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Após um contato inicial com a escola no qual foi manifestado o interesse de pesquisa e autorização da SED e da direção para participar do dia a dia escolar iniciou-se um processo de observação com duração de cinco meses (de agosto a dezembro de 2012). A escola Shirley Vilhalva, no momento da pesquisa, atendia surdos matriculados no 5º, 6º, 7º, 8º e 9º ano, com

17 Informações retiradas do PPP da escola pesquisada. 18 Informações retiradas do PPP da escola pesquisada.

19 É importante destacar que as professoras que atendiam os surdos e o instrutor surdo realizavam atendimentos

diariamente na SRM. Já a professora especialista que atendia alunos com deficiência física e intelectual estava presente na escola apenas duas vezes por semana.

20 Informações fornecidas por uma das coordenadoras pedagógicas da escola. 21 Levantamento feito pela pesquisadora.

apoio pedagógico de intérpretes e tradutores de Libras/Língua Portuguesa, a partir deste momento denominados intérpretes educacionais, conforme o quadro a seguir:

Quadro 01 – Alunos surdos matriculados por turma na escola pesquisada em 2012 Ano

escolar Período matriculados Nº de alunos matriculados Nº de surdos educacionais Intérpretes

5º A Vespertino 36 05 02 6º B Matutino 38 02 01 7º B Matutino 36 01 01 7º D Vespertino 45 01 01 7º E Vespertino 45 01 01 8º B Matutino 43 01 01 8º C Matutino 42 02 01 8º D Vespertino 49 03 01 9º D Vespertino 33 01 01 Total 367 17 0822

Fonte: Elaboração nossa, com base em informações fornecidas pela secretaria da escola pesquisada.

Se considerarmos percentualmente os dados demonstrados no quadro acima verifica- se que 4.6% do total de alunos que estudavam nas salas supramencionadas são surdos. Em relação ao número geral de alunos matriculados na escola, os surdos representavam 1,4% do total, já que em 2012, conforme dados informados pela secretaria da escola, havia 1.139 alunos matriculados no Ensino Fundamental e Ensino Médio23.

Observa-se que o 5º ano apresentava o maior número de alunos surdos, o que fundamentava, conforme orientação da técnica do NUESP, a presença de duas intérpretes educacionais. O ano de 2012 foi o último em que a escola teve turmas de 5º ano. Estava-se vivendo um momento de transição no município em consequência da mudança do Ensino Fundamental para 09 anos. A partir de 2013 as turmas de 5º ano foram assumidas plenamente pelo município, cabendo ao estado a responsabilidade pela segunda etapa do Ensino Fundamental, ou seja, do 6º ao 9º ano e Ensino Médio.

Todas as salas que possuíam alunos surdos matriculados, totalizando nove turmas, foram observadas por um período (uma manhã ou uma tarde), objetivando a visualização da dinâmica da sala de aula. Ressalta-se que este momento não teve a pretensão de avaliar o trabalho do professor regente ou do intérprete educacional, nem tampouco o processo de escolarização dos alunos surdos. Buscou-se estabelecer uma aproximação com os sujeitos da

22 O número total de intérpretes era 08 e não 10 porque dois intérpretes trabalhavam no período matutino e

vespertino.

23 Além dos alunos surdos, no 1º ano do Ensino Médio (1º E) estava matriculada uma aluna usuária de cadeira de

pesquisa, conhecer a organização da sala de aula, perceber as relações que se estabelecem entre os professores regentes, intérpretes educacionais, alunos ouvintes e alunos surdos, na tentativa de vislumbrar a escola como um todo e a participação (ou não) dos alunos surdos no cotidiano escolar. Observou-se também os momentos fora da sala de aula, como as aulas de Educação Física e os intervalos.

Além do intérprete educacional a escola oferecia aos alunos surdos o atendimento educacional especializado (AEE) no contraturno, na SRM, na própria escola. Em relação a este serviço, apesar da proposta nacional (especialmente após a promulgação da PNEEPEI, de 2008) enfatizar que as SRM devem atender todos os alunos público-alvo da Educação Especial da escola, esta sala era conhecida no município como especializada na área da surdez, atendendo alunos surdos de outras escolas também.

No momento da pesquisa cinco diferentes profissionais atuavam nesta sala: uma professora usuária de Libras pela manhã (que no período vespertino ministrava aula de Artes na escola); duas professoras a tarde (uma de Matemática e uma de Língua Portuguesa) que por não saberem Libras contavam com o apoio de um intérprete educacional para realização dos atendimentos (que no período matutino atuava como intérprete educacional no 8º ano) e um instrutor surdo24 que atendia nos dois períodos: matutino e vespertino, além de ministrar um curso de Libras nas dependências da escola no período noturno.

Ressalta-se que os dois períodos de funcionamento da SRM foram observados (duas vezes cada um) a fim de compreender a forma como este atendimento estava organizado e, especificamente, como ocorria a atuação do instrutor surdo.

Considerando a organização escolar explicitada e, ainda, que o interesse da pesquisa foi o de compreender a dinâmica da escola na perspectiva do atendimento direcionado aos alunos surdos na perspectiva da educação inclusiva e da educação bilíngue, optou-se por entrevistar sujeitos de cada um dos seguintes segmentos, a fim de ter uma noção da escola como um todo: gestão, professores regentes, intérpretes educacionais, professores da SRM, instrutor surdo, alunos ouvintes e alunos surdos. Essa opção permitiu a percepção do cotidiano escolar por meio de diferentes olhares, além do entendimento do funcionamento dos serviços educacionais (comuns e especializados) oferecidos. Ressalta-se que a opção pela entrevista com alunos surdos pode ser considerada um diferencial da pesquisa, haja vista que muitos estudos sobre a educação de surdos não priorizam a “voz” desses sujeitos.

24 Conforme informações da gestão da área de Educação Especial no estado, no ano de 2012 apenas três escolas

estaduais do interior contavam com a presença do instrutor surdo permanentemente, sendo a escola Shirley Vilhalva uma delas.

Após a decisão de entrevistar todos esses segmentos foi realizada uma consulta com os possíveis sujeitos de pesquisa para identificar aqueles que tinham interesse em conceder uma entrevista. Para selecionar os que se mostraram interessados optou-se pela realização de um sorteio. Além do diretor, uma coordenadora pedagógica, a professora da SRM que atua no período matutino, uma professora da SRM que atua no período vespertino25 e o instrutor surdo, de cada ano escolar (do 5º ao 9º ano) selecionou-se um professor regente, um intérprete educacional, um aluno ouvinte e um aluno surdo.

O quadro a seguir traz informações sobre o número dos sujeitos entrevistados na escola.

Quadro 02 - Número de sujeitos entrevistados

Segmentos Nº de pessoas entrevistadas Gestão escolar 02 Professores regentes 05 Intérpretes educacionais 05 Alunos surdos 05 Alunos ouvintes 05 Instrutor surdo 01 Professoras da SRM 02 Total 25

Fonte: Elaboração nossa.

É importante ressaltar que as entrevistas com os ouvintes foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra e as entrevistas com os alunos surdos e instrutor surdo foram filmadas e traduzidas da Libras para o português26.

A maioria das entrevistas foi realizada na escola com horários previamente marcados com os participantes27. Todas as entrevistas seguiram um roteiro elaborado anteriormente a partir dos objetivos do estudo (em anexo). Assim, optou-se pela entrevista semiestruturada, que conforme Lüdke e André (1986) se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistador faça as adaptações necessárias.

25 Inicialmente pensou-se em entrevistar apenas uma das professoras da SRM. Porém, após o período de

observação em que se constatou que o atendimento era realizado de forma diferente nos dois períodos, com objetivos e propostas distintas, optou-se pela entrevista com duas professoras, uma do período matutino e outra do período vespertino.

26 Considerando que o objetivo da pesquisa não se direcionou para os aspectos linguísticos da Libras como a

escolha dos sinais utilizados, por exemplo, mas sim para o conteúdo explicitado, o relato “em si”, a transcrição literal não se tornou necessária optando-se, assim, pela tradução direta para a Língua Portuguesa.

Com relação às entrevistas dos ouvintes não houve uma preocupação em registrar expressões e pausas, pois interessou ao estudo o conteúdo expresso e suas implicações, isto é, os sentidos impressos nos discursos. Nas entrevistas com os surdos houve um cuidado diferenciado com as expressões, olhares e apontamentos, considerando as especificidades da Libras, que tem como um de seus parâmetros fonológicos as expressões faciais e/ou corporais, conhecidas como expressões não-manuais. Haja vista o valor linguístico dessas manifestações, todas as expressões não-manuais foram registradas28.

Após as explicitações gerais da pesquisa empírica descritas considera-se importante apresentar as prerrogativas que orientaram as escolhas realizadas no decorrer do caminho da pesquisa. Assim, detalha-se a seguir sobre os instrumentos de pesquisa utilizados: observação com registro em diário de campo e entrevistas.