. Nessa religiosidade popular, as disposições e motivações que a religiosidade inspira, criam um ethos (Geertz, 1989:134) para o grupo, que faz com que este se perceba nessa condição de conjunto.
Durante as festividades do Círio de 2002, durante a observação participante praticada na ocasião, diversos devotos que preencheram questionários – e também as autoridades eclesiásticas e políticas – manifestaram o seu contentamento pela transmissão do Círio, ao vivo, via satélite pela TV Cultura para todo o Brasil, bem como pela presença
80 Nome dado ao Porto de Belém, principal entreposto da região Norte. Tem esse nome por causa do posto de
cobrança de impostos sobre o pescado, que havia ali no passado, onde o produto da pesca era pesado. Daí o nome Ver-o-Peso. Por causa da carga e descarga de peixe o tempo todo, acabou tornando-se um local um tanto quanto mal cheiroso, o que leva as senhoras da elite a lavarem todas as calçadas do cais, para que não haja mal cheiro.
na cidade de equipes de reportagens dos principais jornais, revistas e emissoras de televisão do Brasil e do mundo. A satisfação em divulgar a devoção é tanta que mesmo as pessoas que faziam o percurso do Círio, puxando a corda com muito sacrifício, ao verem uma câmera de vídeo ou fotográfica apontada em sua direção – o mesmo aconteceu com a minha – esforçavam-se por perder a expressão sofrida, sorriam e posavam, em uma tentativa de demonstrar a sua satisfação em estar ali, e participar das homenagens à sua Senhora.
O Círio é, sobretudo, um reforço para a identidade do paraense. Este se sente afirmado através das celebrações e em destaque no cenário nacional. A Virgem de Nazaré é para o católico paraense uma deusa, uma mãe sobrenatural e um motivo de orgulho. O católico paraense envaidece-se com essa filiação e com a suntuosidade do evento preparado pelo grupo, serve de distinção para ele. Nos remetemos a Marshall Salhins (1997) e sua afirmação de que esse tipo de necessidade é o resultado de uma negociação entre a identidade que os outros indivíduos ou grupos propõem para o indivíduo ou o grupo e a identidade que este mesmo propõe para si e como a partir disso, mostra-se aos outros. Identidade possui dois elementos essenciais: a diferença e a pertença, que nasce da distinção que necessariamente um grupo precisa fazer entre si mesmo e os demais. Um grupo determinado define-se delimitando as características que possui e que o fazem ser o que é, e concomitantemente pelas atribuições de que não dispõe, não lhe permitindo ser outra coisa. Distinguir-se como paraense implica a consciência do conjunto de peculiaridades que compõem ontologicamente tal possibilidade e a exclusão do que afasta o sentimento de pertença.
E as fronteiras que estabelecem os parâmetros dessa distinção podem ser físicas, territoriais, mas também e principalmente, psicológicas, sociais e religiosas. Cremos mesmo que nos dias de hoje as diferenças culturais entre diferentes grupos são muito mais sentidas em termos sociais e/ou psicológicos que em territoriais, pois a presença dos sofisticados meios de comunicação de massa e transportes que existem atualmente, geram a sensação de que o mundo encolheu. De repente, tudo parece estar acessível a todos e o estado de isolamento em que o Norte do país parecia viver, aparentemente tende a
desaparecer. Não somente este adquire visibilidade para o resto do país, mas também o contrário acontece.
Com o passar do tempo, o avanço tecnológico trouxe como conseqüência a globalização da cultura. Por conta disso a sociedade paraense passou a consumir bens culturais das outras regiões – pode-se consumir facilmente de música sertaneja a axé music, da comida mineira à baiana, da italiana à chinesa, etc. A partir da era da difusão cultural, o paraense experimentou a possibilidade de dar “sinal de vida” também ao resto do país: exportou de polpa de açaí a discos de carimbó81. Mas, no afã de sentir-se integrante da cultura nacional, também importou um pouco de tudo: do carnaval fora de época – CarnaBelém e ParáFolia – a modismos como uso de botas e roupas de couro – contra uma temperatura média de 28ºC, em Belém.
Assim, o Círio seguiu a mesma tendência e logo se tornou o bem mais valorizado, ao mesmo tempo em que Nossa Senhora de Nazaré transformou-se em uma referência não mais apenas religiosa, mas social, psicológica, tradicional e de resistência cultural para o grupo. Como um ritual religioso, o Círio de Nazaré cumpre com o papel que cabe aos ritos, atualiza o mito fundante (Durkheim, 1989), reúne todo o grupo em torno de um espaço e de um tempo sagrados comuns, conferindo- lhe sentido. Como patrimônio cultural desempenha também função de aglutinador, só que com maior abrangência, incluindo não-católicos, além de conferir uma identidade sócio-cultural ao grupo.
No “jogo da distinção entre o nós e o eles”, o Círio de Nazaré é a peça principal. Dá à sociedade paraense o sentimento de brasilidade através da religiosidade popular, marca muito característica do povo brasileiro – segundo Brandão (1989) e Alves (1980) – ao mesmo tempo em que torna o grupo único dentro do contexto nacional religioso, pelas peculiaridades. Um exemplo disso é um pequeno número de não-católicos que também participa das celebrações do Círio. Nos duzentos indivíduos questionados, verifica-se uma amostragem dessa situação, pois entre os entrevistados que estavam lá participando das
81 Dança paraense herdada das tribos indígenas do Estado. Tornou-se uma espécie de documento musical do