Apesar da observação ser entendida como um instrumento de pesquisa esclarece-se que as informações reunidas naquele momento do estudo não foram utilizadas diretamente na análise dos dados. A seguir explicita-se o porquê desta opção.
Aquele momento do estudo – a observação - foi importante por ter se traduzido em uma possibilidade de aproximação com o universo escolar considerando que a interação entre a pesquisadora e os sujeitos pesquisados é de fundamental importância para garantir a eficácia da pesquisa.
O locus da pesquisa, isto é, o espaço em que o estudo se desenvolve, não é um espaço neutro, nem tampouco transparente. Dessa forma, observar o cotidiano escolar se torna um momento profícuo de desvelamento da realidade e orienta escolhas posteriores do estudo como a organização do roteiro de entrevistas, por exemplo. Conforme Vianna (2007, p. 76), “ao realizar um trabalho de observação, muitas vezes se deseja ter um quadro mais amplo do processo educacional”. Este foi o objetivo central deste momento do estudo.
Por este motivo, não houve uma preocupação com um acompanhamento sistemático de uma turma apenas, mas optou-se pela observação de todas as salas de aula29 em que havia alunos surdos matriculados procurando obter a maior abrangência possível das formas e
28 Ressalta-se que a padronização dos textos transcritos das entrevistas foi elaborada pela própria pesquisadora e
será explicitada na primeira citação literal utilizada.
29 Em um primeiro momento realizou-se uma conversa informal nas salas de aula a fim de apresentar o objetivo
da pesquisa e conhecer os alunos, intérpretes educacionais e professores regentes. Em um segundo momento, com a devida autorização de cada professor regente, vivenciou-se a observação por pelo menos um período em cada turma em que havia surdos matriculados, ou seja, nas nove turmas explicitadas no quadro 01.
estratégias organizacionais da escola diante das especificidades desses alunos. Aquele momento serviu para a construção da noção do “todo” da escola. Porém, por não ter acompanhado sistematicamente nenhuma das turmas, acredita-se que as anotações realizadas em diário de campo não possuíam subsídios necessários para uma análise mais apurada, pois se tratavam de impressões da pesquisadora.
Alguns aspectos foram priorizados para o registro: a organização espacial da sala de aula, especialmente o espaço ocupado pelos alunos surdos e intérpretes educacionais; as interações (ou não) entre os alunos surdos e intérpretes educacionais, alunos surdos e alunos ouvintes, alunos surdos e professores regentes; e a dinâmica da aula atentando-se para a utilização ou não de recursos visuais pelo professor regente além das diversas estratégias utilizadas pelos intérpretes educacionais para a realização da interpretação30.
Assim, dois aspectos podem ser elucidados a partir da observação realizada: a possibilidade de perceber os sujeitos da pesquisa de forma mais contextualizada e a proximidade inicial estabelecida com cada turma e especialmente com os sujeitos que posteriormente participaram das entrevistas.
Ainda, é preciso enfatizar que esse tempo de observação possibilitou à escola conhecer a pesquisadora superando a sensação de estranhamento que se estabelece na chegada de uma pessoa “de fora” do contexto escolar. A observação contribuiu ainda para a elaboração do roteiro que subsidiou as entrevistas com os diversos segmentos já mencionados, roteiro este que teve duas funções centrais, com base nos estudos de Manzini (2003, p. 13): auxiliar a pesquisadora a se organizar antes e no momento da entrevista e “ser um elemento que auxilia, indiretamente, o entrevistado a fornecer a informação de forma mais precisa e com maior facilidade”.
Conforme Minayo (2012b, p. 65) a entrevista, entendida em sentido amplo como comunicação verbal e em sentido restrito como a coleta de informações sobre determinado tema científico constitui uma representação da realidade, traduzida em:
[...] ideias, crenças, maneiras de pensar; opiniões, sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; condutas; projeções para o futuro; razões conscientes ou inconscientes de determinadas atitudes ou comportamentos.
30 Optou-se por um relato descritivo, ou seja, uma descrição literal de tudo que ocorreu durante o período da
observação. Inferências da pesquisadora diante das situações observadas também foram anotadas, como reflexões, perguntas, impressões e sentimentos. Registrou-se, ainda, as conversas informais ocorridas entre a pesquisadora e os sujeitos envolvidos no momento da observação. Outras conversas informais transcorridas na sala de professores, durante os intervalos ou nos corredores, também foram anotadas.
Assim, é uma conversa com uma finalidade específica que trata da reflexão do entrevistado sobre a realidade que ele vivencia. Para Szymanski (2010, p. 57), a entrevista “desvela novas possibilidades na compreensão dos fenômenos que se quer investigar”. Lüdke e André (1986) enfatizam que este instrumento permite a captação imediata da informação permitindo aprofundar os pontos considerados mais complexos. É na interação31 que se constroem significados32. A esse respeito, Szymanski (2010, p. 14) explicita que:
Há algo que o entrevistador está querendo conhecer, utilizando-se de um tipo de interação com quem é entrevistado, possuidor de um conhecimento, mas que irá dispô-lo de uma forma única, naquele momento, para aquele interlocutor. Muitas vezes, esse conhecimento nunca foi exposto numa narrativa, nunca foi tematizado. O movimento reflexivo que a narração exige acaba por colocar o entrevistado diante de um pensamento organizado de uma forma inédita até para ele mesmo.
Portanto, a entrevista é um momento de profunda reflexão sobre um determinado assunto ou situação repleto de possibilidades investigativas.
Segundo Pinheiro (2000, p. 186), a entrevista pode ser entendida ainda como uma prática discursiva, isto é, uma “ação (interação) situada e contextualizada, por meio da qual se produzem sentidos e se constroem versões da realidade”. Dessa forma, “os sentidos não estão na linguagem como materialidade, mas no discurso que faz da linguagem a ferramenta para a construção da realidade” (PINHEIRO, 2000, p. 193).
Por fim, justifica-se a escolha deste instrumento de pesquisa porque “[...] abrir-se para a experiência do outro se constitui num momento de aprendizagem e de aprofundamento da compreensão do próprio problema de pesquisa” (ALMEIDA e SZYMANSKI, 2010, p. 95).
Expostas as considerações a respeito dos instrumentos de pesquisa utilizados, a próxima subseção explicita questões relacionadas à análise dos dados.
31 Interação: “evento dinâmico onde o que está em jogo são posições axiológicas, confronto de valores sociais. A
interação é, portanto, o diálogo ininterrupto que resulta desse confronto e que constitui a natureza da linguagem” (GEGe – Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso, 2009, p. 63-64).
32 Os significados, conforme Fernandes e Correia (2012), por meio dos estudos de Vigotsky, podem ser
entendidos como um critério da “palavra”. Porém, não podem ser reduzidos a um fenômeno da fala. Mais que isso, os significados são fenômenos do pensamento.