5 Presentasjon og drøfting av resultater
5.6 Vedlegg 2: Koding av læreverkenes presentasjon av leseforståelsesstrategier
Na representação do Ramo em Trás-os-Montes narrava-se a passagem bíblica da parábola do Filho Pródigo, a qual não apresenta um lugar fixo na estrutura da versão cénica, tanto podendo surgir enquanto entreato dramático, em conjunto com o entreato cómico Acto do Diabo, Inveja, Pastores e Pastoras, como em final da representação do dito Ramo.
No contexto de uma região fortemente marcada por uma visão tradicionalista de vida, de oportunidades limitadas e hierarquizadas, pode naturalmente surgir o desejo de contrariar o estilo monótono da vida rural. Os filhos da terra sentiriam o apelo de novos horizontes para além dos materialmente conhecidos, levando-os a tomadas de posição que antagonizavam as posturas paternas, consideradas “impertinentes” (DLXXVI, v.4). Os rumos que seguiam nem
sempre se pautavam pelas regras locais socialmente aceites. Filhos errantes da terra que os viu nascer, procuravam na grande cidade, ou além-fronteiras, a experiência que lhes era vedada na sua terra, e expunham-se, por isso, a perigos diversos, na ânsia de obter novos saberes e novas experiências de vida. Quando esta lhe era madrasta, impunha-se o retorno ao amparo do lar, do
ostenta uma espada com que submete o Diabo e os seus poderes infernais. A iconografia representa-o, também, destruindo um dragão, daí derivando a lenda de S. Jorge. Nos retábulos barrocos, é vulgar aparecer vestido com armadura, assemelhando-se a um soldado romano, o que no imaginário popular poderá evocar este atributo de General, com que a personagem Vulcano o invoca. Esta situação evocativa poderá ter ocorrido em Urrós, se tivermos em conta o retábulo existente na Igreja local, representando uma cena de Juízo Final.
139
qual esperavam acolhimento e reparo dos maus tratos por que haviam passado. O egoísmo que o errante houvesse manifestado inicialmente, convertia-se numa assunção de culpa e num pedido de perdão paterno, o qual inevitavelmente lhe seria concedido, enquanto filho pródigo, pelo amor inquestionável que o pai lhe dedicava. Assim se repetiria a parábola bíblica do Novo Testamento, cuja moralidade consistiria na revelação do amor pelo próximo.
O ato do Filho Pródigo segue na essência a parábola bíblica, embora atualize a fábula, explicando a universalidade do conteúdo de acordo com a particularidade quotidiana local. Desde logo, o Acto do Filho Pródigo principia por um monólogo expositivo, em que a figura do Pai introduz o tema da condição de paternidade e das responsabilidades inerentes à educação de um filho. A alegria pelo nascimento, sobretudo de um “varão”, amplia-se proporcionalmente ao
seu crescimento, até ao momento em que o jovem se torna adolescente, e começa a ganhar autonomia, contestando as tomadas de posição paternas:
Pai
Eu criei um filho só Com tanto carinho e amor Mas ele agora já não quer Que eu dele seja senhor. Tratei sempre de o livrar Das borgas e da doidice Na lembrança que teria
Um amparo para a velhice. (DLXXII-DLXXIV)
O monólogo inicial dá lugar a um diálogo veemente entre pai e filho, em que este apresenta como razões da partida, o não querer “aturar” aquele, a vontade de procurar “liberdade”, e a convicção de que o “mundo o há-de curar” (DLXXXIX, v.4), ou seja, que lhe
há-de dar o valor que se acha merecedor. Ao pai não resta outra alternativa senão deixar partir o filho, a quem alerta para os perigos que irá encontrar – “não te vás filho embora/ atrás das aventuras do tempo/ olha que essas aventuras/ te podem causar tromento” (DLXXXI) -, e
140
esperar de forma cristã que o espírito se lhe ilumine – “mas atende aquelas regras/ de que fala as escrituras/ o filho desobediente/ nunca chega a ter ventura” (DLXXXVIII).
Neste modelo actancial popular, ao filho pródigo compete, portanto, o papel de herói da trama, enquanto ao pai lhe cabe o de oponente. Breve surgirá o adjuvante do herói na figura de um “Conselheiro” (em algumas versões, dito “amigo”), cujo discurso se aproxima
da tradicional argumentação demoníaca, ou da serpente do Paraíso. Assim, assistimos ao conselheiro adulando as qualidades negativas do filho, exortando-o a comportamentos impróprios da sua condição filial – maltratar o próprio pai -, e iludindo-o nas vãs esperanças do que poderá encontrar pelo mundo. Todavia, o filho demonstrará uma atitude de maior arrogância ainda, não seguindo tais conselhos, porque contrários à sua vontade inicial, e considerados “brejeiros”, ou seja, imponderados.
O Acto resume a fábula apenas a dois diálogos e outros tantos monólogos. Sincreticamente, a narrativa reduz-se à exposição dos pontos de vista de pai e do filho, que expõe o percurso da sua vida fora da terra natal, num longo monólogo, em que reconhece os erros, lamenta a má sorte e se mostra arrependido. Sem que tenhamos visto o seu percurso, será através dele que chegaremos à moralidade final indiscutível:
Filho
Isto que sirva de exemplo Para toda a mocidade Não se metam em loucuras Na sua primeira idade. (DCLXXV)
E, para que termine bem o Acto, vão-se todos à Igreja adorar a Deus:
Pai
Agora me hás-de acompanhar Para irmos visitar
O Juiz das nossas almas
141
Este dramatículo da representação do Ramo na Natividade transmontana revestia-se de profunda sentimentalidade, estabelecendo uma relação com o regresso dos “filhos pródigos” a
casa dos pais, daqueles que emigravam e que durante as festividades do Natal, voltavam à confraternização de familiares e amigos. Alguns informantes recordam com emoção passagens dessa representação, tal como refere Alberto Pimentel:
Na passagem do dia 24 para o 25 de Dezembro no interior das casas havia uma doce atmosphera de paz e mansidão, um ar de festa patriachal, sereno e santo. Há filhos pródigos na família? Que voltem nesta noite; serão recebidos e perdoados. Espera-os um lugar e um talher. O Natal consta com os ausentes para os absolver dos seus erros. Se fugir esta ocasião, não poderão voltar senão passado outro anno. Elles bem o sabem. Por isso se mettem ao caminho, pela neve, pelo frio para chegarem na hora do perdão, que é a hora da consoada.
- Meu pai! - Meu filho!
Entre estas duas phrases de reconciliação está o berço de Jesus, toda a divina misericórdia do christianismo: perdoae e amae-vos (1907: 241-242).
Bem aceite nas aldeias onde foi representado, este episódio era, por vezes, omisso na representação, por falta de atores, em algumas localidades, ou pelo facto de a representação ser demasiado longa, e, neste caso, sob indicação do Regrante.