98,00% 2,00%
SIM NÃO
O mesmo ocorreu nas entrevistas, quando os informantes diziam não serem devotos e em seguida faziam declarações nas quais destacavam uma rotina com a Santa. Por exemplo, a Sra. Maria Justina, 46 anos, professora, não se considera devota devido à freqüência com que vai a Igreja.
“Meu relacionamento com ela é sempre. Todo dia eu rezo, eu faço a minha novena. Quando eu posso, eu vou à igreja. Também não vou dizer que eu sou uma católica que todo dia eu vou à igreja, é mentira. Mas vou com bastante freqüência e tenho muita fé.”
Ordinariamente, aproprio -me dos termos correntes usados pelas pessoas que participam do movimento; já que parto nessa jornada utilizando como rota o cotidiano, é
natural uma opção por apropriar-me da linguagem e das definições do próprio movimento religioso, para não correr o risco de usar um termo de forma inadequada levando a uma noção errada do seu significado. O estabelecimento de quem é devoto foi a única exceção. Convencionei como devoto o indivíduo que crê em Nossa Senhora de Nazaré e com ela se relaciona com alguma regularidade. Isto não implica necessariamente em práticas de rituais diários – missa na Basílica, terço em casa ou na Basílica, novenas em casa ou na Basílica. Na verdade, considerei devoto, o indivíduo que mantém práticas regulares, mesmo que não participe da missa ou das no venas na Basílica, freqüentemente. Mas que possua um mínimo de contato diário com a Santa – dirigindo- lhe preces devocionais ou simplesmente “conversando”45 – e com participação nas celebrações do Círio de Nazaré, anualmente. É o que ocorre com a Sra. Maria Justina, que embora não vá constantemente à Igreja, sempre faz as suas preces e novenas em sua residência. O mesmo se dá com a Sra. Trindade Gonçalves, 52 anos, costureira:
“Eu tenho muita fé, eu acredito nas bênçãos dela, inclusive eu tenho uma [imagem de Nossa Senhora de Nazaré] ali, que eu ganhei nessa novena46. Nas minhas aflições eu peço para ela interceder (...) Eu não sou muito de ficar na igreja, fazendo novena diretamente, isso aí eu não vou mentir. Mas, a minha fé é muito grande, eu oro constantemente, com certeza.”
Assim também pensa o Sr. Akel Fares, 45 anos, odontologista, casado:
“Muito raramente eu vou à missa, não sou uma pessoa devota o tempo todo, apesar da gente não ter essa ligação diária, eu faço parte dessa multidão, desse contexto, dessa devoção. A gente se emociona, é diferente. Quando a gente sai de casa, já se benze, pede proteção”. Ou a Sra. Ângela Saraiva Costa, 31 anos, solteira, dona-de-casa:
45 Durante as entrevistas, vários informantes mencionaram que mantêm uma rotina de diálogo com Nossa
Senhora de Nazaré.
46 A entrevistada referia -se às novenas realizadas em outubro de 2002, na rua onde mora. A partir do dia 1º de
outubro, começam as novenas itinerantes que percorrem os lares dos devotos, nas ruas de cada bairro. A imagem de Nossa Senhora de Nazaré pernoita na casa em que a novena se realizar e permanece até o fim da tarde quando é levada em pequena procissão a casa em que será realizada a próxima novena, e assim sucessivamente, até o dia do Círio de Nazaré. Ao final do rodízio das novenas, a imagem é sorteada entre os lares que a guardaram.
“Eu participo de novena, toda novena que dá para eu ir eu vou, dependendo do horário de trabalho que eu tenho. Não vou dizer que eu sou uma devota, devota, mas para mim a religião está acima de qualquer coisa.”
Diferentemente, o Sr. Marcelo Henrique Mamede, 23 anos, representante comercial, solteiro – que é de descendência árabe e família muçulmana mas, converteu-se ao catolicismo, por causa de Nossa Senhora de Nazaré – percebe-se como devoto, sim, embora não se sinta obrigado a uma freqüência assídua ao templo.
“Bem, eu sou íntimo dela. Praticamente, todas as noites fico conversando ao pé do ouvido com Nossa Senhora de Nazaré. A freqüência dessa conversa é diária, seja meditando, seja em oração. Não necessariamente dentro de uma igreja, porque eu acredito que não é preciso estar dentro de uma igreja, para estar perto de Deus. Basta ter Deus no coração.”
Apesar do rigor no momento de se auto-declarar devoto, os que se proclamam como tal são um número muito maior que os que preferem abster-se de assumir essa condição, já que segundo a avaliação pessoal desses indivíduos, falta ainda um pouco mais de dedicação.
O recorte etnológico da presente pesquisa foi a edição do ano 200247, do Círio de Nazaré. Aproveitando a circulação dos devotos na Basílica de Nazaré, durante os dias da quadra nazarena, para acompanhar as novenas e os terços que são pronunciados várias vezes ao dia, durante o período, formei ali a base de coleta de dados, em meio a uma população de informantes potenciais. Com o auxílio de uma equipe de seis pessoas48, que trabalharam voluntariamente, foram aplicados duzentos questioná rios49 nas escadarias da Basílica às pessoas que vinham do interior do templo, em diferentes turnos – manhã, tarde e noite, e em dias da semana variados.
47 O Círio de Nazaré naquele ano, aconteceu no dia 13 de outubro – segundo domingo – e as celebrações
estenderam-se até o dia 27 de outubro, já que a quadra nazarena prolonga-se pelos quinze dias seguintes.
48 Os nomes dos voluntários constam dos agradecimentos. 49 Modelo do questionário aplicado anexo (nº 1).
Esse levantamento visou um mapeamento inicial do campo, o traçado do perfil do devoto por amostragem, que deveria conduzir posteriormente, a seleção dos informantes que concederiam as entrevistas50. Uma vez que o objetivo do trabalho é verificar como se processa o cotidiano da devoção na cidade, só foram solicitados a responder o questionário, devotos radicados em Belém. Assim, não foi considerada essencial a naturalidade, desde que o indivíduo já residisse há muito tempo em Belém – ou pelo menos na Grande Belém – e portanto, já estivesse familiarizado com o contexto em questão. Para fazer distinção entre os devotos pesquisados, chamei de questionados aqueles que responderam aos duzentos questionários aplicados durante o Círio de Nazaré/2002 e de entrevistados ou informantes aqueles que deram entrevistas em junho de 2003. Os gráficos e tabelas apresentados no trabalho são resultado dos questionários, ao passo que as falas transcritas foram extraídas das entrevistas.
As perguntas do questionário eram semi-estruturadas, contendo poucas possibilidades de respostas dissertativas. A maioria das perguntas já trazia as opções de respostas possíveis, no formato de múltipla escolha, para assinalar. Já as entrevistas eram abertas, seguindo apenas um roteiro de perguntas51, permitindo maior espontaneidade quanto possível já que não traziam propostas de respostas. Quando se fez necessário – se a resposta do informante deixava alguma dúvida – a pergunta do roteiro foi complementada com outra, sempre no intuito de esclarecer melhor o que dizia o entrevistado. Isso era necessário porque como é objetivo desta pesquisa lançar um olhar sobre o cotidiano da devoção é fundamental tentar apreender as definições e as interpretações que os próprios devotos fazem da devoção, ou seja apropriar-se da sua lógica. E como essa lógica é expressa através de uma linguagem, esta precisa ser bem compreendida e dominada.
Assim, para a compreensão do cotidiano, emprego o método de José Pais (2003) que defende uma abordagem do fenômeno que busque compreendê-lo dentro da sua realidade própria partindo de pressupostos que podem vir a ser comprovados ou
50 As entrevistas foram gravadas em fita-cassete, com autorização expressa dos entrevistados – modelo da
autorização anexo nº 3 –, que por sua vez receberam uma carta-compromisso firmando o uso das suas declarações apenas para os fins a que esta pesquisa se destina – modelo da carta-compromisso anexo nº 4. Alguns dos entrevistados consentiram que fossem tiradas fotografias, que estão anexas, no nº 7.
confrontados, e não uma outra abordagem que tente enquadrar a realidade do fenômeno, forçando-o a caber dentro de regras estabelecidas por pressupostos pétreos. Para ele:
“Exilados das infra-estruturas espontâneas do social, muitos conceitos sociológicos são formas mecânicas e artificiais de revestirem o ‘vivo’: espécie de vestuário encobrindo epidermicamente o corpo social: crostas exteriorizadas e rígidas a espartilharem a labilidade do social. É evidente que o conhecimento do social – mesmo através das rotas do cotidiano – carrila através de conceitos, os quais constituem por assim dizer, os vagões ou carruagens do conhecimento. (...) O método que nos deve orientar é esse mesmo; o de trotar a realidade, passear por ela em deambulações vadias, indicia ndo-a de uma forma bisbilhoteira, tentando ver o que nela se passa (...)” (p.33).
Trabalhando nessa proposta de compreensão do cotidiano da devoção, as entrevistas foram tomadas nas residências dos informantes52, e no momento de sua preferência, privilegiando-se a descontração, para garantir o máximo de espontaneidade e liberdade nas respostas.
Dos questionários que serviram para traçar inicialmente o perfil do devoto, algumas estatísticas preliminares53 já denotavam que no caso do Círio de Nazaré, o termo popular, realmente não se refere a uma prática preferente e exclusiva de pessoas com baixa escolaridade, nem de pessoas com pouco poder aquisitivo54. No gráfico da escolaridade, nota-se que os devotos com nível superior e pós-graduação – completo ou incompleto – constituem a maioria: 52,5% no total. E o percentual de devotos que cursaram somente até o nível fundamental é de 17%. Ou seja, não há relação direta entre religiosidade popular e falta de esclarecimento, de educação formal.
52 À exceção de quatro entrevistados que optaram por responder as questões em seu local de trabalho, e um
entrevistado que preferiu vir ao meu encontro, no local onde estava hospedada.
53 As tabelas resultantes das estatísticas levantadas através dos questionários e que não fazem parte do corpo
do texto, estão anexos (nº 5).
54 Diferentemente do que propõe Espín (2000) para quem “o uso da palavra ‘popular’ não subentende apenas
nem principalmente ‘muito difundido’, embora também signifique isso” (p.153). Para ele, o vocábulo “popular” serve principalmente para expressar o lugar social dos praticantes da religião, estando relacionado às camadas desprivilegiadas economicamente.
ESCOLARIDADE 1,50% 4,00% 9,50% 7,50% 7,00% 12,00% 35,00% 23,50% FUNDAMENTAL INCOMP. FUNDAMENTAL COMP. MÉDIO INCOMP. MÉDIO COMP. SUPERIOR INCOMP. SUPERIOR COMP. PÓS INCOMP. PÓS COMP.
Foi necessário fazer aglutinações de algumas ocupações55, para simplificação do gráfico que faz amostragem das profissões. Assim, por exemplo, sob a legenda serviços gerais estão agrupados profissionais tais como faxineiros, garçons, vigilantes, motoristas e cobradores de ônibus. No grupo de profissionais liberais, encontram-se artesãos, fotógrafos, advogados, geógrafos, cabeleireiros, cantoras, agricultores, guias de turismo, engenheiros florestais, entre outros. Por sua vez, os profissionais da aviação são aeroviários, aeroportuários e pilotos. Entre os profissionais da construção civil estão engenheiros civis, projetistas, marceneiros, encarregados de obras e pintores. No grupo da área de saúde encontram-se enfermeiros, agentes de saúde, odontologistas, auxiliares de enfermagem, médicas e farmacêuticas. Ficaram reunidos sob a mesma legenda os servidores de qualquer uma das três esferas: municipal, estadual e federal. Jornalistas e produtores compõem o grupo das áreas de comunicação e publicidade. Sob a legenda administração e finanças estão secretários, administradores, gerentes, contadores e recepcionistas de diferentes empresas. Entre os profissionais de vendas, contam-se promotores de vendas, gerentes de vendas e vendedores.
55 O agrupamento de várias ocupações em um único grupo justifica-se pela quantidade de questionários
aplicados. As profissões dos questionados variavam muito, o que acarretaria uma gama de profissões e resultaria em um gráfico muito grande.
PROFISSÃO 9,00% 6,50% 12,00% 9,50% 0,50% 1,00% 1,50% 2,00% 3,00% 4,50% 4,50% 5,00% 5,00% 6,00% 5,50% 5,00% 19,00% UNIVERSITÁRIO/A PROFISSIONAL LIBERAL PROFISSIONAL DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS EMPRESÁRIO/A EMPREGADO/A DOMÉSTICO/A PROFESSOR/A PROFISSIONAL DE SAÚDE SERVIÇOS GERAIS PROFISSIONAL DE VENDAS APOSENTADO SERVIDOR/A PÚBLICO/A ESTUDANTE DONA DE CASA
PROFISSIONAL DA CONSTRUÇÃO CIVIL PROFISSIONAL DA AVIAÇÃO
PROFISSIONAL DE COMUNICAÇÃO E PUBLICIDADE